A Primeira Alma
Fiobhos abriu os olhos e olhou ao redor, todos já tinham se levantado, então poderia sair de sua cama. Colocou os dois pés no chão de uma vez e respirou fundo, era o dia que não gostava de lembrar. Ou melhor, o dia que nomearam como seu. Como bom habitante da colônia, tinha certeza que aquele não era o real dia de seu nascimento. Esticando os braços, levantou-se e caminhou até a bacia de água, encarando seu reflexo na mesma por um tempo, seus cabelos brancos já não lhe incomodavam mais, mas suas irises ficavam cada vez mais opacas e pontos bran-cos salpicavam as pontas, os médicos diziam que era algum tipo de cegueira, mas ele enxergava melhor que nunca.
Mergulhou as mãos na água e as levou ao rosto, secando em seguida. Vall apareceu ao seu lado, lhe baten-do nas costas.
— Hoje é seu dia, meu amigo! — ele deu de om-bros. — Oras, não fique assim. Seu presente é uma bata-lha importante contra Imir. Está pronto?
— Só preciso me vestir. — apontou para o corpo nu.
— Esta sua mania garante que tenha um tempo a mais
na cama. Todos se levantam mais cedo para não o ver sem roupas.
— Um bando de tolos! Tomamos banho na mesma área, que diferença faz como me deito? — vestiu a camisa, a calça e sentou-se para calçar as botas. — Não disse a mais ninguém que dia é hoje, não é?
Vall balançou a cabeça em negativa. Os amigos sabiam que as datas mencionadas como aniversário dos internos diziam respeito ao dia em que foram deixados lá e não ao dia de seu nascimento, que era incerto para a maioria.
— Não há razão para tal, só vamos comemorar porque vai dar uma surra em Imir.
— Ele é três vezes maior que eu. — Fiobhos sorriu, se levantando.
— E desde quando isso importa para definir suas batalhas? — o amigo colocou a mão sobre seus ombros e saíram do alojamento para a noite sem nuvens, teriam pouco tempo para o desjejum.
As batalhas eram evento comum na colônia, era assim que os treinadores escolhiam seus alunos. O rodízio era constante, caso não vencesse a batalha, o aluno ficava uma semana com seu mestre e se a vencesse poderia ser requerido por um mestre superior.
No primeiro dia da semana, por sorteio, era indicado no painel as lutas e no último dia os cavaleiros anunciavam seus alunos da próxima semana.
Fiobhos e Imir se enfrentariam na última batalha da semana, e todos comentavam sobre o possível resultado desde que seus nomes foram lançados. Fiobhos comeu depressa e apenas uma quantidade que o fizesse ficar de pé.
A arena estava lotada pelos internos e a parte reservada aos mestres cavaleiros também, após a batalha anunciariam seus alunos da semana. Fiobhos reparou na presença de um cavaleiro diferente, mas não se preocupou muito, eles iam e vinham em uma frequência infame.
Imir o esperava no centro da arena, eles se cumprimentaram e se colocaram em posição. Quando o sino tocou, o silêncio se ouviu, ninguém se movia, esperando o primeiro ataque. Fiobhos estudava o oponente e menta-lizava seus pontos fracos. Imir era alto e forte, dois anos mais velho que ele e três graus acima do seu, isso era mal para ele, mas suas pernas eram um ponto desprotegido, assim como seu pescoço e devido ao peso para manter a força, ele era mais lento e se recuperava de um ferimento sobre o olho que prejudicava um pouco a visão. Sorriu, a habilidade de estudar o oponente em segundos era sua principal causa de vitórias.
Imir veio em sua direção e ele esperou parado. Os cavaleiros mestres se levantaram curiosos pela batalha, quanto mais o oponente se aproximava, mais pessoas se levantavam para ver o que aconteceria, faltando pouco para Imir o acertar, Fiobhos impulsionou o corpo para o lado e para baixo, pegou uma das pernas do rapaz e virou-se, o derrubando estrondosamente ao chão.
Levantou-se e esperou, o rapaz se erguer com sangue saindo pelo nariz e furioso, novamente avançou contra Fiobhos. Quando Imir se aproximou o suficiente, se agachou, levantou o cabo da espada, e acertou seu queixo, o fazendo se ajoelhar com as mãos no rosto, uivando de dor. Se aproveitando de sua fraqueza, subiu em suas costas e deu-lhe com a espada na nuca, o desmaiando. O pobre tombou ao solo com ele ainda em suas costas.
