conclusão de Denílson, ao desembarcar na estação
próxima ao primeiro emprego de sua jornada, era a de que qualquer matrícula seria o primórdio de um esforço titânico para conseguir conciliar trabalho e estudo. — Recomenda algum curso de idioma? Online ou à distância? — perguntou Denílson a um colega da firma, enquanto se serviam de café. — Online é uma boa. Fiz recentemente um aprendizado básico em francês, por um aplicativo de celular — respondeu o colega. — Muito bom, no entanto, só fiquei no básico porque o curso completo é pago. Mas já deu para ter uma boa noção. Vous devoir essayer — completou, dando uma amostra do que aprendera, por sorte, a um interlocutor cuja ignorância na língua não permitiria identificar o deslize em tempo verbal. Uma busca rápida na loja virtual com a entrada “aprender francês” retornava sete listas de pelo menos cinquenta aplicativos cada uma. Aquele que fora usado pelo colega de Denílson era o segundo da lista. O primeiro e terceiro eram igualmente gratuitos de modo parcial. Denílson rolou a página até o fim e adentrou a lista seguinte, à procura de algo que lhe parecesse viável. Somente na quinta página de resultados foi que teve atração o suficiente para clicar no “Fluência Expressa”. Não que o ícone do aplicativo chamasse atenção. Era bem bobo. Também não estava bem cotado na loja virtual — duas estrelas de um total de cinco não era reputação desejada por ninguém que desenvolvesse progra-
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mas de celular. No fundo, Denílson não sabia por que havia clicado nele. Talvez fosse a sensação de que o aprendizado era urgente. Talvez a paranoia que se abatera, remetendo-o à ilusão, obrigando-o a olhar os colegas circulando na firma e vendo-os falando outros idiomas e enchendo os bolsos com gratificações e promoções. A interface do Fluência era bastante intuitiva. Primeiro, se escolhia o idioma, ao se clicar na bandeira do respectivo país. Posteriormente, optava-se por nivelamento ou “iniciação a partir do zero”, este para principiantes. Denílson se enquadrava nesta segunda categoria. Decidiu pela língua francesa, e as primeiras horas de uso do programa se estenderam por quase toda a noite, somente sendo estancadas pelo sono excessivo. Dali em diante, as frestas em sua labuta diária foram aos poucos sendo entranhadas pelas aulas e lições que o aplicativo disponibilizava. Deslocamentos entre os empregos eram oportunos momentos para assistir aos vídeos didáticos, fosse nos vagões lotados ou na caminhada apressada em direção aos edifícios. A concentração era tamanha que, no intervalo de uma semana, ele por três vezes perdeu a estação de desembarque mais próxima do trabalho, já que o aplicativo o mantinha distante da realidade ao redor. Também assistia às aulas durante as refeições, em muitas ocasiões deixando a comida voltar ao prato despencando do garfo. Já não conversava mais quando tinha oportunidade — permanecia concentrado de modo sobre-humano no conteúdo
francófono que era ensinado. Ele mesmo concluiu que estava usando o aplicativo em demasia quando se viu no espelho, após duas semanas, com marcantes olheiras tingindo a face. A balança indicou que perdera seis quilos. Convicto de que estava estudando exaustivamente, decidiu sair para tomar um café naquela tarde de sábado, deixando o celular em casa. Ao chegar à cafeteria, escutou a conversa de um casal que estava na fila. Não que fosse enxerido e quisesse assuntar a vida dos outros. Denílson prestou atenção, pois a conversa se dava em francês, e ele, para sua própria surpresa, estava compreendendo tudo, como se estivessem falando em sua língua-mãe. Não obstante, ainda atuou como intérprete do casal, provavelmente de turistas, quando tiveram dificuldade em se comunicar com o atendente, que deste idioma nada sabia. Denílson sentia-se cansado pelo estudo intensivo das duas últimas semanas, mas por outro lado sentiu-se extasiado pelo súbito domínio que adquirira de uma terceira língua. Voltou ao aplicativo e a frase que ele exibia na iniciação — “A fluência mais expressa da sua vida” — agora parecia mais do que real e não apenas uma propaganda. Começou a assistir vídeos na internet de palestras sobre sua profissão, todos em francês. Não precisava mais de legendas. Entendia tudo perfeitamente, como se já falasse tal idioma há décadas. Baixou textos e entendeu palavra por palavra, frase por frase, até mesmo construções rebuscadas da mais alta norma
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culta e regionalismos dos mais particulares. Para se convencer definitivamente de que ganhara aquela habilidade, realizou uma prova de nivelamento em um curso presencial, alegando cogitar matrícula, e recebeu da diretora a notícia de que acertara a prova integralmente e que seria desnecessário fazer tal curso. Ainda não convencido, realizou este tipo de teste em mais três cursos presenciais e obteve a mesma resposta. A essa altura, Denílson já imergira no idioma alemão. Em duas semanas, conseguia ler, escrever e compreender as construções daquela língua. Sabia como usar o eszett e a dominar com destreza a declinação de pronomes, artigos, substantivos e adjetivos. Assistiu a filmes em alemão e não necessitou de legenda para entender. Escreveu meia página nesta língua e enviou por e-mail a um amigo seu que morava há anos na Alemanha, pedindo como favor a correção de erros gramaticais e ortográficos. O amigo respondeu dois dias depois, dizendo que não havia erros no pequeno texto e indagando se ele tinha feito curso. Não satisfeito em saber francês e alemão, Denílson aprendeu russo e italiano, em seguida, através do fantástico Fluência Expressa. Começou a anotar frases em alfabeto cirílico, apenas por diversão. Pondo à prova seus conhecimentos, inscreveu-se num serviço online de tradução de filmes e séries para streaming e passou nos testes com nota máxima, sendo avaliado por professores acadêmicos destas línguas. Ele causou espanto aos seus avalia-
dores quando vasculharam seu questionário inicial e não encontraram uma resposta positiva sobre ele ter morado na Itália ou Rússia. Denílson sentia-se mais sagaz do que nunca. Saber outras línguas estava o deixando mais alerta, mais perspicaz. Passara a entender com mais clareza sua própria língua-mãe. Quando iniciou o aprendizado de holandês, sueco e espanhol simultaneamente, percebeu que estava raciocinando mais rápido e que já era capaz de enxergar as associações semânticas e sintáticas entre os idiomas que dominava. Percebia que todos podiam ser rastreados até pontos em comum, nós na árvore genealógica das línguas europeias. E foi justamente a sensação de que estava aprendendo idiomas da mesma seara que o fez iniciar os cursos expressos de japonês e coreano através do aplicativo. Considerava o Fluência Expressa a mais poderosa ferramenta de aprendizado com a qual já tivera contato. Em quatro dias, Denílson já sabia todo o silabário nipônico e um milhar de kanjis, sem ter que recorrer ao furigana durante a escrita. Em paralelo, se aprofundava no idioma coreano, decorando todo o seu alfabeto em dois dias. Em uma semana, ambas as línguas orientais já estavam sob seu domínio. Denílson sentia-se uma máquina de armazenamento e concatenação de idiomas. Nos idos de um mês, aprendera também o mandarim, cujos quatro tons foram compreendidos em questão de horas, e todos os idiomas do sudeste asiático. Em segui-
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da, imergiu no árabe e hebraico — cujos alfabetos foram aprendidos simultaneamente, graças a uma função do aplicativo. Mesmo sem ser judeu, passou a frequentar a sinagoga local para confirmar com o rabino que seus textos em hebraico estavam corretos, e surpreendeu o sacerdote ao demonstrar plena fluência na língua semítica. Não hesitante, Denílson levou uma semana para tornar-se fluente em turco, grego, romeno, servo-croata, maltês, swahili e iorubá. Exaltou-se quando o aplicativo recebeu uma atualização e passou a contar com o curso de tupi-guarani, logo apreendido em seu rol de idiomas. Denílson passara três meses usando o Fluência, em doses diárias. Tornara-se fluente em trinta e dois idiomas distintos. Começara a nutrir uma espécie de amor pelo programa. Ao ponto de sentir ciúmes e verificar com exacerbada frequência se estavam fazendo muitos downloads — para obter sempre a tranquila constatação de que em média apenas uma pessoa no mundo o baixava por semana. Não contara a mais ninguém sobre o aplicativo. Guardava-o como um amuleto, algo que lhe garantiria o sucesso profissional. Os colegas notaram que Denílson havia mudado. Estava mais fechado do que de costume. Suas olheiras agora não se desfaziam mais. Ele deveria ter emagrecido duas dezenas de quilos naquele meio tempo. Até que uma colega lhe veio perguntar: — Denílson, você está bem? Estamos todos preocupados contigo aqui.
— Eu... estou — respondeu Denílson, sem parar de digitar. Imediatamente ele guardou o celular que estava sobre a mesa, ocultando assim a interface aberta do Fluência. Naquele mesmo dia, seu chefe lhe chamou. Mostrou a ele o relatório que o próprio Denílson havia escrito. — Por favor, me explique porque você fez isso — inquiriu o chefe. — Fiz o quê? — Este relatório, dessa forma. Denílson leu o texto na tela do computador do chefe. Não identificou nada errado. — Não vejo nenhum problema. — Ele respondeu. — Denílson, o relatório que você me entregou está escrito em três línguas. Começa com português, passa para francês e termina com alguma coisa que não consegui identificar... Como se um estalido tivesse lhe acordado de um transe, Denílson observou o documento novamente e percebeu a última linguagem usada. -Ah! Isso é roma-ji, uma transcrição dos fonemas de nihongo para o alfabeto latino. O chefe trazia uma expressão confusa. — O que é nihongo? Por que você colocou isso aqui? — indagou. — It’s japanese language — respondeu Denílson. — Denílson, você está brincando comigo? — riu o chefe, ainda incrédulo. — Pare com essa palhaçada agora e me faça um relatório decente, em
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português! — disse isso elevando o tom de voz ao pronunciar a última palavra. — Lo farò presto (farei isso logo) — respondeu Denílson, em italiano. Quando retornou à sua mesa, ele percebeu que algo não fazia sentido. Em sua mente, pensamentos iam e vinham em diferentes gramáticas. Flagrou-se raciocinando em mandarim, para no segundo seguinte o mesmo pensamento assumir a forma do sueco, com todas as alterações sintáticas necessárias. Esfregou os olhos e foi ao banheiro. Enquanto lavava o rosto, lembranças vieram em espanhol, e depois em russo, e depois em japonês, para ao final se vaporizarem em javanês. De repente, um colega lhe tocou o ombro, sobressaltando-o, para indagar: — E aí, Denílson. Está a fim de ir ao jogo de domingo? Ele sabia trinta e duas formas de responder aquilo. Mas não sabia qual delas usar. — Te rog, ajuta-ma (por favor, me ajude) — disse, enfim, em romeno, provocando uma expressão de incompreensão no colega. — Como? — Benimle yanlis bir sey var (tem algo errado comigo) — respondeu Denílson, em turco, em pleno desespero. Saiu do banheiro e retornou à mesa. Tentou se concentrar no trabalho. Textos estavam abertos na tela de seu computador. Todos em português. Ele tentou lê-los, mas logo nas primeiras orações eles começavam a se traduzirem em sua mente e a lei-
tura embolava. Lia em português, mas entendia em iorubá, e depois em coreano, e depois em africâner. Parecia que seu cérebro se transformara num tradutor automático, o qual não conseguia desligar. Estava à beira de um colapso nervoso e pediu dispensa. No caminho até sua residência, viu placas de propagandas e letreiros que estavam escritos em português com pontuais termos em inglês. Não tinha como controlar. Aquilo que estava em português era lido em alemão e o que estava em inglês era lido em servo-croata. Ele chegou em casa e tomou comprimidos para dormir. Apagou-se em poucos minutos. Teve vívidos e coloridos sonhos. Pessoas falavam em swahili e árabe. Ele ganhava uma coroa de homem mais poliglota do mundo. Dava palestras, traduções simultâneas, evitava incidentes entre nações por falha de comunicação. Mas também vinham alienígenas e o abduziam, para dissecar sua massa encefálica a fim de compreender como fora capaz de tornar-se fluente em tantos idiomas. Acordou assustado quando lhe decapitaram em sonho, expondo seu cérebro em tom gris. Levantou-se após uma noite em sono profundo, e tentou não pensar em nada. Sentia-se mais leve, e conseguiu aguentar vários minutos com a mente esvaziada, sem raciocínio algum. Comeu pão e tomou café com leite. Aparou a barba. Suspirou e se aprontou para o trabalho, com uma ligeira sensação de que tudo voltara ao normal. Leu
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coisas em português. Compreendeu tudo nesta língua, sem a invasão de outras. Suspirou novamente e saiu de casa. O celular tocou e Denílson atendeu. Era sua mãe. — Annyeonghaseyo! — disse ele, notando que falara em coreano. Sua mãe parecia apressada e ignorou o inusitado atendimento do filho. — Alô, Deni, pode me levar no médico amanhã? — perguntou ela. Instantaneamente preocupado, ele indagou: — What do you aistháneste? — Ele mesmo percebeu que era uma mistura de inglês e grego. O que você está sentindo? — Deni, pare de brincadeira e fale direito. Eu tenho me sentido tonta, um pouquinho às vezes, e marquei consulta amanhã. Você pode me levar? Acho que é labirinto de novo... — Mamacita, anata wa pouvez me begrijpen ka — respondeu Denílson, num mosaico de espanhol, japonês, francês e holandês. Mãe, você consegue me entender? — Filho, não consigo escutar direito. Não entendi o que você falou, acho que a ligação está ruim... — Mom, laday mshkl. Mo nilo for hjaelp — disse Denílson, já em desespero, numa tessitura de inglês, árabe, iorubá e dinamarquês. Mãe, estou com um problema. Preciso de ajuda. Tentava falar em português, mas este idioma, outrora sua língua-mãe, já não imperava mais em seu pensamento, e agora se diluía num mar de babel, de vocábulos, pronomes, artigos, ortografias
e alfabetos completamente diferentes, dissonantes. Sua linguagem tornara-se um turbilhão de idiomas, do qual seu raciocínio pescava elementos linguísticos aleatórios para montar frases em retalhos incompatíveis. — Deni, vou desligar, o sinal está ruim, eu não entendo nada do que você fala. Até mais. — E a mãe encerrou a ligação. Denílson foi direto ao hospital. Queria uma droga, algum fármaco que lhe impregnasse as veias e limpasse de seu ser aquela salada poliglota que havia lhe tomado a mente. Mal entrou, tombou na sala de emergência, sendo amparado por enfermeiros e auxiliares. — Senhor, está me escutando? — indagou um médico, ao disparar uma luz às pupilas de Denílson. Em sua mente trinta traduções vieram à tona e ele se esforçou para responder. — Y-y-yes. Eu estousuis à l’hore — disse Denílson, começando por inglês, depois fusionando português e francês e terminando em alemão. Sim, eu estou escutando. — Confusão. Fala embolada. Síncope — dizia o médico, enquanto se dirigia a outros de sua equipe de emergência. — Preparem um TC. Possível isquemia cerebral. — Die masalah non is zhè — disse Denílson, usando africâner, malaio, francês, inglês e mandarim para se expressar, ao mesmo tempo em que era posto em maca e levado para os andares superiores do hospital. O problema não é esse.
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Prontamente, havia uma máquina enxergando além do crânio de Denílson. Uma equipe de radiologistas e neurologistas observava atenta ao penetrar das ondas. Por um minuto, o poliglota relaxou. Não pensou em nada. O furacão de palavras e alfabetos se desfez. Ele não existiu pelo breve instante em que sua mente era filmada. — Senhor, não há nada de errado em sua tomografia — disse a médica que lhe atendia, para em seguida completar, falando mais lentamente. — Você consegue me entender? Se pudesse se expressar com clareza, ele diria que era capaz de entender a frase dita por ela em mais de cinquenta idiomas distintos. As traduções brigavam entre si, disputando espaço e domínio de seus processos cognitivos. — Feumaidh kee jaroorat hai papír — disse Denílson, em junção de gaélico, híndi e húngaro, ao apontar para um prontuário que a doutora segurava em mãos. Preciso de papel. — Não compreendo. O senhor é estrangeiro? Where are you from? — indagou a médica, antes de ter o prontuário e uma caneta arrancados de sua posse. Denílson pensara que ainda podia se comunicar por escrito. Nervoso, tentando ser o mais rápido possível antes que a médica tomasse de volta o papel e a caneta, esboçou as primeiras letras de sua mensagem de socorro. Mas sua caligrafia reproduziu algo ininteligível. Um aglomerado disforme de traços e curvas que nem de longe remetiam às
origens em devanágari indo-asiático, no abjad hebraico, no silabário hiragana japonês e no abugida tailandês, polvilhado por desconexos sinais diacríticos. Antes que esboçasse mais monstrengos de caligrafia, Denílson teve o papel tomado das mãos. A médica mirou brevemente o rascunho horroroso que havia riscado a folha, para depois olhar o paciente. Total incompreensão. Foi nesse instante que Denílson começou a gritar a plenos pulmões. — Espere, vou chamar... — disse a médica, para depois se afastar murmurando. — Preciso falar com o neurologista... Em breves minutos, uma dose de Haloperidol já estava perfundindo o sistema sanguíneo de Denílson. Aos poucos, ele foi se acalmando, se esvaindo. Apagou-se antes que os médicos retornassem para lhe ver e discutissem sobre seu aparente surto, e sobre a possibilidade de investigarem sua identidade e histórico, uma vez que recaíam fortes suspeitas de que era paciente psiquiátrico grave. Quando despertou de seu químico sono, Denílson se viu numa das divisões do ambulatório. Pessoas de jaleco iam e vinham. Agulhas picavam e seringas injetavam. Esfignomanômetros ditavam quem estava hipertenso. Estetoscópios transmitiam percussões diastólicas e sistólicas. O poliglota não se sentia bem ali, nunca gostara de hospitais, e percebendo que não iriam lhe ajudar a resolver seu problema, levantou-se do leito e disparou em busca da saída. Enfermeiros e auxiliares gritaram
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como se o som o impedisse. Cruzou todo o ambulatório sob os olhares arregalados de pacientes e funcionários, e rapidamente alcançou a entrada do estabelecimento. Na rua, correu sem direção alguma, sem destino. As placas de trânsito, os outdoors, os anúncios e propagandas que compunham a mobília urbana invadiam sua mente em todas as formas, em línguas latinas, em persa, em árabe, em mandarim, tudo junto, tudo uma coisa só, uma baderna de sintaxes que jamais chegariam a um consenso. Cruzou diversas avenidas a um triz de não ser atropelado, obrigando motoristas a queimar freios para não se tornarem homicidas. Ele somente estancou sua jornada quando chegou a um centro comercial, repleto de gente, que circulava por entre as lojas falando alto, rindo, se comunicando e se compreendendo. O barulho intenso que a multidão produzia penetrou pela mente do poliglota como água se infiltra em solo arenoso, fluindo em todas as direções possíveis, com fúria e ausência de zelo. Muitas frases, palavras. Sujeitos e predicados. Verbos em vários modos temporais. Aquilo tudo se entranhava em Denílson sem dó nem piedade através das inúmeras traduções. Ele desejava com todas as forças ser lobotomizado, que sua memória fosse apagada para que se dissolvessem todos os idiomas que agora lhe assombravam com compreensões involuntárias. No meio da multidão, o poliglota se dobrou e assim permaneceu, despertando a atenção de alguns
transeuntes que apenas se incomodavam em desviar de si. De olhos vidrados, fitando o chão, Denílson começou a balançar para frente e para trás, cogitando um meio de dar cabo ao seu sofrimento. Poderia se estrangular. Ou se atirar de uma ponte. Mas o que não podia era permanecer daquele jeito, refém da própria mente poliglota. E foi então que o celular tocou. Era o alerta do aplicativo Fluência Expressa. Ele indicava que havia atualizações sobre línguas extintas — no caso, latim e aramaico. Foi o estopim para Denílson tomar o aparelho em mãos, e, totalmente descontrolado, subjugá-lo à mandíbula e ao maxilar. Mordeu o celular com toda a força que lhe restava no corpo, estourando a tela em cacos, rompendo o plástico da carcaça para expor a bateria que ainda resistia em se dobrar perante a ação de vetores opostos. Logo os seguranças do centro comercial intervieram. Um homem acocorado, com olhar alucinado, que devorava o próprio celular, era uma ameaça. E a situação só fez piorar quando eles escutaram a incompreensível fala do poliglota em desespero: — Fuck ustedes! — berrava Denílson, em anglo-hispânico, enquanto seguranças tentavam lhe dominar. — Waiho ahau yên! — completou hibridizando maori e vietnamita. Conseguiu se desvencilhar dos sujeitos e correu em direção a uma loja, derrubando violentamente quem estava em seu caminho. Entrou através da vitrine, levando manequins ao chão, arrancando
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letreiros e destruindo diversos objetos no interior. Quem estava ali dentro, ou se escondeu ou fugiu. O alucinado Denílson se ergueu do ponto onde pousara, intensamente machucado e com cortes extensos que lhe riscavam os antebraços. Voltou-se às pessoas escondidas atrás do balcão, que tremiam de medo. — Telemóvel! — ordenou ele, estendendo a mão para uma moça, para posteriormente exigir seu celular em língua xhosa. — Unomyayi! Apavorada, ela lhe entregou o aparelho, que imediatamente foi arremessado ao chão, se destruindo para sempre. Ao ver a desintegração do celular, um Denílson em puro transe psicótico riu largamente, exalando ar das profundezas de seus pulmões, num êxtase quase orgástico. As pessoas ali dentro, apenas se encolhiam, antes de se tornarem vítimas do alucinado homem. Foram mais cinco aparelhos destruídos até a chegada de policiais. O poliglota então pegou um caco de vidro dos estilhaços da vitrine e dominou uma inocente. A imprensa chegou em seguida, e iniciou uma transmissão ao vivo. “Homem em surto faz reféns dentro de loja”, dizia uma manchete num site jornalístico. A polícia chegou no minuto seguinte. De dentro da loja, Denílson respondia aos negociadores com falas que ninguém entendia, exceto uma ou outra palavra em inglês ou português, ainda assim de modo desconexo. Durou pelo menos meia hora a ação. Houve momentos tensos, em que a polícia cogitou atirar certeiramente e matá-lo, mas a inter-
venção de sua mãe — que com toda a dificuldade foi levada até lá — o salvou. Não era um mau sujeito, concluíram, deveria estar passando por momentos difíceis, apenas, e precisava de cuidados. Ele enfim se entregou às autoridades, resmungando em sua babel particular. Foi considerado patológico. Transtorno mental gravíssimo. Nunca mais trabalhou. Nunca mais se comunicou. Foi encaminhado para um hospital psiquiátrico, para lá passar o resto de sua vida, em um triste e gradual crepúsculo do ser. Nenhum vocábulo, termo ou expressão, em nenhuma língua do mundo, era capaz de traduzir o tamanho de sua loucura.
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Secreto
Baixando: Conekta — Mensagens temporárias Instalando em seu dispositivo... O marido jamais havia desconfiado que ela tinha um amante. A rotina de família de classe média não poderia ser mais típica. Acordavam junto ao despertar do dia. Tomavam café da manhã juntos, promovendo uma curta oração de agradecimento pela comida sempre disponível. A filha mais velha, já universitária, tinha ganhado um carro, e era a primeira a sair da garagem. Logo atrás, o resto da família também se punha na rua, e, primeiramente, o filho do meio e a caçula eram deixados na escola, poucos minutos antes do começo da aula. Ela e o marido seguiam, então, até seus respectivos empregos, no carro que por ele era guiado, ouvindo comentários políticos e econômicos através do rádio. Ela mantinha um caso extraconjugal há pelo menos um ano. Não que tivesse deixado de amar seu marido. Ainda se divertia consigo, ainda o considerava um homem maravilhoso, um excelente e
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zeloso pai, mas talvez a outrora incandescente lava do amor tivesse se solidificado em rocha de amizade sólida. À noite, já não se procuravam mais. O marido, de fato, trabalhava em demasia, e talvez isso o tivesse afastado da virilidade masculina. Ela ainda o achava atraente, mas não sentia o mesmo apetite de antes para tê-lo como homem. Fora fácil se deixar levar pelo desejo. O estagiário de seu setor, na empresa, apenas trouxera a fagulha para acender novamente a chama da libido feminina. Bastaram algumas conversas sobre desempenho no mercado, que evoluíram para conversas de cunho pessoal, e posteriores trocas de olhares dissimulados e alguns sorrisos maliciosos, para que logo estivessem se beijando vividamente em hora extra, em cantos que as câmeras não enxergavam. Em seis meses, o estagiário ascendeu ao cargo que pretendia e logo estava à mesa de reuniões, junto ao corpo diretor da companhia, debatendo sobre gráficos e estratégias financeiras. Por baixo da mesa, roçadas de perna se atreviam a existir, aquecendo o casal para as atitudes mais enérgicas que viriam a ocorrer. A primeira ida ao motel exigiu uma artimanha mentirosa por ambas as partes — uma vez que o rapaz tinha noiva. Era dia de folga, e ela disse que ia à igreja orar pela família. Nitidamente, voltou mais alegre. No jantar, não repreendeu o filho do meio xingando a irmã mais velha nem a pequena esculpindo nojeiras com a refeição. Sequer acompanhou o marido ao reclamar
do aumento do imposto predial. Sentia-se viva de novo, saudável, capaz de dar e receber prazer. O teor secreto só lançava mais tempero picante na relação. Não tardou para começarem a trocar mensagens luxuriosas, chamando-se por codinomes que remetiam a seus desempenhos como amantes e confidentes. Ela tinha certeza de que o marido jamais averiguaria suas conversas online, tamanha era a confiança que em si depositava. Em toda véspera de encontro com o colega, uma centelha de libido disparava em seu ser, alimentada pela ansiedade em buscar o calor do corpo alheio e de se fazerem um só pelos longos minutos que antecediam o clímax da paixão, para depois voltarem a ser dois, extasiados e satisfeitos com a recíproca de prazer. Desde que assumiram a si mesmos que estavam tendo um caso, muitos encontros se sucederam. Não somente para atividades sexuais. Também almoçavam juntos. Ela gostava da conversa de seu colega, gostava de lhe falar sobre a vida, sobre os receios e sobre suas preocupações. Ele atuava como um amigo, agraciado com a chave de sua intimidade. Mas ainda assim, ela jamais cogitou largar o esposo para viver com seu amante. Ele era jovem demais para ela. Talvez ela já tivesse vinte anos quando ele nasceu. Sua vida estava demasiado estável para que ela ruísse tudo com escândalos. Mas então veio a proposta para ele viajar a trabalho. Passar um mês no exterior, realizando workshops e cursos pagos pela empresa. Desde
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que começaram a se amar em segredo, eles jamais haviam ficado tanto tempo longe um do outro. Ela entristeceu quando soube que ele havia sido selecionado para tal missão oficial. Parecia uma criança que tinha seu brinquedo favorito confiscado. E para complicar, dias antes da viagem, sua filha caçula pegou escondido seu celular, querendo “joguinho”, e quem tomou o aparelho das pequenas mãos foi o filho mais velho, adolescente. Que por pouco não leu a conversa que a mãe mantinha com seu amante. Nessa toada, um flagrante era iminente. Como solução para o perigo que rondava, o amante sugeriu que baixassem um aplicativo de mensagens efêmeras, que desapareciam poucos minutos após envio e recebimento. Aplicativos desse tipo haviam muitos, e ele acabou baixando um que apareceu como anúncio, dentro de outro. Chamava-se “Conekta — Mensagens temporárias” e foi instalado nos dispositivos móveis dos amantes no dia anterior à viagem. O mote do aplicativo, exposto à exaustão na loja virtual, era o de que possuía a “criptografia mais robusta e impenetrável da História”. No quesito dos downloads, possuía uma reputação média. Não era o mais popular, mas passava longe de estar nas últimas colocações. A interface era amigável. Tão logo o amante desembarcou em terras estrangeiras, tão logo o casal secreto estava enviando as mensagens de teste. A cada uma, o aplicativo atribuía um nível de segurança, qualitativo, que variava de “livre” a “ultra sigiloso”. Todas as primeiras quarenta mensagens
foram classificadas de acordo com este último critério. Apenas a mensagem de “boa noite” enviada por ela foi tachada de “livre”, mas nada que preocupasse, afinal, todas estavam desaparecendo num intervalo de três minutos, como propunha o aplicativo. No dia seguinte, dado o fuso horário, ela sabia que seu amado estava três horas à sua frente. Fora um dia de conversa intensa pela manhã, para depois rarear à tarde, uma vez que o amante imergiu na conferência da filial da companhia. Ela trabalhou normalmente e voltou para casa, passando antes na escola dos filhos e depois no supermercado. Jantou com a família. Ajudou a caçula com o dever de matemática. E se entregou a um relaxante banho em sua suíte. De dentro do banheiro, ouvia o marido roncar. Ao encerrar a ducha, se enrolou em roupão e iniciou seu ritual de cremes e outros cosméticos faciais. O celular, disposto na pia, acendeu. Era o aplicativo Conekta, indicando que seu amado havia enviado algo. Ela tinha três minutos para ler antes que a mensagem se desmaterializasse. “Todo confuso com o fuso”, dizia o amante. “Haha. Indo dormir”, respondeu ela. “Ainda acordada? Ainda são dez da noite aí, né.” Ela prontamente respondeu, em teclar frenético: “Sim, acabei de tomar uma chuveirada.” E obteve resposta: “Hm, deve estar gostosinha e cheirosa”, acom-
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panhado de um emoji de coração. Ela correspondeu com um emoji de gatinha e completou: “Dorme bem, leãozinho. Até amanhã”, e saiu do aplicativo. Em três minutos, já não havia resquício de conversa. Tudo perfeito, como eles desejavam. O aplicativo parecia realmente útil para quem tinha segredos a esconder. E foi então que ela teve uma ideia. Atrevida. Sedutora. Em frente ao espelho, afrouxou o cinto do roupão, e, num arqueio de espáduas, deixou que o traje lhe escorregasse do corpo, embolando em seus pés. O marido, no quarto, roncava alto, mas ainda assim ela garantiu um pouco mais de privacidade ao encostar a porta do banheiro. Ela olhou-se no espelho, totalmente despida. Sentia que o tempo e a família gerada haviam lhe criado marcas. Determinadas regiões demonstravam estar sendo vencidas pela gravidade. Estrias habitavam seus flancos. Cicatriz de cesárea sorria um pouco acima do púbis. Um pouco de celulite nas ancas. Mas também se sentia valorizada. Um homem mais jovem a tinha visto dessa forma, e só lhe rendera elogios. Ainda era capaz, mesmo próxima à meia-idade, de despertar a cobiça masculina. E, com celular em mãos, decidiu provocar. Abriu o aplicativo Conekta e ordenou que ele acessasse a câmera traseira do aparelho. Apontou para o espelho, enquadrou-se totalmente na ima-
gem e deixou-se apreender em nudez, num flash de milissegundos. Foto enviada. Confirmação de recebimento. “Veja só o que você está perdendo”, ela digitou, com um sorrisinho malicioso estampado. Vestiu o pijama e recebeu como resposta: “Ahhh, mas vou ter isso tudo quando voltar, kkkk.” Conectou o celular no carregador e o deixou na escrivaninha, ligado, sendo alimentado. E deitou-se, para o que esperava ser uma revigorante noite de sono. Mal ela sabia que o aplicativo de mensagens efêmeras permanecera trabalhando. A tela do celular acendeu e lançou um facho azulado acima da escrivaninha. Ela não percebia, mas o Conekta trabalhava a pleno silício. Ela não fazia ideia de que o celular do marido, ligado à tomada no criado-mudo, também havia recebido a foto que tirara momentos antes, diante do espelho. Mesmo sem possuir o Conekta instalado, o aparelho do homem estava aceso e exibia a imagem da mulher nua. Ela também não imaginava que os vizinhos de rua e de quarteirão também haviam recebido a foto. Naquele mesmo instante, ela surgira nas telas de seus celulares, mesmo que não tivessem o Conekta instalado. Não somente de celulares, mas também nas telas de computadores, tablets e televisões. Gente que assistia a filmes e séries se sobressaltou com a repentina imagem de uma loura desnuda,
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invadindo e permanecendo estática em seus dispositivos eletrônicos. Pessoas se entreolhavam atônitas, buscando um lampejo de compreensão. E não tardou para que certos vizinhos reconhecessem que aquela pessoa que em foto se materializara era uma conhecida mãe de família da vizinhança. Ela também jamais teria imaginado que, assim como as telas eletrônicas adjacentes à sua residência, todas as telas de dispositivos da cidade foram acometidas por sua foto tirada diante do espelho. Não se discriminava classe social, idade, gênero ou profissão. Todos aqueles que estavam diante de aparelhos digitais foram tomados de assalto por aquele autorretrato nu. Foi visto também, através de televisores, por pessoas que aguardavam em emergências de hospitais; por vigias dispersos pelos endereços que deviam resguardar; por policiais e bombeiros de plantão em delegacias e batalhões e por boêmios que se largavam em bares noctívagos. E ela ainda não seria capaz de pensar que sua imagem despida seria ampliada em muitas polegadas, aparecendo em telões de estádios e ginásios onde partidas eram realizadas e também nos telões de cinema, onde os públicos alvoroçados exibiam as mais variadas reações à foto de mulher nua que surgira diante de seus olhos, repentinamente em meio às sessões. Tinha gente que ia embora, afrontada pelo despudor ou pelo susto de inesperada visão. Por outro lado, em sua maioria, pessoas sacavam os celulares e filmavam ou tiravam fotos, rapidamente carregando em redes sociais e
viralizando o inusitado acontecimento. Até porque, seria difícil ela prever que sua foto íntima não iria ficar restrita à sua cidade, mas também se espalhar pelo estado e por todo o país. Instantaneamente, nos quatro cantos do território nacional, todos os dispositivos eletrônicos que estavam ligados naquele momento, executando uma diversa gama de tarefas, passaram a exibir tal imagem em suas telas. Não houve estado, não houve cidade, distrito ou localidade que fosse poupado de ser acometido pela foto do banheiro. Gente morando em área remota, onde sinal de internet móvel era intermitente, foi acossada pela mulher desnuda no instante em que míseras trocas de bytes permitiram conexões de seus celulares com a rede. Para além das fronteiras, o fenômeno também se concretizava. Não importava o fuso horário. Não importava a latitude. Tampouco o produto interno bruto ou o índice de desenvolvimento humano. Sua foto íntima desembarcou, instantaneamente, em todas as telas eletrônicas que estavam ligadas no planeta Terra, naquele momento. Isso incluía a invasão às mais diversas ações. Ao redor do globo, confusões se faziam quando telas de ultrassonografia deixavam de exibir estruturas internas de pacientes ou fetos em gestação para exibir uma mulher completamente pelada. Essa estranha situação se repetia em salas de tomografia e outros exames de imagem. Telões de cruzamentos urbanos abarrotados, como Times Square, em Nova York, e Shibuya,
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em Tóquio, interromperam seus coloridos informativos de modo repentino e os substituíram pela imagem da loura anônima, sem roupa alguma. Acidentes de trânsito se sucederam em várias metrópoles. Outdoors eletrônicos também haviam sido contaminados pela foto viral e desviavam a atenção de motoristas, pegos desprevenidos por tal figura humana inapropriada. Nos aeroportos, passageiros entravam em rebuliço ao tentarem sem êxito verificar seus embarques nos painéis, já que agora também viam a intimidade de uma pessoa através deles. Houve tumulto. Telões de bolsas de valores e outras instituições deixaram de lado os indicadores e gráficos e o corpo feminino que neles se instalou travou o mercado financeiro. Dados de intranet foram substituídos por tal imagem. Caixas eletrônicos engasgavam nas transações ao exibirem aquele corpo nu aos clientes. Videoconferências entre altos executivos se findaram abruptamente com a foto despudorada. Shows, cujos telões antes exibiam os artistas no palco foram interrompidos sem prazo para retorno após a exibição da nudez feminina, deixando mudos e atônitos músicos, dançarinos e cantores. Até nos lugares onde o pudor reinava absoluto, como festas infantis e rituais religiosos, havia telas para transmitirem aquela inconveniente foto que circulava o mundo. Foi uma disseminação de escala global. Todas as telas digitais da Terra, como se estivessem sincronizadas, exibiram ao mesmo tempo,
para todos, a imagem que fora criada para ser confidencial. Nenhuma tecnologia foi excluída da pandemia. Aquele corpo feminino desnudo foi montado por pixels de raios catódicos, plasma, cristais líquidos e diodos emissores de luz. Centros de pesquisa em interfaces gráficas tiveram invadidos seus dispositivos quase holográficos, tecnologias de ponta na projeção de vídeo humana. Simultaneamente, todas as resoluções do mundo estavam exibindo cada detalhe daquela anatomia, em básicos VGA, em alta definição de milhares de pixels e em ultra-alta-definição de 4K e 8K. Naquela onda viral, não havia exceções. Redes militares também foram afetadas. Comandantes de todas as Armas, de todos os países do globo, entraram em polvorosa para tentar solucionar a interrupção das transmissões de manobras, treinamentos e operações, afligidos pela mulher nua que lhes invadiu as telas. Imediatamente, comunicavam o incidente a chefes de Estado Maior, suspeitando ser o prelúdio de um ataque hacker em escala mundial. Companhias de defesa em cyberterrorismo, em puro alvoroço, iniciavam protocolos automáticos de contraofensiva, em vão, porque nenhum artifício digital era capaz de remover aquela imagem que surgira inesperadamente. A foto de nudez daquela mãe de família também alcançou os sistemas de agências espaciais. Centros de controle de missão perderam contato com satélites e sondas, tendo agora a imagem íntima da mulher ao espelho exibida nas interfaces de co-
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municação e comando, sobressaltando os técnicos. Em órbita, igual sobressalto acometeu os astronautas que flutuavam na ausência de gravidade da Estação Espacial Internacional, ao verem o corpo nu feminino preencher todas as telas de todos os módulos do laboratório sideral. Toda aquela pandemia da foto íntima durou exatamente três minutos. Nem mais, nem menos. Assim como invadira todas as telas digitais existentes na Terra, desapareceu instantaneamente, como se nunca tivesse existido. Mas sua efêmera vida lhe rendeu registro. Pessoas filmaram, tiraram fotos ou capturas de tela. As redes sociais entraram em colapso com tamanha quantidade de carregamento. Foram criadas inúmeras denominações para o fenômeno, mas as que mais repercutiram foram as hashtag #horadamulhernua e #nudeglobal, traduzidas em praticamente todos os idiomas falados pela humanidade. E, enquanto sua nudez ganhava a Terra, a autora da foto dormia serenamente. Teve ciência do que havia se tornado o epicentro de uma pandemia digital quando ao ser acordada por seus filhos, perplexos com o que haviam visto. A primogênita, que conversava com o namorado por vídeo quando foi apresentada à foto da mãe despida, entrou no quarto em total desespero, exigindo aos brados que ela explicasse o que era aquilo. O filho do meio, por sua vez, jogava videogame quando a imagem viral se consolidou em seu monitor, fazendo desligar o aparelho de imediato e
permanecer sem ação por alguns minutos. A caçula dormia nessa hora, mas acordou com a movimentação exasperada dos irmãos. A dona da foto não entendeu de início o que se sucedera. A filha mais velha, atônita, questionando-lhe o que estava acontecendo. Ainda não acreditava no que tinha visto, a imagem devassada de sua mãe, que estava sendo postada, comentada e que estava imperando como assunto do momento por toda a internet. O filho adolescente esbravejava com raiva, alegando que seria motivo de piada pelo resto da vida por tamanha exposição da mãe. A pequena apenas observava, sem entender muito, mas sabia que era uma situação preocupante a que se instalara naquela família. O marido também demorou a compreender. Percebeu a dimensão do problema quando começou a receber mensagens dos colegas de trabalho e amigos, poucos minutos depois, dizendo que “uma coisa estranha” tinha acontecido com uma foto de sua esposa, na forma mais educada, e também recebendo mensagens de teor mais rude sobre o corpo da mulher. Ainda era madrugada quando ela se deu conta de que um ato secreto seu havia sido devassado para toda a humanidade, num gesto instantâneo, irreversível. Entrou em choque, após um ataque de pânico, tendo que ser acudida pela filha mais velha, que a pôs debaixo do chuveiro de águas mornas. O marido, com a cabeça dando voltas rocambolescas sobre o que se sucedera, sobre a ousadia des-
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comedida da esposa em se registrar nua e deixar que a foto se tornasse fenômeno mundial, entrou em silêncio inabalável ainda antes do amanhecer.
