Capítulo 5: A queda
Capítulo 5: A queda
A terça-feira foi tão movimentada na loja do O Alchimista quanto tinha sido a segunda; Diogo, porém, estava feliz porque havia batido a meta diária e isso representava mais comissões no final do mês. Era, disparado, o funcionário que mais vendia naquela filial e havia ganhado o curso de “Formação de Vendedores de Alto Desempenho” por causa disso.
Estava lá na escola técnica, um pouco entediado porque odiava dinâmicas, quando surgiu na porta uma figura barulhenta que atraiu sua atenção. Sim, Melissa seria sua colega.
Encontrou, na verdade, algo para se distrair por ali na presença dela. A implicância entre os dois oscilava entre deixá-lo irritado e fazê-lo rir. Ela era engraçada, toda brava, o encarando com cara de poucos amigos.
E foi com essa atitude que Diogo entrou na sala de aula no segundo dia do curso. Ao contrário do dia anterior, Melissa já estava lá, em um vestido t-shirt preto que ia até o meio da coxa e com um par de tênis brancos. Ela levantou a cabeça para ver quem chegava, e disfarçou uma careta de desgosto apertando os lábios e erguendo uma sobrancelha.
A turma continuou a atividade da aula anterior até que todas as duplas apresentassem suas técnicas. A seguir, Rafael pediu a palavra.
— Gente, vai ser assim, ó. Essa dupla que vocês sortearam no início do curso será a dupla de vocês até o final. Tudo o que faremos, vocês farão com esse colega. Aproveitem para trocar experiências. — explicou ele.
Diogo e Melissa se entreolharam. Ela suspirou, exasperada. Ele logo viu na cara dela a insatisfação com a decisão do professor. Sentiu-se ofendido. Quem essa garota pensa que é para demonstrar tanto nojo de mim? Eu vou é dar motivo para ela aprender. Decidiu que faria o possível para incomodar Melissa. E ainda ia se divertir muito com isso.
— Agora que todos já mostraram suas técnicas uns para os outros, quero que vocês conversem com sua dupla sobre o que assistiram e que discutam suas opiniões sobre: o que acham correto, o que acham errado, o que é mais ou menos eficiente. Anotem no caderno as conclusões de vocês. — continuou Rafael.
Os alunos levaram as cadeiras para seus lugares de origem, desmanchando o círculo. Melissa e Diogo sentaram-se em duas carteiras lado a lado e começaram a colocar sobre a mesa seus cadernos e canetas.
— Acho que seus métodos de implicar com o cliente não são as melhores técnicas de vendas, Melissa. — começou Diogo.
Ela fez um bico de irritação, franzindo as sobrancelhas.
— Eu não sei você, mas eu estou aqui por obrigação. Baita papagaiada esse curso, eu já sei vender. Tanto sei que fui escolhida por ser a que mais vende. — gabou-se ela.
Ele sorriu.
— Coincidência, eu também estou aqui pelo mesmo motivo. Mas tem certeza de que você já sabe tudo?
— Tudo o que preciso saber, ué. Tenho certeza de que não vou aprender nada de útil neste curso. — afirmou Melissa.
A sala estava tomada pelo burburinho das duplas discutindo. Essa bagunça foi diminuindo, entretanto, fazendo com que a segunda frase de Melissa soasse alta e clara para todos ouvirem.
A custo, Diogo segurou uma risada diante da cara de surpresa de Melissa. Ficou sem palavras, espertinha?, pensou ele.
— Não foi bem o que eu quis dizer, na verdade, eu… — perdeu-se ela nas explicações. — Desculpe, acho que me expressei mal.
Rafael parecia achar graça na fala dela.
— É normal essa crença, Melissa. Muitos de vocês já são bons vendedores e tendem a pensar que não tem o que melhorar. Espero que saiam daqui com uma ideia diferente sobre isso.
Depois da nova vergonha passada, Melissa comportou-se durante todo o resto da aula como aluna exemplar. Era difícil interagir com Diogo. Ele a irritava, sim, mas também a deixava perturbada de uma forma que ela não sabia bem explicar. Às vezes os olhos dos dois se cruzavam e ela observava, sem querer, que o contraste do cinza do olhar dele com o tom da pele era muito interessante. Sentia um calor subindo pelo corpo e tomando o rosto e tentava não encará-lo diretamente.
