Capítulo I
Sangue! Odiava o gosto de sangue.
Mas seu oponente o acertou em cheio no estomago e foi impossível fugir do gosto horrendo. Cuspiu no chão e virou-se para ele, era sua culpa ter levado o golpe. Se não estivesse tão distraído nos últimos dias, teria o analisado e finalizado a batalha antes de ser atingido.
Respirou fundo e jogou a espada no chão, sabia que não podia continuar, se machucou o suficiente. Seu oponente o ajudou a se levantar e o cumprimentou.
Austherus se encaminhou para eles e declarou o rapaz vencedor. Fiobhos não se se abateu, mas aquela, com certeza, não era sua melhor semana: perdeu seis das dez batalhas que aconteceram até aquele dia, que era o quarto da semana. Se não se desse bem na batalha do dia seguinte acabaria com um mestre inferior na próxima.
Jogou água no rosto e sentou-se na arquibancada tentando relaxar. Sempre que fechava os olhos via a imagem do rapaz da cidade. Alguma coisa o intrigou nele, mas não identificava o que era, lhe parecia familiar e isso o deixava louco.
— Meu jovem! — ele levantou a cabeça para o mestre a sua frente. — Me disseram que era um dos melhores e vendo sua batalha há cinco dias, acreditei no que me disseram, mas não é o que demonstra.
— Estou um pouco distraído, confesso! Vou me concentrar nas batalhas de mais tarde, prometo que terei melhores resultados.
— Precisa deles, só venceu quatro das dez batalhas que ocorreram, se não vencer as próximas duas, sequer poderá ir para o desempate.
Aquilo o assustou. Sabia que sem o maior número de vitórias ficaria entre os piores, seu mestre poderia excluí-lo das lutas do sexto dia e ficaria no pior grupo, com um mestre inferior. Os mestres não costumavam fazer isso com internos de bom rendimento quando estavam em uma semana ruim, mas ele não conhecia Austherus.
— Não faria isso! — sussurrou incrédulo.
Austherus sorriu, sentando-se ao seu lado.
— Meu jovem! Acredito que só os melhores se tornam cavaleiros, até mesmo na Colônia. Você é bom, mas não gosta de derramar sangue, é estratégico e tem boa percepção do inimigo, mas não é sempre assim, como puder ver esta semana. Se oscila agora, não será um bom cavaleiro no futuro. Ou ganha as duas próximas batalhas e vai para o desempate amanhã, ou está fora das batalhas do sexto dia.
O mestre se levantou e deixou Fiobhos sozinho na arena, aquele homem não podia estar falando a sério. Impedi-lo de batalhar no sexto dia? Já não bastava tudo o que fez com seus alunos ao longo daqueles quatro dias? O homem era um carrasco e era difícil alcançar bons re-sultados com suas distrações...
Colocou a cabeça entre as mãos e começou a recitar as leis, isso sempre o ajudava a focar no que precisava. Ouviu passos na arquibancada e alguém pigarrear, não queria companhia e permaneceu recitando as leis.
— Então é aqui que vocês treinam? — a voz lhe soou conhecida e levantou a cabeça, vendo Istras. — Como vai?
— Como entrou? — estava assustado.
— Disse que iria fazer uma visita. — olhou ao redor, não entendendo seu espanto. — Tem algum problema?
— Às vezes me esqueço que a Colônia é propriedade do clã e todos podem vir aqui...
— E zombar de vocês. — Istras completou a frase, entendendo seu sentimento. — Não vim fazer isso, seria indelicado de minha parte.
— Então o que veio fazer? — estava curioso.
— Vim falar com você. — coçou a cabeça. — Confesso que pensei muito antes de vir até aqui.
— E ainda assim veio?
— Sim! Achei interessante conversarmos. — parou ao seu lado.
— Em que pode ser interessante falar com um interno da Colônia?
Istras ficou mudo, era o que esperava. Nada explicaria a presença de um membro da Academia na Colônia, quanto mais a amizade entre seus membros.
— Tem razão, minha presença aqui é um pouco estranha, mas, não percebeu que somos parecidos?
Oh! Era isso. Fiobhos não se atentava muito a seus traços. Na verdade, evitava se ver muito em qualquer superfície espelhada. Suas características físicas mais o assombravam do que qualquer coisa externa.
— Talvez uma infeliz coincidência... — rilhou, levantando-se, assustando o rapaz que deu um passo atrás. — Melhor ir embora, não há nada para você aqui.
Fiobhos virou as costas para Istras e caminhou em direção aos alojamentos, aquele rapaz confundia as coisas.