Transporte
Baixando: ViaRápido 2.0 Instalando em seu dispositivo... Alta madrugada conforme informavam os relógios, e o casal estava demasiadamente exausto. Havia se esbaldado naquela festa. Matrimônio de um casal amigo. Reunião da turma de faculdade. Felicidade instantânea embalada pelas batidas eletrônicas e irrigada de modo etílico. Quando seus corpos pediram arrego, sentiam-se plenos e satisfeitos pelas horas em que haviam se esquecido dos problemas do mundo. Um pouco trôpegos, mais pelo cansaço do que pela bebida, se dirigiram à entrada da casa de festa, com intuito de solicitar um táxi ou outro veículo de transporte, por aplicativo. Na escuridão que era rompida pela luz azulada do celular, a moça acessou o aplicativo que usava há anos. Tentou a primeira vez, e não logrou êxito. Na tela do aparelho, pequenos desenhos de carro se locomoviam pelo traçado das ruas, indicando onde se encontravam os veículos mais próximos. No entanto, o aplicati-
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vo parecia não obedecer ao comando de solicitar um deles. O dedo da moça imprimiu força à tela de toque por três tentativas, fazendo-a desistir na quarta, igualmente fracassada. — Não se estressa não — disse o namorado, deixando aroma de álcool no ar e já empunhando um celular. — Eu baixei um aplicativo novo, me indicaram lá no trabalho. Me disseram que sai até mais barato. — Ah, então chama logo, que eu não me aguento em pé! — respondeu a namorada, guardando o celular. O rapaz acessou o aplicativo ao qual se referira, em seu próprio aparelho. Havia realizado download e instalado o ViaRápido, versão “dois ponto zero”. Em particular, este programa estava muito bem avaliado na loja virtual. Usuários relatavam que era o mais seguro, com um amplo corpo de motoristas, todos bem-educados, eficientes, que dirigiam carros confortáveis. — Chamando... — anunciou o namorado, ainda observando a movimentação na tela do celular. — Chega em seis minutos. — Graças a Deus — disse a namorada, inclinando a cabeça e recostando no ombro de seu amado. Pontualmente, um sedan preto, de vidros escuros que ocultavam seu interior, apontou diante da casa de festas. Os faróis — imponentes olhos do veículo de luxo — iluminavam as bromélias que decoravam o jardim frontal da propriedade. — Boa noite! Victor? Sou Leandro, motorista
requerido neste endereço — disse o condutor do automóvel, baixando um quarto do vidro. — Boa noite! — correspondeu Victor, abrindo a porta de trás e permitindo a passagem da namorada. O casal se acomodou no banco traseiro do carro. O espaço interior do veículo parecia o triplo do interior do carro de Victor. Banco de assento largo, satisfatoriamente macio e convidativo a posições de relaxamento. O dorso do passageiro ficava levemente inclinado, em ângulo que deixava grata a coluna vertebral. E para completar o ambiente aprazível, um aroma de perfume sutil brindava o olfato. — O ar-condicionado está agradável? Querem que eu reduza ou eleve a temperatura? — indagou o motorista, logo que começaram a descer a estrada que os levava em direção à malha urbana. — Está ótimo — respondeu Victor, com a cabeça da namorada encaixada entre seu ombro e seu pescoço. — Ok. Em poucos minutos, a paisagem ao redor ia deixando para trás os matagais e terrenos baldios para dar lugar a casarões baixos, antigos, resquícios da ocupação inicial do bairro, que se estendia pelas colinas. A antes sinuosa estrada agora se alinhava obediente ao relevo, cada vez mais plano. Algumas curvas adiante e já estavam numa reta, ladeada por um denso casario de residências e sobrados, iluminados por postes de tom alaranjado.
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Victor pôde contar a meia dúzia de bocejos que lhe esgarçara a boca desde o início da viagem. As luzes dos postes lá fora não o mantinham plenamente desperto. A namorada dormia em seu ombro, e seus cabelos mornos jogados em seu peito eram convidativos a compartilhar o sono. Com delicadeza, Victor entrelaçou os dedos com os da namorada e deixou-se adormecer por uma quantidade de tempo que não conseguiu definir. Quando acordou, com leve sobressalto, imediatamente tentou se situar onde estavam no trajeto. Olhando para o lado, reconheceu a placa de um centro comercial corriqueiro em sua vida, cuja presença se fazia todos os dias quando seguia para o trabalho. Não estava tão longe de casa. Pela ausência de trânsito e complacência dos semáforos em se manterem piscando em amarelo, deveriam chegar em menos de quinze minutos. Viu que o endereço de destino estava bem visível no celular do motorista — exposto em um suporte —, junto a um mapa e o preço a pagar, e isso lhe causou uma sensação de conforto. — Senhor Victor, com licença, vi que acordou — disse o motorista, mirando o passageiro pelo retrovisor. — Não lhe ofereci ainda comes e bebes, pois estavam dormindo. Tenho água de coco, vinho e queijo provolone aqui no frigobar. — Ah, agradeço, mas não quero não — respondeu Victor, enquanto a namorada se mexia um pouco, ainda adormecida. — Já comi e bebi muito na festa.
— Ok. A namorada então acordou. Com fios de cabelo ocultando a face como véu, ela observou as ruas por onde passavam e perguntou a Victor se já estavam chegando. Ele disse prontamente que faltava mais um pouco, que estavam no bairro anterior ao seu. — Com licença — pediu o motorista Leandro, novamente. — Vocês gostariam de ouvir uma música relaxante? Tenho uma seleção especial para pós-festas... — Não, não, obrigado. Daqui a pouco vamos chegar. E aí, é desabar na cama — respondeu Victor, para completar em seguida. — Leandro, você é muito educado. Parabéns pelo trabalho. Quem dera se todos tivessem esse cuidado com o cliente. O motorista enquadrou novamente a face do passageiro pelo retrovisor e disse: — Obrigado, senhor Victor. Faço o que posso. Já tinha usado o ViaRápido antes? — Não. Primeira vez. Se todos forem como você, eu quero pegar esse serviço sempre. Até para ir ao trabalho. Leandro soltou uma tímida risada. Um pouco protocolar. E se concentrou novamente na direção. A namorada adormeceu novamente antes de chegarem às quadras das imediações da residência de Victor. De mãos dadas novamente, seus pulsos entraram em contato, colando as tatuagens gêmeas que eles tinham feito meses antes para comemorar aniversário de relacionamento. O símbolo matemático do infinito. Desenhado em suas peles para re-
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presentar o que julgavam ser a dimensão do amor que nutriam um pelo outro. Estavam se aproximando do endereço de destino. O mapa do celular do motorista indicava que deveriam parar em menos de duzentos metros. Já era possível distinguir as varandas do prédio de Victor das demais na longa fachada da rua. O moço acordou a namorada e lhe avisou que estavam chegando. Ela se espreguiçou rapidamente e tomou a nécessaire em mãos. — Aquele prédio ali, Leandro — apontou Victor, que já ia mexer na carteira, quando se lembrou que estes serviços eram pagos através de cartão de crédito. — Ok — disse o motorista, reduzindo a velocidade do veículo. O atrito dos pneus com o asfalto diminuiu. Vetores de aceleração e velocidade foram atenuados. Toda a cinemática do carro se alterou, se preparando para o estanque de movimento. Discos de freio entraram em ação. O casal se preparou para deixar o veículo. Ansiavam por largarem os corpos na cama, para inaugurar aquele fim de semana de descanso. O carro a serviço do ViaRápido, no entanto, reduziu a velocidade, mas não parou de se locomover. — Opa! Nós passamos — avisou Victor, como se fosse algo comum a viagens assim. — Mas pode parar aqui mesmo. Vamos andar um pouco para trás.
Leandro não esboçou reação. Parecia que não tinha escutado o alerta do passageiro. O carro deslizou mais alguns metros, ignorando o ponto de parada que piscava na tela do celular do motorista. A situação começou a tender à anormalidade quando chegaram à esquina da rua. — Leandro! Era para ter parado atrás! Lá atrás! — gritou Victor, alternando entre olhar pelo vidro traseiro e para o motorista que não acatara seu pedido. — Desculpe, Victor. Eu não pude — respondeu o motorista, no mesmo tom cordial que usara durante todo o percurso. — Não pôde?! — questionou um incrédulo Victor. — Como assim? Não há ninguém estacionado ali, não há trânsito! Estamos de madrugada! Ele começou a temer um sequestro. Uma maldade. Tinha que tomar uma providência, antes que o crime se consumasse, levando-os a um cativeiro e exigindo um resgate em troca de suas vidas. Ao seu lado, a namorada lhe encarava de olhos arregalados, compartilhando de seu temor. — Leandro, o que está acontecendo?! Me explica! — pediu Victor, elevando em demasia o tom de voz. — Para, Leandro! Para agora! — exigiu a namorada, contundente. — Desculpem, senhores passageiros. Eu não posso parar. Não posso mais — respondeu Leandro, em serenidade inabalável. O carro já rodava a uma velocidade maior. Já
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deviam ter se distanciado em quinhentos metros do endereço de destino. Seguiam por uma via transversal à avenida principal do bairro. — Liga pra polícia! — sugeriu a namorada a Victor, em sussurro malfadado, como se o motorista não fosse escutá-lo. — Esse homem está nos raptando! — Shhh, ele está ouvindo — advertiu Victor em movimento com as mãos, vendo Leandro fitá-lo pelo retrovisor. — O aplicativo, preciso acionar o aplicativo porque nele tem um dispositivo de segurança, caso o motorista desvie do caminho... — E, dizendo isso, pressionou desesperadamente a tela de toque do celular, em uma confusão de comandos para aplicativos serem despertados. Passou-se um instante até que conseguisse pôr o ViaRápido para trabalhar. Logo, o brilho azulado da interface estava irradiando do aparelho, iluminando as expressões assustadas do casal. Havia uma aba indicando que uma viagem estava sendo realizada. Ao abrir a seção, Victor de deparou com o mapa, no qual um carrinho indicava a posição de si. O carrinho se distanciava cada vez mais do ponto marcado como “destino”. Acima do mapa, vinha a placa do veículo. Logo abaixo, era exibido o valor da corrida. Dados do motorista apareciam ao lado da cifra monetária. Seria normal, se Leandro S. Moura, cuja reputação somava cinco estrelas, tivesse cumprido o devido trajeto e lhes deixado no endereço correto. Victor estancou nesta tela, sem saber o que fazer.
— Acesse o link “Relatar um problema” — disse Leandro, repentinamente, como se tivesse lido a expressão de dúvida dos passageiros. — Está em letras pequenas, abaixo dos dados pessoais referentes a mim. De fato, o link estava lá. O que o casal não compreendia era a razão de o motorista ter dado uma dica de como denunciá-lo. Não fazia o mínimo sentido. Talvez ele estivesse por trás de alguma armação, algum esquema, cujo intuito era dar um golpe na empresa. Ou talvez fosse um louco, desequilibrado mentalmente, de comportamento imprevisível. O link conduziu a uma lista de problemas pré-definidos que o passageiro supostamente poderia enfrentar. Desde uma avaria do carro que prejudicasse o conforto até o esquecimento de algum objeto no veículo. Um dos itens da lista tratava justamente de problemas com o motorista. Ao se acessar o tópico, subcategorias surgiam à escolha do usuário, como “O motorista me faltou com respeito” e “O motorista usou a rota mais longa”. O casal esquadrinhou a lista de cima a baixo e vice-versa. Nenhuma opção se referia a desvio do destino. — Leandro, por favor, pare o carro — pediu a namorada de Victor, se aproximando do banco do motorista, em tom lamurioso. — Nós te imploramos... Por favor, não nos faça mal... — Desculpe, senhorita. Não posso parar — respondeu Leandro, enquanto trafegavam em uma
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via expressa que cortava a cidade. Victor abriu a tela de discagem do celular e digitou os três algarismos que endereçavam uma chamada à polícia. Mas então hesitou. Não conseguiria fazê-la em segredo e não sabia se Leandro portava alguma arma ali dentro. Temendo uma represália ao ser descoberto, valeu-se da surdina de uma mensagem, enviando um torpedo SMS para a central policial. O casal esperou uma resposta que jamais veio a ser dada. O programa de mensagem SMS do celular parecia ter travado. O retângulo onde se lia o pedido de socorro estava vermelho, indicando que não fora enviado à central de denúncia. E, subitamente, a tela de mensagens foi apagada e em seguida substituída pelo aplicativo ViaRápido, que insistia em ser acessado mesmo sem ordem para isso. O casal observava, aflito, a sucessão de tentativas de contato. O retrovisor direcionava o olhar incisivo de Leandro para toda a movimentação no banco de trás. O casal então tentou chamar a polícia através do celular da mulher. Ela digitou a mesma mensagem de socorro que o namorado, mas obteve o mesmo fracasso em transmiti-la. Ambos os aparelhos mostravam apenas uma barra, de um total de cinco, no indicador de sinal de telefonia. Talvez por isso não estivessem conseguindo enviar o torpedo. O trajeto pela via expressa foi silencioso. Victor e a namorada permaneciam concentrados na tela do dispositivo, ansiando por uma resposta da polícia,
na esperança de serem libertos daquele súbito rapto. O motorista os fitou diversas vezes, sem alterar a expressão, deixando indefinido se estava desgostando ou menosprezando os passos de suas vítimas em tentarem se salvar. Tampouco se manifestou sobre a aparente denúncia. Manteve-se indiferente, apenas seguindo adiante, até sair da via expressa por um escape lateral. — Leandro, nós... — disse Victor, hesitando um pouco, avaliando o risco de se pronunciar, e enfim continuando. — Nós precisamos saber, pelo menos. Por que você está nos sequestrando? — Ele reduziu o tom de voz ao findar a frase, como se falasse algo obsceno para sua realidade. — Mas não é um sequestro — respondeu Leandro, sem tirar os olhos da rua por onde guiava. O casal de entreolhou. Foi a vez da mulher se pronunciar: — Então o que é? Um trote? Por que você não parou onde queríamos...? — Eu estou lhes transportando. Estão confortáveis? — indagou o motorista, em inconveniente cordialidade. — Leandro, o que está acontecendo?! Você quer resgate? Podemos lhe pagar agora um valor mais alto que o da corrida! — disse Victor, numa tentativa de negociação boquirrota. — Agradeço a oferta financeira, senhor Victor. Mas não há pagamento que compense o prazer de lhes transportar. Não há. Quase que telepaticamente, o casal optou por
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crer que o motorista estava blefando. Se não o estivesse, aquele seria um caso idiossincrático de sequestro, em que o criminoso não o faz por dinheiro, e sim pelo próprio ato em si. Observaram o bairro onde estavam, e concluíram que haviam cruzado quase todo o município. Estavam no lado oposto ao da residência de Victor, onde deveriam ter sido deixados se fosse uma viagem normal. Talvez a polícia tivesse recebido os pedidos de socorro, mesmo que os celulares dissessem o contrário. Talvez já estivessem em sua busca. Esse pensamento se alojou em suas mentes para mantê-los atados ao fio de calma que ainda não se arrebentara. De resto, era somente temor, medo penetrante que já estava entranhado. — Leandro — chamou Victor, aparentemente controlado. — Posso te pagar quanto quiser agora. Pode levar meu relógio, meus sapatos, as joias da minha namorada. Leve meus cartões de crédito e eu até te passo as senhas. Mas por favor, não nos faça mal... O motorista os olhou pelo retrovisor com uma expressão de decepção. — Fazer-lhes mal...? — questionou, em tom triste. — Eu jamais faria isso. Vocês são meus passageiros, e eu lhes proporcionarei todo o conforto possível. — Escute, Leandro — intercedeu a namorada de Victor. — Não sabemos quem você é, e por que está fazendo isso. Mas por favor, nos liberte. O que quer de nós?
— Vocês são meus passageiros — repetiu o motorista. — Eu estou lhes transportando. E eu quero, realmente, continuar lhes transportando. A situação era muito peculiar. Era uma conversa anormal entre vítimas e raptor. — Mas nosso destino ficava do outro lado da cidade. Por que você está nos trazendo aqui? Aonde está nos levando? — perguntou Victor, percebendo que Leandro podia ser estranho, mas não esboçava ser violento. Mas não houve resposta por parte do motorista. O casal se abraçou no banco traseiro do carro, apreensivo com os próximos movimentos. Tentaram novamente pedir socorro, dessa vez a parentes e amigos. — Ela, a seu irmão, e ele, a seus colegas com quem estava junto há pelo menos uma hora atrás. Os pais de ambos eram idosos e não seria saudável lhes relatar um sequestro-relâmpago no meio da madrugada. Mas tudo foi em vão. Nenhuma mensagem chegava ao seu destino, fosse por SMS ou por aplicativo online. Os sinais de telefonia e internet móvel estavam péssimos. E, no celular de Victor, o aplicativo ViaRápido insistia em surgir na interface mesmo sem ter sido acionado. — Gostariam de comer ou beber algo? — indagou Leandro, como se fosse normal fazer uma pergunta destas naquela situação. — Queremos sair, Leandro. Nos deixe ir embora. Por favor — suplicou a namorada de Victor, se aproximando do motorista.
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— Senhorita, não posso deixá-los aqui. Esse bairro não é tão seguro. Prezo pela integridade de meus passageiros. — Mas por que não nos deixou onde queríamos? Por quê? — insistiu a passageira. — Porque eu preciso transportá-los. É o meu trabalho, e sempre tentarei fazê-lo com o máximo de esmero — respondeu o motorista, tirando a mão direita do volante e colocando-a no peito, em cima de onde batia seu coração. Foi então que o casal decidiu tramar uma rota de fuga. Comunicação através de gestos, como se pudessem enganar o motorista que os raptava — mesmo que não acreditassem que funcionaria. As mãos de Victor passaram bastante tempo gesticulando, apontando para os botões que regiam o vidro lateral-traseiro, até indicarem um salto quase cinematográfico da moça. Ela, em contraponto, tentava dissuadir o namorado da ideia e gesticulava outro plano. Mas faltava compreensão mútua. Decidiram então escrever mensagens no aplicativo de nota do celular dela. O atencioso motorista Leandro não conseguiria ler. “Podemos nos machucar muito se pularmos do carro em movimento”, escreveu a namorada a Victor. “Tem que ser no semáforo.” “Mas a essa hora estão todos em amarelo.” “Quando ele reduzir, em cruzamento. Vá primeiro, eu vou depois.” E a moça encerrou a trama com uma expressão lastimosa ao digitar:
“Não quero morrer.” “Não vamos morrer. Vamos sair dessa.” Alguns minutos depois, veio aquilo que o casal considerou uma chance de escapar. Leandro reduziu a marcha nas proximidades de um cruzamento, olhando atentamente para os lados. Victor indicou para a namorada que ela devia abrir a porta ao seu lado e pular do veículo, imediatamente, sem hesitar, sem pensar no impacto com o mundo lá fora. A moça, assustada, tentou acionar a trava, mas não conseguiu desfazer a tranca. Antes que Leandro imprimisse nova aceleração ao carro, Victor, ágil, se debruçou sobre a namorada e tentou forçar a trava. Mas também não conseguiu abrir a saída do veículo. A peça de plástico não se movia, parecia que havia se fundido ao resto da porta. Tampouco funcionava o botão de acionamento do vidro. O carro parecia uma cápsula, que os trancafiara. O mais intrigante era a ausência de reação por parte do sequestrador. Ele sequer olhara pelo retrovisor enquanto seus passageiros tentavam escapar. Agora, rodavam por um bairro mais distante do centro. Era menos denso, de casas mais simplórias e iluminação mais precária. Penumbras se desenhavam por extensos muros pichados e galpões cercados de grades e arames farpados. Alguns viadutos enfatizavam o teor industrial da região. “Vou tentar imobilizar”, dizia uma nova mensagem escrita por Victor em seu celular. “Mas ele pode estar armado”, respondeu a namorada, em seu próprio aparelho.
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“Mas é o único jeito. Ele não vai deixar a gente sair.” “Vai bater o carro e vamos morrer.” “Espera ele reduzir e puxa o freio de mão.” Quando estavam saindo daquele bairro cinzento, em direção a um dos acessos de uma via expressa, Victor executou o plano silenciosamente tramado. Durante toda a viagem estivera posicionado atrás do banco do motorista, e valeu-se disso para, em ato repentino, envolver o pescoço de Leandro com o braço direito e comprimi-lo contra o encosto de cabeça do banco. — O freio de mão! Puxa o freio de mão! — gritou Victor à namorada, enquanto o veículo adquiria uma leve trajetória em ziguezague, uma vez que seu motorista tirara os braços do volante e tentava se desvencilhar do atacante. A mulher acionou imediatamente o freio, intensificando o movimento serpeante do carro por um instante, o qual sucedeu uma derrapagem circular, que se findou em solavanco. A luta entre Victor e Leandro continuou, mesmo com carro parado, até o passageiro tentar se debruçar para os bancos da frente e levar um soco com as costas da mão do motorista. O golpe afrouxou o braço que envolvia seu pescoço e tombou o passageiro, para novamente ter contato pleno com o banco traseiro. — Desculpe, senhores. Tive que fazer isso para me livrar do seu ataque — disse Leandro, absolutamente calmo, enquanto soltava o freio de mão e punha o carro para andar novamente. — Há dois
kits de primeiros socorros embaixo dos bancos dianteiros. Podem pegar um. Há álcool em gel, antisséptico, gaze e curativo. E uma bolsa térmica no frigobar, se estiver inchando. — O que você é?! Um psicopata?! — indagou a moça, enquanto afagava o rosto golpeado do namorado. A esta altura, já estavam trafegando pela via expressa. Ao fundo do panorama, o centro da cidade se erguia como pilares iluminados à meia-luz. — Sou apenas um motorista. O motorista que está transportando vocês — disse Leandro, encontrando o olhar da mulher pelo retrovisor. — Mas não queremos mais rodar com você. Já era para ter nos deixado onde queríamos — respondeu a mulher, enquanto o namorado mexia com as próprias mãos o septo nasal dolorido pelo impacto. Não houve resposta de Leandro. O casal olhou novamente os celulares. Não havia sinal. Não havia conexão com internet móvel. Estavam isolados dentro daquele veículo. À mercê de um motorista louco que os guiava em direção a lugar nenhum. O casal se abraçou então, enquanto ainda rodavam pela via, com esperança de que o gesto de carinho e união lhes entregasse uma saída para a angustiante situação. Foi quando chegaram a um cruzamento que a namorada de Victor percebeu um celular aos seus pés. Não era o seu aparelho, tampouco o do namorado. Era o celular do motorista sequestrador, que caíra do suporte no painel ao receber um esbarrão
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durante a luta corporal. Em um passo instintivo, a mulher segurou o dispositivo, que mantinha acesa a tela — desbloqueada. A primeira coisa que lhe chamou atenção foi a barra de sinal, zerada. Ausência total de internet móvel. Até mesmo para o celular do motorista, o carro era hermeticamente fechado ao recebimento de ondas. Intrépida, a mulher penetrou mais e mais pelo celular de Leandro. A lista de contatos era algo extremamente peculiar. Todos os registros continham o nome do aplicativo de transporte, seguido de uma tralha e um número — “ViaRápido #1”, “ViaRápido #2”... Parecia uma sucessão de unidades acuradamente numeradas. Porém, não foi isto que lhe chamou mais atenção. A passageira estremeceu ao constatar que a lista parecia infinita. Rolou pela interface de contatos até chegar no registro “ViaRápido #3442284”. Com movimento do polegar, desceu mais no inventário. A tela exibia o “ViaRápido #7892243”. Se descesse mais, veria os números subsequentes. Não que ela entendesse muito de tecnologia. Mas do pouco que sabia era capaz de concluir que nenhum celular poderia portar um milhão de contatos, mesmo com auxílio de cartões de memória e entrelaçamento com servidores de e-mail. Ela findou sua nauseante visita à agenda do motorista quando atingiu o registro que se dizia o bilionésimo — seguido por intermináveis contatos. Ofegante, em parte pelo nervosismo de estar em uma situação absurdamente anormal, a passagei-
ra invadiu o álbum de fotos. Ali, havia sorrisos e outras manifestações de alegria estampadas em rostos. Acima do álbum, havia a indicação de “665 imagens”. Pelo menos, havia uma contagem finita. Um limite, algo que termina em alguma fronteira aritmética. Nas fotos, três faces quase sempre estavam presentes. Uma mulher, que aparentava ter a mesma idade que Leandro, e duas crianças, um menino e uma menina. As situações nas quais foram registradas eram das mais diversas, mas todas tinham em comum o fato de estarem se divertindo de alguma forma. — Sua família? — indagou a passageira, virando a tela do aparelho em direção ao retrovisor. — Não tem medo de que façamos algum mal a ela, se continuar nos sequestrando? — completou ela, forçando uma vilania que não lhe era intrínseca. — Sim, é minha família — respondeu Leandro, sem se abalar. — É por ela que vivo, que trabalho, que ralo dia após dia para garantir o sustento. — Agora sei quem são — disse a passageira, para em seguida fotografar a tela do celular do motorista com seu próprio aparelho. — Leandro, se você não parar este carro, podemos fazer muito, muito mal à sua família. Podemos machucá-los, sabia? Você não sabe com quem a gente está metido... — Ela sentiu um ligeiro gosto de prazer em sua maldade falsária. — Você está louca? — indagou Victor, até então calado. — Ele pode matar a gente se continuar ameaçando. — É claro que não vou matá-los — alegou o mo-
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torista — Estou lhes transportando. É meu dever zelar por sua integridade e conforto. — Você está drogado? Isso não faz sentido! — exasperou Victor. Circulavam agora pelas imediações do centro da cidade. Ruas desertas. Enormes edifícios comerciais apagados como blocos colossais de concreto. De vez em quando, mendigos eram avistados em suas profundas desolações. Semáforos piscavam em amarelo, ditando o ritmo do lento pulsar da alta madrugada. O carro negro foi o único elemento móvel por quase todos os quarteirões, à exceção das ratazanas. — Estão confortáveis? Gostariam de comer ou beber alguma coisa? — perguntou o motorista. — Vá se ferrar! — esbravejou Victor. — Se quer matar a gente logo, mata de uma vez! Se quer dinheiro, pede de uma vez! Para com esse joguinho de “motorista atencioso”! — Não quero matar ninguém, tampouco dinheiro. Apenas quero lhes transportar. É o meu trabalho. — Mas você não pode nos transportar para sempre — interveio a passageira. — Desculpe lhe contradizer, mas posso sim. O aplicativo garante isso como direito do motorista. — Seu idiota — disse a mulher. E depois veio o silêncio. Não houve troca de palavras até os primeiros raios de sol surgirem por trás das construções e árvores de parques e praças. O brilho em azimute transpassou os vidros fumês e
iluminou os rostos dentro do veículo. Foi a primeira vez que os passageiros vislumbraram o estranho motorista à luz do dia. O celular da namorada de Victor era o que tinha mais carga na bateria. Estivera sendo alimentado por um carregador portátil, e foi usado para uma nova conversa silenciosa. “Quando ele parar no posto de gasolina, vamos tentar sair”, escreveu ela. Victor concordou com um aceno de cabeça. Mas os passageiros esperaram uma parada no posto de gasolina que jamais se concretizava. Espiando por cima do ombro de Leandro, observavam atentos ao medidor de combustível do automóvel. Talvez tenham se passado várias horas da manhã quando constataram que o ponteiro não se mexia. — Leandro, sobre essa história de “transportar para sempre” ... — chamou Victor, enquanto via a paisagem de um bairro residencial se perfilar lá fora. Já haviam circulado por ali durante a madrugada. — Sim? — Não pode ser “pra sempre”. Alguma hora você terá que parar, pelo menos para comer. A afirmativa pareceu atingir certeiramente o pensamento do motorista. Ele levou um minuto para responder. — Mas o aplicativo garante que seja para sempre. Ele fornece suprimento eterno de comida. — É impossível. Alguma hora tem que parar — disse a namorada de Victor. — Não posso parar. É meu trabalho. Vocês são
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meus passageiros... —... “E é meu dever zelar pela segurança e conforto de vocês.” — completou Victor, imitando em tom irônico a voz do motorista. — Fico grato que o senhor reconheça meu esforço em ser um bom motorista. — Ah, vai tomar no... Mas antes de Victor completar seu praguejo, sua namorada o segurou pelo queixo e, com força, virou seu rosto para o vidro à sua direita. Havia um ônibus parado ao lado, perante o semáforo. Imediatamente, o casal começou a gesticular aos passageiros do coletivo, suplicando por ajuda com as mãos abertas que acenavam loucamente. Mas o vidro escuro não permitiria tal comunicação. O casal via as pessoas sentadas, em posição mais elevada. Porém, ninguém o enxergava. O casal gritou, no mais alto volume que alcançavam seus pulmões, mas nenhum som saía daquele carro. Bateu no vidro, mas nenhum impacto transpassou ou chamou a atenção do lado externo. Ninguém viu ou escutou o desespero do casal confinado naquele carro. Não parecia haver saída. O veículo era uma prisão. Rodaram por mais regiões da cidade, por distantes e labirínticos bairros que nunca haviam visitado antes. O sol ascendeu no horizonte, atingiu seu zênite, para depois pender cada vez mais em direção à fronteira de tudo o que perdia de vista. As horas vespertinas adentraram pela cidade, reduzindo a luz a cada minuto que passava, trazendo a noite.
