Capítulo I Fiobhos · Capítulo 3 de 8
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Capítulo I

San­gue! Odi­a­va o gos­to de san­gue.

Mas seu opo­nen­te o acer­tou em cheio no es­to­ma­go e foi im­pos­sí­vel fu­gir do gos­to hor­ren­do. Cus­piu no chão e vi­rou-se para ele, era sua cul­pa ter le­va­do o gol­pe. Se não es­ti­ves­se tão dis­tra­í­do nos úl­ti­mos dias, te­ria o ana­li­sa­do e fi­na­li­za­do a ba­ta­lha an­tes de ser atin­gi­do.

Res­pi­rou fun­do e jo­gou a es­pa­da no chão, sa­bia que não po­dia con­ti­nu­ar, se ma­chu­cou o su­fi­ci­en­te. Seu opo­nen­te o aju­dou a se le­van­tar e o cum­pri­men­tou.

Austhe­rus se en­ca­mi­nhou para eles e de­cla­rou o ra­paz ven­ce­dor. Fi­obhos não se se aba­teu, mas aque­la, com cer­te­za, não era sua me­lhor se­ma­na: per­deu seis das dez ba­ta­lhas que acon­te­ce­ram até aque­le dia, que era o quar­to da se­ma­na. Se não se des­se bem na ba­ta­lha do dia se­guin­te aca­ba­ria com um mes­tre in­fe­ri­or na pró­xi­ma.

Jo­gou água no ros­to e sen­tou-se na ar­qui­ban­ca­da ten­tan­do re­la­xar. Sem­pre que fe­cha­va os olhos via a ima­gem do ra­paz da ci­da­de. Al­gu­ma coi­sa o in­tri­gou nele, mas não iden­ti­fi­ca­va o que era, lhe pa­re­cia fa­mi­li­ar e isso o dei­xa­va lou­co.

— Meu jo­vem! — ele le­van­tou a ca­be­ça para o mes­tre a sua fren­te. — Me dis­se­ram que era um dos me­lho­res e ven­do sua ba­ta­lha há cin­co dias, acre­di­tei no que me dis­se­ram, mas não é o que de­mons­tra.

— Es­tou um pou­co dis­tra­í­do, con­fes­so! Vou me con­cen­trar nas ba­ta­lhas de mais tar­de, pro­me­to que te­rei me­lho­res re­sul­ta­dos.

— Pre­ci­sa de­les, só ven­ceu qua­tro das dez ba­ta­lhas que ocor­re­ram, se não ven­cer as pró­xi­mas duas, se­quer po­de­rá ir para o de­sem­pa­te.

Aqui­lo o as­sus­tou. Sa­bia que sem o mai­or nú­me­ro de vi­tó­ri­as fi­ca­ria en­tre os pi­o­res, seu mes­tre po­de­ria ex­cluí-lo das lu­tas do sex­to dia e fi­ca­ria no pior gru­po, com um mes­tre in­fe­ri­or. Os mes­tres não cos­tu­ma­vam fa­zer isso com in­ter­nos de bom ren­di­men­to quan­do es­ta­vam em uma se­ma­na ruim, mas ele não co­nhe­cia Austhe­rus.

— Não fa­ria isso! — sus­sur­rou in­cré­du­lo.

Austhe­rus sor­riu, sen­tan­do-se ao seu lado.

— Meu jo­vem! Acre­di­to que só os me­lho­res se tor­nam ca­va­lei­ros, até mes­mo na Co­lô­nia. Você é bom, mas não gos­ta de der­ra­mar san­gue, é es­tra­té­gi­co e tem boa per­cep­ção do ini­mi­go, mas não é sem­pre as­sim, como pu­der ver esta se­ma­na. Se os­ci­la ago­ra, não será um bom ca­va­lei­ro no fu­tu­ro. Ou ga­nha as duas pró­xi­mas ba­ta­lhas e vai para o de­sem­pa­te ama­nhã, ou está fora das ba­ta­lhas do sex­to dia.

O mes­tre se le­van­tou e dei­xou Fi­obhos so­zi­nho na are­na, aque­le ho­mem não po­dia es­tar fa­lan­do a sé­rio. Im­pe­di-lo de ba­ta­lhar no sex­to dia? Já não bas­ta­va tudo o que fez com seus alu­nos ao lon­go da­que­les qua­tro dias? O ho­mem era um car­ras­co e era di­fí­cil al­can­çar bons re-sul­ta­dos com suas dis­tra­ções...

Co­lo­cou a ca­be­ça en­tre as mãos e co­me­çou a re­ci­tar as leis, isso sem­pre o aju­da­va a fo­car no que pre­ci­sa­va. Ou­viu pas­sos na ar­qui­ban­ca­da e al­guém pi­gar­re­ar, não que­ria com­pa­nhia e per­ma­ne­ceu re­ci­tan­do as leis.

