Capítulo 4: O curso A história de Melissa & Diogo · Capítulo 2 de 4
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Capítulo 4: O curso

Capítulo 4: O curso

— Tá, Vitória, eu sei que é uma oportunidade e tal, mas eu tô é de saco cheio! Ando cansada, o trabalho é puxado, ainda vão me arranjar mais obrigações? — reclamou Melissa, remexendo com o garfo no prato de macarrão aos quatro queijos.

Ela e a colega estavam na praça de alimentação do shopping, almoçando. Melissa tinha chegado um pouco mais cedo, já que não fizera em casa a refeição.

— É, você precisa mesmo se fixar nessa parte do que você disse: é uma oportunidade. Você foi a única da loja escolhida para ganhar esse curso e, mesmo que não queira ser vendedora para sempre, bem ou mal, é uma qualificação, Mel. — opinou Vitória, cortando o bife no prato.

Melissa revirou os olhos e suspirou, irritada.

— Ok, abrir mão do curso seria burrice, eu não queria te dar razão, mas você está certa. — ela pausou a fala para comer mais um pouco, ainda um tanto indignada. — Mas a porra do curso é longe e termina tarde. Que bela merda. Ninguém pensa em quem mora na puta que pariu.

Vitória quase engasgou, cobriu a boca rindo e mastigando ao mesmo tempo.

— Eita! Parece uma metralhadora de palavrões! — observou ela.

Melissa limpou os lábios com o guardanapo e bebeu um gole de refrigerante.

— Ah, para. A gente precisa esvaziar o peito pra aguentar essa baboseira toda. — justificou-se.

As duas falavam do curso para Formação de Vendedores de Alto Desempenho que a Pura Raiz pagaria para a melhor vendedora do mês. Era um curso de três semanas de duração, mas Melissa estava furiosa por ter que fazê-lo. Era quinta-feira e ela começaria na segunda seguinte.

Foi um início de semana cansativo. Quanto mais o Natal se aproximava, maior era o entra e sai da loja. Às vezes Melissa saía do trabalho com o rosto um pouco dolorido de tanto sorrir para os clientes. E, ainda por cima, em vez de ir para sua casa descansar, ela precisava ir para o tal curso.

Tirou o uniforme da Pura Raiz no banheiro do próprio estabelecimento antes de sair e vestiu uma roupa um pouco mais confortável: uma blusa branca de alcinhas, um short jeans e um par de tênis botinha pretos. Retocou o batom, deu uma ajeitada nos cachos e saiu para o shopping.

Assim que chegou ao ponto de ônibus, viu que o coletivo que precisava pegar para ir para o curso arrancava. Pronto, ainda vou me atrasar, puta que pariu! Pouco tempo depois, no entanto, felizmente, passou uma lotação que lhe servia. Acabou se atrasando apenas dez minutos.

Ia entrando pé por pé na sala de aula quando viu todos os colegas sentados em círculo. Estavam, pelo jeito, se apresentando. Um rapaz de seus trinta e poucos, de óculos, era o professor — Melissa percebeu porque ele usava o uniforme da instituição e crachá.

Tudo o que ela queria era ter entrado na aula sem chamar a atenção para seu atraso. O que ocorreu, no entanto, foi o contrário: todos se voltaram para ela. Melissa suspirou, envergonhada. Olhou ao seu redor procurando um lugar vago no círculo. Nenhum. Teria que pegar uma das cadeiras que ainda estava junto a uma mesa e colocá-la no espaço vazio deixado pelos colegas. Fez isso, mas percebeu que tinha acabado de fechar todos ali, sem deixar espaço para que saíssem. Uns cinco colegas, então, arrastaram as cadeiras para trás para rearrumar todo o círculo.

Melissa sentia o rosto queimar com aquela atenção. Não era tímida, mas estava constrangida com todo aquele ruído, ciente de estar atrapalhando o grupo.

— Oi! Seja bem-vinda. — disse o homem de óculos, sorrindo, assim que parou o barulho de cadeiras arrastadas. — Meu nome é Rafael e sou o professor de vocês. Estamos nos apresentando. Poderia dizer para a turma seu nome, onde trabalha e uma coisa curiosa sobre você?