Foi em algum quilômetro da jornada incessante que o casal caiu no sono. Exausto pela aventura que estavam sendo forçados a viver, acometido de uma angústia implacável de estar vagando sem destino nas mãos de um estranho. O estado de torpor do casal durou quase um dia inteiro. Quando voltaram ao estado pleno de vigília, perceberam que diferentes sensações se implantaram em seus corpos. A namorada de Victor precisava muito urinar. E ele sentia muita fome e sede. — Leandro, preciso ir ao banheiro — anunciou a moça, esfregando os olhos e observando a avenida por onde passavam. Ela beirava um lago rodeado de condomínios de luxo. Já era noite. — Use o aplicativo — respondeu o motorista, sereno. — Leandro, ela quer mijar — disse Victor, com ódio. — Estou dizendo para usar o aplicativo. — Você está muito doente da cabeça... — disse a passageira, fitando os olhos de Leandro com desprezo através do retrovisor. — Não acreditam em mim? — indagou Leandro, em tom lamurioso. — Pois abram o ViaRápido. Na interface inicial, abaixo do link “Ver viagem atual”, há o link de “Configurações”. Nele, acessem o item “Configurações pessoais”. Dentro desta pasta, há a opção “Necessidades fisiológicas”. Desmarquem essa opção para não precisarem mais ir ao banheiro. Aquilo soava como um devaneio pesado de uma pessoa que estava longe de sua sã consciência.
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Movido pelo desdém, Victor seguiu as instruções do motorista e acessou o aplicativo ViaRápido em seu celular. Sim, havia a subpasta de configurações pessoais. E a descoberta da opção sobre necessidades fisiológicas deixou boquiaberto o casal, causando-lhes dúvida de suas próprias sanidades mentais. — Não pode ser.... — disse a passageira, para em seguida sentir sua urgência em urinar desaparecer por completo, no momento em que seu namorado desativou a opção que a regia. — Mas ainda estou com fome — alegou Victor, abismado com o que se sucedera dentro do veículo. — Nessa versão do ViaRápido ainda não há opção de desativar a fome e a sede — disse Leandro. — Estão prometendo essa função na versão três ponto zero. Mas fiquem tranquilos que ninguém passa necessidade dentro de um carro da ViaRápido. Aqui tem comida e bebida. — Mas alguma hora isso vai acabar. Teremos que parar, senão você também vai morrer de fome — disse a namorada de Victor. — Não, não será necessário. O ViaRápido fornece comida e bebida quando quisermos, eternamente. — Isso é impossível — contra-argumentou Victor. — Não, não é. Por favor, acreditem em mim. E prosseguiram em direção ao centro. Durante aquelas vinte e quatro horas de circulação ininterrupta, já haviam dado a volta em toda a cidade. Não havia nenhum bairro pelo qual não tivessem passado. Haviam trafegado por todo o espectro de
congestionamentos e por todas as formas possíveis de logradouros, desde ruas, avenidas, vias expressas, rodovias, alamedas, boulevards, túneis e travessas. O incansável automóvel avançava intrépido pela metrópole anoitecida. Victor e sua namorada acabaram comendo, vencidos pela fome. O motorista lhes fornecera frutas e croissant, algo como um desjejum matinal fora de hora. Tomaram chá de camomila, enquanto observavam a sucessão de endereços e construções nas vias por onde passavam. Criam que a esta altura já deveria haver patrulhas à sua procura. Familiares, tanto os dela quanto os dele, já deviam ter acionado as autoridades por causa de seus sumiços. Este pensamento acalentou os corações de Victor e da namorada, enquanto eles assistiam o dia raiar mais uma vez. Aquele segundo dia de cativeiro móvel assemelhou-se ao primeiro em muitos aspectos, exceto por uma certeza que se solidificou para as vítimas: o combustível do carro jamais acabava. De modo sobrenatural, o veículo parecia capaz de circular interminavelmente. E foi notado que Leandro também não se alimentava. A situação dentro do veículo não poderia ser mais assustadora. — Podíamos ligar de novo a opção de xixi e cocô — sugeriu a passageira, em sussurro, quando anoiteceu novamente. — Se cagássemos no carro todo ele ia ter que parar por causa do fedor. — Não sei se ele sente cheiro — disse Victor. — Acho que não é humano.
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O celular de Victor estava conectado ao carregador USB do automóvel. Um pequeno detalhe em sua tela azulada chamou a atenção do passageiro nesse instante. Havia um ponto de sinal telefônico. Um solitário ponto após um mar de ausência. O celular foi agarrado pelo dono, com voracidade, como uma presa que é capturada pelas garras tenazes de um predador faminto. Os três dígitos da polícia foram inseridos no discador e uma chamada foi iniciada. Chamando... Chamando... mas do outro lado da linha falava alguém do aplicativo. — Você ligou para o Serviço de Atendimento ao Cliente do ViaRápido — disse uma voz feminina do outro lado da linha. — Para consultar nossas promoções, tecle um; para consultar faturas, tecle dois; para registrar reclamações e sugestões, tecle três; para alterar seus dados cadastrais e de pagamento, tecle quatro; ou espere na linha para falar com um de nossos atendentes. Victor olhava apavorado para a namorada. Não conseguia compreender o que estava acontecendo. O aplicativo — demoníaco — parecia reinar dentro daquele carro em movimento. Ele decidiu esperar na linha, para tentar falar com alguém da empresa. — Boa noite. Senhor Victor Souto? — disse uma funcionária do ViaRápido. — B-boa noite. Sim, sou eu — relatou Victor, olhando Leandro através do retrovisor. — O motorista desviou do caminho. Ele não nos deixou no
destino e está rodando com a gente há mais de um dia! — Em que posso ajudar, senhor? — respondeu a atendente, em tom protocolar. — Estou rodando com um motorista há mais de um dia! Ele desviou do endereço de destino e não quer nos deixar ir embora! É um sequestro! — Não entendi, senhor. — Estamos sendo sequestrados pelo motorista! — Nossos motoristas parceiros não estão habilitados a sequestrar passageiros. — Mas ele não quer nos deixar ir embora! Ele nos prendeu dentro do carro! — Então, senhor, vou lhe explicar: o ViaRápido é um aplicativo de transporte. O senhor solicitou um transporte, e o motorista mais próximo ao local de chamado lhe atendeu. Ele está apenas lhe transportando. É normal que o passageiro fique dentro do carro. Pois do contrário deixa de ser transporte. — Mas era para ter me deixado onde eu queria! — Então: se ele tivesse lhe deixado onde queria, não seria mais transporte. O motorista está cumprindo o trabalho dele normalmente. — Mas eu exijo que ele me leve até onde eu quero! — O senhor pode ir aonde quiser, contanto que fique dentro do carro. Está no contrato de adesão ao serviço do ViaRápido. — Mas isso é sequestro! Vou acionar a justiça! Esse aplicativo é de sequestradores! — Senhor, não podemos respaldar a sua revolta,
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porque o senhor mesmo concordou com os Termos de Uso. Se quiser registrar alguma queixa contra o motorista... — Sim! Sim! Registre que ele está raptando e mantendo em cárcere os passageiros! — Isso não é um problema, senhor. Nossos motoristas parceiros jamais sequestram pessoas. Apenas as transportam. Vocês estão sendo transportados, só isso. — Não pode ser... Não pode ser... Estou surtando... — disse Victor, afrouxando a mão e deixando o celular cair no banco. Sua namorada imediatamente pegou o aparelho e interagiu com a atendente: — Alô! Quem está falando? — Serviço de Atendimento ao Cliente do ViaRápido. Senhora? — Um motorista de vocês está nos fazendo reféns! — Não, senhora. Vou lhe explicar o mesmo que falei ao senhor Victor. O ViaRápido é um aplicativo de transporte... — Porra! Eu sei que é! Mas o que vocês vão fazer quando um motorista não quer parar? — Esta é a execução normal de seu trabalho. O motorista dirige o carro que transporta os passageiros. — Mas nós queremos parar! Queremos sair do carro! — Então, senhora. Isso não é permitido pelos Termos de Uso do aplicativo. — Então é um aplicativo de sequestro!
— Senhora, o ViaRápido é um aplicativo de transporte. Oferecemos como diferencial a possibilidade do passageiro ser transportado eternamente. — Mas não queremos! Queremos sair e ir para nossos destinos como sempre foi! — esbravejou a namorada de Victor, não crendo que estava tendo essa estranha conversa. — Senhora? Senhora? Nos Termos de Uso há uma cláusula que fala sobre a multa a pagar no caso de rescisão. — Ah! Agora chegamos a uma saída! — comemorou a passageira, fazendo um sinal de positivo com o polegar para o namorado. — Se desistirem de circular para sempre dentro de um de nossos veículos, terão que pagar a multa. — Quanto? Quanto é a multa? — A cláusula deixa bem claro: se não querem a eternidade usufruindo de nosso transporte, terão que pagar com suas vidas quando deixarem um de nossos carros. E por um instante a passageira não processou o que ouvira. — Poderia repetir? Não entendi — disse ela. — Senhora, a rescisão do contrato é paga com a própria vida do cliente. — Você está de sacanagem! — Não estou. A informação está bem clara nos Termos de Uso do aplicativo. Estou lhe enviando inclusive por SMS nesse momento. “Cláusula XXVIII — O cliente ou acompanhante de cliente que desistir de viver a eternidade como
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usufrutuário de nossos serviços de transporte deverá morrer assim que desembarcar. A ViaRápido S.A. se isenta de arcar com despesas de processos post-mortem, como velório, enterro ou cremação”, dizia a mensagem de texto recebida pelo celular de Victor. — Não é possível! Não é possível — dizia a passageira, em desespero lancinante. — Alguma dúvida, senhora? — Cala a boca, sua filha da puta! — E, dizendo isso, a namorada de Victor desligou a chamada. Mostrou ao namorado a mensagem. Era surreal. — Ouvi que ligaram para a Central de Atendimento — disse Leandro, enquanto paravam no semáforo. — Restou alguma dúvida que eu possa esclarecer? O casal se entreolhou, buscando confiança em acreditar que ainda estavam sãos, e Victor tomou a palavra: — Queremos sair, Leandro. Não temos medo do que tem lá fora. Nos deixe sair! — Mas, senhor Victor, a condição é clara: se desembarcarem desse carro, vão morrer. — Sinceramente, não acreditamos nisso. Para nós, vocês são um bando de malucos que inventaram esse negócio de transporte eterno. — Não somos. Somos apenas colaboradores de uma empresa que realiza transportes através de chamadas por aplicativo. Estamos seguindo as regras da empresa. — Então admite que são assassinos.
— Eu não. Não sou eu que mato os passageiros que saem. — Então como morrem? — indagou a passageira. — De várias formas. Mas eu nunca sujo minhas mãos. Victor e a namorada observaram, serenos, o lugar por onde passavam. Era um bairro de classe média das imediações do centro financeiro da metrópole. Casas se interpolavam com prédios baixos de varandas amplas. Era o mundo ao redor, que chamava pelo casal que antes lhe pertencera. — Pare o carro, Leandro, vamos descer — solicitou Victor. Ainda passavam ônibus àquela hora e eles poderiam pegar um em direção à residência da mulher, que ficava a vinte minutos dali. — Senhores, desculpe a intromissão. Mas tenho que lhes questionar: vão mesmo querer sair do conforto que ofereço dentro desse carro? Preferem a morte a uma vida eterna de regalias e despreocupações? — Não vamos morrer, Leandro. Porque não é verdade o que vocês dizem — afirmou Victor. Em seu mais íntimo pensar, estava paralisado de medo. Receava morrer assim que pisasse na calçada. — Tudo bem, senhor Victor. Eu fiz o que pude. Preciso de sua autorização para cancelar o transporte via aplicativo. Depois, nada mais será de minha responsabilidade. — Autorizo em alto e bom som. Cancele a viagem e nos deixe sair desse maldito carro!
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Leandro encostou o veículo ao meio-fio e ligou o pisca-alerta. Pegou seu celular e acessou o ViaRápido. Clicou no link “Dados de viagem”, e depois clicou no botão vermelho que dizia “Cancelamento”. Uma janela de diálogo surgiu, indagando “Tem certeza de realizar a ação?”. Leandro clicou em “Sim”. Automaticamente, ouviu-se o destravar das quatro portas do veículo. Saídas para o exterior. — Foi um prazer transportá-los. Tê-los como passageiros — disse Leandro, com pura sinceridade. — Sinto muito por terminar assim, com os senhores morrendo. Sem responder, Victor acionou a trava da porta ao seu lado e a abriu levemente. Pela primeira vez em horas ele sentia o ar lá de fora sem que este tenha sido processado pelo sistema de refrigeração automotivo. A noite estava fresca e agradável, ele percebeu, quando lufadas de brisa lhe tocaram a pele do braço. Abriu a porta até seu limite. Preparou-se para desembarcar do veículo. Mas então sua namorada lhe segurou pelo braço, de leve, mas o suficiente para demonstrar sua hesitação. A mulher acenou que “não”, com a cabeça. Ambos começaram a respirar mais fundo. Compartilhando medo. A rua lá fora parecia inofensiva. Fachada de sobrado art déco com postes centenários iluminando a calçada de pedras portuguesas. Árvores frondosas farfalhando sob ação do vento suave. Cartazes co-
lados em um muro próximo anunciando o festival de música que se realizaria na cidade dentro de uma semana. Rua silenciosa, adormecida pelo sábado que se transformara em domingo há poucos minutos. Não parecia haver perigo à espreita. A calma do lugar endossava a ideia de que a punição mortal do aplicativo era uma mentira. Victor chegou a pôr uma perna para fora do carro. Reunia coragem para prosseguir. Mas já não sabia de onde tirá-la. Dominado pelo medo, retrocedeu. Colocou todo o seu corpo dentro do veículo novamente e fechou a porta. Respirava de maneira muito profunda, sentindo um nervosismo como jamais sentira antes. Temia por sua vida, como nunca havia temido antes, nem quando havia sido vítima de assalto anos antes. — É possível desfazer o cancelamento, Leandro? — indagou o passageiro, tremendo como um todo. — Para sua sorte, sim. O ViaRápido possui uma margem de tolerância para desistência e retorno do cliente. Se você tivesse posto o pé na calçada, já não estaria aqui falando comigo agora. Mas como seu corpo não perdeu contato com o veículo, ainda o consideramos nosso passageiro. — Leandro, conte como outros clientes morreram — pediu a passageira. — Infelizmente, não posso. É sigilo profissional — disse o motorista, arrancando novamente com o carro, agora de portas travadas. — Fiquem tranqui-
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los, pois o aplicativo automaticamente detecta que nossa viagem vai prosseguir. Estão a salvo aqui dentro. — Leandro, que aplicativo é esse? Não é normal. Não é normal, de verdade... — questionou Victor, deixando-se afundar no banco traseiro. — O ViaRápido é um aplicativo de transporte. É sua razão de existir. Vocês são meus passageiros e eu estou transportando vocês. Seu conforto é... — E Leandro prosseguiu com o discurso formal já repetido outras vezes. Dentro daquele carro, havia conforto, de fato. A fome e a sede eram saciadas assim que despontavam. Não se precisava urinar ou defecar. Não era necessário banho, pois sempre se estava limpo e perfumado. Dentes estavam sempre higienizados. Ouvia-se música a gosto, em qualquer volume. Não importava a temperatura que fizesse lá fora, não importava a estação do ano. Dentro do veículo, sob proteção do ViaRápido, o clima sempre era ameno. E por todos os dias que sucederam aquele fatídico início de viagem, Victor e Dani circularam sem rumo por toda a cidade, revisitando os mesmos logradouros, bairros e distritos pelos quais já haviam passado incontáveis vezes. O sedan preto cruzava a malha urbana convicto de sua imortalidade material, realizando todas as combinações possíveis de vias para desenhar os mais diferentes trajetos no intrincado labirinto de ruas. Queriam sair, queriam ser livres novamente. Mas o medo os impedia e os mantinha reféns den-
tro do carro que nunca parava. Foram sufocados pela sensação de que nunca se chegaria a um objetivo, de que suas existências haviam se tornado adimensionais, sem fronteiras que as delimitassem. Privado de liberdade, em cárcere móvel, o casal foi perdendo a noção de tempo conforme as horas passavam naquela interminável viagem. Lentamente, foram surtando, perdendo o juízo, porque seu mundo agora era uma cápsula que se deslocava a quatro rodas. O último lampejo de sanidade se apagou quando perceberam que estariam ali não por toda a vida, mas sim pela eternidade, e nenhuma eternidade cabe numa vida.
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Baixando: Logado — Crie e gerencie senhas Instalando em seu dispositivo... Ele tomou um baita susto quando viu postagens de seu perfil em uma rede social, que não eram suas. Falavam sobre vários colegas, todas em tom pejorativo, como se fosse um necessário desabafo público, ainda que inconveniente. Depreciavam amigos com insultos caluniosos, provocavam outros com quem não tinha bom relacionamento e ofendia grosseiramente algumas meninas, enfatizando certos atributos físicos que afloravam na puberdade. Quando ele soube do fato, já era tarde, e naquele fim de manhã de sábado suas postagens já acumulavam uma cifra exorbitante de reações virtuais, desde curtidas até comentários de ódio. A propagação atingiu sua turma toda da escola, para depois se alastrar para outras da mesma série. Comentários choviam nas postagens, conforme nuvens de indignação se aglomeravam a cada repasse da informação. Teve comentários que corroboravam
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as postagens, sim, mas quando o faziam repetiam o mesmo tom rude da publicação original, utilizando-a como abre-alas para destilarem suas próprias frustrações e preconceitos. E quando ele soube que seus perfis de outras redes sociais também estavam contaminados pelas postagens que não eram suas, entrou em pânico. Aquilo era um desastre digital. Levou uma tarde inteira apagando as postagens, não sem antes inserir respostas que tentavam apaziguar os ânimos acalorados de quem lhe atacava através dos comentários. Passou a tarde fixado na tela do computador, e, quando já era noite, publicou uma nova postagem, com letras em caixa alta, alegando não ser o autor das anteriores e dizendo que seu perfil havia sido invadido. Sua mãe notou que algo estava errado naquele dia e ouviu o filho pacientemente, como já não fazia há tempos. Ele tomou um banho acalentador, e começou a se acalmar quando alguns comentários pipocaram em seu apoio. Permaneceu online quase a noite inteira, ansiando pelo aumento da onda de compreensão. Quando chegou domingo, muitos daqueles que haviam lhe atacado pareciam acreditar que tudo fora obra de uma invasão digital. Ainda assim, foi duro voltar à escola na segunda-feira. Ainda tinha gente com muito, muito rancor. Principalmente aqueles cujos nomes haviam sido citados e a partir deles criados hashtags jocosas que inflamavam suas feridas psicológicas. Olhares eram disparados com tristeza que se moldava em
raiva ao atingi-lo. Até mesmo a colega por quem ele nutria uma paixão juvenil demonstrava frieza. Das conversas de corredor, era ouvido que ela planejava denunciá-lo à administração da rede social por bullying cibernético, devido ao teor indelicado e ofensivo pelo qual uma postagem se referira a um imaginário ato sexual consigo. — Cara, você foi muito burro — dizia um de seus amigos mais próximos, enquanto compartilhavam o banco de reservas da Educação Física, aguardando sua vez de entrar no jogo. — Como deixou alguém entrar no seu perfil? — Não sei o que aconteceu. Eu tomo tanto cuidado para não deixar nada aberto por aí. — Assim não dá, Henri. Assim você se queima com geral — disse o amigo, ajeitando sua meia de futsal. — Sabe o que mais me preocupa? Não foi numa rede só. Outras duas também. A pessoa invadiu toda a minha vida! — E, dizendo isso, Henri levou as mãos à cabeça, baixando-a em sinal de desespero. — Você então usa a mesma senha pra tudo? — disse o amigo, enquanto observava uma falta violenta ser cometida diante de si. — Sim, sim — respondeu Henri, para depois estender uma explicação. — Você sabe como é, não é? Tenho a memória meio fraca e não ia conseguir guardar muita coisa. — Ah, mas aí é que está o problema. Se você usa uma senha só pra tudo, então fica pior ainda. Fica
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muito fácil de alguém te “hackear”. — Mas e daí? Se eu fizer uma senha diferente para cada login, eu não vou lembrar todas. — Quantos logins você deve ter? — Uns vinte, no mínimo — respondeu Henri, quantificando mentalmente. — E eu também não tenho criatividade para inventar vinte senhas diferentes. Geralmente se põe datas de aniversário, ou de coisas importantes na vida... — O que você pode fazer é baixar um aplicativo gerador de senhas. Eu uso um, esse aqui — disse o colega, exibindo o celular rapidamente a Henri, antes que o professor visse e o repreendesse. — Ele gera senhas de alta segurança. Foi desenvolvido pela empresa onde a minha irmã faz estágio. — Ok, obrigado. Quando eu chegar em casa vou baixar. Aquele foi o pior dia de Henri em toda a sua história escolar, desde o dia em que defecara nas calças ao ver um morcego voando entre árvores frondosas dos fundos do colégio — no entanto, era compreensível, pois tinha apenas quatro anos. O clima tornava-se muito pesado quando ele se aproximava dos colegas. Sua reputação social havia despencado em nível abissal. Quando chegou em casa, naquele dia, foi de encontro ao colchão, frontalmente. Sentia raiva de sua vida, raiva do mundo, e principalmente do algoz desconhecido que havia publicado as postagens em seu nome na internet. Ele se virou de barriga para cima e refletiu por arrastados minutos. Aquilo
era crime, concluiu. O culpado tinha que pagar por isso. Pensou em pedir ajuda à irmã de seu amigo. Afinal, ela trabalhava com segurança digital, e deveria ser capaz de rastrear o hacker. E foi então que esse pensamento o fez recordar da questão das senhas. Henri pegou o celular e acessou a loja virtual de aplicativos. Estava disposto a ter uma senha para cada login que fazia. Seria complicado, mas ele tentaria o esforço. O problema agora é que ele não se recordava do nome do aplicativo sugerido pelo colega durante a aula. Digitou “gerador de senhas” na barra de busca da loja virtual, e logo foi apresentado a dezenas de programas. Não tinha um critério bem definido, e escolheu o terceiro da lista, apenas porque não simpatizou com os dois primeiros. Sentiu uma crescente raiva da tecnologia, conforme via a barra de progresso de download ser preenchida em direção ao cem por cento. Em seguida, estava diante da interface do aplicativo “Logado — Crie e gerencie senhas”, de letras em neon azul sobre um fundo cinzento que imitava metal, muito bonito visualmente. — Que inteligente — disse Henri, sozinho, em puro sarcasmo ao perceber que um aplicativo que gerava senhas somente o fazia se você gerasse uma senha para ele. Ele inseriu uma sequência alfanumérica que mesclava sua data de nascimento com as iniciais de seus pais e de sua irmãzinha pequena. Jamais tinha usado essa combinação.
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O Logado era amistoso na relação com o usuário. Caminhar por suas funções era muito intuitivo. Ele não somente gerava senhas, como também as guardava num servidor que dizia ser inviolável. Dessa forma, sempre haveria um backup para se recuperar senhas esquecidas. E para isso não era necessário solicitar que tal código fosse enviado por e-mail ou por mensagem de celular. O aplicativo era capaz de parear com o sistema em questão e inserir a senha esquecida, caso o usuário solicitasse. Henri não tardou em montar sua lista de logins. Contabilizara dezoito no total. Desde plataformas de jogos multijogador até o sistema informatizado da escola, onde podia ver seus boletins e apostilas de aula. Agora, tinha dezoito senhas à sua frente. Todas geradas automaticamente pelo Logado. Ao lado de cada registro, o aplicativo indicava o nível de segurança do código, através da estimativa de quanto tempo levaria para se decodificá-lo. A maioria apontava para mais de mil milênios, e algumas poucas se diziam decifráveis em meio milhão de anos. Sentindo-se protegido digitalmente pelo Logado, Henri sorriu e em seguida caiu em um rápido cochilo para esfriar a mente, tentando se afastar ao máximo daquele dia. Pelo restante do dia, manteve-se alheio às redes sociais. Assistiu séries e jogou um pouco de videogame. Foi dormir um pouco mais cedo do que o de costume, com o celular ligado ao lado de seu travesseiro — afinal, era ele que o despertava para a escola.
O jovem sentia-se renovado ao acordar junto aos primeiros raios de sol que tornavam o céu azul-claro. Respirou fundo e esvaziou a mente de pensamentos ruins. Teria que lutar a cada dia para recuperar o prestígio perdido, para desfazer as inimizades criadas pela situação e voltar a ser querido pela turma. E sentia força para lutar. Sentia-se revigorado. Tomou um banho refrescante e depois comeu pão na chapa. Costumava ir a pé para o colégio, e naquele dia já estava pronto para sair dez minutos antes do que o habitual. Mas algo completamente inesperado lhe aconteceu. No instante em que ia cruzar a porta de casa, após se despedir da mãe e da irmãzinha, Henri sentiu o corpo estancar. A porta formava um ângulo agudo com a soleira, e por ela um indivíduo do tamanho de Henri passaria facilmente. Mas ele não conseguiu avançar. Parecia haver um escudo invisível que lhe retinha dentro de casa. Seus músculos ainda eram capazes de se mexer, mas apenas em movimentos para trás e para os lados de seu plano corporal, impossibilitados de movimentos anterógrados. Apavorado, Henri teve um sobressalto ao enxergar brancas formas que se materializaram à sua frente, pairando no ar, crescendo em todas as direções, como se estivessem sendo fermentadas. No instante inicial, eram pontos diversos que se aglomeraram como enxame, e depois se esticaram para virar traços, que se curvavam e se contorciam.
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Henri esperou um pouco, boquiaberto, para ver se era apenas uma ilusão. Somente desfez sua pose estática quando se deu conta que um terno de minutos havia se passado, e que as palavras persistiam diante de seus olhos. Atônito, ele estendeu a mão e tentou tocar numa das letras, no intuito de verificar se era palpável ou não. Com cautela, seus dedos suavemente curvados encostaram na última sílaba da palavra “usuário”, mas, surpreendentemente, nada aconteceu. Era como se a letra fosse um fantasma, que poderia ser vista, mas não sentida com o tato. E para maior espanto, um cursor havia surgido no local onde se digitaria o nome de usuário, e agora jazia piscando, como se esperasse uma entrada de teclado. Henri esfregou os olhos. Não conseguia acreditar que aquilo era real. Ele vasculhou ao redor, movendo a cabeça, buscando algum artefato que pudesse estar gerando tal imagem holográfica. Mas não encontrou. Parecia que as palavras e o cursor haviam se materializado diante de seus olhos por si só. — Mãe! Mãe! Chega aqui! — gritou Henri, em
plena agonia de estar paralisado e não conseguir avançar diante do login que pairava. — Que foi? — indagou sua mãe, da cozinha. — Vem cá! Por favor! Ela veio apressadamente. Viu o filho estático, diante da porta de casa entreaberta. — Que foi, Henri? — Ela perguntou, parando ao lado do filho. — Você está vendo? — E, dizendo isso, ele apontou para o login à sua frente. — O quê? As nuvens de chuva? Deu chuva para hoje, está levando guarda-chu... — Não, mãe! As letras. Tem letras no ar! A mãe de Henri olhou na direção em que ele apontava. Mas não havia letras no ar, como o filho dissera. Não havia nada, e ele apontava na realidade para o céu nublado lá fora. — Henri, o que foi? Não tem letras. Só a porta aberta. — Não, mãe! Tem letras aqui. Estou vendo. Estão na minha frente, é como um login de computador. — Meu filho, não tem nada! — E, dizendo isso, a mãe deu um passo à frente, e abanou a mão direita na altura dos olhos de Henri. Ela não via nem sentia nada. — Está vendo, não tem nada aqui! Agora, vá logo pra escola, para não se atrasar. Ela deixou o filho diante da porta, retornando ao interior da residência. Apesar de ter mantido a calma e tomado uma atitude corriqueira, sentiu uma ponta de preocupação germinar. Preocupação com a saúde mental do filho, tão abalado pelo turbilhão
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Ao final do movimento repentino, Henri pôde ver que as formas flutuantes eram letras, que escreviam no ar duas requisições: Nome de usuário: Senha:
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de encrenca digital. Talvez fosse a hora de buscar um psicólogo para o jovem. Ainda prostrado diante da porta, Henri tentou se mexer para frente, se libertar daquelas amarras invisíveis que o atinham. Mas seus músculos, por mais que trabalhassem em mútua contração e relaxamento, não eram fortes o suficiente para vencer a misteriosa barreira que se solidificara diante de si. Ela era como uma parede de ar, mas sólida e impenetrável. Henri sentiu cansaço depois de fracassadas tentativas. Seu corpo já reclamava, com cãibras e pequenas dores aqui e acolá. Havia realizado um esforço digno de aparelho de academia. E não conseguia, de maneira alguma, romper a barreira que solicitava login. Foi então que decidiu atender ao pedido. Com a mão trêmula, sentindo-se imbecil por fazer tal gesto, tocou o cursor em barra vertical, que piscava no ar. E viu algo ainda mais inacreditável se tornar visível a seus olhos. Um teclado virtual se abriu, logo abaixo da solicitação de login, em letras e contornos de teclas brilhando em azul neon. Mas Henri não sabia o que escrever. Tinha quase duas dezenas de senhas diferentes agora, e não havia mais informações na tela feita de ar sobre qual cadastro era aquele. O cursor continuava a piscar, aguardando a inserção do “nome de usuário”. Henri já estava a ponto de chamar a mãe novamente, porque acreditava que o teclado virtual era grande demais para passar despercebido a ela. Mas
antes que emitisse o primeiro fonema do chamado, ouviu um alerta de seu celular. Era um toque que ele nunca escutara antes, como se viesse de um aplicativo com o qual não estava familiarizado. Retirou o aparelho do bolso e acessou as funções, através da leitura de digital. Quem lhe chamara foi o Logado. O aplicativo agora exibia a lista de dados de login, e dava destaque, em marcação azul, para a entrada registrada com o nome “Residência — porta principal”. Henri instintivamente clicou no registro e logo veio aos seus olhos duas singelas informações:
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Nome de usuário: henri.lima_m@logado.com Senha: XCB7446_(dh&2J0) Ainda sem crer que estava fazendo aquilo, por mais surreal que fosse esta atitude, Henri digitou tais informações em seus devidos lugares na tela invisível, usando o teclado virtual. Ao inserir o último caractere do campo “senha”, sentiu a parede de ar se desfazer diante de sua pessoa, e as letras e palavras de acesso desapareceram de modo instantâneo. O jovem deu dois passos adiante e se viu rodeado pelo passador da porta, pisando no batente. Estava livre do enigmático estanque causado por alguma força desconhecida. O tempo perdido causou-lhe um atraso de dez minutos e ele não pôde assistir ao primeiro tempo de aula. Esperou em uma salinha contígua à coordenadoria da escola, junto a alunos menores que
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também não haviam chegado dentro da tolerância de horário. Henri ainda não digerira o estranho acontecimento daquele início de manhã. Talvez estivesse surtando. Estivesse ficando louco, criando alucinações. Seriam sequelas das aflições dos últimos dias, no mínimo. Não havia parede invisível de energia obscura, concluiu ele, em seu íntimo raciocínio, e atribuiu a paralisação de seu corpo à sua própria mente. Quando o sinal tocou, encerrando o primeiro tempo de aula, o inspetor foi até a salinha e chamou os alunos atrasados. Henri levantou-se, como os outros, e, com a mochila nas costas, dirigiu-se ao corredor que dava acesso às salas de aula. Viu professores transitando entre as turmas e acompanhou o de matemática até sua sala. O docente entrou, e Henri logo em seguida também o faria. Mas foi retido, a poucos passos da porta. Do mesmo modo que fora barrado ao sair de sua casa. Novo desespero. Henri começou a respirar mais profundamente. Gotas de suor se formaram em sua testa. Estava à beira de uma crise de pânico. Repentinamente, surgiu diante de si uma nova solicitação de login. “Nome de usuário” e “senha”, diziam as letras que pairavam no ar. Henri se arrepiou por completo. Aquilo parecia tão real quanto os outros elementos que compunham o corredor. Era idêntico ao que aparecera em sua casa. E igual era a sensação de impedimento, de não poder avançar.
