prefácio
Minha ideia para escrever sobre os “aplicativos do terror” foi daquelas bem sorrateiras. Daquelas que chegam como quem não quer nada de nós. Só percebi que estava diante de tamanha substância quando já avançara na escrita, e de uma ideia, surgia outra, e outra, e outra, até ter dez contos inteiramente formados. Cada conto de “Download” nos apresenta um aplicativo diferente, totalmente fictício, mas livremente inspirado por aplicativos reais que diariamente são consumidos por todos nós. No início de cada conto, há o nome do aplicativo acompanhado da expressão “Baixando”, como se ele estivesse sendo transferido para o seu próprio celular. Assim, podemos sentir como os protagonistas dos contos, trazendo para si — inocentemente — vilões virtuais que transformarão para sempre suas vidas. A sequência destes contos não é aleatória. Imaginei eles formando um ranking, indo do aplicativo mais “brando” até o mais “pesado”. Daquele que “pega leve” até aquele que causa mais estrago. Não que alguns deles sejam sutis. Pelo contrário, são todos programas disfuncionais, que trazem o caos, a loucura e a morte. Há contos sobre aplicativo de transporte, de
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mensagens, de navegação por GPS, de aprendizado de línguas, de edição de fotos, entre outros, todos baseados nas mais diversas funções que damos aos celulares no dia a dia. “Download” se abre com o conto “Selfie”, coincidentemente o primeiro que escrevi desta série, sobre uma menina que decide usar um aplicativo de filtros para fotos. Essa foi a ideia simples que mencionei, mas que foi puxando outras, como o aplicativo do conto “Fluente” e “Transporte”. Daí, inspirei-me em situações próprias pelas quais já tinha passado, como o uso de um gerenciador de senhas, tema do conto “Login” — a quantidade de cadastros que nos pedem no mundo online é algo que sempre me incomodou. Uso muito o transporte público, e observar as pessoas absortas em seus próprios aparelhos durante o trajeto me fez pensar no conto “Curvado”. Por fim, escrevi “Eu”, o conto que fecha este livro, que nos apresenta o aplicativo “Persona”. Nele, quis falar um pouco sobre a identidade das pessoas na rede, o que é, a meu ver, a principal dissociação entre a realidade e o universo digital. Espero que “Download” traga para o leitor a sensação do quanto a tecnologia é um paradoxo entre a liberdade e o aprisionamento, entre a autonomia e a dependência. Nas próximas páginas, você estará diante de dez contos que nos recordam que o terror pode ser algo mais próximo do que se imagina, estando a um clique de distância, dentro de seu próprio bolso. de seu próprio bolso.
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Selfie
Baixando: PIP Mesh’in Instalando em seu dispositivo... Ela era conhecida na turma pelo comportamento fechado e semblante quase sempre circunspecto. Por raríssimas vezes sorria, e quando o fazia, apenas arqueava o contorno dos lábios para baixo, num gesto quase que milimetricamente controlado. O uniforme da escola era branco, mas sempre que podia levava um casaco preto, que ocultava qualquer vestígio da indumentária oficial. Até mesmo os tons dos jeans de suas calças eram escolhidos pela tendência ao negro. Nas séries mais maldosas, ela havia sido apelidada de “Morcega”, até haver intervenção da direção escolar e cortarem o prenúncio de bullying. Chegara ao Ensino Médio quase sem amigos. Uma vez ou outra, alguém se sentava para conversar consigo durante o intervalo. Sempre os mesmos tipos: o garoto de voz indefinida que falava com todos da escola, a menina prolixa que lia poesias de
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Renato Russo e usava broches de ativismo político, e o rapazinho tímido que insistia em dizer que era com ela que queria dar o primeiro beijo na boca. De longe, os outros colegas passavam e era perceptível que alguns comentavam sobre si, ocasionalmente. Ela somente lhes dirigia a palavra quando se fazia muito necessário, principalmente nos angustiantes trabalhos coletivos, como no dia em que uma integrante de seu grupo quase explodiu o laboratório ao adicionar água em ácido sulfúrico — sua intervenção em dizer que o procedimento deveria ser o oposto garantiu que tudo ficasse intacto. Ela até desejava um pouco de vida social. Queria ter amigos com quem sair, experimentar uma dose de alegria. Gostaria até de um namorado. Mas achava chatas todas aquelas pessoas que estavam ao seu redor. Parecia que ninguém pensava igual a si. E foi então que ela decidiu se aproximar de certos colegas. Na turma, havia uma patota de gente mais simpática. Eram os detentores das melhores notas, aqueles que já conversavam sobre faculdade e carreira. As meninas desse grupo mantinham relacionamentos estáveis com estudantes universitários. Talvez pudessem oferecer algum punhado de amizade. — Mas você, Liana? Quer entrar em nosso grupo? Liana apenas indicou que “sim” com a cabeça. Não sorriu. Apenas manteve os olhos direcionados às faces das colegas. Era a primeira vez que elas viam aquelas pupilas azuis. As meninas se entre-