Enfim a aula passou, para alívio dela. Todos iam se ajeitando para ir embora e Melissa levantou-se de supetão, trombando com a mesa de Diogo e derrubando seu estojo. Canetas, marcadores, lápis, borracha e outros materiais se espalharam, rolando pelo chão da sala. Ela ficou um pouco surpresa ao ver que o colega carregava tanta “tralha”, achava que homens, em geral, davam pouca atenção a badulaques de papelaria.
Sabia que o correto seria ter pedido desculpas e ajudado a juntar o que havia espalhado, no entanto, Melissa fingiu não ter notado o que fizera e saiu desviando das mesas na direção da porta da sala de aula. Diogo a observou com a boca entreaberta, admirando a audácia.
A sala ficou vazia e ele ainda conferia por baixo das mesas e cadeiras se tinha conseguido recolher tudo que caíra. Deu as buscas por encerradas e fechou o estojo, guardando-o na pasta que carregava.
Estava saindo da sala quando viu Melissa, que vinha do banheiro feminino. Ela arrumava a bolsa no ombro, distraída, quando, sem querer, deu de cara com ele, disfarçando um pequeno susto.
— Que atitude bonita a sua de derrubar de propósito meu material e não ajudar a juntar, Melissa. — ele condenou, fitando-a de cara feia.
Melissa revirou os olhos, desviando o olhar.
— Derrubei, é? Nem notei, ando distraída.
— Você se faz de louca, mesmo.
— Ai, cara, não enche. Quer saber? Não fiz de propósito, mas teria sido uma boa ideia. — provocou ela.
Os dois caminhavam pelo corredor, na direção da saída. Chegando à porta da frente, de metal até a metade e de vidro fosco na parte de cima, Diogo mexeu a maçaneta e perceberam que estava chaveada.
— Não é possível. Todos saíram e nos deixaram aqui? — duvidou ela, olhando ao redor.
Diogo forçou mais uma vez a porta. Estava, sem dúvida, fechada.
— Eu não acredito que estou aqui por sua culpa! — acusou ele.
— Minha culpa por quê? — indagou Melissa, com a cara mais injustiçada do mundo.
— Porque eu demorei juntando lápis e caneta, não se faça de tonta. Isso não teria acontecido se você não tivesse atirado tudo no chão como uma criança mimada.
Melissa andava pela sala, procurando por uma câmera.
— Agora isso não faz diferença. Não tem portaria humana, ok, mas eles têm segurança privada e a vigilância é monitoramento por câmera 24h. Temos que fazer sinal para uma delas para que venham nos buscar.
Em um canto, bem no alto, uma câmera estava voltada na direção deles. Ela começou a pular diante da lente, abanando os braços.
— Isso não vai adiantar. — opinou Diogo. — As imagens dessas câmeras são vistas em centrais onde há muitas telas e, quase sempre, ninguém acompanha as imagens em tempo real. Servem mais pra conferir depois que a merda já aconteceu. Vamos ter que sair daqui de outra forma.
Diogo deu meia-volta e começou a analisar as janelas do saguão. Eram bem grandes, de vidro, de correr. Os dois correram até lá e ele abriu uma delas. A altura do parapeito em relação ao chão da rua era quase de um segundo andar, já que o terreno descia na direção da rua para o fundo. O pátio embaixo parecia um pequeno estacionamento apenas para funcionários. Era necessário encontrar uma janela mais baixa pelo lado de fora.
— O banheiro masculino! — lembrou Melissa. — Fica mais perto da porta da rua, pode ser que a janela seja da altura certa.
Eles correram para o toalete. De fato, havia uma janela basculante ali, mas o tamanho da abertura não permitia que eles passassem. Voltaram ao saguão.
— Vamos ter que sair por aqui. — concluiu Diogo, procurando com os olhos por algo que facilitasse a fuga.