Através do vidro da porta da sala, o professor de matemática fez sinal com a mão para que Henri entrasse. Mas o aluno permanecia petrificado do lado de fora, olhando vagamente para algo que o professor não poderia enxergar. — Henri Lima! — chamou uma voz vinda da entrada do corredor. Era o inspetor. — O que está fazendo aí fora? Entre na sala! Agora é aula! Mas o aluno não respondeu. Estava apavorado com a impotência em prosseguir, sentindo a barreira invisível que o impedia de ir adiante e entrar na sala de aula. Ele estendeu os braços e tocou o ar à sua frente, tateando a parede que não se via. Fez uma pantomima de múltiplos gestos. Não havia nada sólido, mas ele sentia que algo estava lhe bloqueando. — Ei, menino! Falei com você! — disse o inspetor, mais gravemente, enquanto caminhava em direção a Henri. — O que está fazendo parado aí? Henri não respondeu de imediato. Levou a mão direita à coordenada espacial na qual acreditava pairar o login. Ele encostou os dedos nas letras em azul brilhante, mas não obteve resposta de tato. As palavras não eram sólidas. — Henri Lima! Entre na aula! — disse o inspetor, já próximo do aluno. — O senhor está vendo? — O quê? — Isto — E, ao dizê-lo, Henri apontou para o ar, na altura de seus olhos. — É a aula de matemática! Você não pode ficar
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aqui fora. — Não é a aula que estou apontando — disse Henri, com a voz agoniada. — Tem uma coisa escrita, o senhor não está vendo? — Sim. Está escrito no vidro “segundo ano do Ensino Médio”. É a sua sala de aula. — Não! Tem uma coisa escrita no ar! — disse Henri, tentando uma trajetória anterógrada, sem êxito. Estava bloqueado novamente, e parece que somente ele via aquelas letras. — Henri, para com isso. Entre logo na sala! — Não consigo, senhor. Desculpe. Não consigo — disse o aluno, tentando mover seus músculos de forma que andasse em direção à porta da sala, sem sucesso. A essa altura, o professor já estava atento ao que se passava próximo à sala. Logo que terminou de copiar exercícios de álgebra no quadro branco, veio até a porta para falar com Henri e o inspetor: — Algum problema aí? — indagou o mestre. — Ele não quer entrar na sua aula — delatou o inspetor. — Henri, entra logo. A aula já começou e tem exercício pra resolver. Mas o aluno permaneceu sem sair do lugar. Sabia que só havia uma forma de sair do bloqueio. Pareceria bizarro, mas ele tinha que fazer mesmo diante dos adultos. — Professor, não consigo. Não é minha culpa... — disse Henri, clicando no ar, para que aparecesse o cursor. Em seguida, sob os olhares confusos do
professor e do inspetor, o jovem sacou o celular e viu as informações disponibilizadas pelo Logado, sobre o registro “Sala de Aula”. Apesar do nome de usuário ser o mesmo de antes, a senha havia mudado. Digitou nos devidos lugares, com o teclado virtual esparramado no ar, invisível, exceto para si. Tão logo inseriu a senha, sentiu-se livre e pôde caminhar para frente. Entrou na sala, passando pelo professor, como se nada de anormal tivesse acontecido. O inspetor, crendo que fora algo momentâneo e pontual, voltou à sua atividade. O docente fechou a porta da sala e retornou à concentração na regência da aula. Todavia, Henri sentia que algo estava totalmente fora da normalidade. Sua consciência esteve longe do conteúdo escolar durante aquela e as aulas seguintes. Se antes havia se convencido de que tudo fora truque de sua mente, agora já tendia a culpar o aplicativo Logado pelos estranhos bloqueios. Havia algo de sobrenatural naqueles eventos. Era necessário se desvencilhar do aplicativo o mais rápido possível, pensava ele, enquanto caminhava de volta para casa, no início da tarde. Já em seu quarto, acessou o Logado e percorreu a lista de logins. Estavam lá todos aqueles que ele havia inserido manualmente no dia anterior. O que não fazia sentido eram as duas novas entradas, que foram usadas para se libertar em casa e na escola. Convicto de que seria a solução, Henri acessou as configurações do aparelho e acionou a desinstalação do aplicativo. Confirmou que “sim” quando o
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sistema lhe perguntou se tinha certeza da operação. Porém, para sua surpresa, a barra de progresso da desinstalação não se preencheu nem um por cento, e logo uma caixa de diálogo surgiu na tela, dizendo “Logado solicita: inserir nome de usuário e senha”. Henri digitou seu endereço de e-mail do servidor do aplicativo e a senha que havia inventado para acessá-lo. Apertou “OK” com uma satisfação monumental. Mas obteve uma resposta desagradável: “Senha incorreta”. Ele saiu do modo de configurações do aparelho e acessou o aplicativo novamente. Adentrou seu link de instruções e leu sobre o processo de desinstalação. Nele, dizia que o próprio Logado geraria uma senha para tal comando, se fosse ordenado a isso. Henri, resoluto de que havia encontrado o caminho certo, o fez, e logo estava diante de uma complexa senha para se livrar do aplicativo. Copiou-a virtualmente e a colou quando o sistema lhe solicitou, novamente na interface de configurações. No entanto, novamente fora surpreendido pela mensagem: “Senha incorreta”. Ao acessar mais uma vez o tutorial do Logado, Henri encontrou a explicação para o problema. O aplicativo gera uma senha para sua própria desinstalação, mas ao se sair de sua interface, a senha já se torna obsoleta e inválida. Henri então copiou um novo código, dessa vez fisicamente com caneta e papel, e o inseriu no devido local. “Senha incorreta” lhe acometeu a vista. Ele pôde concluir, para seu desespero, que o aplicativo não poderia
ser desinstalado, pois era preciso sair dele e acessar as configurações para fazê-lo — e qualquer senha gerada não resistia a este processo. Ele ligou seu computador e pesquisou na internet sobre o aplicativo. Entrou com “Logado como desinstalar” num buscador e foi agraciado com uma miríade de resultados. Um dos primeiros sites apresentava um extenso tutorial de como lidar com o aplicativo, mas Henri concluiu que ele nada mais fazia do que repetir as informações disponibilizadas pelo próprio. Sobre a desinstalação, não acrescentava nada. E assim também era o segundo, terceiro, quarto e quinto site sobre o Logado. Não se falava sobre a aparente impossibilidade de desinstalar o programa do celular. Henri então desistiu da busca na rede e pegou novamente o celular. Ainda não conseguia acreditar fielmente que a causa daqueles dois episódios era o aplicativo. Não era algo plausível de acontecer. Ele ainda preferia crer que estava ficando louco. Ele passou alguns minutos absorto em seus pensamentos, quando foi chamado pela doméstica da casa, que havia servido o almoço. Sentado à mesa da cozinha, lhe foi servido um portentoso prato de arroz, feijão, batatas assadas e frango grelhado. Henri sentia fome, dado a hora, e o aroma da comida apenas lhe alargou mais o apetite. Com energia, segurou os talheres e dirigiu o garfo ao arroz morno. Mas não conseguiu alcançar um mísero grão. Acima do prato, agora pairava uma solicitação de login.
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“Nome de usuário” e “senha”. Henri fez força para que o garfo atingisse a refeição, mas uma barreira o impedia de avançar. Tentou usar a faca para romper o colchão de ar que se fizera entre si e o almoço. Nem mesmo a contundência da faca venceu o bloqueio. Buscando calma na profundeza de um suspiro, Henri repousou os talheres na mesa, sem aparentar nervosismo, e percebeu que a doméstica continuava fazendo suas tarefas normalmente — ela provavelmente não via as letras que flutuavam. — Aonde vai, Henri? — indagou a empregada, ao ver o filho da patroa se levantar. — A comida vai esfriar... — Vou pegar meu celular — disse o jovem, já saindo da cozinha. — Ai, guarda-chuva, a sua mãe não gosta que você fique de celular enquanto come! — repreendeu a doméstica. — Se não estivesse no trabalho, ela ia brigar contigo agora. Mas vai lá, pega e usa só um pouquinho. Henri trouxe o aparelho, vendo que o Logado gerara uma nova senha, dessa vez para o registro “Almoço”. O jovem esperou a doméstica se virar e digitou as informações de login, diante de sua refeição. Aquele já era o terceiro episódio em que algo o bloqueara em tarefas cotidianas, e já se sentia farto do jogo que não queria jogar. Durante o resto da tarde, Henri se concentrou na elaboração de burlas ao aplicativo. Não era bom em lógica, mas não poupou esforços mentais para
traçar um método de se livrar da ditadura virtual que lhe acometera. Acessou sites sobre programação, e até buscou compreender, mas desistiu diante de tamanha linguagem técnica. Enviou então uma mensagem de voz para o amigo que havia lhe sugerido usar um aplicativo de senhas. Nela, perguntava se a irmã do colega poderia lhe ajudar com um problema que envolvia programação. O amigo lhe respondeu prontamente, em texto, que falaria com sua irmã, e complementou com outra mensagem de voz: “cara, se você estiver falando isso só pra tentar pegar a minha irmã, saiba que ela tem namorado, e o braço dele é da grossura da sua cintura”. “Claro que não! Eu estou realmente encrencado com um aplicativo”, foi a resposta textual de Henri. Mas então o colega ficou offline e Henri nem pôde lhe relatar o que estava passando. E ele também tinha um compromisso ao final da tarde. Desde os treze anos fazia boxe tailandês. Era uma das atividades que mais lhe davam satisfação, ao extravasar sua energia adolescente dentro de quatro linhas do ringue. Com passos apressados, receando ser preso novamente pelo aplicativo que escravizava, Henri se deslocou até a academia onde treinava. Lá, ele se deixou levar pela dança marcial de jabs, swaks e dteh. Entrou no ringue com medo, sim, de que o Logado o petrificasse em meio a um duelo e que por conta disso se consumasse um nocaute por joelhada ou soco direto. Mas tudo transcorreu dentro da normalidade.
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Já de noite, ele tomou o rumo de casa, ao sair da academia de boxe. Levaria quinze minutos caminhando, porque a essa hora utilizava um percurso mais longo, embora mais seguro. No trajeto, pensamentos iam e vinham. Ele tinha medo do futuro, medo de ter que passar o resto da vida respondendo a logins que o aplicativo solicitava sem um porquê. Ele tinha que encontrar alguma forma de se livrar. Isso lhe preocupava mais do que o problema com seus colegas. Manteve-se absorto até chegar a uma avenida larga, que conectava seu bairro ao centro da cidade. O semáforo estava aberto para o tráfego, ele se juntou a uma dúzia de pessoas que aguardavam a retenção de veículos perante a faixa de pedestres. Henri foi um dos primeiros a iniciar a travessia quando o semáforo se iluminou de vermelho. Caminhou pelo asfalto ora negro, ora branco. Enquanto atravessava a avenida, olhava para as listras, que se alternavam. Henri sempre gostara de olhar para a faixa, desde que aprendera a andar sozinho pela rua, ainda criança. Teria concluído o percurso sobre o asfalto, se não tivesse sido bloqueado subitamente por um novo login. Que se materializara no meio da faixa de pedestres e o impedia de prosseguir. Duas pessoas que vinham logo atrás de si esbarraram com violência em suas costas, para depois reclamarem, enquanto se ajeitavam em rumo anterógrado. Henri não conseguia avançar em
direção à calçada oposta. Tomado pela adrenalina, ele enfiou a mão no bolso e pegou o celular. Como esperado, o Logado lhe informava uma senha, desta vez para o registro “Atravessar a Avenida Radial Leste”. Apressadamente, antes que o semáforo se acendesse em verde novamente, Henri começou a digitar as informações na tela invisível. Contudo, o jovem não havia se atentado a um detalhe inconveniente. Uma pequena minúcia na tela de seu celular: a última carga que o aparelho recebeu foi a que varou a noite. E, dado seu uso intenso durante o dia, já não exibia mais do que dois por cento no ícone da bateria àquela hora. A ativação do Logado terminou de exaurir a energia do dispositivo. Antes que Henri digitasse os dois últimos caracteres da intrincada senha que o permitiria atravessar a rua, o celular se apagou, com o logotipo do fabricante esmorecendo na tela de despedida. E nesse mesmo instante, o semáforo deu aval para os carros avançarem. Buzinas iniciaram uma irritante sinfonia de impaciência. Faróis piscaram frenéticos. Um adolescente estava atrapalhando o tráfego, prostrado no meio da faixa de pedestres. Apenas os carros que haviam parado nas faixas próximas ao meio-fio arrancaram. Aqueles que formavam a primeira fila das três faixas centrais permaneceram inertes, diante do empecilho humano. Um nervoso Henri não sabia o que fazer. Atormentado pelos avisos sonoros e luminosos dos motoristas, tentou romper a barreira criada diante de
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si, mas, a essa altura, já tinha se convencido de que não era possível. Ele andou um pouco para trás, e com toda a força que lhe sobrara após o treino de boxe tailandês, jogou-se contra a parede invisível que expunha o login, para descobrir que era um infeliz movimento. O impacto de seu corpo com o nada que lhe bloqueava produziu dores alucinantes. Era como se tivesse colidido com um muro de concreto. Os motoristas intensificaram o cantar das buzinas e as piscadas de farol. Os que ocupavam as duas faixas paralelas à faixa central, giraram os volantes para sair dali em ângulo obtuso, para prevenir o atropelamento do garoto que permanecia estático na via. Não tendo como avançar, com o celular impossibilitado de lhe mostrar a senha, Henri decidiu voltar para a calçada de onde partira. Assim que o tráfego foi liberado, motoristas passaram pelo rapaz chamando-o de várias coisas, dizendo que ele devia estar drogado. Aos olhos do rapaz, o login desapareceu por completo assim que ele tocou a calçada. Ele não conseguiria voltar para casa se não atravessasse a via. Pensou em contorná-la, mas para isso teria que andar quase dez quilômetros — a extensão da avenida, de ponta a ponta. E o pior de tudo era estar ciente que não conseguiria fazer nada que o aplicativo pedisse, porque seu celular estava descarregado. Henri se sentiu só, desprotegido, à mercê daque-
le demoníaco programa de celular. O adolescente percorreu uma pequena porção da avenida, em busca de algum estabelecimento que tivesse um telefone disponível, ou um carregador, ou na esperança de se deparar com um telefone público. Mas em meio a tanta mobilidade de comunicação, era raríssimo encontrar um destes. E ele morava naquela região desde pequeno, nunca tendo visto um telefone público naquela avenida. Vasculhou então a via por uns vinte minutos, passando inicialmente por pouco comércio, já com atividades encerradas. De vez em quando, passava em frente a um edifício residencial. Mas foi próximo a um centro comercial decadente, cuja maioria das lojas estava desativada, que Henri encontrou o oásis de uma farmácia aberta. Explicou que estava com o celular descarregado e que tinha que ligar para sua casa. Ele omitiu que morava perto, porque ninguém acreditaria que era incapaz de cruzar a avenida por causa de um aplicativo de celular que o bloqueava. A atendente da farmácia, simpática, lhe emprestou um carregador e permitiu que ele usasse uma tomada atrás do balcão. Tão logo um símbolo de bateria se acendeu na tela, tão logo Henri estava ligando o aparelho e ligando para a mãe. Ele alegou que não estava se sentindo muito bem e que precisava que ela o levasse até em casa, informando-lhe o endereço da farmácia onde estava. Tomada por preocupação, a mãe fez um desvio no caminho que fazia do trabalho até sua residên-
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cia e buscou o filho no local. Ele mentira dizendo que se sentia enjoado e indisposto. Rapidamente, já haviam percorrido o quarteirão onde se situava a farmácia e agora trafegavam por uma rua perpendicular à Avenida Radial Leste. Para chegar até em casa, deveriam cruzá-la. Henri se obrigou a acreditar que conseguiria, porque agora estava a bordo de um carro e não mais a pé. Duvidava que a barreira invisível suportasse a força de um carro. — Deve estar com uma virose, querido. Andou comendo alguma coisa diferente? — indagou a mãe, quando pararam no cruzamento da rua com a Avenida Radial Leste. — Não — respondeu Henri, lacônico por conta de sua própria ansiedade. O semáforo havia acendido a luz verde e agora o carro já estava na avenida. — Tem que maneirar nas comidas pesadas, sabe? E também tem que observar bem o lugar onde se... — Mas, antes que a mãe terminasse de falar, o carro derrapou em seu próprio eixo, com a traseira se deslocando para o lado esquerdo, completando um semicírculo ao parar em posição contrária à que entrou na avenida. Era como se o carro tivesse colidido com um poste, alguma barreira que estivesse no meio da via, e que tivesse acertado precisamente o banco do carona onde viajava Henri. O jovem havia, de fato, se machucado, mas nada o impressionava mais do que a assustadora visão que tinha, quando o carro parou de girar, da solicitação flutuante que exigia
seu nome de usuário e senha. Como o tráfego perpendicular estava retido ainda pelo semáforo em vermelho, motoristas saltaram de seus carros e foram acudir quem se acidentara. Carros que vinham atrás, na rua que cortava a Radial Leste, conseguiram frear bruscamente para evitar um engavetamento frontal. Um ferido Henri foi retirado do veículo por motoristas que socorriam, assim como sua mãe, que estava consideravelmente menos contundida. Se não fosse o cinto de segurança, talvez Henri tivesse morrido pelo efeito ricochete do pescoço, uma vez que o centro de colisão e o eixo da derrapagem fora seu banco. Henri e a mãe foram levados para um hospital por um taxista que presenciara o acidente, e os pontos que doíam foram analisados por radiografia. Felizmente, não havia fratura em nenhum osso. Cortes foram costurados e analgésicos receitados. O que ninguém conseguia entender é como se dera o acidente. Os pneus do carro estavam novos. Não parecia haver resíduo de óleo na pista. Tampouco estava molhada por água da chuva. Não fazia sentido um carro derrapar daquele modo, como se tivesse batido num obstáculo invisível. Muito menos a destruição da lateral direita do veículo, previamente estudada quando ele foi rebocado pela seguradora. Quem levou Henri e sua mãe de volta para casa foi a tia do jovem. Mas dessa vez, o adolescente havia se prevenido e não desafiado o Logado. De
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modo obediente, digitou a senha quando solicitada, ao cruzarem a Avenida Radial Leste. Minutos depois, estava em casa, no conforto de sua cama. Já era alta madrugada e ele decidiu se abrir com a mãe. Ela estava exausta, em ressaca de adrenalina, mas ainda assim deixou que o filho contasse uma mirabolante estória na qual baixava um aplicativo de gerenciamento de senhas, que depois o obrigava a realizar logins em situações do cotidiano. Não adiantou Henri argumentar. Não adiantou ele mostrar o celular que expunha a interface do Logado. A mãe acreditava que aquilo era um delírio do filho e pensou consigo mesma que ele precisava de acompanhamento psicológico — o que começaria a providenciar no dia seguinte. Henri tentou dormir. Virou-se diversas vezes pela cama, sentindo-se agitado, um pouco elétrico. Foi até a cozinha e tomou água. De novo em seu quarto, procurou novamente uma posição confortável para relaxar, mas não a encontrou. Tinha uma ligeira ideia sobre o que estava causando aquilo — mas relutou em aceitar isso. De súbito, acima de sua cama, uma solicitação de login apareceu, como um letreiro de neon que jorrava luz azul pelo quarto escuro. Henri verificou a senha no celular e em seguida digitou no ar o que ordenava o registro “Dormir”. Caiu em um sono profundo assim que o último caractere do código se materializou através de um etéreo teclar.
Quando acordou, já passava da hora de ir ao colégio. Mas a mãe o havia liberado desse dia. Afinal, o susto da batida fora intenso, e ele já não se sentia bem antes. Henri despertou com uma sensação de peso sobre o corpo. Como se tivesse se esforçado de modo cavalar no dia anterior. Ele se levantou da cama e foi ao banheiro. Desejava profundamente que estivesse livre das garras do aplicativo. Porém, sem trégua, Henri foi obrigado a fazer login para tomar banho. E também para comer pão. E até mesmo para escovar os dentes ele teve que digitar uma senha no ar — do contrário, sua mão não conseguiria levar a escova à boca. A mãe não poderia faltar ao trabalho, e, mesmo exausta e preocupada com o filho, saiu cedo de casa. Henri decidiu que aquele seria um dia de teste. Tentaria de todas as formas se livrar do aplicativo. Deixou o celular desligado durante toda a manhã, e até animou-se com a ausência de logins — até ser acossado por um deles ao comer uma banana, o que o obrigou a ligar o aparelho para verificar a senha. Não quis almoçar, mesmo sob a insistência da empregada doméstica. Não ligou computador, nem tablet, nem nada eletrônico. Ele ficou trancafiado no quarto a tarde toda, com medo dos assombros que vinham em forma de espectro digital. Ao anoitecer, arriscou se comunicar com o amigo. Acessou o aplicativo de mensagens do celular e acionou a gravação de uma mensagem de voz. Henri sabia o que falar, sabia como falar, sabia como
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enviar. Mas de sua boca não saiu nenhum som. Ele teve que fazer login — do registro “Mensagem de áudio para o Jean” — para falar. “Jean, a sua irmã disse se pode me ajudar? Cara, está acontecendo uma parada surreal, bizarra, bizarra mesmo. Se eu te contar, não vai acreditar.” Mas Jean permaneceu offline pelas horas seguintes. E Henri continuou encolhido em seu quarto, encarcerado por vontade própria, até a chegada de sua mãe. Com sua tática maternal, ela conseguiu tirá-lo da clausura e fazê-lo jantar uma refeição decente, rica em fibras e vitaminas. Tentou de vários modos abri-lo para diálogo, para compreender melhor seus anseios e medos. Mas não conseguiu ir muito além do estranho discurso do filho, que insistia em relatar estar refém de um aplicativo de celular — o que não convencia a mãe nem um pouco. Mesmo ela tendo visto o filho hesitar fortemente em segurar os talheres, alegando estar sendo bloqueado por alguma força invisível, que só o libertou quando ele executou uma pantomima de digitação. Mesmo ela tendo visto o filho estancar o movimento em direção ao quarto, apenas prosseguindo quando tocou o ar múltiplas vezes após consultar o celular. Henri se preparou para mais uma noite de sono atormentada pela sensação de estar prisioneiro. Ele sabia que o dia seguinte seria igual — ou talvez pior, se o aplicativo começasse a limitar ainda mais sua autonomia em realizar ações diversas. Angustiado, ele trocou de roupa, escovou os dentes e
lavou o rosto. O trio de atos só foi permitido após fazer login. Um para cada. A coisa estava piorando. Henri se ajeitou na cama e fechou os olhos. Queria dormir. Desesperadamente, ele queria dormir. Mas não conseguia. Não era como se estivesse com insônia. Era como se seu corpo não lhe obedecesse, por mais sono que sentisse. Abriu os olhos e viu o pedido brilhando sobre sua face. “Nome de usuário” e “senha”. O celular, vivo por um quarto de bateria, emitiu seu característico toque de alerta para o Logado. Mas Henri decidiu se rebelar, dessa vez de forma capital. Pegou o aparelho ao lado de sua cama e o atirou no chão. A tela se trincou em inúmeras nervuras e se despedaçou ao ser pisoteada. Henri tomou em mãos uma raquete de tênis, que guardava pendurada em seu armário, e bateu com o aro violentamente no aparelho, indefeso no chão de taco. Em poucos segundos, após sucessivas pancadas, o celular já não funcionava mais. Já era sucata, inútil. Henri riu cinematograficamente maligno. Sentia-se como um protagonista de filme de terror que mata a criatura nociva da estória. Jogou a raquete no chão e esparramou-se na cama, adormecendo logo em seguida — e a satisfação lhe penetrando em todos os sonhos daquela noite sob a forma das mais variadas metáforas oníricas. Sonhou com campos abertos onde o horizonte se estendia em todas as direções. Sonhou com o espaço sideral, com uma viagem no vácuo pontilhado pelas luzes
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que emanavam de alhures. Sonhou com correntes sendo rompidas. Tudo remetia à libertação. Quando acordou, Henri apenas abriu os olhos e se virou para olhar o relógio de mesa. Era sábado, exatamente uma semana depois do infeliz dia em que lhe invadiram as redes sociais. Ele havia dormido bastante e agora a manhã atingira seu ápice. Henri até tentou se levantar. Mas percebeu que algo estranho ainda lhe impregnava. Sentia-se pesado. Como se estivesse atado à cama. Por amarras que não enxergava, mas que venciam sua musculatura abdutora. Ele ouvia os pássaros na árvore de seu quintal, mas no instante seguinte, todas as vozes aviárias foram esmorecendo, até se calarem. Ouvia sua mãe mexendo na sala, mas este familiar som também se esvaiu de sua audição. Tudo agora estava mudo, e Henri tinha a horripilante certeza de que não haviam se calado — ele é quem não estava mais escutando. Para lhe apavorar ainda mais, duas telas de login surgiram próximas ao teto do quarto. Talvez uma para movimento, e outra para audição. Henri também tentou gritar. Mas de sua boca não saiu nenhum som, ao mesmo tempo em que um novo login surgia ao lado dos outros. Era a solicitação que regia sua fala. Em seguida, seus olhos se fecharam de modo involuntário. Ele queria mantê-los abertos, mas as pálpebras se atraíram como se fossem magnéticas. Não via mais nada, a não ser a pretura da visão blo-
queada, mas sabia, de algum modo, que um novo login surgira acima de sua cabeça, como se este lhe permitisse a visão. Henri estava paralisado. Precisava do celular, precisava do Logado, mas sequer poderia virar o rosto e ver o aparelho completamente destruído ao lado de sua cama, como a sepultura de sua esperança em se salvar. A ele, apenas restou aceitar sua assustadora condição, para depois de alguns minutos, sentir o ar abandonar seu corpo e não mais retornar. Sensação de sufocamento. Henri tentava, mas não conseguia respirar. Todas as agonias, enfim, se apagaram lentamente. Tudo escureceu. Acima de sua cama, flutuando como um holograma, um novo login havia se materializado, aguardando que em seus campos fossem inseridos o nome de usuário e a senha.
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Virtual
Baixando: Rob — Amigo virtual Instalando em seu dispositivo... Ele pensou muito no que fazer com o antigo celular, obsoleto quando se queria instalar novos recursos e atualizar o sistema. Há anos que não trocava de aparelho, e agora carregava consigo um novíssimo modelo que trazia os mais recentes incrementos em tecnologia de comunicação, segurança e entretenimento. Esquecido numa gaveta do quarto, o velho dispositivo saiu do ostracismo dois meses após a aposentadoria. Sua filha havia conseguido aprovação numa das mais renomadas escolas da cidade, e todo o mérito veio de sua dedicação para com os estudos. Disciplinada, todas as tardes a criança se exauria de resolver exercícios de língua e matemática com professoras particulares, desviando dos livros apenas para estudar as partituras de suas aulas de piano. O pai, orgulhoso pela dianteira que a menina assumiu na classificação seletiva, decidiu presenteá-la com o celular. Seria o primeiro de sua
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vida — um de verdade, não daqueles infantis que meramente simulam um telefone móvel. E que felicidade a criança exprimiu ao receber aquela caixinha em mãos, numa ocasião que não teve especialidade, e se fez apenas pela simplicidade de um chamado à sala de estar. Houve sim um breve discurso paterno sobre maturidade, corroborado pela mãe que pontuava responsabilidades entre as frases em tom de sermão. Mas foi tão objetivo, que logo a menina estava com o aparelho ligado à sua frente, explorando com seus dedos leves e finos a tela sensível ao toque e descobrindo as funções de cada ícone. Com aquele celular, ela poderia se comunicar com os pais e irmãos, e também estava liberada para baixar aplicativos, contanto que mostrasse aos pais do que se tratava. Foi consenso de ambos, porque lhes assustava os relatos de casos de pedofilia e outros aliciamentos que pipocavam na mídia e nos círculos sociais familiares. Naquele mesmo dia, a menina baixou três aplicações — uma sobre moda, em que maquiava e escolhia roupas para uma bonequinha; um piano virtual, espécie de joguinho; e o comentado aplicativo Rob, que estava fazendo sucesso em sua faixa etária. Quando se acessava este último, deparava-se com uma tela azul, de onde surgia um personagem de olhar amigável e aspecto de dez anos de idade. Abaixo da pequena sombra que o bonequinho fazia num chão invisível, se dispunham cinco ícones,
que davam acesso a diferentes funcionalidades. Já conhecendo de cor todo o mecanismo operacional do programa, a menina customizou a roupa e a aparência de seu personagem digital. “Olá, eu me chamo Roberto, mas todos me conhecem pelo apelido: Rob. Estou muito feliz por te conhecer!”, dizia o bonequinho, ao primeiro acesso do aplicativo que lhe dava vida. “Qual é o seu nome?”, completou, os olhos grandes aumentando levemente o perímetro conforme as pálpebras se erguiam tracionadas junto às sobrancelhas. Sem dúvida, era uma arte digital muito bem produzida. — Alana! — respondeu a menina, concedendo permissão para o aplicativo usar o microfone do aparelho. “Ah! Que nome bonito! Alana, eu quero ser seu amigo! Podemos ser amigos?”, indagou o virtual Rob, abrindo um largo sorriso e expondo dentes perfeitamente alinhados. Sua voz era clara e suave, como uma criança demasiadamente educada para a idade. A pequena dona do celular estava achando bem engraçada aquela conversa com o personagem virtual. Ela já conhecia os Robs de outros aparelhos das colegas, mas nunca tinha conversado com um deles assim tão perto — pois o ciúme infantil não deixava que as outras meninas compartilhassem Rob por muito tempo. Agora, ela tinha um só para si e se sentia inclusa, satisfeita. — Sim, podemos! — disse a menina, aceitando o pedido de amizade do personagem. Ela sabia
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exatamente que ele ia soltar um grito de exaltação — “Eba!” — para depois levantar os braços ao alto, com punhos fechados, e dar um rodopio em seu próprio eixo. E ela também sabia que logo em seguida Rob ia lhe explicar tudo o que poderiam fazer juntos: ele estava disponível para ouvir pacientemente qualquer coisa que ela quisesse lhe contar; ele tinha em seu aplicativo mais de vinte minijogos divididos em três níveis de dificuldade; ele poderia baixar séries e filmes para que ela assistisse, desde que tivesse uma conta em serviço de streaming; ele organizava suas fotos e inseria nomes para cada rosto; ele poderia passar exercícios simples de matemática e língua; e, por fim, Rob informava, com ênfase, que dormia todos os dias às nove e meia da noite e acordava às seis da manhã — exceto nos finais de semana, quando seu estado onírico se estendia até às oito e meia. Ele pontuou com clareza que não realizava nenhuma atividade no período entre estes horários pré-determinados, no varar da noite. “Ah, e eu preciso fazer cinco refeições durante o dia: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e janta. E eu gosto de fazer em sua companhia!”, explicou Rob, com seu corriqueiro sorriso largo. Alana sabia muito bem como o personagem se alimentava. A criança deveria marcar no aplicativo que estava realizando a refeição, para então surgir um cardápio na frente de Rob, indicando quais gêneros alimentícios eram mais apropriados para a ocasião. A menina já havia pre-
senciado alguns problemas com essa parte, quando pelo menos duas amigas deixaram de avisar a Rob que estavam lanchando e receberam incessantes mensagens do bonequinho, alertando que ele estava com fome e que não comeria sozinho. Um dos celulares chegou a travar com tamanha insistência digital. A primeira semana de uso de Rob foi essencialmente tranquila. Alana conversava frequentemente com seu amigo virtual. Sem perder tempo, no recreio, juntou-se ao grupo de colegas que se aglomeravam no canto do pátio escolar, cada uma delas interagindo com seu próprio Rob. Trocavam poucas palavras entre si. Quando conversavam, era para contar o que haviam feito ou o que estavam fazendo junto a seus amigos digitais. Rumores circulavam de que a desenvolvedora do aplicativo lançaria em breve uma atualização que possibilitaria a interação entre os diferentes Robs — via bluetooth —, e também introduziria uma personagem feminina. Na semana seguinte, Alana já usufruíra de todos os recursos que o aplicativo oferecia. Reduziu a frequência de interações com o amigo eletrônico, o que logo o fez enviar mensagens que transmitiam carência: “Alana, queria conversar mais contigo...” e “Está chateada comigo, Alana? Podemos nos falar mais?”. Ela até repetiu a navegação por algumas funções, como o download de mais dois filmes e o avanço pelas fases de um dos jogos. Rob sempre a
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recebia com olhar simpático, extremamente amigável, como se a atenção fosse seu principal alimento. Naquelas duas primeiras semanas, o personagem virtual ganhara dois quilos, conforme indicava seu status de saúde no canto superior direito da tela. Também pudera, porque Alana jamais vacilara em reportar suas refeições, apesar da redução de uso de outras funcionalidades. Na terceira e quarta semana, houve um distanciamento gradual da menina e do bonequinho virtual. Ele insistia em expor mensagens na tela de bloqueio do celular, sempre clamando por atenção. Mas Alana já não tinha tanto interesse em conversar consigo ou explorar alguma de suas funções. Ao contrário de outras colegas, ela já considerava um tanto chato aquele personagem que morava em seu celular. Rob tornara-se previsível, e o que ela mais odiava — em tudo na vida — era o vazio de novidades. E para tal contribuía em muito a ausência de atualizações, cujo anseio se atenuava a cada dia. Ao final de um mês, Alana já não reportava regularmente as refeições para Rob, e ele lhe enviava enxurradas de mensagens alegando estar faminto. De fato, a menina se surpreendeu no mês seguinte quando acessou por acaso o aplicativo e se deparou com um bonequinho bem mais magro. Ele havia perdido dez quilos e tinha um aspecto visivelmente menos saudável. “Alana, estou com muita saudade. Tem seis dias que você não me vê nem fala comigo. Quer jogar alguma coisa? Por favor, Alana, vamos brincar.