olharam, como se já cultivassem um método de comunicação secreto, e então uma delas deu um veredicto: — Seguinte: você pode entrar no nosso grupo do aplicativo, mas vai ter que mostrar que pode ser simpática. Achamos você meio que... tipo... fechadona. Se você mudar um pouco, rir mais, chegar mais feliz, aí sim, vamos lhe aceitar de vez no grupo, ok? Liana fez um gesto de positivo com o polegar. — Faz alguma coisa que a gente goste. Seja alegre! Estamos te dando uma chance! Como ela poderia demonstrar que tinha uma cota de felicidade na aridez de seu comportamento? Ela não se lembrava da última vez que sorrira. Talvez tivesse que ensinar seus músculos faciais a fazê-lo novamente. Chegou em casa, pôs a mochila na cama e se olhou no espelho do banheiro. Forçou os lábios, mandando que formassem um arco de concavidade para baixo, um esboço de sorriso. Seu rosto se abriu radiante, pelo breve segundo em que a expressão foi mantida. Não importava o quanto quisesse demonstrar alegria. Sentia-se falsa, como se aquele gesto fosse próprio de outra anatomia, que não a sua. Deixou-se desabar na cama e tomou o celular em mãos. O aplicativo de mensagem notificava que ela tinha sido adicionada a um grupo. Tentando iniciar sua vida de simpatia, enviou um singelo “oi” para as colegas. Prontamente, uma delas respondeu, com total simetria — “oi”. E fez aquele silêncio à
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distância em que todos do grupo aguardaram que ela continuasse a conversa. Mas estava sem ideia do que falar. As meninas do grupo provavelmente não curtiam as mesmas bandas que ela. Ela possuía vários desenhos que fazia em tempo livre, mas preferiu não os exibir, não ainda. Sentiu-se artificial em tentar estabelecer um fluente diálogo com aquelas colegas. Mas também não queria voltar ao ponto zero. Já fizera progresso ao ser aceita. Pensou então em enviar uma foto. Não uma foto comum, mas uma daquelas que eram modificadas por aplicativos. Havia tantos na loja virtual..., porém, a maioria era paga. Sabia que seus pais não iam gostar de pagar por um aplicativo cuja finalidade era apenas adicionar decorações e enfeites em imagens — diriam que era algo fútil e que ela não deveria perder tempo com isso. Rolou a lista até encontrar o PIP Mesh’in, totalmente gratuito. Pouquíssimos downloads, mas por hora ele deveria dar conta do que ela queria. Baixou o programa de maneira rápida. Era muito leve. Uma tela verde se abriu. Em letras garrafais, o nome do aplicativo se destacava em vermelho. Havia um passarinho amarelo piscando o olho no alto da letra M. Ambientes infantilizados e coloridos ainda eram estranhos para ela. Não havia anúncios no aplicativo e disso ela gostou. Após a tela verde de iniciação, seguia-se a função do programa. A câmera frontal do aparelho
se ligou e logo a menina estava vendo a si mesma. Tirou a foto. Havia um tímido sorriso nela. Em seguida, abriu-se um menu de modificações e decorações. Eram flores, bichinhos, corações, balões, desenhos tribais, carros e estrelas. Clicando numa seta no canto inferior direito, mais opções surgiam. Estas, por sua vez, apresentavam diversos desenhos para acrescentar em fotos de rosto. Máscaras de super-heróis. Acessórios de princesas, bruxas, personagens famosos. E uma vasta sessão de partes de bichos. Basicamente, se escolhia a espécie e o aplicativo inseria na imagem um kit completo, pré-definido. Liana clicou no ícone que representava um cachorro, e logo sua face na foto foi ornamentada com orelhas caídas, uma coleirinha e um focinho do qual pendia uma língua que transmitia tom de brincadeira. O ícone de envio para amigos foi acionado e instantaneamente a foto foi enviada para o grupo de meninas. Um minuto depois, veio uma resposta. “Hahaha”. Mais dois minutos se passaram, e mais alguém visualizou a imagem, também respondendo, “KKKK”. E pela primeira vez em muito tempo, Liana sorriu, com a maior espontaneidade de sua vida. Liana levantou-se e se dirigiu à cozinha. A amizade iniciada até lhe abrira o apetite — algo que ela reprimia cruelmente por considerar o vilão de seu peso. No trajeto, teve que passar pelo banheiro. De porta aberta, o espelho acima da pia refletia o