Um uivo de alegria explodiu nas arquibancadas, ele sorriu e saiu de cima do rapaz, levantou a espada sem sangue para os mestres e a devolveu ao juiz da batalha. Ele se negava a ferir qualquer um de seus oponentes desde que começou a lutar, dizia que não derramaria sangue de inocentes e o provava ao levantar a espada ao fim de seus embates.
Deixou a arena sem olhar para trás, precisava descansar um pouco e se limpar. Vall veio atrás dele e o ajudou a jogar água sobre a cabeça.
— Vai trocar de mestre com facilidade!
— Sei, sei. Como Imir está? — se preocupava. — Já acordou?
— Sim! Estão estancando o sangramento no nariz e boca. Como conseguiu derrubá-lo tão depressa?
— Era seu ponto fraco, muito grande, — deu de ombros. — ataquei o que podia trazê-lo ao chão! É simples e sabe que me entedia batalhas longas.
— O sei!
— Cavaleiros, o mestre os aguarda na arena! — um cavaleiro gritou, chamando atenção de todos.
Fiobhos e Vall voltaram a arena, sentando-se na arquibancada. Os mestres cavaleiros estavam no meio da arena, aguardando que o mestre da colônia se pronunciasse.
— Todos se saíram muito bem na última rodada de batalhas e por isso, consideramos justo que subam de nível. — todos ovacionaram, mas ele levantou a mão e rapidamente os internos estavam em silêncio. — Estão a um passo de se tornarem cavaleiros. Vamos as escolhas desta semana, lembrando que Austherus ficará conosco e irá treinar alguns de vocês.
Após as divisões, tanto Fiobhos, quanto Vall ficaram com o novo mestre. Após as escolhas, eles ganhavam um dia de folga. Fiobhos e o amigo deixaram a colônia antes do amanhecer e acamparam na floresta, a fim de ficarem mais perto da cidade.
Vall sentou-se em um tronco de árvore e encarou as estrelas enquanto Fiobhos arrumava o abrigo. Ao terminar, sentou-se ao seu lado e olhou para a mesma direção que ele.
— Sei que não se importa muito com esta data, mas... — puxou algo de dentro da bolsa. — Fiz para você.
Fiobhos olhou para a pulseira de couro nas mãos do amigo, era o primeiro presente que ganhava na vida, o pegou devagar e admirou os traços.
— Obrigado! Usarei sempre. — o amigo lhe sor-riu. — Te considero minha única família, Vall. E sabe disso.
— Sim! E fico muito feliz por ter alguém. — baixou a cabeça.
Fiobhos sabia que o amigo tinha esperança de que, como com alguns, um dia seus pais aparecessem na colônia e explicassem suas razões para o deixarem ali.
— Por que insiste nisso? Sou sua única família, rapaz, e me sinto péssimo quando age como se isso não importasse. — passou o braço por seus ombros.
— É claro que é importante, mas tenho uma família, ou ao menos alguém com quem vivi antes de vir para cá. Não foram os cavaleiros que me deram um nome.
Fiobhos engoliu em seco, era horrível se lembrar de que os rejeitados tinham os nomes escolhidos pelos cavaleiros da colônia, e este era seu caso, mas não o de Vall, ele foi deixado lá ainda bebê, mas alguém se preocu-pou em lhe dar um nome.
— Sei que acredita que eles eram pouco abastados, mas já se foram dezesseis anos, eles deveriam o procurar. Só vem para colônia, três tipos de pessoas: — Fiobhos listou. — filhos de traidores, filhos de famílias pobres que não tem como manter os seus e...
— Os filhos da desonra! Filhos de violência contra uma mulher ou de moças que se corromperam. Eu sei as regras... — Vall chutou uma pedra. — Provavelmente nós dois nos encaixamos nessa última.
— Isso não importa muito, sabe! — Fiobhos colocou a pulseira no braço. — Sem esse pequeno contratempo, não o teria como irmão. — Vall sorriu, sabia que tinha razão.
— É verdade! — deu um soco no braço de Fiobhos. — Não seriamos próximos sem isso.
Fiobhos sorriu, mas seus olhos não acompanharam seus lábios. Esse era seu pior fantasma. O acompanhava dia e noite e por vezes tirava seu sono. Ele era um filho de desonra e não queria saber se era filho de violência ou de moças corrompidas. Vendo como os cavaleiros tratavam as mulheres, provavelmente não eram corrompidas e sim iludidas. Preferia não saber porque o jogaram na colônia, assim, tinha pelo menos um pouco de paz.