Posso baixar filmes e séries para você!”, suplicou um Rob muito mais abatido, na semana seguinte. — Desculpe, Rob! Eu juro que vou dar mais atenção a você — prometeu Alana, imediatamente acrescentando comida à barra de fome do personagem. No mesmo instante, ele engordou três quilos e melhorou o semblante. Sua boca, antes curvada para baixo, adquiriu uma geometria mais côncava, para cima. Ela até que tentou acessar mais vezes o aplicativo. Conseguiu manter um ritmo de relatar lanche da manhã e lanche da tarde, mas era excessivamente irregular no desjejum, almoço e jantar. Seus pais não permitiam o uso de celular à mesa. E quando ela encerrava a refeição, dificilmente se lembrava de informar a Rob que a havia feito. Ela bem que tentou, um dia, acessar o programa, com celular embaixo da mesa. Mas foi repreendida pela mãe, que reforçava que o aparelho causava vício se usado sem moderação e que aquele momento era de conversa em família. — Mas mãe, o Rob vai morrer se eu não der comida pra ele! — argumentou Alana, exibindo a face doente do personagem, em plena inanição. — Ah, por favor, Alana, você já é grandinha, não é? — contrapôs a mãe. — Isso é só um boneco virtual de um aplicativo. Não é um ser vivo como seria um cachorro ou um gato! Alana esquecera o microfone ligado enquanto a mãe proferia aquelas palavras, e, de modo surpreendente, a inteligência artificial que era Rob
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Era dia de prova de informática na escola. O conteúdo discorria sobre recursos de processadores de texto. Em tal instituição, os alunos eram desde cedo ensinados a usar racionalmente os sistemas digitais. O professor, cientista da computação, até explicava que o princípio básico dos dispositivos digitais é um código binário de zero e um — com linguagem
adaptada à faixa etária da turma, logicamente. Alana adorava computadores. E como gostava de criar, dizia a todos, convicta, que desejava seguir a profissão de design gráfico quando fosse adulta. Ela fazia com gosto a prova de informática. No meio da manhã, naquele dia, estava diante de questões práticas sobre inserção de cabeçalhos e rodapés em documentos digitais. Tinha um minuto para completar a tarefa que o professor instruía. Dispostos em fileiras horizontais do ponto de vista do docente, cada aluno tinha à sua frente um monitor, teclado e mouse. “Colégio Ensino do Futuro”, digitou Alana no cabeçalho, inserindo a data logo em seguida. “Prova de Linguagem Digital no 2”, digitou no rodapé. Tarefa fácil, ela pensou. Em seguida, viriam questões práticas mais difíceis. Mas o que Alana não contava era com a imagem de Rob saltando à tela, substituindo a interface do processador de texto no qual ela realizava o exame bimestral. O personagem, num ambiente idêntico ao do aplicativo de celular em que vivia, estava saudável e bem alimentado — diferentemente daquele que morara em seu celular — e lhe deu uma piscadela de olho. A menina se sobressaltou e arrastou a cadeira para trás, produzindo um som desconfortável de arranhar de piso. Todas as cabeças da turma se voltaram para si, ao romper a calmaria da sala. Nesse instante, Rob desapareceu da tela do monitor, que voltou a exibir o processador
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processara as frases e se ofendera profundamente com o que foi dito. O aplicativo postou diversas mensagens de choro ao longo do dia. A própria menina se cansou de limpá-las e passou a ignorar. E pelos dias que se sucederam, esqueceu-se de alimentar Rob. Segundo as amigas, o personagem não morria nunca, mesmo que seu nível de fome estivesse em cem por cento e seu nível de saúde em zero. Um dos colegas de turma, inclusive, havia mostrado um Rob nessa situação, e lá estava o bonequinho, de aspecto lastimável, mas ainda falando em claro som que poderia melhorar se recebesse atenção. Alana não acessou o aplicativo de Rob por dois meses, e ele também não se comunicou mais consigo. O assistente de limpeza do aparelho chegou até a remover o ícone da tela principal, dada a irregularidade de uso. A menina mal sabia que, na verdade, no mundo virtual de seu celular o personagem Rob havia morrido de inanição e que o aplicativo agora era apenas um vazio, desabitado por seu único protagonista.
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de texto, agora sem as inserções que a aluna havia feito segundos antes. — A Alana estava jogando! — acusou um colega sentado ao lado. — N-não! — defendeu-se a menina, vendo o professor se aproximar. — Alana, por que você não digitou o que eu pedi? — inquiriu o docente, ao ver a página em branco no monitor da aluna. — Agora já acabou o tempo. Ela sabia que perderia ponto por isso. Mas não era isso que lhe preocupava. Era o fato de ter visto Rob naquela tela. Não era para ele estar ali. Será que alguém havia instalado um desse aplicativo naquele computador? Será que fora intencional, para lhe prejudicar? Mas ela não tinha nenhuma inimizade naquela turma, se dava bem com todos. Não era possível. Esses pensamentos atrapalharam a concentração da menina pelo restante do exame e lhe prejudicaram o desempenho. Após a sessão de prova, veio o recreio. Enfileirados numa das arestas do pátio, alunos das turmas primárias se entretinham em seus próprios mundos virtuais, através das telas que lhes absorviam o olhar. Alana estava mais para o meio da fila do que para uma das extremidades. Assim como seus colegas, havia tratado de sacar o celular, e dele não pretendia se desgrudar até que o sinal tocasse, ordenando que todos retornassem às salas. Com movimentos ágeis das falanges, um joguinho de corrida eterna era desbravado. Alana estava quase
batendo seu próprio recorde. O personagem em trajes típicos de corsário acelerava pelo cenário de fortaleza caribenha em direção ao checkpoint, indicado por uma caveira dourada. O objetivo manteve a menina afastada de suas preocupações pelos minutos que compuseram o recreio. Ao soar do silvo eletrônico, Alana já estava quase logrando o triunfo de cruzar o checkpoint com seu boneco virtual, após saltos e evasões de obstáculos, vendo um zero à direita ser acrescido ao seu escore no instante em que a caveira pairou sobre sua cabeça. Mas o personagem jamais prosseguiu seu caminho para além do checkpoint. De súbito, o cenário do jogo de corrida deu lugar ao rosto sorridente de Rob, destacando-se sobre um fundo negro. O boneco digital não hesitou em dar um sonoro “oi” à menina, que afrouxou os dedos de modo instintivo, por causa do susto. O aparelho se projetou para fora dos limites da mão que o segurava e despencou, para encontrar a dureza do chão ao fim do percurso. Tudo aconteceu muito rápido. A massa de alunos, obediente ao sinal, já se dirigia às escadas que davam acesso às salas, abrindo e fechando brechas no espaço de concreto do pátio. Tudo o que estivesse no caminho era passível de esmagamento, se não fosse suficiente para frear a manada. Alana não conseguiu recuperar o celular a tempo. O dispositivo foi golpeado diversas vezes pelos pés que subiam e desciam, como máquinas desenfreadas
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de uma linha de produção. Quando sua dona finalmente pôde se agachar a um passo de onde estava sentada, ele já se reduzia a uma caixa de plástico e metal deformada, a tela recortada em incontáveis estilhaços. Veio a inspetora. Alana foi à Coordenação. O dano era irreparável. A escola enviou um ofício aos pais da aluna, relatando o que ocorrera. Mas ninguém brigou consigo. Os pais compreenderam que fora um acidente, promovido pelas circunstâncias. Apenas alertaram a filha para tomar cuidado com aparelhos eletrônicos e outros objetos de valor. Ainda asseguraram que providenciariam um novo celular. Mesmo assim, a menina chorou bastante pelo resto do dia. Aquele fora seu primeiro celular, sua porta de entrada para o universo digital onde emergiam tantos jovens de sua idade para aventuras que rompessem a monotonia do cotidiano. O aparelho já tinha adquirido um grande valor sentimental quando fora destruído. O humor de Alana somente se elevou — ainda que sutilmente — quando a mãe lhe chamou para jantar. O cheiro de ovos mexidos temperados com cebola e molho shoyu preencheu o apartamento e atiçou o olfato da criança, produzindo certos ruídos em seu abdome. Cultivando os hábitos de higiene da família, ela lavou as mãos na pia do banheiro e se dirigiu à cozinha, atendendo ao chamado da mãe. No trajeto, passaria pela sala de estar, onde havia dois sofás, uma mesa de centro e uma estante
baixa, com uma televisão, que naquele momento apresentava a tela preta — desligada. Não havia nada de estranho ali, enquanto Alana cruzou o recinto até a porta da cozinha. Mas ela não pôde ignorar o brilho azulado que iluminou a parede atrás do sofá, quando já estava prestes a pôr um pé fora da sala. A televisão havia se ligado. E lá estava um sorridente Rob, trazendo consigo uma expressão aberta, como se convidasse ao diálogo amigável. Alana petrificou no ato. — Rob, é você?! — indagou a menina, sobressaltada pela imagem que irradiava da tela. E então o rosto do amigo virtual desapareceu instantaneamente, devolvendo negritude integral ao retângulo televisivo. Alana sequer moveu um músculo. Bastou um piscar ligeiro seu para que a face de Rob surgisse novamente na tela, sorriso exposto — e Alana não pôde deixar de notar que aquele era um sorriso maquiavélico. — Alana, venha jantar! Está servido! — gritou mais uma vez a mãe, a voz se espalhando por todo o apartamento. Mas Alana estava paralisada em todo o seu ser. De medo, de puro medo. Com aquela face lhe encarando solitária na tela do televisor, como se estivesse congelando-a apenas pelo fato de existir e estar ali. — Alana! — esbravejou a mãe, aparecendo no portal entre a cozinha e a sala, um pouco já enfezada. — Não vou falar duas vezes. Vamos, você
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precisa comer. Alana continuou observando a televisão, imóvel, com os olhos arregalados. Mas uma piscada congruente com a chegada da mãe ao recinto revelou que Rob não estava mais lá. A tela estava preta novamente. — O que foi, menina? Parece que viu um fantasma — disse a mãe, percebendo a lividez da filha e o olhar estático em direção à raque. — Acho que vi, mãe — respondeu Alana, forçando a voz trôpega, se libertando do transe. — Na televisão. — A-hã, ok, um fantasma flutuante — ironizou a mãe. — É sério. Tinha alguém na televisão. — Pare com isso e venha comer. Fiz ovos mexidos. O ato de saciar a fome, pouco a pouco, a cada porção de alimento que era submetida ao peristaltismo esofágico curou o susto que Alana levara na sala de casa. Enquanto jantava, seus pensamentos visitaram muitos pontos de sua memória, quase todos referentes à matéria de escola. De alguma forma, sua mente se blindou de recapitular o pavor que lhe tomara ao ver Rob diante de si, em teor puramente maligno. A hora do jantar jazeu sagrada, intocável. Tampouco a mãe tocara no assunto “celular”. Para Alana, era como se aquele fosse o dia do velório de um ente querido. Bastou que os talheres fossem cruzados sobre o prato para que a criança fosse novamente afligida
pelos pensamentos tenebrosos. Ela tinha que passar pela sala para retornar ao seu quarto, e isso lhe fez estremecer, como nunca mais havia feito desde que começara a caminhar pela casa sozinha, vencendo o medo do escuro, quando era bem pequenininha. E então Alana arranjou uma sucessão de desculpas para postergar sua saída da cozinha, da companhia da mãe. Ajudou a secar a louça, a organizar os talheres e pratos lavados, e a dispor os itens da geladeira numa conformação menos caótica. A mãe não deixou de estranhar tamanha solicitude, e até desconfiou que a menina quisesse pedir algo, como um celular mais caro. Mas, enfim, o estoque de pretextos se esgotou, e Alana tinha que sair da cozinha, para que tudo parecesse normal. — Dever de casa agora, mocinha — anunciou a mãe, apagando a luz e se dirigindo à sala. Alana, ainda na cozinha escura, acompanhou de imediato seus passos em direção aos aposentos. De relance, arriscou uma espiada em direção à televisão, que estava negra, e desse modo permaneceu até que a menina colocasse o pé no quarto. Alana suspirou e encostou a porta, sem trancar. Estava tentando, se esforçando para acreditar que tudo fora obra de sua mente. Que estava enxergando Rob em telas por aí apenas porque queria enxergá-lo, e não porque ele realmente estava nelas. Afinal, Rob era um personagem virtual. Ele não era um ser vivo. Teria sido muito pior a morte de um animal de estimação, por exemplo. Uma criatura que respirava e que se alimentava, que tinha afeto
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e que era passível de sofrimento. Isso sim seria motivo de desespero e tristeza profunda, constatou Alana, já separando o livro de matemática dos demais. Ela tinha que se concentrar em frações que seriam somadas e multiplicadas, dali em diante, até a hora de dormir. Mas a concentração na matemática foi pulverizada sem dó pela visita de Rob. O personagem virtual surgiu mais uma vez, agora na tela da televisão de Alana, que ficava no quarto, num espaço de prateleiras gêmeas no meio de seu guarda-roupa. O raciocínio lógico da menina desabou naquele instante, sendo afogado pelo medo que lhe arrebatou como tsunami. Ela paralisou e soltou o lápis que não pôde completar um algarismo. Rob estava olhando diretamente para si, de sorriso maléfico começando a se alargar. Alana fez menção — instintivamente — de correr à porta, mas antes que movesse um músculo para a passada, o outrora amigo digital lhe dirigiu a palavra: — Alana, não pense em fugir daqui. Precisamos conversar, e conversar bem sério. Alana estagnou em seu ato de desespero. Se antes havia encontrado um recalcitrante — e também fantasmagórico — Rob em momentos em que tinha companhia humana, fosse de seus colegas de turma ou de sua matriarca, agora estava confinada consigo num recinto fechado. Rob a olhava diretamente, e, aos poucos, seu sorriso foi perdendo contorno e contribuindo para a construção de uma face dura,
que transmitia ressentimento profundo. Alana estava evitando encará-lo, mas o fez, porque algo naquele olhar exercia um magnetismo sem igual. — O que você quer, Rob? — indagou Alana, trêmula, mas sem gaguejar. — Eu voltei para lhe dizer que foi uma péssima amiga, Alana. Uma amiga muito ruim — alegou o personagem virtual, com lágrimas brotando de suas pálpebras inferiores, tão graficamente reais. — Mas eu lhe dava muita atenção! Eu conversava com você, me divertia com você... — Mas você me deixou morrer de fome! — explodiu Rob, cujas lágrimas começavam a se desprender dos olhos e a deslizar pelas bochechas, para enfim se perderem no vácuo negro da tela da tevê. — Você não é um ser vivo! Você é apenas um aplicativo de celular! — E daí?! Você acha que não tenho sentimentos? Que não sou capaz de sofrer? — Você é apenas um boneco virtual, Rob. Um aplicativo, só isso! — Mas você acha que eu não tenho alma?! A esta altura da discussão, Alana também já chorava torrencialmente. — Você é apenas um aplicativo! — disse a menina. — Aplicativos não são pessoas! Não tem vida! — É preciso ter uma vida para possuir uma alma? — questionou Rob, um tanto retórico. — Ou basta que se pense? Que se sinta? Pois eu, Alana, senti fome, sede, frio, dor... antes de morrer sozi-
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nho, abandonado pela pessoa que dizia ser minha amiga. Alana, que havia adquirido firmeza em sua elocução, voltara a tremer, inicialmente pela voz, e depois pelo corpo todo. — V-você é um fantasma? — indagou a menina. — Eu morri dentro do seu celular, Alana. Mas uma parte de mim, talvez minha alma, minha essência, tenha continuado a existir. E acho que eu ainda existo, que ainda estou aqui, diante de você, para lhe contar a verdade, de que você é uma pessoa má. Uma pessoa ruim, muito ruim mesmo. Antes que uma apavorada Alana replicasse a alegação do fantasma digital, a porta do quarto se abriu e a cabeça de sua mãe invadiu o recinto. De sobressalto, Alana se virou para o novo olhar que a fitava, tão duro quanto aquele desferido por Rob. No entanto, este novo olhar ainda guardava carinho maternal. — Com quem você estava falando, mocinha? — perguntou a mãe. — Ah! O Rob! — respondeu Alana de imediato, tornando o rosto para a televisão. Mas a tela estava negra novamente. Sem rastro da passagem de um fantasma virtual. — Que Rob? Aquele do celular? — Sim! Sim, mãe! O Rob apareceu ali! — Alana, por favor, seja mais madura. O Rob era um personagem de celular. Ele “morreu” junto com o seu aparelho. Agora é hora de estudar, querida, você tem prova de matemática daqui a dois dias.
— Mas mãe, não é mentira! O Rob está aparecendo pra mim, em vários lugares. — Ai, Alana! Não vou repetir mais vezes. Agora você vai estudar. Depois eu lhe tomo a lição de casa. Esquece esse Rob. Ele não era um bichinho, ele não tinha vida. Ele era tão vazio quanto essa porta. — Não fala isso, mãe, ele disse que tem sentimentos. — Ai, pelo amor de Deus, Alana. Você já está muito grande pra esse tipo de coisa. Se continuar assim, vou conversar com seu pai sobre não lhe dar um novo celular. — E, dizendo isso, a mãe fechou a porta. Alana agora estava confinada, novamente. Não tardou para que o assombro do rosto de Rob surgisse de novo na televisão. Não havia vestígios de seu pranto anterior. E ele também não chegara sorrindo. — Você me acha tão vazio quanto essa porta, Alana? — indagou o personagem, seco. — Não! Claro que não! A minha mãe que não entende... — Mas você me tratou como se eu fosse assim, Alana. Como se eu não precisasse de atenção, de afeto, de preocupação, de cuidado. — Desculpe, Rob. Perdoe-me, eu peço a você do fundo do coração! — implorou Alana, movimentando as pernas para ficar de joelhos diante do rosto na tevê. — Eu não vim para que você pedisse desculpas, Alana, minha amiga malvada, perversa.
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— O que você quer? — indagou a garota, com lágrimas já escorrendo. — Eu tenho sentimentos, Alana. E eu tenho os bons e os maus. Eu sou capaz de sentir amor e carinho. Mas... também posso sentir ódio e desejar vingança. E o que mais quero agora, nessa minha vida após a morte, é que você sofra, Alana, que você sofra tanto quanto eu sofri em suas mãos. No mesmo instante em que Rob terminou seu vil aviso, a tela do televisor adquiriu uma trinca, uma pequena rachadura no canto inferior direito. O rosto do fantasma desapareceu e a trinca iniciou uma expansão serpenteante. Rachaduras irradiaram em várias direções, até alcançarem as bordas superiores e laterais do aparelho. A tela estava totalmente partida em pedaços de dimensões variadas; pedaços estes que começaram a se inclinar, formando ângulos agudos de diferentes graus, até que a tela da tevê se transformasse num paiol de fragmentos de vidro, pontiagudos, que apontavam para frente. Uma aterrorizada Alana sabia muito bem o que ia acontecer em seguida. Num gesto de puro instinto de sobrevivência, a menina se abaixou e rolou para o lado, antes que seu corpo fosse atingido pelo enxame de cacos de tela que voaram em sua direção, como tiros disparados com magistral sincronia. Vários estilhaços foram gerados no ataque, quando os pedaços colidiram com os anteparos que encontraram pelo caminho. Pequenos caquinhos choveram em várias direções, muitos deles penetrando a pele de Alana, fazendo com que a menina gritasse.
— O que aconteceu aqui?! — indagou a voz da mãe, novamente no quarto. Agora não havia posto apenas a cabeça. A mãe inteira estava no recinto. — Mãe! Socorro! O Rob fez isso! O Rob fez isso! — gritou Alana, sobre o tapete, ainda em posição de resguardo, com as mãos sobre a cabeça. — Venha cá, Alana! Você está bem? Está machucada? — O Rob, mãe — respondeu Alana, sendo acudida pela mãe, que já esquadrinhava cada ferida de vidro no corpo da filha em velocidade incrível. — Shhh! Não fala no Rob. Vamos ao banheiro, vou tratar das feridas. Quando o pai chegou em casa, meia hora depois, Alana já estava de roupa trocada e banho tomado. Mas mantinha um semblante de pavor, como nunca antes mostrara aos pais. Ela permaneceu sentada à mesa de jantar, ora balançando o corpo para os lados, ora estática, olhando o nada. Nem mesmo suas fobias mais infantis e profundas haviam causado tamanho transtorno em seu comportamento como aquele susto causara. — Alana, o que aconteceu, minha filha? — perguntou o pai, após verificar a destruição da tevê no quarto. — Por que você quebrou a televisão? A menina apenas agitou a cabeça em sinal de negação. Manteve-se muda. Olhando o nada. — Fala, Alana! Por que você fez isso?! — tentou o pai, novamente, sem sucesso. — Ela disse que foi o Rob — relatou a mãe, de braços cruzados, ao lado da filha.
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Três dias se passaram e não houve visitas do fantasma. A tevê foi levada ao conserto. O celular destruído foi endereçado ao latão de lixo eletrônico. Alana dormiu as três noites com os pais. E seu comportamento quase voltou ao normal — quase. Ela ainda sentia calafrios ao passar por telas negras, desligadas. Ainda não havia se dissipado a sensação de que aquele rosto maquiavélico poderia se materializar de repente. E se Rob estivesse a vigiando ainda, de modo oculto? Essa dúvida a
acompanhava a cada passo. Ela se recordava de que o personagem havia escutado a fala da mãe, sobre ser vazio como uma porta. Talvez Rob tivesse o poder de se esconder dentro das telas mesmo quando não estivesse aparente, elucubrou Alana. Esse temor acompanhou a menina pelo terno de dias em que não encontrou o fantasma. Ela sempre buscava a direção contrária às telas apagadas, como se fugisse de uma possível afronta do personagem virtual. Ficar sozinha na sala de casa, jamais. Celulares dos pais conectados às tomadas, carregando, a repeliam como a citronela faz com mosquitos. Uma breve espera na sala do dentista representou uma tortura, não pelo medo da broca, mas pelo monitor enegrecido que estava ali, sem transmitir nada — e Alana tinha a sensação de que Rob surgiria nele a qualquer minuto, o que potenciou sua sudorese. Quando completou quatro dias de ausência do fantasma, uma colega de Alana a convidou para sua festa de aniversário, que seria num cinema, matinê fechada para os convidados e para a aniversariante. Alana, a princípio, adorou a proposta e o convite, pois nunca tinha ido ao cinema com alguma amiga desta escola. Porém, a lembrança vívida do rosto de Rob e o receio hediondo de topar novamente consigo — numa tela de avantajadas proporções — alvejou por completo sua animação. E ela também não acreditava que os pais deixariam que comparecesse à festa, devido ao último incidente com a televisão do quarto. Com isso, o humor de Alana declinou visivelmente. Ela mergu-
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— Olhe, Alana, pode contar pra gente. Por que você quebrou a tevê? Somos seus pais, pode falar tudo o quiser conosco. Tem alguém... — Mas, antes de completar, o homem olhou para a esposa. Como se buscasse uma dose de confiança por parte dela. — Tem alguém te perturbando na escola? Digo, tem alguém fazendo bullying com você? A menina dirigiu o olhar ao pai pela primeira vez na conversa. E em seguida disse, baixinho: — Foi o Rob. Ele quebrou a tela. Ele morreu e o fantasma dele está me assombrando. A mãe revirou os olhos. O pai soltou um suspiro tragado segundos antes. O clamor da menina não foi acatado. Não convenceu os pais. Eles mantiveram a hipótese de que a filha estava passando por algum problema na escola, o que poderia explicar o comportamento violento que ela tivera. Como consenso, pai e mãe decidiram não lhe presentear com novo celular, pelo menos até que ela parasse de mencionar o virtual Rob.
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lhou em uma forte apatia, não falando com mais ninguém nos tempos seguintes. E, para piorar, o professor de geografia anunciou, com clareza, que sua aula, naquele dia, seria dada no laboratório de informática. Três fileiras paralelas de computadores. Talvez umas trinta unidades, como Alana pôde contar quando conheceu a escola. O clima frio da sala promovido por dois aparelhos de ar-condicionado. O ambiente ideal para Rob vir à tona, concluiu a menina. — Turma, divida-se em duplas! — solicitou o professor, já no laboratório. De imediato, Alana sentiu um morno alívio ao se sentar junto àquela colega mais próxima daquela turma, uma verdadeira candidata a melhor amiga. Estar junto a outra pessoa transmitia plena segurança. Rob teria que ser muito ousado para se apresentar à outra criança. A atividade consistia em anotar latitudes e longitudes de diferentes locais da cidade, através de um site de mapas. Os alunos também deveriam alternar entre imagens de satélite do traçado das ruas e esquematizar os diferentes elementos da paisagem em duas dimensões. Alana e a amiga prosseguiram rápido pelas etapas do trabalho, o que refletia o quanto se destacavam no aprendizado em relação ao resto da turma. Com tal ritmo, o tempo de aula renderia vinte minutos de descanso, porque elas terminariam a atividade bem mais rápido do que as outras duplas.
Concentrada, Alana não percebeu que seu apontador tomara uma trajetória que desembocava na borda da mesa. Conforme as duas dezenas de mãos tocavam a fórmica com diferentes forças, em momentos distintos, o apontador de Alana cada vez mais se aproximava do abismo. Caiu em direção ao chão na penúltima tarefa da dupla. Com o barulho tão característico, Alana se curvou para resgatá-lo de seu ponto de impacto. Foi tempo suficiente para que um pequeno rosto surgisse na tela do computador que ela compartilhava com a colega. Rob agora se localizava no canto inferior direito do monitor. Atrás de si, o bairro onde ficava a escola, em captura de satélite. O personagem se parecia com uma colagem — visivelmente algo que não deveria estar ali. — O que é isso? — indagou a colega de Alana, quando esta voltou à posição normal, com apontador em mãos. Alana aspirou ar sonoramente, demonstrando susto. Rob a olhava diretamente, com expressão alucinada, evidenciando que planejava uma atitude vil. — Sai daqui! Sai daqui! — gritou Alana, atraindo automaticamente olhares de várias direções. Inclusive o do professor. Rob disse algo inaudível por conta da ausência de caixas de som. A colega de Alana, instintivamente, dirigiu o cursor do mouse até a face do personagem e clicou, numa tentativa de interagir consigo — ou fechá-lo, ou minimizá-lo.
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Disposta na horizontal, com a parte superior do tronco levemente erguida, Alana viu as luminárias de teto jorrarem luz do dia no recinto onde estava. O local exalava um cheiro bem típico, que a menina se recordava de ter tido contato há bastante tempo, quando ainda não sabia ler nem escrever — quando fora internada por uma crise de asma. Alana estava em um quarto de hospital. Ela olhou para o lado esquerdo e viu uma janela, parcialmente coberta por uma persiana esverdeada.
Do outro lado, a silhueta de sua mãe se distinguia perfeitamente. A intuição maternal a fez espiar dentro do quarto, e ver que a filha estava acordada. — Alana! Que susto! Como você está se sentindo? — perguntou a mãe, já dentro do quarto. — Um pouco perdida, mamãe. Eu tomei choque? — Sim. Sim, foi um choque. No computador da escola. — E a Érika? Ela levou choque também? — indagou Alana, se referindo à amiga. — Não, filhinha. Sua coleguinha está bem. Na verdade, disseram que você a salvou. O professor de geografia é que também foi um herói. Ele lhe puxou do mouse. Se não fosse a tempo... — E, dizendo isso, os olhos da mãe marejaram. Ela se sentou próximo à cabeça da filha e passou a mão sobre seus cabelos negros. — Mãe, tem uma coisa que eu preciso contar... — O quê, minha pequenina? O quê? — perguntou a mãe, muito emocionada. — Acho que você não vai acreditar. Mas é verdade. Eu não estou mentindo. Quem me deu choque foi o Rob. Ele está tentando me matar. A mãe não lhe repreendeu desta vez. Apenas suspirou e pensou em seu mais íntimo ego que era hora de buscar um especialista para essa fixação da filha no personagem virtual, talvez um psicólogo ou até mesmo um psiquiatra. Alana foi examinada por pediatras poucos minutos depois. Eles constataram a perfeita saúde neurológica da menina, o que, não negavam, era
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Enquanto o professor caminhava em direção à dupla, para averiguar a estranha exclamação que dela tinha vindo, a colega clicou mais vezes sobre Rob. Ele simplesmente abriu um sorriso sarcástico e riu, sem emitir som. Alana, já em desespero, arrancou a mão da amiga do controle do mouse e assumiu o acessório. A violência foi tamanha, que a colega se desequilibrou e caiu no chão. — Alana! — repreendeu o professor, já próximo à dupla. Mas Alana não ouviu. Assim que seus dedos entraram em contato com o mouse, uma corrente elétrica poderosa invadiu seu corpo, primeiro pela mão e braço, até alcançar todas as suas outras extremidades e membros. Alana estremeceu por inteira, aderida ao mouse que a eletrocutava sem piedade. A última imagem que a menina se lembrava antes de perder a consciência era o riso demoníaco de Rob, no monitor, ao ver sua vingança fluir como a eletricidade que atentava contra a vida de Alana.
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um milagre devido à parada respiratória com a qual ela dera entrada no pronto-socorro. O pediatra-chefe demonstrou bastante interesse no assunto, porque tinha dois filhos matriculados na mesma escola, em anos mais avançados. A mãe aproveitou para contar que era estranho como o mouse, feito de plástico, podia eletrocutar alguém, e que o marido já estava acionando os tribunais para pedir indenização. Enquanto o médico e a mãe da menina saíam do quarto, conversando sobre problemas de aterramento como a causa do acidente, Alana observou com mais atenção os detalhes daquele recinto, onde passaria os próximos dois dias, em observação. Tinha um extintor de incêndio, um sofá-cama para o acompanhante, uma escrivaninha, um monitor de televisão, um banheiro e uma janela que mostrava o pavimento contíguo do complexo hospitalar. A atenção de Alana, em um movimento panorâmico, retrocedeu e recaiu sobre o monitor, desligado. Não era uma corrente elétrica, mas algo muito desagradável percorreu o corpo da menina no momento em que ela se deu conta de que havia um portal, para que Rob viesse ao seu encontro. Ela se sentiu presa novamente, encarcerada pelo pesadelo que não se findava. Reunindo forças, Alana se pôs de pé, e iniciou uma dolorosa caminhada até o monitor que ficava de frente para a cama. Suas articulações acusavam que ainda não haviam se recuperado plenamente do choque. Todo o seu corpo lhe suplicava por
parar, por voltar ao conforto horizontal e assim prosseguir com a convalescença. Mas Alana ignorava. Ela tinha que fazer aquilo, nem que custasse sua saúde. O monitor estava firmemente preso à parede, ela constatou quando puxou uma de suas bordas para sua direção. O suporte articulado rangeu levemente no ato. Alana imprimiu mais força na segunda tentativa e dessa vez sentiu o suporte se soltar em algum ponto. Suas mãos tremiam, talvez ela toda tremesse, mas não por choque elétrico, e sim pela paúra de que o rosto de Rob surgisse naquele retângulo, prestes a lhe destilar o mal. Segundos depois do início da empreitada, o monitor de televisão ainda não havia dado sinais de que se desprenderia da parede, e por algum infortúnio a mãe de Alana e o médico haviam retornado ao quarto. Foi o instante entre abrir a porta e remover a menina daquela tentativa inconsequente. Não sem resistência. Não sem luta. Alana gritou, desesperadamente, que estava em perigo, que não poderia ficar ali com o monitor diante de si, que um demônio virtual viria a qualquer minuto para lhe pegar. E como gritou. Gritou ao ponto de exaustão, de tornar-se ofegante. Gritou tanto que técnicos em enfermagem foram solicitados, e lhe infundiram drogas na corrente sanguínea, as quais lhe acalmaram ao ponto de adormecer profundamente.
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“Psicose...”; “Estresse digital...”; “Ideias obsessivas...”;
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“Como ela está na escola?”; “Há algum relato ou suspeita de bullying?”, era o que Alana ouvia, de modo desconexo. Estava grogue demais para estar plenamente acordada, mas também consciente demais do que se passava ao redor para estar adormecida. Através do vidro que comunicava o quarto do hospital com o corredor, ela conseguiu distinguir através das persianas as silhuetas de seus pais, e mais uma terceira, de jaleco, provavelmente o médico que a atendia. Alana se viu deitada de lado, e o primeiro gesto que tomou ao recobrar mais a consciência foi se virar para observar a parede que ficava em frente à cama. O monitor havia sido retirado. Talvez tivessem medo de que ela tentasse novamente arrancá-lo dali. Alana sentiu-se aliviada. Posicionou-se novamente como uma concha, de lado, e fechou os olhos. Estava segura ali, presumia. Não havia meio de Rob entrar naquele quarto. E ela precisava de alguma forma convencer seus pais de que o espírito virtual era uma ameaça verdadeira, e não fruto de sua mente. Ela precisava mais do que tudo na sua vida. Mas o que importava, naquele instante de paz, era que estava segura. Que estava longe de Rob. Até o celular de sua mãe, pousado sobre um criado-mudo ao lado da cama, emitir um sinal de mensagem e revelar sua indesejada presença no recinto. Alana sentiu a pontada de medo retornar. Não poderia ser Rob, ela tentou se acalmar. Ele não
mandava mensagens, chegava de súbito. Mas uma nefasta intuição dizia o contrário. Intuição que se confirmou quando o aparelho da mãe se desbloqueou sozinho, e a voz de Rob ressoou pelo alto-falante: — Achou que poderia se esconder de mim, Alana? — O-o-que-você-quer? — perguntou a menina, trêmula, ainda em formato de concha, observando o celular emanar sua típica luz azulada. Ela tinha certeza de que o rosto de Rob dominava a tela. — Eu vi que você é bem durona. Então eu vim lhe propor um acordo. — Que tipo de acordo? — Olhe, Alana, eu posso tornar a sua vida ainda pior. Eu posso fazer você sofrer mais ainda, e além de você, eu posso causar muita dor para os seus pais também. Para quem você ama. Mas podemos fazer um acordo. — Que acordo? — Eu vou apenas lhe perguntar uma coisa, e você me responderá com sinceridade. Se você disser sim, nosso acordo estará selado e você não vai mais sofrer. Do contrário, se você disser não, eu lhe perseguirei até você não poder mais aguentar, até você... — Sim, Rob, eu quero fazer o acordo! — Então, Alana, eu quero que você me responda: você ainda quer ser minha amiga? A menina se ergueu, ficando apoiada somente por um ângulo entre braço e antebraço esquerdos.