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corredor. E foi através dele que ela notou algo que antes não lhe pertencia. Não era uma espinha. Não era um cravo. Em seu rosto surgira uma estrutura proeminente, com pelagem curta e de cor bege. Um nariz em forma de trufa, com duas aberturas redondas, se projetava na ponta desta nova parte anatômica. Algo como bochechas escondiam ligeiramente sua boca, que agora era vista como um triângulo. Era um focinho de cachorro que havia se instalado em sua face. E havia orelhas. Longas e caídas, como de um labrador, que pendiam de onde antes se projetavam suas orelhas humanas, já inexistentes. No pescoço, uma coleira se enrolava em volta completa. A princípio, Liana não creu. Ela se aproximou do espelho, ainda achando que aquilo era um truque de seu cérebro. Talvez uma peça pregada pela fome. Esfregou os olhos para ver se a ilusão se dissipava. Mas nada adiantou. De mão trêmula, tocou aquela estrutura canina que agora lhe integrava o rosto. Era macilenta, morna, real. Puxou levemente a orelha esquerda e sentiu incômodo. Puxou mais forte e sentiu dor. Todo o seu corpo começou a tremer quando se convenceu de que aquela transformação realmente acontecera, para depois, emitir um grito aterrador. Estava sozinha em casa, e berrou aos prantos até a chegada de sua mãe. Como contágio, o desespero se instalou na genitora, quando encontrou a filha enrolada em colchas, escondida, para depois se virar
e exibir a anatomia canina que agora lhe fazia parte. Jogado ao longe, o celular de Liana recebeu várias mensagens nesse meio tempo. Era o grupo de meninas que lhe aceitara. Ainda comentavam a mudança de comportamento da nova integrante e já faziam planos de como seria sua amizade. “Liana, adoramos sua foto!” “Vamos ao shopping hoje, Liana, está a fim de ir junto?” “Kkkk. Este fim de semana vai rolar festa na minha casa, você está convidada, Liana.”
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Fluente
Baixando: Fluência Expressa Instalando em seu dispositivo... Havia um laptop entre o entrevistador e o entrevistado. O segundo aguardava ansioso o cessar da digitação. Se não fosse seu treino, sua perna direita estaria subindo e descendo freneticamente, denunciando nervosismo. Anos de psicoterapia haviam lhe garantido controle total da ansiedade. — Denílson, gostamos muito de sua entrevista — disse o entrevistador, ao parar de teclar e direcionar o olhar ao entrevistado. — Seu currículo é excelente. Admiramos os trabalhos que você publicou e os produtos que desenvolveu. Mas não vamos lhe contratar por um motivo: você domina apenas uma língua estrangeira. Denílson apenas arqueou os lábios num sorriso que não expunha dentes. Tentava disfarçar a desilusão. — Estamos dando preferência aos candidatos que falam pelo menos três idiomas. Esta é uma tendência do mercado atual. Eu sugiro a você,
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inclusive, que faça cursos de língua para melhorar sua qualificação, pois, do contrário, corre o risco de se tornar extremamente defasado em relação a outros profissionais — advertiu o entrevistador, para depois estender a mão em cumprimento. — Ainda assim, agradeço a sua disposição em participar de nosso processo seletivo. Enquanto retornava para casa, prensado na aglutinação do metrô, Denílson se manteve absorto em um pensamento. Tomou as palavras do entrevistador como um mantra que se repetiu inúmeras vezes em sua mente. Estabeleceu como meta o aprendizado de uma nova língua. Para isso, teria que encontrar espaço em sua abarrotada agenda, brechas que aparecessem entre turnos e transições de horários. Sentia-se atarefado em demasia para se comprometer com novo estudo — principalmente quando chegava em casa e despencava no sofá — mas, ainda assim, se pôs resoluto na ideia de aprender um novo idioma. No dia seguinte à malsucedida entrevista, já estava em busca de uma instituição que ministrasse um curso adequado à sua rotina. Com uma mão no balaústre do metrô e a outra rolando a tela virtual do celular, percorreu a lista que o buscador online retornara à entrada “cursos de língua para adultos”. Muitos links patrocinados e anúncios. “Novecentos mil resultados em meio segundo”, exibia o buscador, como se deixasse escapar uma pontada de orgulho por tamanha pescaria em meio à vastidão da rede. Sites informavam dias e horários e a