— En­tão é aqui que vo­cês trei­nam? — a voz lhe soou co­nhe­ci­da e le­van­tou a ca­be­ça, ven­do Is­tras. — Como vai?

— Como en­trou? — es­ta­va as­sus­ta­do.

— Dis­se que iria fa­zer uma vi­si­ta. — olhou ao re­dor, não en­ten­den­do seu es­pan­to. — Tem al­gum pro­ble­ma?

— Às ve­zes me es­que­ço que a Co­lô­nia é pro­pri­e­da­de do clã e to­dos po­dem vir aqui...

— E zom­bar de vo­cês. — Is­tras com­ple­tou a fra­se, en­ten­den­do seu sen­ti­men­to. — Não vim fa­zer isso, se­ria in­de­li­ca­do de mi­nha par­te.

— En­tão o que veio fa­zer? — es­ta­va cu­ri­o­so.

— Vim fa­lar com você. — co­çou a ca­be­ça. — Con­fes­so que pen­sei mui­to an­tes de vir até aqui.

— E ain­da as­sim veio?

— Sim! Achei in­te­res­san­te con­ver­sar­mos. — pa­rou ao seu lado.

— Em que pode ser in­te­res­san­te fa­lar com um in­ter­no da Co­lô­nia?

Is­tras fi­cou mudo, era o que es­pe­ra­va. Nada ex­pli­ca­ria a pre­sen­ça de um mem­bro da Aca­de­mia na Co­lô­nia, quan­to mais a ami­za­de en­tre seus mem­bros.

— Tem ra­zão, mi­nha pre­sen­ça aqui é um pou­co es­tra­nha, mas, não per­ce­beu que so­mos pa­re­ci­dos?

Oh! Era isso. Fi­obhos não se aten­ta­va mui­to a seus tra­ços. Na ver­da­de, evi­ta­va se ver mui­to em qual­quer su­per­fí­cie es­pe­lha­da. Suas ca­rac­te­rís­ti­cas fí­si­cas mais o as­som­bra­vam do que qual­quer coi­sa ex­ter­na.

— Tal­vez uma in­fe­liz co­in­ci­dên­cia... — ri­lhou, le­van­tan­do-se, as­sus­tan­do o ra­paz que deu um pas­so atrás. — Me­lhor ir em­bo­ra, não há nada para você aqui.

Fi­obhos vi­rou as cos­tas para Is­tras e ca­mi­nhou em di­re­ção aos alo­ja­men­tos, aque­le ra­paz con­fun­dia as coi­sas.

— Meu pai mor­reu há um ano; des­de en­tão, eu e mi­nha mãe nos mu­da­mos duas ve­zes para ci­da­des pró­xi­mas as co­lô­ni­as. Ela pro­cu­ra por um fi­lho...

Fi­obhos pa­rou ao ou­vir suas pa­la­vras. Seus tra­ços pa­re­ci­dos, a fa­mi­li­a­ri­da­de que sen­tiu ao vê-lo... Vi­rou-se e ana­li­sou no­va­men­te os tra­ços do ra­paz e mal­di­ção! Eram um pou­co pa­re­ci­dos, pelo me­nos a fi­si­o­no­mia do ros­to era se­me­lhan­te.

— Não pode ser...

— Ela pode con­tar me­lhor. O que sei, é que meu avô deu a cri­an­ça para uma co­lô­nia logo após o par­to. Ela só sa­bia que era um me­ni­no e nas­ceu com os ca­be­los bran­cos e olhos azuis sal­pi­ca­dos de bran­co.

De to­dos na Co­lô­nia, Fi­obhos era o úni­co que não es­pe­ra­va ser pro­cu­ra­do por seus pais, ti­nha cer­te­za que era fi­lho de uma de­son­ra e as pa­la­vras de Is­tras ain­da o dei­xa­vam em dú­vi­da quan­to a isso. Por quê? Por que a mãe que­ria en­con­trá-lo ago­ra?

— Ela não quer me ver. — dis­se en­tre os den­tes.

— Meu pai nun­ca per­mi­tiu que o pro­cu­rás­se­mos, mas as­sim que ele mor­reu as coi­sas mu­da­ram. Foi mui­ta sor­te en­con­trá-lo aque­le dia.

— Fi­obhos? — Vall o cha­mou pelo por­tal da are­na. — Pre­ci­sa co­mer an­tes das pró­xi­mas ba­ta­lhas... — viu Is­tras. — Ah! E você, ra­paz... Os ca­va­lei­ros dis­se­ram que seu tem­po ex­pi­rou.

Is­tras ba­lan­çou a ca­be­ça e ca­mi­nhou até eles, pa­ran­do de fren­te para o ir­mão.