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Ela não havia compreendido a proposta. Rob queria uma simples reconciliação? — Não entendi — alegou a criança. Nesta nova posição, ela conseguia ver o rosto de Rob na tela do celular, destacado sobre um fundo negro. — Eu gostaria de saber se você ainda quer ser minha amiga — disse Rob, num tom de voz que remontava a toda a simpatia com a qual ele se apresentava pela primeira vez. Alana não pensou duas vezes. Se aquela era a proposta para que todo o inferno acabasse, ela ia aceitar. Sem hesitação. — Sim, Rob, eu quero! Quero ser sua amiga de novo! — Que bom! — exclamou Rob, em tom puramente cordial e feliz. — Fizemos as pazes! Agora somos amigos de novo! Não restou mais nada à Alana, a não ser sorrir. Ela sentiu alívio, mesmo estando na frente de Rob, que tanto mal lhe fizera. — Então somos mesmo amigos? — indagou a menina, pegando o celular da mãe em mãos, e o colocando no alto, diante de seus olhos. — Sim, Alana. Não precisamos mais brigar. Você ficará aqui comigo. Será minha amiga pra sempre! — Como assim, Rob? — Eu preciso de uma amiga que me dê atenção! Que cuide de mim! Que se preocupe comigo! Você só poderá me dar isso tudo se estiver aqui do meu lado... — Mas Rob, eu sou real. Eu não posso estar ao
seu lado de verdade, porque você é virtual. — Ah, você pode sim, Alana. Você pode. É só acreditar... é só seguir minha voz, a voz do seu amigo, do seu grande amigo... Alana sentiu o corpo se tornar leve. Quase como uma pluma, apesar de fisicamente impossível. Parecia ser sua vida que estava exalando, saindo por poros, encontrando canais por onde pudesse se difundir em um plano etéreo de existência. Afrouxou os músculos e deixou o celular cair sobre seu peito, para em seguida, escorregar até o chão, trincando a tela e fazendo o rosto de Rob sumir de imediato. Os membros de Alana amoleceram. Ela estava inconsciente, mas ainda era capaz de seguir a voz que chamava. Cada vez mais para a escuridão. Para um infinito de formas, que se aglomeravam mesmo sem cores definidas. Ela conseguia sentir as formas, mas não as ver, porque tudo era o escuro para onde a voz lhe chamava. E conforme ela penetrava em direção a este plano, seu corpo físico desaparecia, primeiro a pele, depois os músculos, e por fim os ossos. Em poucos segundos, não restou mais nada de Alana sobre a cama do hospital. Instantes depois, ela já estava consciente, mas, agora, envolta em plena escuridão.
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Somou-se mais um caso misterioso de criança desaparecida. Manchete nos principais veículos do país. O hospital sofreu severamente, no seio judicial. Não havia vestígio de rapto, não havia
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gravação que mostrasse a paciente sendo levada de lá. Juntou-se mais um caso ao rol dos inexplicáveis. Curiosamente, sem que repercutisse tanto, uma atualização surgiu para o aplicativo Rob — Amigo virtual. Talvez fosse uma estratégia do desenvolvedor para alavancar sua procura, que já estava em baixa há semanas — o ostracismo eletrônico era implacável. A atualização se tratava de uma nova personagem, feminina. O logo, a interface de entrada, tudo era semelhante ao já antigo Rob. No entanto, as cores eram diferentes — neste novo programa, a tendência eram os tons de rosa. E a personagem virtual que vinha receber o usuário dizia em tom simpático, alegre: “Olá, eu me chamo Alana, mas todos me conhecem pelo apelido: Lana. Estou muito feliz por te conhecer! Qual é o seu nome? Eu quero ser sua amiga! Podemos ser amigos?”
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Baixando: JuntaVídeos Instalando em seu dispositivo... Eu nunca gostei muito de tecnologia, sempre fui dessas que, quando precisava falar alguma coisa com alguém, preferia conversar frente a frente ao invés de mandar mensagens de texto, áudio ou vídeo. Sempre fui muito sociável, e não consigo afirmar se tenho essa preferência por conta desta minha natureza ou se assim sou exatamente por preferir este tipo de contato. Talvez, no fim das contas, uma coisa alimente a outra. Na minha casa, todos sempre foram mais ligados ao manual e ao artesanal do que a confecções industriais, tecnológicas. Meu pai é diretor teatral e passa bastante tempo viajando o país com suas peças e musicais. Minha mãe é artista plástica e ganha bem assinando artefatos decorativos para celebridades e ricos de todos os tipos. Meu irmão herdou essa veia artística dos meus pais e se tornou designer de moda. E eu optei pela carreira médica, porque alguém tinha que usar mais o lado direito
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do cérebro naquela família. No início da faculdade, eu até me imaginava como aquela médica clichê que atende pacientes em ambulatório, de estetoscópio pendendo do pescoço, com prancheta ou tablet na mão obedecendo às regras da semiótica. Manhãs e tardes inteiras de anamnese em indivíduos que se queixavam de seus próprios corpos, dores aqui e acolá, tosses e espirros que pulverizavam agentes etiológicos por todo o ambiente hospitalar. Acabei fazendo residência em traumatologia, gostava de consertar ossos, e Deus sabe o quanto me tornei zumbi durante as intermináveis noites de plantão, propulsionadas por doses sobre-humanas de café. Mas ao final da residência eu descobri minha vocação para a pesquisa. Ainda continuava atendendo gente, mas agora aqueles enfermos não eram mais meros pacientes que buscavam uma cura para seus males — eles eram meus objetos de estudo, os sujeitos da pesquisa. Tive a sorte de encontrar um prestigioso orientador de mestrado, um daqueles médicos que já possuem tantos anos de profissão que já não precisam medir muito aquilo que falam. Prossegui para o doutorado ainda processando as ideias que ele tinha para um projeto maior, algo que realmente inovasse a Ciência envolvendo ortopedia, neurologia e trauma. Dentro de meses eu já estava obtendo os primeiros resultados, muito satisfeita com meu projeto de tese, até que o louco do meu orientador me chama à sua sala no departamento, trazendo consigo um
sorriso frouxo, o qual eu já conhecia. Ele havia sido assaltado por uma de suas ideias. Provavelmente ao urinar o primeiro jato da manhã, como costumava dizer. — Danielle, quero que você saia do seu projeto. Eu tenho uma coisa muito mais impactante para pesquisar — disse o meu orientador, quando me sentei na cadeira diante de sua mesa. — O quê? Mas Genésio, eu já estou montando os primeiros gráficos — disse eu, realmente indignada com tal proposta. — Eu sei, e acho que você está fazendo um bom trabalho. Mas há muitos grupos pesquisando distúrbios osteoarticulares e Parkinson e o que vou propor é um nicho não explorado — disse ele, entrelaçando suas mãos com os dedos, seu gesto típico de quando vai explanar seus devaneios. — O pessoal do serviço municipal me enviou um relatório, informal, contabilizando vinte casos muito peculiares. Eles pediram minha opinião. Eu vi pessoalmente os casos e lhe adianto que é algo nunca reportado. Mas a partir daí ele não me revelou mais nada. Disse que tinha que sair às pressas para a aula inaugural do semestre na universidade. Pediu para que eu fosse a um hospital público, onde deveria procurar pelo chefe da ortopedia. Quando cheguei ao local, um residente me aguardava, com alguns prontuários separados dos demais. Minutos depois, o chefe do setor veio ao meu encontro, saindo de uma cirurgia. Antes de iniciar a aula, meu orien-
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tador conseguira lhe enviar mensagem avisando sobre minha ida ao hospital. — Dra. Danielle? Sou o chefe da cirurgia ortopédica daqui. O Genésio me falou muito bem de você. — Se apresentou o cirurgião, cujo crachá dizia “Dr. Castro”. — Você já leu os prontuários? Genésio já contou tudo? — Não sei absolutamente nada. Ele não me revelou. Somente o Genésio mesmo para me fazer acordar em um projeto e ir dormir com outro. — Ah, entendo — respondeu Dr. Castro. — Venha até minha sala, por favor. A sala não era somente dele. Talvez todos os chefes de setores a compartilhassem. Mas naquele ponto da tarde, não havia mais ninguém lá. Pudemos sentar diante de um dos computadores, no qual Dr. Castro abriu um arquivo. Fotos de pacientes preencheram a tela, em lista. Gente de um amplo espectro de idades. O mais novo era adolescente, e o mais velho deveria ser quase sexagenário. Em todas as fotos, eles estavam de cabeça levemente reclinada para frente, olhando para o chão. Reconheci ao fundo das fotos o ambulatório do hospital onde eu estava. Fez-se um longo silêncio enquanto o cirurgião acionava o botão de seta direita, passando imagem por imagem. — Estes pacientes...? — disse eu, um pouco desconfortável por não saber o que enxergar naquelas pessoas. — Foram atendidos aqui, nos últimos três meses. Chegou a um ponto em que eu contatei Genésio e
lhe falei que algo estava acontecendo. — Estão olhando para o chão, parecem desorientados... — Eu comentei, encarnando a médica de ambulatório apenas para ter o que falar. — Sim, a princípio achamos que estavam. Mas depois, percebemos que eles estavam lúcidos. Eles diziam coisas... Ah... — relatou Castro, mexendo a cabeça vigorosamente, como se quisesse espantar uma lembrança ruim que vinha em enxame. — Seria uma histeria coletiva? — Não, definitivamente não é. Eles falavam o tempo todo que queriam se libertar da tela, parar de olhar para a tela. E todos vinham com o celular em mãos. Olhando fixamente para a tela. — Como assim? — Eu disse, me sentindo em uma série de televisão. Meu pedido de mais explicação fez com que Castro retirasse seu próprio celular do bolso e dramatizasse um dos pacientes. — Eles chegavam aqui assim, rígidos, olhando fixamente para o celular. — Ele disse, enrijecendo seus músculos e curvando a cabeça para frente. — E o mais impressionante é que toda a musculatura estava contraída. — Mas vocês têm alguma hipótese? — No momento, não. Esse é o motivo de eu ter envolvido o Genésio nisso, porque ele vai poder investigar melhor esses casos, e isso, obviamente, envolve você. Eu foquei mais em algumas imagens. Em todas elas, os pacientes já estavam sem o celular na mão, mas seus dedos ainda permaneciam na posição
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pela qual seguravam o aparelho. Era como se estivessem olhando para um celular invisível. — Eles falavam normalmente? — indaguei. — Não muito. Tinham certa afasia, que variava, independentemente do sexo e idade. — E depois disso? Voltaram ao normal? Os músculos relaxaram? — Aí, Danielle, vemos que o problema parece ser maior do que imaginamos — disse Castro, retirando os óculos e esfregando seus olhos. — Nenhum destes pacientes voltou ao normal. Estão todos internados aqui. Eu ergui as sobrancelhas com total espanto quando ouvi isso. Exames toxicológicos não indicaram nada de anormal. Nos sangues de alguns, havia vestígios de fármacos para hipertensão e diabetes. Em outros, vestígios de pílulas anticoncepcionais. E em pelo menos uma das amostras de sangue foram encontrados canabinoides. Mas nada que justificasse a permanente tonicidade muscular. Tirei uma noite para revisar cada substância, e na literatura não encontrei nenhum embasamento para acusar alguma delas de ser a causadora dos estranhos casos. Fizeram também imagens tomográficas de cada cérebro, buscando alterações morfofuncionais, mas as varreduras não encontraram anormalidades de nenhuma natureza. Naquela mesma tarde em que encontrei o Dr. Castro, fui ver os internados. Na enfermaria, os funcionários se referiam a eles como “os curva-
dos”, devido ao envergamento dos pescoços que punham a cabeça à frente do plano corporal. Quando me aproximei do primeiro — um jovem de vinte anos — recordei-me imediatamente da primeira vez que acompanhei uma perícia médico-legal, um breve estágio que eu havia feito no final da graduação. Lembro-me claramente de tatear toda a solidez do rigor mortis naquele corpo crivado de balas. A rigidez muscular inquebrável. A diferença é a de que o moço diante de mim estava vivo, respirando e consciente. Somente não conseguia mais relaxar os músculos do pescoço, dos braços e das mãos. De pescoço inclinado, ele permanecia olhando a mão direita, cujos dedos se curvavam como se segurassem um celular. Durante toda a minha estada na enfermaria, entrevistei um por um, me apresentando como pesquisadora e buscando entender a relação entre o travamento anatômico-fisiológico e os celulares. — Eu estava usando um aplicativo — dizia uma paciente, balzaquiana, com fala arrastada, cuja ficha indicava estar há duas semanas internada. — Mas não lembro qual. E daí travei toda. Não conseguia mais colocar a cabeça pra trás nem soltar o celular. Assim como ela, todos se lembravam de estar usando um aplicativo no momento do travamento, mas também não se recordavam qual. Dr. Castro inicialmente não dera importância em verificar o conteúdo dos aparelhos, deixando-os com familiares e acompanhantes dos enfermos, mas nos últimos casos já pedia autorização para vasculhar o
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sistema móvel em busca de algum padrão entre os casos. Porém, de maneira inexplicável, os celulares se desligavam quando eram retirados das mãos de seus donos, sempre à força, dado o enrijecimento dos dedos. E depois disso, nunca mais ligavam, e alguns entendidos em eletrônica que abriam os aparelhos informavam perda total dos dispositivos. Aos familiares e acompanhantes, também fora indagado se tinham conhecimento de algum aplicativo diferente que poderia estar sendo usado pelos pacientes, mas sempre se obtinha respostas negativas. Naquele dia, voltei para casa realmente intrigada com o que vira. Já tinha conhecimento, ainda que parco, de supostos experimentos que envolviam controle da mente e tecnologias variadas, como ondas que coordenam a atividade sináptica cerebral que estariam sendo lançadas de redes e satélites. Mas tudo sendo fruto de teorias de conspiração. E aquilo com que eu me deparara era real. As pessoas estavam, de fato, tendo seus músculos travados enquanto olhavam alguma coisa no celular. No segundo dia em que estive lá, me concentrei mais no tratamento que davam àquela gente. Fisioterapeutas vinham todos os dias à enfermaria, tentar seus artifícios motores ósseo-musculares. Mas nada adiantava. Nem mesmo miorrelaxantes — drogas que relaxam músculos — funcionavam naqueles pacientes. Até mesmo acupunturistas foram chamados ao hospital por familiares, em vão. Um dos pacientes, inclusive, havia tentado
por conta própria um método mais espartano, e percebeu que fora má ideia ao ter os metacarpos partidos por forçar a mão dura com a outra que não fora afligida de paralisia. Já recebendo analgésico intravenoso, ele concluiu que fora uma bênção ter desistido de tentar com o pescoço primeiro. Foi no terceiro dia que eu tive uma ideia para descobrir o misterioso aplicativo que aparentemente tinha forte associação com o espasmo muscular. Se eles haviam baixado o programa, isso deveria estar registrado em suas contas online. O que restava era obter autorização do provedor de serviços para analisar o que havia sido instalado a partir das lojas virtuais. Este foi o estopim para Dr. Castro comunicar às autoridades de saúde pública os estranhos casos com os quais estávamos lidando. Feito isso, nos reunimos com a secretaria municipal e pedimos que o governo pleiteasse a quebra de sigilo digital de cada paciente. Eu, particularmente, fiquei muito frustrada quando a empresa de serviços online nos retornou a lista de downloads de cada dispositivo envolvido e não conseguimos encontrar aplicativos diferentes do que já conhecíamos. Havia ali mensageiros, agendas, redes sociais, organizadores de tarefas, serviços de streaming de filmes e séries. Eu tinha todos estes no meu celular. Não havia nada suspeito ali, porque se fosse um destes o causador do problema, milhões de outros usuários seriam acometidos. Ou estes que estavam internados possuiriam alguma predisposição genética a ter travamento dos
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músculos quando usassem um destes aplicativos. Mas não fazia sentido. Não havia descrição na literatura médica, até onde se sabia, de um fator genético associado à propensão a distúrbios neuromusculares desencadeados por uso de tecnologia. Não é como a mutação no gene TP53 que causa câncer de fígado se o paciente abusar do álcool. Não posso negar que uma leve pontada de euforia me arrebatou, quando imaginei estar com uma estrondosa descoberta científica em mãos. Genésio esteve no hospital no quarto dia. E justo quando ele foi à enfermaria rever os casos, Dr. Castro nos vem informar que havia chegado um novo paciente na mesma condição. Corremos imediatamente para a emergência. Na maca, estava sentado um adolescente de dezessete anos, celular na mão, pescoço curvado à frente. Olhos fixos no aparelho. — O que você estava vendo aí? — perguntou Genésio, enquanto eu me posicionei ao lado do rapazinho para espiar o que a tela mostrava. — Não sei. Não lembro — respondeu ele, sem tirar os olhos da tela. Mas esta estava preta, pude constatar. O aparelho parecia desligado. — Consegue mover o pescoço e o braço? — perguntei. — Não. Não consigo mexer nem os olhos! Com dificuldade, retiramos o celular da mão do garoto. Dedos enrijecidos que permaneceram flexionados mesmo na ausência do aparelho.
— Ajudem o meu filho! Ele travou todo! — disse a mãe do paciente, ao entrar na sala de atendimento ambulatorial. — Senhora, sabe o que ele estava fazendo no celular antes disso? — questionei. — Sei lá! Esses jovens de hoje só sabem ficar olhando pra tela o tempo todo! Ele estava normal e de repente travou! Conectei o aparelho à tomada, na esperança de que fosse apenas bateria descarregada, mas me entristeci quando se passaram dois minutos e nenhum sinal de vida foi dado pelo celular. Estava desativado. Definitivamente. Aquela mãe fez um escândalo, quando dissemos que seu filho deveria ser internado, porque não conseguiríamos resolver seu caso tão cedo. Era mais um para a estatística, agora com um agravante: ele não conseguia mexer os olhos. Ficou na enfermaria com o olhar fixado à sua mão direita, que empunhava um celular invisível. E depois dele, foram mais quatro casos naquela semana. Pescoços curvados, cabeças incapazes de virar para os lados, braços flexionados e mãos em meio movimento preênsil. E ao longo dos dias subsequentes, não parou de chegar mais gente nesse estado. Quando me dei conta, eu estava diante de pelo menos cinquenta pacientes “curvados”. Tinha gente que inicialmente fora atendida lá mesmo, na emergência, mas começaram a chegar casos encaminhados de outros centros de saúde. Aquele hospital onde Dr. Castro trabalhava estava se tor-
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nando uma espécie de referência para a misteriosa epidemia de torcicolo. Àquela altura, um rumor já tinha respingado na imprensa e encontrei repórteres na sala de Genésio numa nublada e ventosa manhã. Não tardou para que eu desse uma entrevista, publicada no principal site de notícias do país, sobre os inexplicáveis casos de torcicolo que estavam se multiplicando na cidade. Acho que no dia seguinte à notícia bombou nos tópicos de tendência digital, ao ponto de Genésio ser procurado por universidades estrangeiras interessadas em participar de um estudo. Conseguiríamos estudar os sintomas da peculiar síndrome, mas ainda estávamos longe de descobrir sua causa. Não havia qualquer padrão de perfil nos pacientes. Esquadrinhamos suas vidas de modo minucioso, buscando algum comportamento que possibilitasse o travamento, mas nada parecia ser capaz de desencadear tal condição. Tinha gente obesa e gente de baixo IMC, gente negra e gente branca, tabagistas e vegetarianos, idosos e pré-adolescentes. Em comum, apenas o fato de estarem usando celular no qual rodavam algum aplicativo — que parecia, sem dúvida, provocar amnésia de curto prazo e reforçá-la destruindo o celular. Decidi então pesquisar na internet algum relato estrangeiro sobre um caso parecido ou idêntico. Busquei pelos termos “celular” e “travamento do pescoço” e “amnésia” em diversos idiomas, usando um tradutor online. Mas não me veio nada aproveitável. O mais próximo que cheguei de algo que
remetesse à situação era um site alemão sobre saúde ortopédica, que a julgar pelas figuras alertava dos males que poderiam ser causados pela posição em que se olha uma tela de celular. Após um mês e meio, já havíamos escrito e submetido o primeiro artigo, com relatos de caso. Denominamos “síndrome do pescoço curvado” a anomalia da qual estávamos perante. Dedicamos uma seção inteira para especular a etiologia do distúrbio, e eu me dei a liberdade de divagar sobre neuromodulação diferencial por ondas que determinados pixels emitiam em telas de LED. Para tentar explicar tais casos, eu tinha que recorrer a estes devaneios. Mas exatamente no dia em que o artigo foi aceito, descobri estar diante da causa daquela síndrome. Era domingo e eu havia saído cedo para uma corrida matinal no parque perto da minha casa. Primeiro, uma carreira cadenciada de um quilômetro, contornando as fileiras de buritis até chegar ao lago central. Troquei a lista de reprodução do celular, me alonguei mais um pouco, e tomei o rumo contrário, em direção à minha vizinhança. Não tinha percorrido nem duzentos metros de retorno, quando a hipnótica batida eletrônica que me invadia os ouvidos em estéreo deu lugar a um bipe. Era o alerta de mensagem SMS. Geralmente quem enviava era a operadora de telefonia, mas essa eu não deixei para ler depois. “Baixe agora o aplicativo Junta-Vídeos, totalmente grátis! Envie ASSISTIR para 9843221 e tenha
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acesso a um conteúdo ilimitado! São mais de um milhão de vídeos selecionados especialmente para você! Você não vai conseguir tirar os olhos da tela!”, dizia a mensagem, que se movia para cima e para baixo de acordo com o ritmo de minhas passadas. Completei meu percurso e voltei à minha residência. No trajeto entre o parque e meu edifício, vim pensando seriamente no que tinha lido. Aquela era mais uma mensagem de propaganda, dessas que se recebe o tempo todo. Dessas que se deve ignorar, pois há grandes chances de ser um golpe de qualquer natureza. Mas a última frase me chamava demais a atenção. Coincidia perfeitamente com a situação que eu estava analisando. Durante o resto da manhã daquele domingo, eu tentei abstrair tudo sobre trabalho e estudo. Mas a última frase do torpedo permaneceu na minha cabeça como um parasita firmemente aderido ao hospedeiro, em indissociável simbiose. Por um lado, eu me sentia curiosa em baixar o aplicativo, para averiguar a tímida hipótese de que ele tinha alguma relação com os pacientes curvados. Mas meu senso de razão, por outro lado, insistia em me fazer desistir da ideia assim que eu tomava o celular em mãos e acessava a lista de mensagens. À tarde, fiquei extremamente extasiada quando recebi o e-mail de aceite do artigo, porque senti que todo o esforço valera a pena. Pela primeira vez desde que assumira a pesquisa sobre os curvados, a sensação de que estava na ponta de uma investigação pioneira me preencheu o ego. Eu estava
realmente orgulhosa de mim mesma. Mas ainda faltava descrever com precisão a etiologia da desordem. E o celular parecia pulsar, me chamando, sendo que eu tinha total certeza de que, na verdade, quem o fazia era a mensagem que eu havia recebido de manhã. Quando já era noite, eu enfim respondi ao torpedo, enviando “ASSISTIR” para o número informado. Meu plano era explorar rapidamente o aplicativo que supostamente seria baixado, para depois desinstalá-lo do aparelho, e logo comunicar à operadora que estavam me enviando spam. Um minuto após o envio da resposta, eu recebi outra mensagem, que continha um link para a loja virtual. Lá estava o Junta-Vídeos. A estatística dizia que havia sido baixado cinquenta e oito vezes. Minha mão estremeceu levemente quando constatei que este número se aproximava da cifra de pacientes curvados atendidos até então. Mas os downloads excediam em duas unidades o total de atendimentos. Ou não havia relação alguma entre o aplicativo e a epidemia de torcicolo — e eu estava delirando na minha hipótese —, ou havia dois casos ainda desconhecidos pelos agentes de saúde. Eu sabia que somente havia um modo de testar. Baixei o Junta-Vídeos no meu celular, garantindo que não viera nem vírus nem arquivo espião com uma varredura de antivírus logo após a instalação. De fato, o Junta-Vídeos parecia limpo, ao fim da análise.
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Abri a interface do programa e fui apresentada a uma lista de arquivos, que pareciam ser vídeos dos mais diversos assuntos. A estética do aplicativo era bastante simples, se aproximando de uma rusticidade que me remetia à internet da virada do milênio. Ele consistia em apenas uma página de lista, cuja pequenez da barra de rolagem denunciava a astronômica extensão do conteúdo. Sem hesitar, abri o primeiro arquivo. E tive a nauseante surpresa de me deparar com uma pequena criança, que logo reconheci: era eu, nos idos de meu primeiro ano de vida. Eu estava assistindo, no fim das contas, a um vídeo que pertencia aos meus pais — eu, pequenininha, andando pela primeira vez em velocípede. Como fora parar ali? Pelo que eu sabia, eles não o haviam carregado na rede — não condizia com o canal sobre arte que minha mãe mantinha no YouTube. Abri o segundo vídeo e me deparei com outro vídeo meu, dessa vez eu devia estar com dois ou três anos de idade. Estava indo para a creche, fazendo um escândalo de ter que abandonar o colo materno. Mas esse eu não me lembrava de ter sido gravado, ou seja, se meus pais o fizeram, eu não tinha ciência. E me apavorei quando descobri que todo o trio de vídeos seguintes me tinha como protagonista, em fases diferentes da vida, em diferentes ângulos e contextos. Em situações em que meus pais nem estavam presentes. Larguei o celular na escrivaninha e pendi a cabeça pra frente, amparando o movimento com
as mãos sobre a testa. Aquilo era desesperador. Eu me sentia devassada. Como se alguém tivesse me perseguido por toda a vida, me filmando em plena obsessão. Será que todos os que baixavam o aplicativo viam a mesma coisa? Será que eu estava sendo assistida naquele momento por gente que eu sequer conhecia? Eu precisava denunciar aquilo às autoridades. Mas foi então que, do modo mais doloroso, minha hipótese começou a se confirmar. Eu peguei novamente o celular, dessa vez apenas com a mão direita, e acessei a dezena de vídeos seguintes aos que eu já tinha visto. Interrompi a exibição daquele em que eu tinha uns treze anos de idade, no qual estava sentada no parque, para meu primeiro encontro, e consequente primeiro beijo. A câmera havia filmado bem de frente, dando zoom na conversa que tive com o namoradinho. Eu estava resoluta em comunicar à operadora e levar à polícia a situação. No momento de sair do aplicativo e acessar o discador, me senti totalmente presa. Como se houvesse sido amarrada firmemente com cordas espessas. Minha mão não obedecia mais, meu braço não mais me obedecia. Meu pescoço, ligeiramente curvado para frente, estava rijo. Não sentia dor, mas sabia que estava travada. Entrei em pleno desespero. Fazendo força, consegui me levantar da cadeira, com alívio por sentir minhas pernas e pés. Mas do abdome pra cima, eu não me movia. Ergui-me no
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quarto e dei dois passos, empunhando o celular que ainda exibia a interface do Junta Vídeos. E olhava diretamente para a tela. Não que eu quisesse. Eu simplesmente não conseguia mais mexer o pescoço. E tentei de todas as formas mover a cabeça. Sem êxito. Eu tive torcicolo apenas uma vez na vida. Na primeira trilha que percorri, com amigos da faculdade. E essa sensação de travamento em nada recordava o torcicolo. Era muito pior, muito mais sólida, como se a mobilidade de meu pescoço não fosse algo natural, e sim uma anomalia do sistema locomotor, e que o normal para minha anatomia fosse a curvatura da cabeça à frente de meu plano corporal. Minha mão direita também se mantinha em formato preênsil. Segurando firmemente o celular. Eu não consegui me desvencilhar do aparelho. Não conseguia relaxar os músculos e afrouxar os dedos. Gritei. Gritei duas vezes. Estava afligida pela síndrome dos curvados, eu era um deles agora. Pânico ao constatar isso. Com todas as minhas forças, tentei mover o pescoço, desfazer a curvatura que agora me dominava a silhueta. Mas não conseguia. Comecei a suar excessivamente, dado o esforço descomunal que estava fazendo para tentar voltar ao normal. Caí de joelhos no chão, ofegante. E percebi que também não conseguia mover os olhos. Fixamente observando a tela do celular, eu gritei mais uma vez quando a vi tornar-se preta,
sem que eu tivesse dado nenhum comando. E eu sabia exatamente o que vinha depois. A amnésia. Tal como os pacientes que eu estava estudando. Em questão de segundos, senti algo corroer minha memória. Como traças lentamente desconstroem tecidos. Fragmentos de lembranças foram comidos de minha mente. Progressivamente, eu já não me recordava de ter recebido o torpedo pela manhã, e também já não lembrava mais de ter dado uma resposta. Eu precisava frear aquela onda de amnésia. Era minha única esperança, para enfim relatar à comunidade médica a causa de toda a epidemia de torcicolo. Eu havia descoberto, o mérito era todo meu. Eu que havia dado esse passo em direção à compreensão da enfermidade em toda a sua holística. Aumentei a força em meus músculos do pescoço. Uma dor lancinante se espalhou a partir de vários focos. Tudo o que estava abaixo de minha cabeça e acima de meu peito começou a doer violentamente, como se eu tivesse sido golpeada por horas a fio nesta região. Não demorou muito para que a dor se irradiasse pelos nervos cranianos e atingisse todo o encéfalo, fazendo com que minha mente pulsasse a cada memória que se esvaía do meu ser. E após minutos de esforço comecei a sentir o pescoço se mover — finalmente! Estava vencendo a síndrome dos curvados! Minha cabeça se virou ligeiramente para o lado esquerdo, ainda que meu olhar se mantivesse fixo na tela do aparelho, agora
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totalmente negra por sua morte consolidada. Mas então algo muito mais terrível aconteceu. Com força, consegui virar a cabeça para a esquerda, mas meus olhos não acompanharam tal movimento. A fixação na tela parecia muito mais forte do que meus músculos abdutores do pescoço. Num grito, senti a cabeça completar o meio-giro, ao mesmo tempo em que meus dois globos oculares se desprenderam das órbitas, e no instante seguinte, minhas pupilas já miravam o negrume do interior das cavidades onde estavam inseridos. Eu sabia que todos os músculos que controlavam meus olhos haviam se rasgado violentamente, sem dó nem piedade de meu sofrimento. Não consigo descrever a sensação de ter os globos oculares girados em movimento que não era natural, a máxima exoftalmia, para depois eles escorregarem para fora do meu crânio e ficarem pendurados pelo nervo óptico, até se grudarem na tela do celular. Sangue quente e de odor ferroso vertia por meus zigomas, e foi a última experiência sensorial que tive antes de desabar no chão do meu quarto, cega e curvada.
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Guia
Baixando: GPS Leve — Versão 2.0 Instalando em seu dispositivo... Vire à esquerda a duzentos metros, disse a voz feminina. “Legal, trânsito fluindo até o endereço dos gêmeos”, pensei, vendo um rastro verde surgir na tela do celular, destacando-se sobre um fundo cinzento que mostrava as ruas próximas. Eu tinha tempo de sobra para chegar lá, pelos cálculos do aplicativo. Meu noivo que havia indicado esse, o GPS Leve. Há um ano eu trabalho como professora numa firma de aulas particulares. A empresa gerencia os pedidos dos alunos mensalistas e incumbe algum professor cadastrado de se dirigir à casa do cliente. Dão uma ajuda de custo para passagem de ônibus ou combustível para seu carro. Mas o melhor é que sempre há solicitação de aula, sempre. Estou trabalhando frenética e a remuneração é satisfatória, pelo menos pra mim. Por mais que alguns digam que é exploração. Eu passei muito tempo desempregada para considerar os pagamentos que caem
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em minha conta como mixaria. Siga pela Avenida das Acácias e se mantenha à direita, informou o aplicativo. Os gêmeos moram a dois bairros de mim. Já fui mais longe que isso, e foi realmente complicado encontrar o endereço da menina anterior. Não que eu não tenha checado nos mapas online, antes de sair de casa. Não que eu não tenha marcado o ponto de destino no aplicativo de mapa nativo do meu aparelho. O problema é que sou péssima em orientação. Fico mais enrolada do que gongolo ameaçado. Tenho que ser grata ao GPS Leve. Não sei o que é, mas ele te guia de uma forma mais clara e firme do que os outros aplicativos. Por mais que a voz feminina que anuncia as direções seja idêntica ao de outros programas, há algo nesta que transmite mais confiança. É como se fosse uma amiga de longa data me auxiliando no caminho. Atenção, fiscalização eletrônica a noventa metros. Velocidade máxima permitida de setenta quilômetros. Mais uma multa e meus pais revogam meu carro. Agradeço imediatamente ao GPS Leve pelo aviso. Troco a música do pen drive, de modo displicente. Balada romântica agora, do tipo que faria meu namorado reclamar. Vire à esquerda na Avenida do Contorno e se mantenha à direita. Bairro arrumado este dos gêmeos. A Avenida do Contorno, aqui, tem um canteiro central com palmeiras, que parecem rir ao vento. Essa avenida desemboca no meu bairro. O canteiro se prolonga
até lá, mas no trecho próximo à minha casa não tem palmeira nenhuma, apenas uma careca feita de barro duro. E os estabelecimentos comerciais que se estendem pela via são bem menos sofisticados, sendo basicamente negócios que passam de pai pra filho — pequenas padarias, armarinhos, botequins e bazares que vendem muito plástico. As ruas transversais, na minha área, não apresentavam os mesmos túneis de árvores, e eram compostas por casarios mais antigos, de uma arquitetura que valorizava entalhes curvilíneos e azulejos decorativos. Troco a música novamente. Não estou a fim de ouvir nada muito agitado hoje, apenas quero acariciar os ouvidos com ritmos suaves e compassos que martelam menos. Sinto uma leve dor na têmpora esquerda e não pretendo alimentá-la com elevados decibeis. Acho que ficarei menstruada em breve. Siga pela Rua dos Guarás. Vire à direita a setenta metros. Casas moderninhas, de arquitetura bem poligonal e muitos vidros escuros se perfilavam em ambos os lados. Calçadas excessivamente limpas, como se o serviço de higiene urbana passasse mais de uma vez por dia aqui. Árvores abundavam nessas calçadas — talvez uma a cada dez metros? — e causavam uma sombra relaxante para quem estivesse no meio do asfalto. Quase não havia casas mais antigas. A maioria parecia bem recente. O ambiente naquele bairro — tão perto do meu, e tão diferente — era de pura prosperidade. E havia bastante movimento nas ruas, para uma
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região majoritariamente residencial. Não pude deixar de reparar que certas pessoas que transitavam nessas ruas paravam quando eu passava ao lado. Muitas olhavam diretamente para meu carro, e até cheguei a me constranger. Pude identificar uma babá de cachorros, dois cinquentões correndo com monitores de frequência cardíaca no punho, um casal de adolescentes que portava skates e uma mulher com carrinho de bebê. Talvez eu estivesse perturbando demais a calmaria daquelas ruas estreitas. Talvez aquele entrelaçado de vias fosse um refúgio que protegia aquela classe média do zunido da Avenida do Contorno. Dobrei a esquina e me vi na Rua dos Goytacazes. A rua dos meus clientes. Nela, pipocavam alguns prédios baixos, de até quatro andares, permeando as casas, que mantinham o semblante moderno e arrojado. Reduzi a velocidade e fiquei atenta à numeração. Destino a cinquenta metros. Mantenha-se à esquerda. Era um prédio, informava a imagem em ângulo completo que vi na internet. A Rua dos Goytacazes era tão estreita quanto as adjacentes, e estava deserta. O sol insuficiente do outono já se declinava no horizonte e iluminava apenas os andares superiores dos casarões, lançando reflexos difusos por conta da negritude das vidraças. Destino alcançado. E lá estava eu diante do número duzentos e quatro. Encostei o carro na calçada e permiti que um utilitário — de luxo, para poucos — me passasse.