— De jeito nenhum! Muito fácil para você, que tem 1,90m, pensar em pular daqui. Eu tenho 1,68m, não saio por aí nem a pau. — negou Melissa, cruzando os braços.
— É uma pena que você vai passar a noite aqui dentro, então. — retrucou ele, indo pegar uma cadeira.
— Que diabos você pretende com essa cadeira??? — indagou Melissa, colocando as mãos na cintura.
Ele largou a cadeira na frente da janela.
— O tempo que você perde resmungando, podia estar ajudando aqui. — retrucou ele, olhando para cima.
Ela seguiu o olhar dele e deu com as cortinas penduradas em um varão.
— Você não pretende fazer uma corda de lençol igual fazem nos filmes, né? — duvidou ela.
— Te orienta, Melissa. Essa cortina é de tecido fino, é curta e não tem onde amarrar. O que eu vou fazer é amarrar a cadeira nela e descer devagar, para que ela caia de pé lá embaixo. Se eu só jogar a cadeira daqui, óbvio que a chance de ela cair virada é enorme.
Melissa assentia, erguendo uma sobrancelha, desconfiada.
— Tá, e aí? — inquiriu.
— E aí que, como você disse, eu sou alto. E sou forte, não faço musculação à toa. Vou descer pendurado, devagar, até cair de pé em cima da cadeira, daí posso pegar você, que é uma tampinha. Pintora de rodapé. — debochou ele.
— Pintora de rodapé é o seu… — indignou-se ela.
— Opa, opa, opa. Cuidado com o que fala. Não é sensato xingar quem vai te salvar de passar a noite aqui. — avisou ele, soberbo.
Ela bufou.
— Ok, então eu vou ter que confiar em você, é o jeito. — resignou-se ela.
Diogo subiu na cadeira e estendeu os braços, alcançando o canto do varão da cortina, que desencaixou, começando a remover o pano. Jogou essa parte no chão e colocou o varão no lugar antes de descer da cadeira. Enfiou a cortina entre o encosto e o assento, dando um nó gigante que ficou meio preso nas argolas do artefato.
Melissa observava atentamente enquanto Diogo colocava a cadeira para fora da janela. Aproximou-se e acompanhou a lenta descida do objeto. A cerca de 20cm do chão, a cortina estendida pelos braços de Diogo terminou, deixando os pés do móvel balançando no ar. Ele esticou-se mais um pouquinho e largou o tecido, deixando tudo cair no chão. A cadeira aterrissou de pé e a cortina amontoou-se atrás dela.
— Ok, vou lá. — disse ele, jogando a mochila pela janela.
Diogo sentou-se no parapeito, depois pôs as pernas para fora. Agarrou-se firmemente no granito que servia de acabamento à abertura, dando graças a Deus que o trilho por onde corriam as folhas de vidro era embutido. Ficou pendurado do lado de fora, foi virando e esticando aos poucos os braços, olhando para baixo para assegurar-se de que seus pés coincidiam com o assento da cadeira. Como acontecera antes com o objeto, faltaram alguns centímetros para que ele alcançasse o assento. Soltou a janela e caiu de pé no lugar planejado.
Melissa observara tudo lá de cima, com um frio na barriga, imaginando ter que fazer o mesmo.
— Joga a tua bolsa! — pediu Diogo, com as mãos para cima.
Ela hesitou, depois fez o que ele dizia.
— Agora você precisa vir também. Não vou ficar aqui a noite toda, então não fica te amarrando. — intimou ele.
Soltando um longo suspiro, ela fechou os olhos por um momento. Depois deu impulso com as mãos e sentou-se no parapeito, colocando as pernas para fora.
— Ai, não, é muito alto! — reclamou, visivelmente aflita.
— Vamos lá! Eu seguro você! — garantiu ele. — Pula!
Apesar do treino diário, Melissa não costumava levantar muito peso com os braços e estava insegura quanto a aguentar pendurada do lado de fora até que Diogo a alcançasse. Respirou fundo, agarrou a pedra de granito e foi escorregando o corpo devagar, até que suas nádegas perdessem o contato com a superfície. Virou-se lentamente. Foi quando ela percebeu que seria de fato um desafio ficar naquela posição por muito tempo. Suas mãos seguiam presas ao parapeito com firmeza, mas o corpo já estava suspenso. O frio na barriga já era o equivalente ao da descida de uma montanha-russa.