*
A cidade estava lotada. Sempre era assim quando os alunos da Colônia tinham uma folga. Tyar ficava pequena para tantos meninos e as pessoas temiam sua presença, já que poderiam trazer algum pecado à tona, mesmo que com sua aparência.
Fiobhos e Vall caminhavam pelo mercado com suas poucas moedas, eram espertos o suficiente para ajudarem alguns comerciantes antes da noite começar e ganhar alguns trocados para gastar.
E comprariam algo que lhes era inestimado nesta idade, guloseimas. Mas não para comê-las já, e sim para deixarem guardado na colônia, nada desse tipo era oferecido lá.
Era o dia preferido da semana para os amigos, estar fora da Colônia era sempre um alívio. Podiam ser meninos, ou pessoas normais, sem toda aquela vida truculenta que levavam. Os dois se sentaram em um dos bancos da praça e olharam para os transeuntes.
— Às vezes me pego pensando em como seria nossa vida se vivêssemos aqui.
— Seria um pouco diferente, mas no fim, bem parecida. Tiraríamos apenas as batalhas incessantes todos os dias. — os dois riram.
— O que vai fazer quando sair da Colônia? — Vall perguntou, comendo de sua porção.
— Me tornar cavaleiro. Não vejo outra opção e você?
— Quero constituir uma família antes de me tornar cavaleiro. Não pensa nesta possibilidade? — Fiobhos balançou a cabeça em negativa.
— Infelizmente minha aparência não ajuda muito nessa ideia, e não me imagino deixando mulher e filhos para trás para defender o clã. — olhou as moças que passavam e um jovem lhe chamou atenção, apesar de estar entre a multidão, parecia observá-lo.
— Fala de seus cabelos brancos? As mulheres sempre babam por você, gostam do diferente. — Fiobhos sorriu. — Que tal participarmos dos jogos?
— Quer fazer os meninos da cidade chorarem?
— Massageia meu ego saber que somos bons em algo que eles não são.
— Vamos!
Eles participaram dos jogos e com facilidade ganharam no arco e flecha, lançamento de dardos, queda de braço e outros jogos. Vall ainda participava de alguns quando Fiobhos se cansou e ficou observando a multidão. O mesmo garoto que viu antes estava por perto. Por que lhe parecia tão familiar? O rapaz acenou e aproximou-se dele com um sorriso.
— Minha nossa! Vocês são bons mesmo em qualquer arte. — parou ao seu lado, olhando a performance de Vall na queda de braço.
— Quis dizer em arte de guerra? Sim! — o rapaz se virou para ele. — É o que aprendemos na Colônia.
— Imagino que sim! — sorriu e havia sinceridade nele. — Sou Istras. — lhe estendeu a mão.
— Fiobhos! — apertou-lhe a mão. Ainda não entendia o porquê da proximidade.
— A Colônia os deixa muito bem preparados caso queiram se tornar cavaleiros. Queria eu ter começado meu treinamento tão cedo quanto vocês, nenhum dos que estão na academia chega perto de suas habilidades.
— Treinamos muito e todos os dias, talvez por isso. E não existe 'um caso queiramos', todos nós estamos destinados a ser cavaleiros.
— A academia não é tão criteriosa, não sabia que eram obrigados a serem cavaleiros.
— As pessoas não se importam muito com o que acontece na Colônia.
— Deveriam tratar os internos de forma melhor. — Fiobhos se assustou com suas palavras, as pessoas não ligavam para os internos. Ele percebeu seu espanto e sorriu. — Parece estranho, eu sei! Mas não penso como todo mundo.
— Isso percebi, mas, por quê? — Istras deu de ombros.
— Tenho meus motivos para tal. Não acredito que devam viver isolados pela sua condição de nascimento. — alguns amigos o chamaram e ele acenou. — Preciso ir, espero vê-lo em breve.
Istras se afastou ao mesmo tempo que Vall chegou, o rapaz olhou para o grupo que se afastava e bateu o co-tovelo no braço de Fiobhos.
— Quem era o rapaz?
— Se chama Istras, Boa pessoa... me parece familiar...
— Não caia nas conversas desses nobres, meu amigo. Vamos, está ficando tarde.
Fiobhos olhou mais uma vez em direção ao grupo de Istras, que o viu e acenou. Tinha algo de errado com aquele rapaz, tinha certeza disso.