— Se qui­ser vê-la, es­ta­re­mos o es­pe­ran­do em seu dia de fol­ga. — co­lo­cou um pe­da­ço de per­ga­mi­nho em sua mão.

Is­tras dei­xou a are­na, e Fi­obhos não con­se­guia se me­xer. Ti­nha uma fa­mí­lia, uma fa­mí­lia que o pro­cu­ra­va há um ano. Ele tom­bou de jo­e­lhos e o ami­go cor­reu a am­pa­rá-lo.

— Pe­los an­ces­trais, o que acon­te­ceu? Por que ele veio atrás de você de novo?

— Ao que pa­re­ce, é meu ir­mão. — Vall o en­ca­rou as­sus­ta­do.

— Como as­sim, ir­mão?

— Não sei ao cer­to. Pre­ci­so pen­sar um pou­co. — Vall o aju­dou a se le­van­tar e o am­pa­rou.

— Se ali­men­te e des­can­se; não tem mui­to tem­po até a sua pró­xi­ma ba­ta­lha.

Fi­obhos vol­tou as ba­ta­lhas no fi­nal da noi­te. Ten­tou dei­xar de lado o tur­bi­lhão que ha­via em sua ca­be­ça e ven­ceu os dois opo­nen­tes, não sem al­gu­ma di­fi­cul­da­de e aca­bou um pou­co ma­chu­ca­do.

De­pois de se ba­nhar, vol­tou para o alo­ja­men­to. Não que­ria co­mer e nem ver mais nin­guém na­que­le dia, só que­ria se dei­tar e des­can­sar. Vall o es­pe­ra­va no alo­ja­men­to. Ele evi­tou o ami­go des­de o in­ci­den­te, não co­lo­cou a ca­be­ça no lu­gar e não sa­bia como fa­lar com ele.

— Não vou sair da­qui sem que me diga o que está acon­te­cen­do.

— Nem eu sei ao cer­to! — sen­tou-se em sua cama e jo­gou os ca­be­los bran­cos para trás. — Aque­le ra­paz, Is­tras, ao que pa­re­ce, é meu ir­mão. So­mos fi­lhos da mes­ma mãe e ela está me pro­cu­ran­do des­de a mor­te do ma­ri­do.

— O quê? Seus pais o aban­do­na­ram? — ele me­ne­ou a ca­be­ça em ne­ga­ti­va. — En­tão...

— Ela foi de­son­ra­da an­tes de se ca­sar. O pai se li­vrou da cri­an­ça, mas ela sa­bia que era um me­ni­no de ca­be­los bran­cos.

— Você! — a voz de Vall era um sus­sur­ro.

— Não acho que exis­tem mui­tos como eu an­dan­do por aí. O ma­ri­do não per­mi­tia que ela pro­cu­ras­se o fi­lho, o fez de­pois de sua mor­te.

— Uau! Você tem uma fa­mí­lia. Vai pro­cu­rá-los? — o ami­go se sen­tou em sua cama.

— Não sei se devo. — Vall o olhou in­cré­du­lo. — Não en­ten­de? Sou mes­mo fi­lho de uma de­son­ra!

— Ela pen­sou em você to­dos es­ses anos, está te pro­cu­ran­do, e até seu ir­mão quer con­ta­to com você. Não pode per­der esta opor­tu­ni­da­de!

— Se ela me qui­ser de vol­ta, não vou me for­mar na Co­lô­nia, vou para a aca­de­mia e como você fica nis­so?

— O pro­ble­ma sou eu? — apon­tou para si mes­mo. — Oh! Por fa­vor, vou fi­car bem. Você tem uma fa­mí­lia meu ra­paz, não per­ca isso.

Fi­obhos sor­riu. O oti­mis­mo de Vall sem­pre o fa­zia se sen­tir me­lhor. Ele era a luz na es­cu­ri­dão som­bria que o cir­cun­da­va. Sa­bia que sem o ami­go, pro­va­vel­men­te já es­ta­ria mor­to, su­cum­bin­do aos seus pró­pri­os fan­tas­mas. E ele ti­nha ra­zão, se sua mãe que­ria en­con­trá-lo, não cus-tava vê-la e sa­ber mais so­bre sua his­tó­ria e mes­mo que fos­se para a aca­de­mia, ve­ria Vall quan­do pre­ci­sas­se.

— O que se­ria de mim, sem você, meu ami­go?

— Pro­va­vel­men­te es­ta­ria mor­to. — le­van­tou-se. — Vou jan­tar, tra­go um pou­co es­con­di­do para você.

Fi­obhos ace­nou e dei­tou-se olhan­do para o teto, fal­ta­vam ape­nas dois dias, so­men­te dois dias para sa­nar to­das as dú­vi­das so­bre seu pas­sa­do.

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