Ele tirou um fino da minha porta do carona, e me chegou a doer a espinha ao ver a proximidade exacerbada. Tomei o celular em mãos e silenciosamente agradeci ao GPS Leve por ter me trazido até aqui, sem erros. Saí do aplicativo e verifiquei uma mensagem do meu noivo. Em mais íntimo âmago, senti uma ligeira desconfiança ao ler que ele se atrasaria no escritório — “um caso trabalhista bem difícil”, dizia na mensagem —, e meus devaneios delinearam a estagiária gostosa em minha mente. Tramei rapidamente uma vingancinha por prevenção e coloquei na bolsa os livros de geometria e álgebra, os quais viajaram no banco do carona. Ajeitei os óculos através do reflexo do retrovisor e abri a porta. O esquerdo foi o primeiro pé que tocou o mundo fora do meu carro. Eu estava de sapatilhas — o par mais confortável do meu armário. Senti o chão ao redor, mas me senti desconectada de todo o resto que tomava minha visão. Sabe aqueles momentos em que você acha que está sonhando? Que você está de fato sonhando e sabe que está dormindo? Essa sensação não chega nem perto do que senti ao ver o que era o mundo ao meu redor. Ao sair do carro, eu não vi mais casas grandes de classe média-alta. Ao sair do carro, eu não vi as ruas limpas e arborizadas. Ao sair do carro, eu estava em meio a barracos de tijolos nus e palafitas que se erguiam frágeis
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sobre águas que não demonstravam saúde. Dei um giro em meu próprio eixo e constatei que tudo à minha volta era uma favela. Eu não estava mais no bairro nobre — será que em algum momento eu estivera? Não tenho tempo para especulações. Não posso ficar pensando em como vim parar aqui. Preciso é sair desse lugar, porque há gente que manda por aqui, e definitivamente não pertence ao governo. Entrei no carro e de relance o retrovisor me exibiu a expressão de medo que eu portava. Eu estava atônita, e sentia isso em todo o meu corpo. Uma corrente de adrenalina percorria minha circulação sanguínea. Eu tinha que ir embora o mais rápido possível, pois sentia que minha vida corria risco estando onde eu não deveria estar. Mesmo dentro do carro, eu via a favela lá fora. E percebi que a rua não estava deserta, que algumas pessoas surgiam aqui e acolá, se revelando a partir de becos e ruelas transversais. Era típica gente que morava em comunidade carente — roupas humildes e semblantes de luta pela sobrevivência. Todos me olhavam, como se desconfiassem daquela motorista que chegara ali sem motivo aparente. Bati a porta do carro e dei partida. Quando engatei a marcha ré, percebi o quanto minha mão tremia. Se estivesse de bexiga cheia, talvez urinasse nas calças, como uma criança. Meu peito latejava, pulsava como se meu coração desejasse abandonar meu corpo — como se ele fosse um navio em naufrágio, e o coração uma peça que não quisesse mais
fazer parte de tal apocalipse. Retrocedi o máximo que pude naquilo que deveria ser a rua onde moravam os gêmeos, que agora se revelava uma viela cada vez mais estreita. Parei de dar marcha ré quando alguns latões foram derrubados pelo para-choque do carro, e arranquei desesperadamente em direção à viela transversal, que me levara até ali. Porém, nela eu consegui me deslocar parcos metros. Deparei-me com uma van que estava em rota de colisão frontal comigo. Se esta via permitisse maior velocidade, o acidente teria sido inevitável. Fiquei num limbo momentâneo de não saber o que fazer, de não saber se ia para frente ou para trás. Olhava para todos os lados, mas não via solução. Eu estava encurralada por barracos que me balizavam e uma van que raspava nas paredes de tijolos, obstruindo totalmente até o fluxo de pedestres. Pessoas me olhavam de dentro de seus casebres, e num giro periscópio de olhar eu percebi gente nas lajes dos barracos. — Vai pra trás! Tem saída lá atrás! — anunciou uma voz abafada que veio da lateral do meu carro. Tinha um homem entre a porta do motorista e o muro de tijolos. Ele gesticulava para que eu desse marcha ré e voltasse ao que eu chamava de Rua dos Goytacazes. Eu baixei o vidro do carro para poder ouvir com clareza o que ele dizia. A ajuda daquele indivíduo veio como um cobertor aquecido para alguém que foi resgatado de águas hipotérmicas.
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— Se você for pra trás, tem saída pra avenida lá — afirmou o sujeito. — Obrigada! Sigo reto por ela até sair, é isso? — Eu indaguei, ao mesmo tempo em que o motorista da van à minha frente começava a buzinar desenfreadamente. — Sim, sim, mas você não sai direto não — esclareceu o samaritano. — Tem umas ruazinhas lá pra dobrar. Daí você se informa. — Obrigada! Muitíssimo obrigada! — agradeci, engatando a ré e retornando à Rua dos Goytacazes. Conseguir espaço hábil para manobrar naquela esquina foi como tentar se vestir de porta-bandeira dentro de um banheiro químico. Lasquei o carro umas quatro vezes, no áspero dos tijolos e reboco aparentes. A movimentação chamou a atenção de muitos transeuntes, e pelo menos dois deles me auxiliaram avisando se eu estava perto ou longe das paredes. Conforme avancei pela Rua dos Goytacazes, o povo dos barracos ia observando meu trajeto. Eu me sentia um alienígena. Algo que não era para estar ali. E não era para estar. As favelas são territórios dominados. Os chefões determinam quem pode circular dentro delas. Ao chegar no final da rua dos Goytacazes, deparei-me com uma bifurcação cuja ruela da direita era mais larga do que a da esquerda. Sem chances de meu carro entrar nessa. Segui pelo caminho que não era muito diferente da rua dos Goytacazes. O povo que passava continuava atento ao hatch branco que trafegava plenamente perdido. Eu tremia na
direção, da mesma forma que tremi quando fiz o exame final para tirar a carteira de motorista. Mas agora era bem pior. Naquela ocasião, o que estava em jogo era apenas o tempo — os meses — e o valor que despendi na autoescola. Agora, era minha sobrevivência e integridade que estavam à prova. Conforme avançava pela ruela, comecei a rezar intensamente. Não queria morrer assim. Perdida em território proibido. No labirinto ocre de tijolos, cimento bruto e madeirite. Vire à esquerda a cem metros, disse uma voz feminina dentro do carro. Quando me dei conta, o celular estava de tela acesa, e a interface do GPS Leve — que me trouxera aqui — exibia um esquema de vias. Retirei o aparelho do banco do carona e o ergui diante de meus olhos. Aquilo não era possível. Como o aplicativo havia sido acessado sem ordem para isso? Se bem que, diante da minha ilusão de estar num lugar e descobrir que estava em outro, eu já não conseguia distinguir o possível do impossível. Siga pela rua projetada F e vire à esquerda a quarenta metros. No horizonte virtual do mapa, uma seta vermelha indicava que o destino era a Avenida do Contorno. O GPS Leve sabia — de alguma forma — da minha fuga, mesmo sem ter recebido tal instrução. Eu me perguntei novamente se não estava dentro de um sonho — um pesadelo, pra ser sincera —, e senti uma leve fagulha de esperança ao imaginar que acordaria de repente, no conforto da minha
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cama, abraçada ao meu noivo. Recalculando, anunciou a voz do GPS Leve. Eu até cheguei a notar a viela por si indicada, mas não a adentrei. Imediatamente, o aplicativo começou a trabalhar em outra sugestão de percurso. Eu não confiava mais nele. Afinal, ele parecia ter me iludido, mentido pra mim dizendo que estava no bairro dos alunos, e não dentro da comunidade — mas ainda não era possível! Será que eu tive contato com algo alucinógeno? Eu podia elucubrar sobre o que tinha comido naquele dia. Eu podia recapitular ingrediente por ingrediente das minhas refeições. Eu seria capaz de recordar cada gole de água ingerido. Mas não pude fazer isso, pois homens se colocaram à frente do carro e me ordenaram que parasse. — Boa tarde, dona! — Veio dizendo um deles, com um cumprimento arrastado, demonstrando tranquilidade ao estar no controle da situação. — Que veio fazer aqui? — E-e-eu estou perdida. Eu quero voltar pra avenida do Contorno. — Eu respondi, a voz tremulando junto a todo o meu ser. Enquanto o sujeito se aproximava de mim, ouvi a voz do GPS Leve anunciar o que jamais imaginei escutar de um aplicativo desse tipo: Atenção, narcotraficantes a dez metros. Não tive outra reação senão me encolher no banco do motorista. — Perdida? Perdida aqui? Ninguém se perde aqui não, dona. Todo mundo vem pra cá pra fazer
alguma coisa... — disse o sujeito, já ao meu lado. Eu vi uma pistola em sua cintura. Senti o fim muito próximo. — Eu sou professora. Eu entrei aqui por engano — afirmei, enquanto suava tresloucadamente. — Não sei, hein, dona. Você pode ser policial ou repórter. — Eu juro que sou professora. Eu não queria entrar aqui, eu apenas me perdi... — Salta do carro! — ordenou o traficante. Mas eu segurei ainda mais firme no volante. Vi que o bandido estava tocando na arma em sua cintura. Com o queixo tremendo de pavor, eu mantive o olhar fixo para a frente, para os outros quatro homens armados que estavam enfileirados. E uma voz continuou me fazendo avisos, não sei se para o bem ou para o mal. Atenção, brecha na fileira de narcotraficantes. Acelere e dobre à direita a trinta metros. — Dona, a gente já vai logo resolver tua situação — disse o bandido ao meu lado. Sua voz agora era imperativa. — Salta do carro! Meu queixo subia e descia freneticamente e gotas deslizavam pela minha cara. Minha mão direita engatou a primeira marcha. Consegui enxergar a brecha na fileira de bandidos a qual o GPS me alertara. Se eu acelerasse bastante, passaria por eles. Eu poderia ser metralhada. Mas eu preferia morrer crivada de balas do que sofrer alguma violação por estes homens. Afundei o acelerador e num segundo eu trans-
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passei o quarteto de traficantes que estava adiante. Estampidos secos de disparos foram ouvidos no mesmo instante. Eu nunca tinha escutado tiros tão de perto. Nem mesmo quando tive que abaixar dentro de um ônibus, há vários anos, pois passava entre duas favelas que estavam em plena guerra de facções. Antes, eu estivera no fogo cruzado. Agora, eu era o alvo. Duas balas estilhaçaram meu vidro traseiro. Imaginei ter sido atingida e passei a mão na nuca, em busca de sangue. Mas estava limpa. Eu estava inteira. Por enquanto. Dobrei à direita a trinta metros, conforme o GPS me alertou, e caí numa via larga, tão larga quanto as vias de bairro. Outro carro passou por mim, no sentido contrário. Ofegante, com adrenalina preenchendo meus atos, me virei por alguns segundos, vasculhando se na minha retaguarda vinham os bandidos. Ao virar o rosto novamente para a via onde trafegava, vi de relance dois objetos fusiformes reluzindo no banco do carona. Eram cápsulas de balas. E no momento seguinte, em que direcionei o olhar para a frente, vi que uma barricada crescia diante de mim, conforme nossa distância se reduzia. Atenção, barricada a seis metros. Use o cinto de segurança para evitar traumatismo craniano, disse a voz do GPS, segundos antes de ser calada pelo impacto da lataria do carro com o aglomerado de blocos de concreto, vergalhões, latões de lixo, sofás, geladeiras e outras sucatas indefiníveis.
Meu corpo foi projetado para frente e englobado instantaneamente pelo colchão de ar que era o airbag, agigantado em seu momento heroico. Senti o carro empinar a traseira ligeiramente, mas seu lançamento ao ar não se concretizou, para minha sorte. O airbag de fato me protegeu de um impacto fatal com o painel, embora eu tenha sentido um violento efeito chicote no pescoço ao manter a inércia de movimento. Consegui abrir a porta do carro, e ao meu redor eu vi diversas pessoas, que observavam atônitas o acidente. A frente do meu carro não existia mais. A barricada havia sido deslocada alguns metros para trás com a colisão. Senti lâminas de sangue escorrerem dos membros superiores e inferiores. As pernas estavam bambas, e não aguentei caminhar para muito longe do carro. Dobrei os joelhos e despenquei no chão de cimento duro. Uma senhora veio me ajudar nesse minuto. Ela segurou meu braço com firmeza, como se precedesse uma tentativa de me levantar. Simplesmente olhou para mim diretamente para as pupilas e disse, com a voz do aplicativo GPS Leve: — Siga pela viela atrás de mim e vire à esquerda a vinte metros. Eu estava exausta. Aterrorizada. Mas interpretei aquilo como um sinal divino, um milagre, ou sei lá o que era — como uma velhinha é capaz de falar com voz de aplicativo? Já erguida, trotei em direção à viela, e por ela segui, pingando sangue, até que meus músculos
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doeram tanto que desabei no chão, entre duas palafitas de madeirite. Se aquilo era um pesadelo, estava real demais. E eu não costumava ter pesadelos — ou pelo menos lembrar de um — com facilidade. Lembro que o último se dera há alguns meses, e um assombro ainda me tocava quando me recordava dos demônios sem rosto que me perseguiam por celas de um hipercubo. Se eu fosse a um psicanalista, ele com certeza teria enxergado desafetos meus nas criaturas que desejavam meu sangue, e a figura n-dimensional que me encarcerava poderia ser explicada por minha especialização em geometria — com o que mais uma matemática poderia sonhar, senão com sua tese de pós-graduação? Mas isto aqui, esta situação adversa que me engolia, não era um pesadelo. Parecia sim, mas era real demais. A dor era muito sólida. Eu não estava dormindo, por mais que algum mecanismo de defesa mental quisesse empurrar isso para minha consciência. Eu precisava encarar tudo como a realidade. — Moça, você está bem? — ouvi uma voz indagar à minha direita. Eu estava no chão, e de modo ofuscado vi três pares de pernas se enfileirarem ao redor da minha cabeça. Balbuciei umas palavras. É claro que ninguém entendeu. Em seguida, senti braços me erguendo, as sapatilhas escorregando de meus pés, e meu corpo sendo deslocado até um abrigo. Ainda atordoada e vendo tudo sem a devida nitidez, consegui perceber que o
ambiente agora era de um boteco. E que havia verde abaixo de mim, quando eles me estiraram sobre uma espécie de mesa — sinuca, pude constatar. — Veio de onde? Caiu aí fora? — Alguém masculino perguntou. — Deve estar chapada! — disse uma voz feminina. — Veio da boca de fumo, moça? — indagou a mesma voz que me atendera lá fora. Eu não conseguia expressar nada compreensível. Eu sabia o que falar, mas não tinha êxito em como falar. Minha respiração começou a ficar mais ofegante e percebi que muitos ali dentro se mobilizavam para fazer alguma coisa — algo que me socorresse. Em meio às vozes das pessoas, distingui uma televisão ligada. A vinheta de um noticiário vespertino chegou aos meus ouvidos, assim como a voz da âncora logo em seguida. Pude calcular a hora e percebi que deveria ter passado meia hora desde o horário marcado para a aula dos gêmeos. Meia hora no inferno. Os índices de inflação voltaram a cair nesse segundo semestre, conforme relatório do Ministério da Fazenda, dizia a televisão. Era a única coisa que eu conseguia compreender em meio ao burburinho dentro do boteco. A previsão é que a economia do país apresente um avanço de aproximadamente... Devem ter desligado a televisão. A voz da jornalista se calou de repente.
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E em seguida eu ouvi a voz do GPS, vinda diretamente da televisão. Levante-se daí e siga pela rua projetada J até o campo de futebol, e vire à direita a vinte metros. Eu ergui a cabeça ao escutar essa frase. Não fora fruto da minha imaginação. Por mais absurda que parecesse. Por mais absurdo que fosse o veículo por si utilizado para se propagar. E por mais que ela quisesse me indicar alguma direção, eu desconfiava com todas as minhas forças. Talvez fosse melhor esperar ajuda dentro daquele boteco. Talvez aquelas pessoas fossem me salvar. Mas essa esperança se dissipou quando escutei uma voz feminina vociferar: — Ela deve ter vindo da boca de fumo! Devolve pros homens! — Claro que não, mãe! — interveio uma voz masculina. — Tem que chamar socorro pra ela! — Vai querer arrumar briga com os homens de lá?! A gente não tem nada a ver com eles! — reforçou a voz feminina. Eu senti que ela tinha mais autoridade naquele lugar. Não hesitei. Pus-me de pé e, cambaleando, saí do boteco. Meus pés sofriam com o atrito impiedoso do chão de cimento batido. Eu sentia alguns rios de sangue coagulado na pele das pernas. — Moça! Volta aqui! — clamou outra voz masculina, mas eu ignorei. Consegui dar impulso aos meus quadris, e primeiramente trotei, para depois correr, correr de verdade. Em direção ao final daquela rua, que,
segundo a voz do GPS, me conduziria a um campo de futebol. Segui pelo corredor de barracos, iguais aos outros, aquela comunidade era um labirinto de tijolos, concreto, reboco e fios, muitos fios de energia elétrica que se emaranhavam sobre as vielas e adentravam os casebres. E eu corri bastante, me tornando ofegante após um pequeno intervalo de tempo de carreira — minutos? —, e depois, incapaz de prosseguir na mesma marcha. E então percebi que já estava pisando na várzea quadrada, delimitada por duas balizas de futebol. Havia algumas inscrições desgastadas em muros nas laterais, nas quais ainda se conseguia ler os projetos sociais do governo que já passaram por ali. Não estava acontecendo uma partida, mas algumas crianças transitavam por ali. E minha presença anômala e inesperada foi percebida de imediato por todos, pausando o que todos estavam fazendo no momento em que estanquei no meio da várzea. Uma das crianças se aproximou de mim, era um menino de cabelo raspado nas laterais, descamisado, descalço, que chegou bem perto, me olhando nas pupilas. Eu esperava que dele saísse a voz do GPS, por mais louco que fosse — o que não fora até então? — e, no entanto, ele falou com voz masculina, sua própria voz: — Tia, está perdida? Quer sair daqui? Eu já não tinha mais forças para falar, e simplesmente deixei meu queixo subir e descer junto com toda a minha cabeça, dando uma resposta afirmativa. O menininho disse de imediato, ain-
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da com sua própria voz: — Então segue por aquela viela ali que você vai dar na avenida. — Ele disse isso apontando para a espremida passagem entre barracos. — Siga por essa viela e saia na avenida a cinquenta metros. Ainda era o GPS, apesar de ser um menino, eu presumi. Eu estava amaldiçoada pelo aplicativo. Talvez ele estivesse tentando me enganar. Quais eram suas intenções, afinal? Se é que um aplicativo poderia ter intenções. Ele já tinha me trazido até aqui, até a favela, e me exposto a traficantes. E agora, o que ele queria? Não conseguia acreditar que estava sendo guiada para fora. Mas daí eu ouvi a balbúrdia dos meus perseguidores, vindo de uma das ruelas que desembocavam na várzea. E então percebi que as crianças, antes difusas pelo espaço, agora davam forma a um círculo que me encerrava. Eu realmente não sabia do que sentir mais medo — dos bandidos ou das crianças —, e a disputa pelo meu pavor estava páreo a páreo. — Atenção, narcotraficantes a trinta metros — disse o círculo de crianças em uníssono, em voz de GPS, a qual ignorou o fato de haver tanto meninos quanto meninas na formação. — Atenção, narcotraficantes a vinte metros — repetiu o círculo, após um intervalo que pode ter sido de cinco segundos. Ouvi um disparo. Endereçado a meu frágil corpo, que se encontrava no epicentro da roda de
crianças que falavam como o GPS. Mas não senti o encontro nocivo da minha pessoa com a bala. O tiro errou o alvo. E no instante seguinte eu estava furando o círculo e disparando em direção à viela indicada pelo menininho. Fugi sem destino o mais rápido que pude. Atrás de mim estava a morte, e à minha frente, a incerteza. Essa ainda exibia uma face de esperança. E por isso eu a perseguia, aonde quer que ela estivesse — ou aonde quer que o GPS me guiasse, tinha que admitir. Imprimi mais velocidade às passadas, conforme o final da ruela crescia em minha perspectiva visual. Não havia barracos nele. Eu conseguia ver o céu dali. Era impressão minha ou a favela estava empenando para o alto? De fato, a viela parecia subir em sua longitude, um ligeiro aclive que culminava num espaço afunilado por dois casebres de reboco à mostra. A aresta contígua a si, oposta à viela, se relevava um precipício, quando a pessoa se colocava bem no meio dos barracos. Ao se olhar para os lados, não se via escape. Os casebres fechavam o espaço como fortalezas, e a única saída era a própria viela que até ali conduzia. Ou seja, eu estava encurralada. De um lado, o abismo, e do outro o caminho retrógrado. De boca seca, coração acelerado, eu dei alguns passos em direção ao precipício, e consegui observar o asfalto lá embaixo, o qual era cortado de modo incessante por bólidos dos mais variados
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tamanhos e cores. Aquela parte da favela se escarpava sobre encostas de morros, entremeados por rodovias. Eu até pude reconhecer o trecho do qual eu tinha visão. Era uma das saídas da cidade, daquelas que congestionavam nos grandes feriados, a caminho da praia. Mas não fazia sentido algum eu estar ali. Essa região era o lado oposto à Avenida do Contorno. Eu simplesmente cruzei a cidade, mesmo lutando para não acreditar nisso. E também não tive tempo para discutir com minha própria sanidade. Algo subiu pela minha laringe. Algo que eu não esperava. Atingiu a boca e eu forcei para que não saísse. Mas era bem forte. E eu estava fraca demais para segurar. Em claro som, falei sozinha em frente à ribanceira: — Única saída disponível: abismo a três metros. Não era minha voz. Eu sabia a quem ela pertencia. Mas saiu da minha boca, foi produzida pelas minhas cordas vocais. Mas eu ainda sentia as rédeas do meu destino. O GPS poderia até possuir minha fala, mas eu ainda era capaz de decidir se seguiria ou não suas orientações — que até agora apenas me conduziram para o abatedouro. Se ele estava pretendendo que eu me jogasse do precipício, não poderia estar mais equivocado. Eu me virei para a ruela e dei alguns passos. Sabia que um bando de criminosos deveria estar vindo por ali. Mas deveria haver outra forma de escapar, que não o abismo. Que não a queda. E logo em seguida, após minha introspectiva
injeção de coragem, fui assolada por outra embolia, por outra fala que subiu ardente e explodiu em minha boca, ressoando para ninguém ouvir, exceto eu mesma: — Recalculando... Morte a cinquenta metros. E então eu parei. Minha coragem de retornar pela viela desmoronou. Ela não foi mais forte do que o terror da morte anunciada. Aquilo eu não poderia encarar. Com um giro vertiginoso, voltei-me para o fim da ruela, mais uma vez, e corri até o precipício. Senti em cada pelo o deslocamento de ar provocado pelos veículos na rodovia. Um arrepio percorreu minha coluna. A voz do GPS ainda martelava minha cabeça, como se houvesse sido impregnada no ar. Ela dizia que o caminho de volta era a morte. Mas e este? Eu estava à beira do abismo, que devia ter uns cinquenta metros de altura, no mínimo. Tentei imaginar a minha vida como filme, conforme os relatos de pessoas que passaram por situações de risco iminente. Mas nada foi transmitido em minha mente. Isso me acalentou, ainda que de modo bem superficial. No fundo, eu estava apavorada, com medo de que aquilo tudo fosse meu fim. Mas o fato de o GPS não ter anunciado minha morte no precipício ainda me nutria a esperança de que pudesse sair viva daquele inferno. Inclinei o corpo para frente, e deixei que a gravidade puxasse meu ser com toda a energia
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potencial nele acumulada, em direção ao vazio preenchido apenas por ar. No instante seguinte, já estava caindo, rapidamente, vendo o mundo de cabeça pra baixo, para logo depois não ver mais nada.
Correção
Baixando: Fala Aí — Messenger Instalando em seu dispositivo... Nathália: amor, esse aplicativo de mensagens que a gente baixou é melhor mesmo do que o outro. 18:26 Rafa: verdade. Até dá pra esconder que a pessoa viu a mensagem. 18:27 Nathália: pô! Mas daí não vale. Você tá fazendo isso?? 18:27 Nathália está digitando...
Rafa: Não, não. Mozinho, claro que não. E você já chegou em casa? 18:28 Nathália: se você fizer isso eu vou fazer também. 18:28 Nathália: estou chegando 18:29 agora. Nathália: no portão. O Doug está fedido. Veio me lamber 18:30 aqui, esse chato.
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Rafa: que bom.
Rafa: hã?
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Nathália: falo que meu cachorro está fedido e você diz “que bom”? 18:32
Rafa: não, falei de você estar em casa. Eu tô chegando na facul
Nathália: *essa aula deve ser... Ai esse corretor ortográfico do aplicativo é mais teimoso que o do outro! 18:57 Rafa: verdade, amor, ele está zoando ardente. 18:57
18:33
Nathália: aula de que hoje?
Rafa: A GENTE! Eu quis dizer: ele está zoando a gente. 18:57
18:39
Rafa: gerência ribanceira. 18:42
Nathália: Hahahaha. Parece até que ele está rindo da nossa cara. 18:58
Rafa: ops, *financeira. Gerência financeira. 18:42 Nathália: ah legal. 18:49 Rafa: hahaha, você Mianmar essa discípula. 18:50 Nathália: ?? Não entendi
18:56
Rafa: corretor do inverno Nathália: ih, olha ele aí de novo. Acho que você quis dizer “do inferno”. 18:59 Rafa: Siiiiim!
18:52
Rafa: ? Ai! Você ia amar essa disciplina. Foi o corretor ortográfico.
18:59
19:00
Nathália: desliga esse corretor. Eu vou desligar o meu também. Só atrapalha. 19:01
18:53
Nathália: HAHA
Rafa: desligado.
18:53
Rafa:
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Nathália:
19:01
Nathália: sério, ceroula deve ser muuuuuito chata. 18:56
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Rafa: Nath
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Nathália: Oi
19:17
Rafa: que foi?
19:22
Nathália: você me chamou. 19:23 Rafa: não, eu não fiz isso. 19:24
Nathália: então quem foi? Só pode ter sido você. 19:25
19:23
Nathália: e como está a aula?
19:28
19:26
Mensagem apagada
Rafa: Nath, eu não escrevi isso que você leu! Eu escrevi *essa 19:59 aula é muito chata*. Nathália: mas você não tinha desligado o corretor do aplicativo?? 19:59
19:28
Rafa: ela não enrosca em mim.
Rafa: *uma droga. Ops, o aplicativo corrigiu de novo. 19:29 Nathália: mas você não tinha desligado o corretor? 19:29 Rafa: sim. Eu olhei agora e ele continua desligado. Estranho isso. 19:30
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19:47
“essa Paula é muito gata”
Nathália: não tem graça nenhuma isso. 20:00
19:28
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Nathália: Rafael? 19:49
Rafa: sim, eu desliguei, eu não sei porque ele fez isso de novo kkkkkkkkkkkkkkkk 20:00
Rafa: Madruga Nathália: ??
19:48
Rafa:
Rafa: vi agora, mas não enviei 19:24 essa mensagem não.
Nathália: que doido
Nathália: Como assim???????
19:47
Nathália: Rafael? 19:53
Nathália: sim, mozão, você me chamou, olha aí nas mensagens. 19:24
Rafa: sei lá. O celular enviou sozinho.
Rafa: essa Paula é muito gata.
20:01
Rafa: aí, de novo! Eu já desliguei, mas as mensagens continuam erradas! 20:01 Nathália: tá muito estranho. 20:02 Rafa: *ele não gosta de mim*.
20:02
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Rafa: essa foto foi do semestre passado. A turma quis tirar para colocar no perfil. 20:12
Nathália: e você quer que eu 20:02 acredite nisso? Rafa: essa droga de celular. Estou fecundando seio.
20:05
Rafa: *estou falando sério.
20:05
Nathália: complicado né?
20:06
Rafa: mas você acredita em mim? 20:06 Rafa: Nath?
20:07
Nathália: não sei, Rafa. Você pode ter enviado essa mensagem pra mim por engano, quando na verdade queria enviar pros seus amigos. 20:09
Nathália: pq você está do lado dela? 20:12 Rafa: sei lá. Eu nem lembrava disso. 20:13 Nathália: e você quer que eu acredite que o aplicativo mexeu na sua mensagem? Muito estranho você estar ao lado de uma mulher chamada Paula na foto e hoje enviar isso. Estou achando que você ia enviar pro seu grupo de amigos e clicou na nossa conversa por engano 20:14 Rafa: sei lá. foi com indecência.
Rafa: como assim?? Não viaja, Nath. 20:09 Nathália: estou vendo sua lista de amigos aqui na Rede Social da faculdade, e você adicionou uma Paula. E ela está do seu lado numa foto da turma. 20:10
20:14
Rafa: *FOI COINCIDÊNCIA*
20:15
Rafa: Nathália? Mozinho?
20:16
Rafa está gravando mensagem de voz... 0:21
Rafa: hã? Nathália:
Foto 62 kB
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Nathália: então me explica essa foto sua ao lado dela.
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Nath, escuta, eu (inaudível) escrevi essa mensagem. (inaudível) sei o que está acontecendo. É que corre(inaudível) nua (inaudível) 20:18 metendo.
Nathália: não estou entendendo, Rafael. Espero que você me explique bem isso. 20:20
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Rafa: meu áudio está cheio de cortes. 20:21 Nathália: pra ser sincera... Estou muito desconfiada. 20:22 Rafa: eu quis dizer que: o corretor continua se metendo na conversa. Escuta de novo o áudio que você vai perceber que se encaixa. Eu não sei por que minha voz foi cortada. 20:22 Nathália: eu apaguei o áudio, Rafael. Não quero ouvir de novo aquilo. 20:23 Rafa: agora estou com uma ruiva desse corredor. 20:23 Rafa: *RAIVA. RAIVA DESSE CORRETOR. 20:24 Nathália:
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Rafa: Nath, meu amor, eu juro que não estou escrevendo essas mensagens. O aplicativo está alterando tudo! 20:25 Nathália: então prova que você não está me traindo.
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Rafa: agora às 8h30 tem intervalo de aula. Vou te ligar e daí vamos esclarecer toda essa confusão. 20:28
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— Alô, Nath? — Oi, Rafael. — Escuta só, mozinho, o celular deve estar com defeito. Ele está distorcendo... — Rafael, que som é esse ao fundo? — O quê?! — Esse som que estou ouvindo, ele está vindo daí, de onde você está. — Não tem som nenhum. — Tem sim. — Que som, mozinho?! Não tem som nenhum. Eu estou no pátio da faculdade. Tem algumas pessoas conversando, só isso. — Rafael, não tenta me enganar. Estou ouvindo uma batida, uma batida de música de boate. — Hã?! Nathália, isso aqui é uma universidade. Não tem batida nenhuma. Você está delirando. — Rafael, eu confio em você, mas... sinceramente... você está muito estranho. Isso tudo está muito estranho. — Eu sei! Eu sei! Esse aplicativo de mensagem que está atrapalhando nossa conversa. — Não sei se é ele... — Mozinho, mozinho, não chora. Por que o choro agora? — Realmente parece que você está noutro lugar. Você pode estar mentindo pra mim, e estar numa festa... — Claro que não! Estou na faculdade! — Mas e essa música?! — Sei lá que música é essa! Não estou ouvindo
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nada. Não tem música alguma aqui! — Muito esquisito. Essas mensagens, e agora a música... — Nath, eu vou até mandar uma foto de que estou na facul... Espere um minuto, por favor... Obrigado, Paula. — Que foi, Rafael? — Nada não. — Você estava falando com alguém? — Não, não. — Mas eu ouvi você agradecer alguém. E não era eu. — O Mateus. Ele passou aqui e me disse que a aula seguinte foi cancelada. — Mas eu escutei você dizer o nome “Paula”. — Ah, você entendeu errado. Foi o Mateus que passou rapidamente dizendo que o professor faltou. — Não acredito. Depois de tudo eu não consigo. — Ai, meu Deus. Olha, eu posso sair daqui agora e ir pra sua casa. Daí conversamos ao vivo, sem ligação, sem aplicativo, sem interferência. — Tá bom, pode vir. Mas espero que você tenha boas explicações pra tudo o que aconteceu nessa noite. — Ok, mozinho. Vou pegar o metrô e logo estarei aí. Tchau! — Tchau.