Ela ajeitou a bolsa sobre o colo e respirou fundo. Armou um sorriso mais brando que o utilizado o dia todo no trabalho, tentando mostrar apenas alguma simpatia para mascarar a má vontade.

— Oi, obrigada, prazer em te conhecer, Rafael. Eu me chamo Melissa, trabalho em uma loja da Pura Raiz e uma coisa curiosa sobre mim… Quando eu era pequena, queria ser cobradora de ônibus, porque achava que ficaria com todo o dinheiro dos passageiros no final do dia.

Os colegas riram, aqui e ali se viam rostos simpáticos encarando a recém-chegada.

— E hoje em dia nem existe mais dinheiro físico, praticamente, né? Na loja, quando alguém me estende uma nota de dinheiro, eu olho, franzo a testa e pergunto: “O que é isso? Um pix impresso?”

Outra vez, risadas. A piada nem é minha, mas foda-se, pensou ela. Estava curtindo a repercussão de sua gracinha quando percebeu que um colega não ria, mantinha apenas um sorrisinho de canto de boca. Ah, não…! Mas, sim, era ele. Diogo estava sentado à sua direita no círculo, poucas cadeiras depois do professor. Não acredito que esse idiota vai fazer o curso comigo!

Depois de Melissa, mais dois colegas se apresentaram e Rafael deu por encerrada a dinâmica. Cada um recebeu um adesivo e uma caneta para escrever seu nome e colar na roupa. Em seguida, Rafael se levantou e pegou sobre a mesa do professor uma caixa de papelão do tamanho de uma caixa de bombons. Melissa esticou o pescoço para espiar seu interior e viu que eram papeizinhos brancos dobrados.

— Pois bem. Tenho aqui comigo essa caixa e quero que cada um de vocês retire um papel, mas não desdobre até que eu tenha distribuído todos.

Ele deu a volta no círculo estendendo a caixa a cada um deles. Assim que terminou a distribuição, Rafael parou em frente à sua cadeira.

— Agora desdobrem e vejam que número cada um de vocês tirou.

Melissa abriu seu papel: 17.

— Agora procurem quem tirou o mesmo número de vocês.

Diogo pôs-se de pé, analisando ao seu redor.

— Quem tirou o 17? — perguntou ele em voz alta, buscando o colega.

Com a mão esquerda na cintura e segurando o papel na direita, Melissa fitou o chão e bufou.

— Eu. — disse sem ânimo, evitando encará-lo.

Diogo voltou-se para ela.

— Você?

— As duplas já se encontraram? — perguntou Rafael, batendo palmas. — Vamos lá, pessoal, se organizem.

Melissa cruzou os braços.

— Sim, nos encontramos. — respondeu de má vontade.

— Todo mundo se encontrou? — o professor consultava os outros alunos. — Então ok, é o seguinte. A primeira disciplina do nosso currículo é “Atendimento ao cliente”. Nenhum de vocês é novato, pelo que pude ver nas apresentações. Todos já são vendedores com alguma experiência. Sempre é tempo, no entanto, de nos reciclar, aprender algo novo. E é pra isso que vocês estão aqui: trocar experiências. Então a tarefa é a seguinte: vocês vão inventar um produto e vender para o colega que faz a dupla com vocês. Utilizem métodos que vocês costumam usar. Os dois devem fazer isso, um de cada vez. Valendo!

Melissa enfim ergueu o olhar para encarar Diogo. Ele a mirava de volta com uma sobrancelha erguida.

— Eu começo. — determinou ela. — Vou vender. Você é o cliente.

Diogo deu alguns passos atrás e voltou a aproximar-se, olhando para os lados como se estivesse em uma loja.

— Olá, posso te ajudar? — saudou ela, mal disfarçando a impaciência.

— Não sei bem, vim dar uma olhadinha… — respondeu ele, estreitando os olhos.

— Ok. Posso sugerir o nosso lançamento. É um óleo de peroba perfeito para lustrar sua cara de pau. Chama-se “Vergonha na Cara”. — provocou ela.

Diogo franziu o cenho.

— Como é que é? — duvidou ele.

Melissa levantou no ar um produto imaginário.