— Meu pai morreu há um ano; desde então, eu e minha mãe nos mudamos duas vezes para cidades próximas as colônias. Ela procura por um filho...
Fiobhos parou ao ouvir suas palavras. Seus traços parecidos, a familiaridade que sentiu ao vê-lo... Virou-se e analisou novamente os traços do rapaz e maldição! Eram um pouco parecidos, pelo menos a fisionomia do rosto era semelhante.
— Não pode ser...
— Ela pode contar melhor. O que sei, é que meu avô deu a criança para uma colônia logo após o parto. Ela só sabia que era um menino e nasceu com os cabelos brancos e olhos azuis salpicados de branco.
De todos na Colônia, Fiobhos era o único que não esperava ser procurado por seus pais, tinha certeza que era filho de uma desonra e as palavras de Istras ainda o deixavam em dúvida quanto a isso. Por quê? Por que a mãe queria encontrá-lo agora?
— Ela não quer me ver. — disse entre os dentes.
— Meu pai nunca permitiu que o procurássemos, mas assim que ele morreu as coisas mudaram. Foi muita sorte encontrá-lo aquele dia.
— Fiobhos? — Vall o chamou pelo portal da arena. — Precisa comer antes das próximas batalhas... — viu Istras. — Ah! E você, rapaz... Os cavaleiros disseram que seu tempo expirou.
Istras balançou a cabeça e caminhou até eles, parando de frente para o irmão.
— Se quiser vê-la, estaremos o esperando em seu dia de folga. — colocou um pedaço de pergaminho em sua mão.
Istras deixou a arena, e Fiobhos não conseguia se mexer. Tinha uma família, uma família que o procurava há um ano. Ele tombou de joelhos e o amigo correu a ampará-lo.
— Pelos ancestrais, o que aconteceu? Por que ele veio atrás de você de novo?
— Ao que parece, é meu irmão. — Vall o encarou assustado.
— Como assim, irmão?
— Não sei ao certo. Preciso pensar um pouco. — Vall o ajudou a se levantar e o amparou.
— Se alimente e descanse; não tem muito tempo até a sua próxima batalha.
Fiobhos voltou as batalhas no final da noite. Tentou deixar de lado o turbilhão que havia em sua cabeça e venceu os dois oponentes, não sem alguma dificuldade e acabou um pouco machucado.
Depois de se banhar, voltou para o alojamento. Não queria comer e nem ver mais ninguém naquele dia, só queria se deitar e descansar. Vall o esperava no alojamento. Ele evitou o amigo desde o incidente, não colocou a cabeça no lugar e não sabia como falar com ele.
— Não vou sair daqui sem que me diga o que está acontecendo.
— Nem eu sei ao certo! — sentou-se em sua cama e jogou os cabelos brancos para trás. — Aquele rapaz, Istras, ao que parece, é meu irmão. Somos filhos da mesma mãe e ela está me procurando desde a morte do marido.
— O quê? Seus pais o abandonaram? — ele meneou a cabeça em negativa. — Então...
— Ela foi desonrada antes de se casar. O pai se livrou da criança, mas ela sabia que era um menino de cabelos brancos.
— Você! — a voz de Vall era um sussurro.
— Não acho que existem muitos como eu andando por aí. O marido não permitia que ela procurasse o filho, o fez depois de sua morte.
— Uau! Você tem uma família. Vai procurá-los? — o amigo se sentou em sua cama.
— Não sei se devo. — Vall o olhou incrédulo. — Não entende? Sou mesmo filho de uma desonra!
— Ela pensou em você todos esses anos, está te procurando, e até seu irmão quer contato com você. Não pode perder esta oportunidade!
— Se ela me quiser de volta, não vou me formar na Colônia, vou para a academia e como você fica nisso?
— O problema sou eu? — apontou para si mesmo. — Oh! Por favor, vou ficar bem. Você tem uma família meu rapaz, não perca isso.
Fiobhos sorriu. O otimismo de Vall sempre o fazia se sentir melhor. Ele era a luz na escuridão sombria que o circundava. Sabia que sem o amigo, provavelmente já estaria morto, sucumbindo aos seus próprios fantasmas. E ele tinha razão, se sua mãe queria encontrá-lo, não cus-tava vê-la e saber mais sobre sua história e mesmo que fosse para a academia, veria Vall quando precisasse.
— O que seria de mim, sem você, meu amigo?
— Provavelmente estaria morto. — levantou-se. — Vou jantar, trago um pouco escondido para você.
Fiobhos acenou e deitou-se olhando para o teto, faltavam apenas dois dias, somente dois dias para sanar todas as dúvidas sobre seu passado.