Epílogo: Os casamentos
— Ó sinhazinha, escuta uma coisa, — disse um dia Lucinda à viúva de Morais, cerca de um mês depois dos fúnebres acontecimentos, que acabamos de relatar; — não ficava agora tão bonito mecê casar com nhô Conrado!...
— Que esperança, Lucinda! — respondeu Adelaide suspirando. — Eu viúva, carregada de filhos!... Demais, bem sabes, não pude ser-lhe fiel, como ele foi, e... e é ainda...
— E é ainda?... Como é que sinhazinha sabe disso? — atalhou a preta sorrindo maliciosamente.
— Ora, que pergunta! — disse Adelaide corando um pouco; — eu casei-me e ele até hoje é solteiro...
— Deixa dessa cisma; ele bem sabe que sinhazinha, se casou, não foi muito por sua vontade, e foi porque correu como certo que nhô Conrado tinha morrido.
— Ah! isso é a pura verdade.
— Pois então?... escuta, sinhazinha, vou lhe contar uma coisa...
— O quê? — acudiu Adelaide com impaciente curiosidade.
— É que nhô Conrado não lhe olha com maus olhos. Paixão antiga é como gameleira; por mais que se corte, sempre fica uma raizinha, que brota de novo.
— É o que te parece, Lucinda. O interesse que mostra por mim, pode não ser mais que delicadeza de um coração generoso e compassivo. Vê-me viúva, já me quis bem, tem dó de mim, e nada mais.
— Não é somente dó, sinhazinha; é mais alguma coisa; quer apostar?
— Deixemos de apostas; mas enfim...
— Mas enfim eu vou ver se o negócio tem jeito.
— Deixa-te disso...
— Deixa por minha conta.
Lucinda saiu imediatamente e voou para a casa de Conrado.
— Lucinda, disse Conrado à velha crioula, depois de outras conversas próprias para disfarçar e encher tempo; os pensamentos de ambos navegavam na mesma direção, mas desejavam encontrar-se e chegar à fala sem abalroamento; Lucinda, eu acho que Dona Adelaide deve estar em posição bem embaraçosa...
— Oh! nhô Conrado, nem falemos nisso, coitada da sinhá!...
— Falemos, sim, pois que inconveniente há em falar nisso, se não falamos para fazer mal a ninguém. Pobre Adelaide! deve estar lutando com bastantes dificuldades; como há de governar uma casa cheia de tantos e tão complicados negócios, ela que nenhuma prática tem dessas coisas?... rica, sem marido, sem pai, moça e formosa ainda como sempre foi, ou mais ainda, sem mãe, sem irmãos, rodeada de quatro filhinhos em tenra idade!... que triste isolamento!...
— É verdade, nhô Conrado; é ela sozinha comigo, pobre negra velha e cansada, as crianças e Deus!...
— Pois eu da minha parte, Lucinda, teria o maior prazer do mundo em adotar como meus filhos os irmãozinhos de Rosaura.
Lucinda estremeceu de prazer ouvindo estas palavras, cujo alcance logo compreendeu, e calou-se.
— Pois é o que te digo, prosseguiu o moço; — entendo, que fica muito mal o luto em uma senhora tão moça e tão formosa. Consentiria ela que eu fosse despojá-la de tão lúgubre vestidura?
— Não sei, — respondeu Lucinda com ar malicioso, — só indo perguntar.
— Pois pergunta-lhe e apressa-te em trazer-me a resposta.
Lucinda nada mais quis saber, e nem esteve por mais conversas; correu direito para a casa.
Dois meses depois desta conversação, uma linda caleça, puxada por duas parelhas de possantes e vistosos cavalos brancos, conduzia para a igreja catedral dois formosos pares de noivos, que sentados de fronte um do outro iam receber-se à face do altar.
Quem os visse não era capaz de adivinhar, que eram pai e sogra, filha e genro, que assim por modo tão singular se achavam de vis-à-vis. Um dos pares estava ainda em todo o viço da mocidade; o outro, posto que algum tanto mais idoso, nem por isso era inferior ao outro em beleza e elegância; por isso mais facilmente se acreditaria serem irmãos e cunhados.
Mas o leitor já sabe quem são eles.
Conrado, que nenhum desejo nem motivo tinha para adiar seu casamento com Adelaide, achou que era não só de bom tom, como de bom agouro, celebrar também no mesmo dia, hora e lugar o consórcio de sua filha com o seu querido Carlos e por isso concedeu-lhe perdão da pena de um ano de purgatório, a que o tinha condenado.
FIM