— Ele vem nessas garrafinhas de 300ml. É puríssimo, 100% vegetal, vegano. — continuou ela, debochada. — Ele trata e protege a madeira.

Com um sorriso sarcástico, Diogo devolveu a provocação:

— Nossa, realmente parece um excelente produto. É o que você usa na sua cara? Porque ela está ótima, uma perfeita cara de pau. Vou levar. Mas agora vamos trocar. Você é a cliente.

Melissa lançou-lhe um olhar de desprezo e virou os olhos. Afastou-se dois passos e retornou.

— Bom dia, senhora, posso ajudá-la? — cumprimentou Diogo, fingindo solicitude.

— Sim, pode. Você teria aí aquele lançamento que está passando nos anúncios na internet? “Simancol” é o nome.

Ele deu uma risada incrédula.

— “Simancol”? Em gotas, em creme, em comprimido, spray? — perguntou, mantendo o tom de deboche.

— Ah, deixa pra lá. Tenho certeza de que você não tem simancol mesmo. — alfinetou Melissa.

Rafael novamente bateu palmas para atrair a atenção dos alunos.

— Então, tivemos um tempo breve para fazer esse exercício, mas acho que todos conseguiram ser vendedor e ser cliente, não é mesmo? Então agora vem a segunda parte do trabalho. Vocês vão apresentar para a turma o que fizeram entre vocês, para que todos possamos discutir estratégias mais ou menos eficientes de vendas.

Melissa ficou pálida. Não contava com essa parte da atividade. Escutou uma risadinha sarcástica de Diogo. Todos foram se sentando e, por ordem de número, as duplas foram se apresentando. Eram 34 alunos, os dois, portanto, eram os últimos.

— Melissa e Diogo. É a vez dos dois, podem começar assim que estiverem prontos. — disse Rafael.

Os dois se puseram de pé. Melissa estava um pouco alarmada e não tinha decidido exatamente o que faria diante do grupo.

— Bom. Começamos comigo vendendo. Entra na loja. — disse ela, dirigindo-se a Diogo.

Ele encenou que entrava.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou ela, meio nervosa.

— Estou dando uma olhadinha. O que me sugere? — devolveu Diogo.

— Tenho aqui um produto ótimo para seus móveis, veja. — ela outra vez mostrou o produto invisível. — É óleo de peroba. Vegano, pode confiar.

— Ok, está bom, Melissa. Agora é a vez do Diogo. Troquem de lugar.

— Boa noite, senhora, o que deseja? — indagou Diogo, com o seu mais amável sorriso vendedor nos lábios.

Melissa travou. Não podia dizer “simancol” na frente de todos. Eu e a minha boca de gamela!

— Eu… eu… peraí, estou escolhendo ainda… Acho que quero isso aqui.

Ela fingiu que apontava algo no ar.

— “Enfezil”? Esse é um medicamento para prisão de ventre. Ótimo remédio, garanto que a senhora ficará satisfeita. — o sorriso de Diogo aumentou.

O rosto de Melissa esquentou e a custo ela manteve a expressão impassível.

— Ok, esse mesmo. Vou levar. — respondeu ela, a contragosto, furiosa.

— “Enfezil”, muito bom produto, Diogo! Você é muito criativo. — elogiou Rafael. — Agora vamos discutir o que vocês notaram nas técnicas de cada um dos colegas.

Até as 22h30, eles discutiram pequenas diferenças de abordagem ao cliente. Melissa remoía a vergonha que Diogo a fizera passar. Tudo bem que eu que comecei, mas ele ultrapassou o limite. E vou ter que aturar essa criatura por três semanas! Três!!!

Na saída, Melissa foi para o ponto de ônibus em frente à escola técnica e consultou a hora no celular. Teria que esperar pelo menos quinze ou vinte minutos ali até seu ônibus passar. Reparou que Diogo havia chegado um pouco depois dela ao ponto e que devia, também, estar esperando o ônibus. Vários passaram sem que ele embarcasse e Melissa disse para si mesma que não tinha nenhum interesse em Diogo, apenas estava observando. Subiu no ônibus executivo para sua casa e, quando olhou pela janela, viu Diogo virar abruptamente, como se estivesse olhando para ela. Foi só impressão minha, pensou.

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