O peso de um gesto Vozes silenciadas · Capítulo 4 de 4
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O peso de um gesto

CAPÍTULO 4

O ar da nova escola prometia ser mais leve, mas o peito de Netuno rejeitava a mudança. Havia um mofo suave no teto do corredor e um murmúrio contido entre as salas, longe dos gritos e da violência cortante dos anos anteriores. No entanto, ao cruzar o portão, a armadura sob sua pele não cedeu. A vértebra cervical estalou, um aviso familiar; o lado esquerdo das costas queimava em uma fisgada surda, como se o corpo guardasse, em carne e osso, o entulho dos três últimos anos.

Ele já não trazia o giz para reger uma turma inteira. Trazia apenas o tremor sutil nos dedos e uma atenção dolorosa, concentrada numa única bancada.

Sua função era a mediação inclusiva. O menino chamava-se Valdir.

Na primeira conversa, enquanto a voz do garoto irrompia em rajadas rápidas e arrastadas pela espasticidade da paralisia, Netuno sentiu uma tontura leve. Valdir ria, mudava de assunto, contava sobre o café quente e o avô na lanchonete, numa urgência vital de existir que contrastava com a lentidão mecânica de Netuno. Enquanto o menino falava, o professor tentava focar o olhar, mas os olhos ardiam, secos pela insônia que se tornara sua única companheira noturna.

Acompanhar Valdir era um exercício de fricção. A paralisia enrijecia o lado direito do garoto; a exaustão enrijecia o espírito de Netuno. Para que Valdir apoiasse as mãos antes de erguer o quadril, ou contasse até três antes de dar o primeiro passo, Netuno precisava estar lá — um pilar rígido, mas cujas fundações fraquejavam. A cada passo lento de Valdir pela parede de azulejos, Netuno sentia o próprio ritmo cardíaco oscilar, descompassado. O esforço do menino para vencer a gravidade espelhava a luta de Netuno para se manter de pé sob o peso invisível de memórias que não o deixavam respirar.

Na manhã de uma terça-feira abafada, o suor frio escorria pelo pescoço de Netuno. Ele observou da bancada enquanto Valdir se levantava. O garoto não pediu ajuda. Com o tronco ereto e a perna arrastando, avançou até o bebedouro.

Netuno fez menção de se levantar, mas uma pontada aguda na base do crânio o manteve preso à cadeira. Assistiu de longe, com a respiração suspensa e a garganta seca. Viu a mão do menino tremer violentamente ao buscar o copo de plástico, o cotovelo apoiado no alumínio com um desespero bonito para firmar o braço, e, finalmente, o fluxo de água enchendo o copo sem derramar. Quando Valdir bebeu e olhou para ele com um sorriso orgulhoso, Netuno apenas assentiu. Por um segundo, a rigidez em seu maxilar cedeu. Havia uma réstia de luz ali, mas ela doía ao entrar — como a luz do sol para quem esteve por muito tempo trancado num porão.

A trégua, contudo, durou pouco.

Dias depois, durante a aula de artes, um odor azedo e râncio se impregnou no ar estagnado da sala. A náusea atingiu Netuno antes mesmo que ele identificasse a origem. Quando a turma saiu, ele se aproximou da mochila de Valdir. Seus dedos, frios e ligeiramente dormentes, abriram o zíper.

No fundo, sob um casaco encrostado de sujeira velha que o menino usava no calor sufocante, havia um pacote de salgadinho ensebado, desbotado pelo tempo. A data de validade vencera há meses.

O cheiro do pacote aberto disparou um gatilho violento no estômago de Netuno. A visão embaçou por um instante. O fantasma de Pedro, a imagem da fome crua e o fracasso dos outros lugares voltaram como uma onda de bile. O coração disparou, num galope desordenado que fez suas mãos tremerem mais do que as do próprio aluno.

Mas Netuno não podia mais arcar com o luxo do colapso em silêncio. Se desmoronasse ali, afundaria com o menino.

Ele fechou o zíper e buscou a coordenação. As pernas pesavam como chumbo a cada degrau da escada. Quando as chamadas para a mãe caíram na caixa de sombrio silêncio e o irmão mais velho deu apenas evasivas no portão, Netuno sentiu a raiva antiga subir — não a raiva explosiva, mas aquela que consome por dentro, queimando o esôfago.

Pressionou a direção para uma intervenção na turma. Falou de forma pausada, poupando a voz que ultimamente parecia rasgar sua garganta, para propor uma rede de cuidados, palestras, distribuição de alimentos e kits de higiene que não expusessem o menino. A escola cedeu, mais pela gravidade no olhar do professor do que pela burocracia.

Nas semanas seguintes, a rotina da escola mudou em ondas lentas. O casaco de Valdir finalmente apareceu limpo. O lanche passou a vir da cozinha.

Numa tarde, ao ver o garoto rir no pátio enquanto morde uma fruta fresca, Netuno encostou a pilastra. Ele sentiu os ombros descerem um milímetro. Não era o triunfo de um herói — era apenas o alívio temporário de quem conseguiu evitar um naufrágio. Ele não precisava derrubar muros sozinho; bastava que outros ajudassem a segurar o peso.

A escola, ao menos por agora, aprendera a olhar. Mas, quando o sinal tocou e os corredores se esvaziaram, Netuno pegou sua pasta. Sentou-se por alguns minutos na mesa vazia, esperando que a vertigem passasse, ciente de que, do lado de fora daquele portão, na casa silenciosa para onde voltava todas as tardes, a doença continuava a avançar

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