Máximas e pensamentos Conselhos à minha filha · Capítulo 4 de 4
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Máximas e pensamentos

I.

De manhã, despertando, ao Céu levanta

Teu espírito, ó filha! assim farás,

Que sobre ti Deus vele, pois não sabes

Se à terra antes da noite volverás!

II.

Foge ao mal, segue o bem, filha querida,

Em paz ditosa passarás a vida.

III.

No prazer, quando bem nos engolfamos,

A sorte contra nós golpes despede;

Brilha o sol no horizonte, e logo, às vezes,

Medonha tempestade lhe sucede.

IV.

Paixões não há, nem há difficuldade,

Que da virtude o amor vencer não possa.

V.

Sob flores, a serpe venenosa

Se oculta e morde o viandante incauto;

Assim doces prazeres nos ocultam

Dos vicios o tremendo fel mortifero.

VI.

Só as almas mediocres se abatem

Ao jugo das paixões, que a razão ferem.

VII.

Do mortal infeliz pranteia os damnos,

Alegra-te com os bens do virtuoso;

Não invejes os dons, que Deus outorga

Da Fortuna ao feliz filho mimoso.

VIII.

Do Ser indiferente foge, ó filha,

Em sua alma a virtude não habita.

IX.

Não creias, cara filha, ser feliz

Sempre aquele, que tem alegre o rosto,

O riso assoma aos labios, quando o peito

Sofre mil vezes o fatal desgosto.

X.

A vaidade foi sempre em todo tempo

Da feminil virtude o triste escolho.

XI.

Feliz quem desde a prima juventude

Trilhou ovante da virtude a senda;

O passado sem dor se lhe retraça,

E sem susto o porvir seguro aguarda.

XII.

Prefere antes passar por ignorante

Que teres o conceito de pedante.

XIII.

Plutarco, Milton, Fenelon, Virgilio,

(Cujas linguas traduzes) jamais foram

De seu saber vaidosos, mas modestos,

Illustraram a Pátria, e a humanidade.

XIV.

Estuda, por amor ao mesmo estudo,

E não creias jamais que sabes tudo.

XV.

Os homens que pretendem, egoistas,

Das ciências vedar-nos os arcanos,

Contra si pronunciam, sem o crerem,

Sentença, que lhes traz terríveis damnos!

XVI.

Foge o tempo veloz; velozes fogem

Dos miseros mortaes os vãos prazeres!

XVII.

Terna amiga, inimiga inexorável

É do triste mortal a consciência;

A prima, o coração recto preside;

É do mau a segunda inseparavel.

XVIII.

Do Palacio a ventura às vezes foge,

Para ir habitar na pobre choça.

XIX.

No homem poderoso os feios vicios

São apenas defeitos passageiros;

Naquelle, que a fortuna não protege,

Parecem grande crime os mais ligeiros!

XX.

A vaidade destroe as paixões nobres,

Bem como ardente sol as plantas cresta.

XXI.

Do terno coração de uma mulher

É mui belo ornamento a timidez;

Mil vezes infeliz foi sempre aquela

Que tão bella virtude em si desfez!

XXII.

Os homens leis fizeram parciais,

Que a mulher julgar deve naturaes.

XXIII.

Armas há poderosas, que a mulher

Deve empregar com ânimo bastante;

São a doce bondade, a paciencia,

A modesta ternura, a fé constante.

XXIV.

Desgraçada a mulher, que um só momento

Esquece da modéstia as leis severas!

XXV.

Monumentos soberbos, templos, marmores,

Tudo avara destroe do tempo a mão!

A virtude somente passa intacta

Pela sua cruel revolução.

XXVI.

Infeliz o mortal, que na beleza

Consistir faz os dons da Natureza.

XXVII.

Os prazeres do mundo se assemelham

À cicuta, que ao pé do agrião nasce;

Este ao homem sustenta, enquanto aquela

Faz que este em breve á sepultura passe.

XXVIII.

A amizade, a mais nobre das paixões,

Digna só do teu culto, oh filha, seja!

XXIX.

Fugir procura sempre, cara filha,

Aos laços, que armar sabe o coração;

A dor, partilha tua eternamente,

Será, se impôr-lhe deixas á razão

XXX.

Instrucção sem virtude na mulher,

Qual mesmo a de Solon, brilhar não pode.

XXXI.

Ao revel coração impôr silêncio,

Desde já te habitua cuidadosa,

Se queres mocidade ter feliz,

Respeitavel velhice, morte honrosa.

XXXII.

Da primeira conduta, que nós temos,

Depende o bem e o mal, que ao fim sofremos.

XXXIII.

Aquella, que a fortuna má persegue

Seus tesouros avara lhe negando,

De gozá-os às vezes é mais digno,

Que os escolhidos seus, que os vão gozando.

XXXIV.

Da mulher, que a seu sexo sobresahe,

Inimigas cruéis são as mulheres!

XXXV.

Em um mundo, que justo ser não sabe,

Não desejes brilhar, filha querida;

Da mulher os talentos fazer devem

Os encantos domésticos da vida.

XXXVI.

Quanto mais sup'rior ao sexo fores,

Tanto mais da modéstia as leis te ligue.

XXXVII.

As que são ignorantes não possuem

A vantagem de uma alma bem formada,

Despeitosas então, sofrer não podem

Aquella, que instrução tem cultivada.

XXXVIII.

Em vão pretendem conhecer arcanos

Do futuro, os miserrimos humanos!

XXXIX.

Do precipício à borda alegre rimos,

Seus horrores cruéis sempre ignorando;

Do bem, que em dor acerba nos consola,

Só nos chegamos tristes e chorando!

XL.

Feliz somente o que prudente, e sábio

Na sã Religião seus bens contempla.

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