Introdução Crônica das Marés · Capítulo 1 de 11
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Introdução

O Instituto Oceanográfico Titan cheirava a café queimado e verbas cortadas.

Marina Silas encarava a máquina de venda automática no corredor do Setor 4 como se fosse um inimigo tático. Ela inseriu a nota amassada de cinco reais pela terceira vez. A máquina zumbiu, pensou sobre o assunto e cuspiu a nota de volta, rejeitando a oferta.

— Ela sabe que você está desesperada, Mari. — A voz veio de trás, acompanhada pelo som de rodinhas de skate no linóleo.

Kira Nakamura passou deslizando, segurando uma pilha precária de placas de Petri. O cabelo verde neon era a coisa mais brilhante naquele corredor cinzento. — Máquinas sentem o medo. É a primeira lei da robótica.

— Eu só preciso de cafeína, Kira. — Marina suspirou, desistindo e chutando levemente a base da máquina. — O Diretor Alvares marcou a reunião de orçamento para as oito da manhã. Ele vai cancelar a missão do Tritão-X. Eu sei que vai.

— Ele não pode. — Elena Vostok saiu do laboratório de análise de dados, segurando um tablet como se fosse uma prancheta real. Ela estava impecável, como sempre, o jaleco branco parecendo ter sido engomado naquela manhã. — Os dados sísmicos da Fossa de Santa Clara são irrefutáveis. Há uma anomalia magnética lá embaixo que pode reescrever a geologia moderna. Se ele cancelar, perdemos a chance de publicação na Nature.

— Elena, o Alvares não se importa com a Nature. Ele se importa com a conta de luz. — Tai Rocha apareceu, limpando graxa das mãos em uma flanela vermelha. Ela parecia cansada, com olheiras profundas. — O Tritão-X está pronto, a propósito. Passei a noite reforçando o casco. Mas se não sairmos hoje... as baterias novas que eu "peguei emprestado" do setor de robótica vão ter que ser devolvidas.

Marina olhou para sua equipe. Ali estavam elas. As melhores em suas áreas, presas em um instituto decadente no litoral brasileiro, lutando por migalhas de financiamento.

Kira, a bióloga genial que foi expulsa de duas universidades por "comportamento errático". Elena, a russa prodígio que fugiu da pressão acadêmica em Moscou para se esconder nos trópicos. Tai, a engenheira que conseguia consertar um reator nuclear com chiclete e arame, mas que odiava a política corporativa. E Chloe... onde estava Chloe?

— Com licença... — Uma voz tímida veio de trás de uma planta artificial empoeirada. Chloe Dubois surgiu, segurando um livro grosso de mitologia comparada. — O Diretor Alvares está vindo pelo corredor norte. E ele parece... vermelho.

Marina endireitou a postura. A liderança não era um cargo que ela pediu, mas era o manto que ela vestia. Ela tocou o anel do avô pendurado no pescoço por baixo da camiseta. Coragem, Jonas diria.

— Tudo bem. — Marina disse, a voz firme. — Tai, vá para o hangar e prepare o lançamento. Kira, pegue os suprimentos biológicos. Elena, Chloe, preparem a defesa teórica.

— E você? — perguntou Tai.

Marina sorriu, um sorriso perigoso. — Eu vou interceptar o Alvares. Vou comprar tempo. Nem que eu tenha que trancar ele no banheiro.

— Isso é sequestro, Marina. — Elena avisou, sem tirar os olhos do tablet.

— É ciência proativa. — Marina piscou. — Vamos. Hoje nós vamos fazer história. Ou ser demitidas. De qualquer forma, será um dia interessante.

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