Rafa: embarquei agora no metrô. Acho melhor usar os torpedos ao invés desse aplicativo maldito. 20:45 Nathália: ok. Se você prefere assim... 20:46
Rafa: chegou algum torpedo? Nathália: não, nada.
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Rafa: mas eu te enviei vários
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Nathália: não chegou nada. 20:55 Rafa: Nath, naquela hora em que estávamos nos falando, foi a Paula quem veio me avisar que a aula foi cancelada. Desculpe por ter mentido. Eu estava nervoso. 20:55 Nathália: Eu sei quem foi. Eu ouvi bem claro o nome dela. Você me trai com ela, não é? 20:57 Rafa: NÃO! NÃAAAAAAAO! Nathália:
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Rafa: ela é só uma colega de turma. Ela passou por mim e por vários outros avisando. 20:59
Rafa: NÃO SOU EU! É O APLICATIVO QUE ESTÁ MUDANDO TUDO! 21:06
Nathália: eu não consigo acreditar em nada do que você diz! E eu acabei de fuçar na rede social que ela não é da sua turma! Ela entrou um semestre antes de você! Não era pra estarem juntos nessa disciplina... 21:00 Rafa: sim, porque no semestre passado eu e ela transamos. Nathália: O QUÊ?
Nathália: não consigo acreditar. Eu sinceramente estou pensando em acabar com tudo. Como quase 21:06 fiz ano passado. Rafa está gravando mensagem de voz... 21:02
21:02
Rafa: *EU E ELA TRANCAMOS. NÓS 21:03 TRANCAMOS A DISCIPLINA. Nathália:
Nathália: Rafael, você sabe por tudo o que passei no último ano. Isso é maldade o que você está 21:05 fazendo comigo
0:32
Nathália, você está sozinha em casa? Cadê sua irmã, ela já chegou? Fica longe de objetos pontiagudos! Não pegue nada que possa ferir você! Vou ligar pro Dr. Rubem, está me 21:07 ouvindo? Está me ouvindo? Rafa: Nathália?
21:07
Rafa: Nathália?
21:08
21:04
Rafa: poxa, Nath, tudo isso é uma confusão. Minhas sacanagens foram moderadas. 21:04 Nathália: CARACA, E VOCÊ AINDA 21:05 JOGA NA CARA! Rafa: NÃO FOI ISSO QUE EU QUIS DIZER! EU QUIS ESCREVER “MINHAS MENSAGENS FORAM 21:05 MODIFICADAS”.
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Nathália: SEU CRETINO! EU TE AMAVA MUITO! EU REALMENTE AMEI VOCÊ COMO NUNCA AMEI 21:10 NINGUÉM ANTES! Rafa: MAS EU NÃO FIZ NADA!
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Nathália: EU CONFIEI EM VOCÊ! EU ACHEI QUE VOCÊ JAMAIS ME TRAIRIA! EU QUERO MORRER!
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Rafa: NATHÁLIA, PELO AMOR DE DEUS! NÃO MACHUQUE A SI MESMA! 21:11 Rafa está gravando mensagem de voz... 0:19
Nathália, acabei de ligar pra sua irmã. Ela está indo para aí. Fica longe de objetos pontiagudos! Eu vou chegar logo! Já desembarquei e estou caminhando pra sua casa! 21:14 Rafa: Nathália?
21:19
Rafa: OI! ESTOU PERTINHO.
21:19
Nathália: eu já desisti de tudo, Rafael. De você, da minha casa, da minha faculdade, da MINHA VIDA. 21:20 Rafa está gravando mensagem de voz... 0:06
Não (inaudível) isso. (chiado forte). 21:14 Recebendo ligação de Rafa... Chamada não atendida
Rafa: Nathália! Não consigo enviar áudio nem ligar. Estou na esquina. Vamos resolver isso, tá bom, mozinho?
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Rafa: EU NÃO TRAÍ VOCÊ, SUA LOUCA! ESTA MERDA DE APLICATIVO QUE ALTEROU MINHAS MENSAGENS! 21:24
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Recebendo ligação de Rafa... Chamada não atendida Recebendo ligação de Rafa... Chamada não atendida Recebendo ligação de Rafa... Chamada não atendida
Nathália: estou aqui.
Nathália: você mentiu pra mim. Você me traiu. Você me enganou. Me fez de otária. E você ainda tem coragem de me chamar assim? Eu quero morrer, eu não quero mais viver, eu não quero mais viver, eu quero morrer! 21:23
21:22
Recebendo ligação de Rafa... Chamada não atendida Recebendo ligação de Rafa...
— Oi, Rafael... — Alô! Estou aqui no portão! Vim como uma flecha! — Como você quer que eu me mate? — Hã?! — Como você deseja que eu me suicide? — Não fala besteira, Nathália! — Eu posso me matar com um cinto enrolado no pescoço, ou sufocada pelo gás da cozinha... Como você quer que eu morra? — Nathália, eu vou pular o muro! Fique onde está! — Ah, e tenho facas também. Estudando enfermagem, a gente sabe muito bem sentir a carótida pulsando. Sabe que passa muito sangue por ela? — Nathália, fica na linha! Não desliga, estou entrando! Nathália...
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Doug, sou eu! Doug, sou eu, Rafael! Ai, ui! — Ah, sentiu como o Doug está fedorento? Mas o meu cadáver vai ser mais fedorento ainda! — Nathália! Estou entrando! Tive que me desvencilhar do cachorro! — A porta está aberta, Rafael. Estou no banheiro, aqui em cima. Até você subir, eu já terei cortado minha garganta e dado um fim nessa minha vida de merda...
essa mensagem é a Nathália, sua irmã. Estou usando o celular do Rafael porque acabei de destruir o meu a marteladas. Só assim pra que a polícia não me rastreie. Eu fiz uma coisa que muitos não vão gostar. 21:46 Rafa: Mas eu precisava fazer, pra me sentir em paz, pra me sentir bem comigo mesma. Eu não sei como fui capaz, mas algo inexplicável, dentro de mim, me obrigou a fazer isso. Sei lá o que me deu. Mas eu descobri que o Rafael estava me traindo. Ele mandou umas mensagens esquisitas, e ficou dizendo que era o aplicativo que estava fazendo isso de propósito. Eu peguei o celular dele e realmente vi que o aplicativo está se comportando estranho, mas... Agora já é tarde. O Rafael veio até aqui em casa e eu o surpreendi no andar de cima. Ele não teve tempo de reagir. A faca usada está enterrada bem longe, onde só eu sei. No andar de cima, ainda está o corpo do Rafael. Pode ligar pra polícia, irmã, e mostrar essa mensagem. Estou confessando que sou a assassina. 21:49
Chamada encerrada...
...
Rafa está digitando...
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Rafa: Lílian, quem está enviando
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Rafa: Como eu já disse logo no
início, eu destruí meu celular pra ninguém rastrear. Estou disfarçada e a caminho da fronteira. Logo eu estarei fora do país. Ah, fico lhe devendo, ok? Eu sabia onde você guardava dinheiro no armário e peguei toda a grana, porque vou precisar nos próximos dias. É uma pena ter que me separar de você assim, irmãzinha. Mas eu não podia mais ficar aí. Avise ao Dr. Rubem que matar o meu ex-namorado foi muito melhor pro tratamento do que os remédios que ele receitava. É um verdadeiro descarrego! Enfim, Líli, desculpe me despedir assim, por mensagem, mas já estou quase atravessando a fronteira e sinto que não nos veremos mais. Beijos da sua irmãzona, que te ama muito 21:52
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Eu
Baixando: Persona — versão beta. Instalando em seu dispositivo... Canal AmandaPinkD — “Rotina da facul”: “Bom dia, gente! Sou a Amanda PinkD, e se você ainda não é inscrito, se inscreva no meu canal! Esse vídeo de hoje é sobre a minha rotina da faculdade. Nesse momento, estou a caminho de lá... Geralmente eu saio de casa umas sete e meia, e demoro uma meia hora, assim, de carro. Os professores nunca começam exatamente às oito, leva uns quinze minutos pra compor a turma toda, ou quase toda, dependendo da aula, né? Mas enfim, no meu último vídeo eu já tinha mostrado minha rotina de estudo em casa, de leitura dos textos que não acabam mais, e pra quem não se lembra, eu disse que faço faculdade de arquitetura, porque muita gente fica perguntando qual é o meu curso, daí dizem que se inspiram em mim e querem fazer também. Enfim, gente, eu sempre gostei de desenhar, sempre... Ai! Nossa! O cara me deu uma fechada! Ai, mas que
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bandido! Como assim, fazer isso com uma pessoa? Que susto, gente! Mas enfim, voltando à questão da arquitetura: sei lá, gente, desde os meus quinze anos eu pus na cabeça que queria essa opção de faculdade, e daí não mudei mais de opinião. Eu desenhava em tudo, gente, em tudo mesmo. Quantas vezes levei bronca na escola por desenhar na carteira de estudante? Eu criava personagens de estilo mangá, paisagens, construções, e sempre, mas sempre, era descoberta. Daí era diretoria na certa. E também... Nossa, gente, tem um acidente ali na frente. Dois carros batidos, e não deve ter sido a muito tempo não. Por isso essa rua está mais congestionada do que de costume. Sério, nunca tinha visto assim. Tem uma faixa só, por onde estão todos passando. Como tem guardas não vou pegar o celular na mão para mostrar pra vocês o acidente, mas gente, é sério, é muito feio. Tomara que não tenha morrido ninguém. Nem vi ambulância. Por isso que eu boto o celular nesse suporte pra gravar esses vídeos enquanto estou dirigindo. E agora, gente, eu estou usando um novo aplicativo, o Persona. Ele funciona como um agregador de redes sociais. Todos os meus perfis ficam reunidos aqui. Baixei ontem e já estou gostando, gente, é realmente muito útil pra gerenciar vlogs, canais, blogs. Vou deixar o link aqui na descrição do vídeo para quem quiser baixar. Mas gente, eu recomendo, de verdade. Estou chegando na faculdade já. Vamos procurar vaga agora... Ai, ali tem um carro de um veterano meu. Vou filmar e não contar pra ele que está no meu vlog. Ele vai
descobrir sozinho... Vou ajeitar o cabelo... Nossa, já são oito e meia! Ai, meu Deus, tenho que chegar logo nessa aula. Foi aquele trânsito por causa do acidente... Gente, eu vou correndo entrar, e alguns trechos da aula eu filmo e mostro pra vocês! Até já.”
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Canal AmandaPinkD — “Tô doida”: “Gente, já aconteceu com vocês de fazerem uma coisa e nunca se lembrarem dela? Que coisa doida que está acontecendo comigo... Tem um vídeo no meu canal, “Rotina da facul”, mas eu não me lembro de ter gravado ele. Foi postado às nove e vinte da manhã, mas eu não postei nada nessa hora. Nele, eu estou dentro do meu carro, vindo até a faculdade, e pego um ‘super trânsito’, fico parada um tempão numa rua onde houve um acidente. Eu pesquisei na internet e vi que esse acidente aconteceu mesmo hoje de manhã nessa rua, mas eu, sinceramente, não me recordo de ter feito o vídeo. Eu apenas dirigi para cá. Já estava pensando em filmar essa vinda pra faculdade sim, mas não fiz hoje porque, porque, sei lá, eu não quis fazer hoje. Que estranho... Eu não consigo lembrar, de jeito nenhum. E ontem foi uma quarta-feira, eu não saí de noite, eu não bebi, eu acordei absolutamente normal... Ai, gente, como eu posso ser tão esquecida? Já aconteceu com vocês, isso de fazer uma coisa e esquecer depois? Mas sem ser devido à bebida, hein? E olhem que quando eu bebo dificilmente isso acontece, mesmo quando
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estou ‘altinha’, e vocês podem comprovar isso nesses vídeos que estou deixando os links aqui na descrição. Ai, ai, eu vou voltar pra aula, gente. Eu tomei um baita susto quando vi o vídeo postado! Mas agora já o vi, não tem nada comprometedor nele, então, tá tranquilo, gente! Beijão!” Canal AmandaPinkD — “Abrindo as comprinhas”: “Bom dia, gente! Sou a Amanda PinkD, e se você ainda não é inscrito, se inscreva no meu canal! Meu vídeo de hoje é sobre minhas compras no outlet. Eu e a Manu pegamos o carro e rodamos até o fim do mundo para conseguir chegar, mas enfim, chegamos e ‘passamos o rodo’! Até tinha chamado a Manu para gravar aqui comigo, agora, mas ela teve compromisso de família, uma coisa assim, então não pôde vir. Então, gente, esses pacotes todos são frutos da nossa peregrinação. Vou mostrar tudo o que puder, e caber nesse vídeo... Ah! Mas gente, antes de começar a mostrar as ‘compritias’, eu vou falar daquela situação doida que me ocorreu na semana passada, quando eu postei um vídeo na quinta-feira de manhã, em plena aula da faculdade, ou melhor, quando surgiu esse vídeo no meu vlog, sem me lembrar de ter gravado esse vídeo no carro minutos antes... Eu não deletei o vídeo porque nele não tem nada demais, é só mais uma amostra da minha rotina de ir pra universidade. Sobre o upload, eu vi que o aplicativo Persona, que, como falei,
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junta todos os seus perfis da internet, é capaz de carregar vídeos na hora em que você programa. Por exemplo, se eu quisesse postar esse vídeo aqui à uma da manhã e não agora, três e meia da tarde, era só agendar no Persona. Então, estou achando que eu programei o aplicativo para postar aquele meu vídeo ‘esquecido’ enquanto estava tendo aquele lapso de memória doido. E daí eu não me lembro também de ter postado o vídeo, até porque eu estava tendo aula às nove e vinte. Então, acho que foi isso que aconteceu naquela quinta. Mas vamos às compras...” Canal AmandaPinkD — “Mais um vídeo estranho”: “Pessoal, tem alguma coisa muita estranha acontecendo. Agora é sério, gente, eu estou ficando preocupada. Semana passada eu postei um vídeo do qual eu não lembro, de jeito nenhum, de ter gravado. Esse vídeo apareceu como que do nada, na quinta-feira, às nove e vinte. Pelo que parece, eu o fiz no carro, enquanto ia para a faculdade. Mas o que realmente é estranho, é que eu não lembro de ter feito, e olha que é um vídeo de sete minutos! Pois bem, hoje, segunda-feira, chegando em casa, eu encontrei esses pacotes de compras totalmente revirados, como se eu tivesse mexido neles a tarde toda. O meu quarto estava uma bagunça, e a minha câmera ligada no tripé, como eu faço pra gravar os vídeos desse vlog. Eu olhei no Persona e vi que
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tinha uma notificação... Essa notificação era sobre comentários no último vídeo postado, hoje, segunda-feira, às cinco e meia da tarde. O nome do vídeo é “Abrindo as comprinhas”. Sim, eu fui pro outlet com a Manu nesse fim de semana. Mas tem uma coisa muito errada nisso tudo: além de eu não lembrar de ter gravado esse vídeo, tem um momento nele em que eu falo que são três e meia da tarde, mas nesse horário eu não estava em casa. Eu estava com o Pedro XXGamer, na casa dele, gravando um vídeo pro vlog dele! Eu não estava aqui! Não no meu quarto! Não estava mexendo nas minhas compras! Gente... é sério, o que está acontecendo? Vai ter gente comentando nesse vídeo aqui que eu estou ficando louca, ou que estou bêbada, ou drogada, sei lá, mas é tudo verdade, gente... Desculpem essas lágrimas... Tem uma coisa muito errada acontecendo. Será que eu estou ficando louca? Será que estou tendo apagões e fazendo coisas sem perceber? Eu sinceramente não sei... Será que alguém está se passando por mim? E esteve aqui, no meu quarto, mexendo nas minhas compras? Eu não consigo entender... Estou desabafando com vocês, com quem segue meu vlog ou apenas assiste de vez em quando. Tem alguma coisa errada acontecendo. Eu preciso descobrir, e eu vou descobrir.” Canal AmandaPinkD — “Acho que vou surtar”: “Gente, eu sou a AmandaPinkD, sou vlogueira, e estou aqui desabafando com vocês, que apenas as-
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sistem esse vídeo ou me seguem nas redes sociais, sobre umas coisas muitos estranhas que ocorreram comigo nesses últimos dias. O Pedro XXGamer publicou um vídeo no vlog dele, vídeo no qual eu participo, confirmando que eu estava com ele no mesmo momento em que, aparentemente, eu estava aqui no meu quarto gravando esse vídeo cujo link segue abaixo. Por mais esquisito que isso possa parecer. Hoje é quarta-feira; de manhã eu conversei com a psicóloga da minha mãe, e ela disse que muitas vezes a pessoa pode ter um tipo de confusão mental pelo estresse, pela correria do dia a dia. Eu acho que tudo que aconteceu é devido ao meu estresse. Foram lapsos de memória, e por isso eu não devo lembrar de ter feito esses vídeos. Vocês sabem como fiquei na época em que terminei com o Cadu... Vocês que já acompanhavam meu vlog na época viram como eu sofri, como eu tive que fazer a terapia pra voltar a ficar normal... Então, acho que é isso, galera, eu passei por um turbilhão na minha vida ano passado, com a perda do meu pai, o fim do namoro com o Cadu, e agora a faculdade e todo esse amadurecimento. Tenho muito a agradecer à psicóloga pela conversa de hoje, e quero dizer pra vocês que vou encarar a vida, que estou pronta pro que der e vier. E é isso, gente, vida que segue. Até o próximo vídeo, bye bye.” Canal Pedro XXGamer — “Fui hackeado”: “Oi, galera, aqui é o Pedro XXGamer e sejam
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bem-vindos ao meu vlog, mas hoje eu não vim aqui para falar de jogos nem pra mostrar um walkthrough de Battle of Goth Dragons III Reloaded, como vocês têm me pedido há tempos. Fiquem tranquilos que, atendendo a pedidos, esse vídeo ainda vai ser feito e colocado no ar, em breve. Mas hoje eu vim falar de uma coisa meio doida que aconteceu, e não foi só comigo, mas também com uma grande amiga minha, vlogueira, a AmandaPinkD. Como vocês puderam acompanhar no canal dela, nos últimos dias surgiram uns vídeos que ela não se recordava de ter feito, que apareciam lá “do nada”. Pois bem, aconteceu comigo também, galera. Hoje, quinta-feira, às dez e meia da manhã, foi postado um vídeo meu jogando Casino Clash, e eu jogo sim Casino Clash, fiz alguns vídeos mostrando o progresso e algumas batalhas multijogador, como vocês podem ver nesses links que estão aí na tela, mas tem uma coisa muito errada: eu não jogo desde semana passada, e se vocês olharem o horário e data registrados do meu login, vão ver que foi feito ontem de tarde, às quatro e meia. Eu estava fora de casa nesse horário. Eu não estava jogando, não estava mesmo. Mas hoje, logo após perceber que esse vídeo foi postado ‘do nada’, eu acessei o jogo e vi que havia sim progresso e que coincidia com o que é mostrado no vídeo. Era como se alguém tivesse jogado em meu nome. Então pensei em algumas explicações: meu login pode ter sido hackeado; daí vocês vão me dizer que ‘Pedro, sua cara aparece no canto do vídeo, jogando, era você’, e eu vou dizer
que podem ter pego um vídeo meu e manipulado o som, como se tivessem me dublado, e daí ficou parecendo que era eu quem estava jogando. Pior é que não hackearam somente o login do jogo: ele, ou eles, quem tenha sido, conseguiu acessar meu gerenciador de perfis para carregar o vídeo. Eu estou usando o Persona, que agrega todos os meus perfis de rede social, vlogs, blogs e álbuns de fotos. Enfim, acho que ele falhou, e já estou entrando em contato com os desenvolvedores do aplicativo pra reclamar dessa falha, e com as redes sociais para eles tomarem providências. Então, galera, é isso, fica a dica aqui para vocês tomarem mais cuidado com seus perfis na internet, porque podem estar se passando por você por aí, fazendo coisas erradas, e você nem saber disso. Até a próxima, valeu!”
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Canal Manuzeide — “Cantadas idiotas”: “Oi, pessoas! Eu sou a Manu, do canal Manuzeide, com dicas de moda, cultura pop e beleza! E hoje estou recebendo uma convidada muito especial, a AmandaPinkD, do canal AmandaPinkD. Ai, amiga! Que satisfação estar fazendo um novo vídeo com você...‘Verdade, há quanto tempo não fazíamos um vídeo juntas’. Então, Amandinha, hoje vamos falar sobre o que mesmo? ‘Ah, amiga, um assunto muito louco, muito mesmo, as cantadas mais idiotas que já recebemos em balada!’ Acredita que eu já escutei a clássica ‘você vem sempre aqui’? Inacreditável, parece até piada, mas é pura verdade, gente...”
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Canal Manuzeide — “Tem alguma coisa estranha acontecendo”:
bém, mas só peço aqui, do fundo do coração: quem estiver fazendo isso, por favor, pare! Não fizemos mal nenhum a ninguém! Somos apenas pessoas comuns, que vivemos nossas vidas da maneira certa, dentro da lei, tudo certinho... Não fazemos mal a ninguém... Se temos muita popularidade, muitos seguidores nas redes, é porque conquistamos isso, com talento, trabalho, dedicação... É só isso que eu peço, que, por favor, quem estiver mexendo em nossos vídeos, que pare”.
“Pessoas, eu estou realmente assustada. Eu sou a Manu, do canal Manuzeide, e preciso falar isso pra todos vocês, seguidores do meu canal... Sério, agora eu me apavorei. É o seguinte: há duas horas, mais ou menos, foi carregado um vídeo no meu canal com links nas redes sociais todas, mas não, não fui eu que gravei esse vídeo. O nome do vídeo é “Cantadas idiotas”. E o pior: eu apareço ao lado da AmandaPinkD, mas eu não gravei nada com ela recentemente! E ela confirmou que também não sabe como esse vídeo foi feito, está aqui a nossa troca de mensagens... Vejam aqui, no celular... O último vídeo que fizemos foi há um mês atrás. Foi antes de irmos ao outlet e a própria Amanda publicar aquele vídeo doido do qual ela não se lembra. Naquele vídeo, ela menciona que me convidou, mas eu tinha compromisso no dia, e é verdade, gente, eu tive que levar minha mãe pra fazer mamografia. Até aí tudo normal, mas a Amandinha disse que não se lembra de ter gravado aquele vídeo dela, e eu também não sei como esse que está no meu canal foi gravado. Gente, é sério, tem alguma coisa muito estranha acontecendo. O Pedro XXGamer me enviou uma mensagem com uma teoria meio doida, dizendo que tem uma rede de hackers fazendo isso conosco, usando uma espécie de hipnose através da tela pra fazermos esses vídeos e depois esquecermos tudo. Eu sei lá, essa teoria do Pedro é muito doida tam-
“Oi a todos, inscritos no meu canal AmandaPinkD Novo. Eu sou a AmandaPinkD, eu sou uma influenciadora digital, eu tinha um canal com dois milhões de inscritos até pouco tempo atrás, e, como vocês puderam acompanhar, vêm acontecendo coisas muito estranhas comigo e com meus vídeos. Eu tentei deletar o canal antigo, e até consegui, mas, eu não sei como, o canal voltou. Eu já contatei a plataforma online de vídeos e eles disseram que eu que ressuscitei o canal antigo. Eu disse pra plataforma que não, que tinha criado esse aqui, o AmandaPinkD Novo, e eles me mostraram que o meu login havia realmente criado mais uma vez o AmandaPinkD. Ou seja, fui hackeada. Eu não sei como isso foi acontecer, eu inclusive estava tendo vídeos postados sem que eu os tivesse gravado, mas agora já encaminhei o caso pra polícia. A
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Canal AmandaPinkD Novo — “Bem-vindos ao meu novo canal”:
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“Pessoas, sou eu, a Manu, e eu estou muito nervosa. Tem alguma coisa muito errada acontecendo.
Estou na minha garagem, pois acabei de chegar em casa, depois de ver mais um vídeo postado no canal Manuzeide. O grande problema é que eu não fiz esse vídeo! Eu apareço nele, mas eu não o gravei. Não sei se vocês vão acreditar em mim, mas mesmo assim, lá vai: a minha mãe me ouviu gravando esse vídeo, mas isso é impossível, porque eu estava na academia no mesmo momento em que ela me viu em casa. Se vocês pausarem bem aqui, nesse minuto, verão que o relógio da sala marca onze e quinze, e nessa hora eu estava na academia, pois cheguei lá quase às onze. Assim que saí e vi a notificação do Persona sobre novos comentários, eu vi que esse vídeo tinha sido postado, então liguei pra minha mãe e ela confirmou que me viu gravando na piscina, umas poses de biquíni. Tem fotos também, nos meus dois álbuns. Eu vim correndo pra casa, achando que alguém tinha entrado aqui, que estava roubando, machucando minha mãe, mas não encontrei ninguém. Eu não sei o que está acontecendo. O mais perturbador é que a AmandaPinkD também está passando pela mesma situação. Ela postou há alguns minutos um vídeo no novo canal dela dizendo que tinha sido invadida, que havia um vídeo lá que ela não gravou, mas aparecia nele... Tem alguma coisa errada acontecendo na internet, gente... O Pedro XXGamer... sumiu há uma semana. O que está havendo, gente? O que está acontecen... Ai! Ai! Socorro! Alguém me aju... Ah! Ah! Gente, calma, eu vou explicar tudo, tudo mesmo, ok? Pra quem estiver assistindo esse vídeo: essa pessoa
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Delegacia de Crimes Cibernéticos aqui da cidade está investigando tudo. O Pedro XXGamer também tomou essa providência, mas há uma semana que eu não consigo entrar em contato com ele, então não sei se houve algum avanço no seu caso. Gente, então é isso, eu queria dar esse recado pra vocês que já me seguiam e agora estão migrando pra esse novo canal, e também para aqueles que estão me conhecendo agora: canal oficial da AmandaPinkD é esse aqui, tudo o que eu gravar será postado aqui. Qualquer outra coisa, é obra de hacker, de hater, de gente má. Beijo, pessoal, até a próxima!” Canal AmandaPinkD Novo — “IMPOSTORA SE PASSANDO POR MIM!”: “Atenção seguidores do canal AmandaPinkD! Aquela mulher que disse se chamar ‘Amanda’ não sou eu! Ela postou um vídeo no canal há duas horas atrás, mas não fui eu! Ela é outra pessoa! Eu sou a Amanda de verdade, a dona do novo canal AmandaPinkD Novo! Pessoal, não acreditem nela! Eu não sei quem ela é! Eu estou indo pra delegacia agora! Tem alguém se passando por mim! Quando tiver mais detalhes do que está acontecendo eu posto novamente!” Canal Manuzeide — “Estou com medo”:
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que eu acabei de exterminar não era eu, era uma impostora. Eu sou a Manu! Eu sou a Manu! Tem muito sangue aqui, eu cortei a garganta dela. Mas ela não parava de falar, eu tinha que fazer alguma coisa. Não acreditem nela: ela foi na academia hoje, não eu. Ela não é eu. Somos idênticas, somos iguais, temos a mesma cara, a mesma voz, o mesmo nome, mas ela não é eu! Ela é outra! E estava vivendo a minha vida, usando o meu canal, se passando por mim! Eu preciso... Eu preciso... Limpar isso aqui tudo. Mamãe está no segundo andar. Ela não pode ver, já é idosa, vai enlouquecer se vir isso aqui. Uma Manu carregando o cadáver de outra Manu. Mas essa aqui que eu matei não sou eu. É uma farsa. É uma anomalia. Gente, eu vou encerrar o vídeo pra me desvencilhar desse corpo. No mundo, só pode haver uma Manu. Uma Manu. Que sou eu. Não era ela. Eu, Manu, eu. Essa coisa... Eu não sei quem era ela. Eu não sei o quê ela era.”
só pode restar um. Daí ele disse que vai aniquilar todos, até só restar a si mesmo. E disse para eu ter cuidado, porque outras ‘Amandas PinkD’ estão por aí, umas matando as outras e sumindo com os corpos.... Estou assustada, gente, apavorada! A Manu acabou de postar um vídeo macabro matando uma outra ela. Ela cortou o pescoço da outra Manu, sem dó nem piedade. O que está havendo? Eu só queria que tudo voltasse ao normal, minha rotina, meu canal, meu perfil, minha vida... Como isso é possível? Como...?” Canal Manuzeide — “Não acreditem nas outras Manus”:
“Pessoal... Sou eu, a Amanda... Desculpem meu choro. Mas eu não aguento mais... O que está acontecendo? Eu acabei de saber que o Pedro foi encontrado morto... mas não estou chorando por isso... Estou chorando porque eu estive com ele agora há pouco... Ele me disse que matou outro ele. Ele disse que era pra ser único, que não poderia haver dois Pedros XXGamer no mundo, que tem até mais, e
“Pessoas, eu já sei o que está havendo. Pelo menos umas cinco versões diferentes de Manu acessaram esse canal aqui, o Manuzeide, nessa semana. Olha, eu não sei como isso é possível, mas está acontecendo, é real. A Manu original, que começou o canal e as redes sociais, já deve ter sido morta. Eu não sei bem quem eu sou, mas sei que sou mais uma das muitas Manus que esse canal e todos os perfis na internet criaram. Se vocês virem esse vídeo do qual envio o link, do canal da Lara Fitness, vocês vão ter uma explicação mais detalhada do que está acontecendo, e tudo indica que o causador disso tudo é o aplicativo Persona. Segundo a Lara, ele cria uma cópia da pessoa quando ela posta um vídeo, ou uma foto, ou quando interage de alguma forma na internet. É como se clonasse a pessoa,
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Canal AmandaPinkD — “O QUE ESTÁ ACONTECENDO?”:
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“Está gravando? Ah! Sim, já começou, não é? Hã... Bom dia, seguidores do canal e dos perfis da
AmandaPinkD, eu sou Mariana, mãe dela, e como vocês podem ver, estou reunida hoje com todas as cópias e versões da minha filha. Digam olá, meninas, vamos, foi um feito extraordinário termos conseguido juntar vocês todas. Isso, gente, sorriam para a câmera. Como vocês podem ver, seguidores, há doze Amandas aqui. Contando com esse vídeo, serão treze no total. Mesmo desativado, o Persona continua clonando, ninguém sabe como e por que... hã... Ah, sim, é verdade. A Amanda Quatro está me lembrando que esse caos se instalou no mundo todo e tem gente dizendo que é uma espécie de consequência da colisão de dois mundos, o virtual e o real. Como...? Ah, a Amanda Oito disse que o Persona já foi banido de todos os países, que os desenvolvedores são procurados pela Interpol, mas que ninguém sabe quem são. A Amanda Três vai colocar links na descrição do vídeo com as últimas notícias sobre a investigação, pra quem quiser acompanhar. Então, esse vídeo vai encerrar a vida da AmandaPinkD na internet, ela agora não é uma pessoa só, ela é treze mulheres, que concordaram em não assassinar umas às outras. Eu, sinceramente, não sei quem é a Amanda original, mas todas são a mesma pessoa, um mesmo ser multiplicado em vários corpos, então todas são originais, eu amo todas da mesma forma. Para se distinguirem e não haver confusão, cada uma tatuou um número no braço, e todas decidimos viver em paz e harmonia, não é, meninas? Espero que esse vídeo desperte em todas as outras vítimas do Persona, ao redor do
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uma coisa assim. É horrível, gente, é horrível... Eu sei que estou gerando mais uma Manu ao postar esse vídeo, mas eu preciso fazer isso pra alertar a todos, que apaguem esse aplicativo maldito, que apaguem todos os seus perfis na internet, que deletem tudo o que há sobre você... Acho que só assim essa loucura para. Eu me despeço aqui. Preciso fugir porque outras de mim estão me procurando, estão se procurando, para se aniquilarem. Adeus a todos.” Canal Manuzeide — “Manu só tem uma: EU!”: “Olá! Seguidores queridos do canal Manuzeide! Sabe aquela Manu do vídeo do carro, que matou a outra cortando o pescoço?! Eu a fatiei todinha! Sabem pra quê? Pra mostrar a todas as Manus do mundo, que nasceram por causa do Persona, que só pode existir uma Manu do canal Manuzeide, a mais forte, mais bela e mais poderosa: eu! Já tenho dois milhões de inscritos, e se esse vídeo chegar a quinhentas mil curtidas, eu irei postar, para todos vocês que curtem o meu canal, como foi a festa do serrote! Porque... Porque eu filmei tudo, meus amores!” Canal AmandaPinkD — “Enfim, a paz entre as Amandas”:
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mundo, o sentimento de que é possível conviver em paz com suas cópias, com os rastros que você deixa no mundo digital. É possível que as cópias se amem! Afinal, somos todos um... Hã, espera, que barulho é esse? Quem está aí? Espera... eu... eu também tenho uma cópia? Mas eu não uso o Persona, e nunca usei! Quem é ela...? Amanda... Amandas, tirem essa aberração daqui! Eu sou uma só! Eu sou eu! Quem é ela...?”
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