As mãos grandes de Diogo a agarraram na altura do osso do quadril, suportando seu peso com facilidade. Parecia que tudo ia correr conforme o planejado por ele, quando o vestido t-shirt de Melissa deslizou pelo corpo e subiu, expondo mais uma de suas calcinhas fio dental com cintura alta, dessa vez, azul. Diogo se desequilibrou no exato momento em que o traseiro de Melissa o atingiu no rosto, antes que ele pudesse admirar a vista. A cadeira virou e ambos desabaram no chão de terra recoberto com algum capim aqui e ali.
Um dos joelhos de Melissa tinha raspado no solo e doía, Diogo estava de calça jeans, porém seus braços estavam desprotegidos e arranhou-se em algumas pedras do pátio.
— Seu tarado! Você levantou meu vestido! — acusou Melissa, sentando-se e puxando a roupa para baixo, sentindo o rosto queimar de vergonha.
Diogo sentia dor no cotovelo e analisava o ralado na pele.
— Que tarado, o quê! Menina louca! Essa merda de vestido seu é do tamanho de um saco de batatas e subiu, ora! A única maneira de não subir seria se não fosse um vestido!
Ela pôs-se de pé.
— Queria ver a minha bunda? Pronto, viu. Agora me deixa em paz! — vociferou ela, furiosa.
— Já vi bundas melhores! — provocou ele, recebendo um olhar irado.
— Que bom, que bom, porque essa bunda você não vai ver de novo. — afirmou Melissa, juntando a bolsa e ajeitando o black power.
De queixo erguido, a vendedora direcionou-se ao muro da escola técnica. Chegando lá, ficou analisando por todos os lados de que maneira subiria para pular. Sobressaltou-se quando percebeu que Diogo estava atrás dela.
— Ai, encosto! Você aparece assim, seu espírito sem luz?
Diogo entortou a boca e semicerrou os olhos, na melhor expressão de tédio irritado que conseguiu.
— Sobe sozinha, sobe, “mulher independente”. Aliás, vou aproveitar QUE EU ALCANÇO NO MURO, e pular para sair. Ainda bem que eu não tenho 1,68m, porque, se tivesse, teria que passar a noite aqui. — disse ele, com as mãos na cintura.
A raiva fez Melissa apertar os olhos e sapatear, bufando outra vez.
— Ok, ok. Vossa Alteza quer que eu me rebaixe suplicando ajuda para subir nesta bosta de muro. Oh, me ajude, Vossa Alteza, preciso chegar do outro lado e só tenho 1,68m. — debochou ela.
— Hummm… Fiquei com pena. Tá bom. Te dou um pezinho e você pula, depois some da minha frente. — disse ele, pretensioso.
Ela fechou os olhos, suspirou, abriu de novo.
— Sim. Faça o pezinho, por favor, para que eu possa sumir da sua frente, já que isso é desejo dos dois, mesmo.
Diogo entrelaçou os dedos das mãos e colocou-as diante de Melissa, que apoiou uma mão no ombro dele e ergueu o braço, apoiando a outra mão no alto do muro. Assim que Diogo foi erguendo o degrau improvisado, ela foi se ajeitando sobre a parede de tijolos e sentou-se. Jogou os pés para fora.
— De nada. — disse Diogo, erguendo uma sobrancelha.
— Arrrrgh! Você é tão chato que até agradecer é difícil. Muito obrigada, Vossa Alteza. Fui. — despediu-se ela, pulando para o outro lado.
Quando sentou-se sobre o muro, Diogo pensou por um momento e consultou o celular que estava no bolso. Era tarde, não seria perigoso para Melissa andar sozinha àquela hora? Provavelmente, mas ela já tinha saído de seu campo de visão. Aquilo lhe deu certo mal-estar. Deu de ombros, ainda com o cenho franzido, e pulou para a calçada.