Capítulo 1 Crônica das Marés · Capítulo 2 de 11
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Capítulo 1

O oceano não estava apenas escuro; ele estava pesado. Era uma entidade viva, antiga e indiferente, exercendo quatro mil toneladas de pressão por metro quadrado contra a única coisa que separava Marina Silas da morte instantânea: cinco polegadas de vidro acrílico reforçado e um casco de titânio que já tinha visto dias melhores.

Marina encostou a testa no visor da cabine do Tritão-X. O frio passava pelo vidro, mordendo sua pele, um lembrete constante de que, ali fora, a temperatura beirava o congelamento absoluto. O condensado da respiração embaçava a vista, mas não havia muito para ver. Apenas a escuridão absoluta da Zona Abissal, pontilhada ocasionalmente pela "neve marinha" — flocos de matéria orgânica morta que caíam lentamente em direção ao fundo, como uma nevasca silenciosa e eterna.

— Estamos passando dos quatro mil e quinhentos metros, Mari.

A voz de Kira Nakamura cortou o silêncio tenso da cabine, carregada de estática e de um nervosismo que a bióloga tentava disfarçar com chiclete de menta. O cheiro artificial de menta brigava com o odor de óleo hidráulico, café velho e ar reciclado que impregnava o minúsculo submersível.

Marina não se virou. Seus olhos estavam fixos no abismo. — Mantenha a descida estável, Kira. Compensadores de flutuação em trinta por cento.

Kira estava encolhida na cadeira do copiloto, os joelhos puxados contra o peito, ocupando o menor espaço possível. A luz azulada dos painéis de controle refletia em seu cabelo curto, tingido de um verde neon que já precisava de retoque nas raízes escuras. Kira odiava espaços confinados. A ironia de ser uma especialista em biologia de águas profundas que tinha claustrofobia não escapava a ninguém na equipe, mas ela era a única pessoa em quem Marina confiava para ler os sensores biológicos sem surtar.

— A temperatura externa caiu para zero grau — continuou Kira, os dedos voando sobre o teclado holográfico, digitando mais forte do que o necessário. — Os sensores de sonar estão gritando. Tem tanta interferência eletromagnética aqui embaixo que minha playlist de Lo-Fi Hip Hop parou de tocar. Mari, sério... se o casco trincar...

— O casco não vai trincar.

Marina disse isso com mais certeza do que sentia. Ela soltou o manche por um segundo para limpar o suor das palmas das mãos na calça do macacão. — A Tai passou a madrugada inteira soldando as juntas com aquela nova liga de nano-carbono. Eu ouvi a tocha de solda dela zumbindo até as quatro da manhã. Se a Tai diz que aguenta, aguenta.

— A Tai também diz que café instantâneo é "gourmet" — Kira retrucou, bufando. — Eu não confiaria no paladar dela, então por que confiar na metalurgia?

Marina permitiu-se um meio sorriso. Era o mecanismo de defesa de Kira: humor ácido quando o pânico batia na porta. — Estamos quase lá, Ki. Eu sinto.

— Ah, ótimo. Você sente. — Kira jogou as mãos para o alto, batendo no teto baixo da cabine. — Vou anotar isso no diário de bordo oficial: "Expedição condenada porque a Capitã Silas teve um pressentimento místico baseado em absolutamente nada além da teimosia herdada da família".

A menção à família fez o sorriso de Marina desaparecer. Sua mão foi instintivamente para o pescoço, onde uma corrente de prata segurava um anel masculino, pesado e antigo. Era tudo o que restara de seu avô, o Comandante Jonas Silas. Ele havia desaparecido nesta mesma coordenada, vinte anos atrás. A Marinha disse que foi uma falha mecânica. Os jornais disseram que foi loucura. Jonas falava de "cidades que cantam" e "luzes que não queimam". Marina cresceu ouvindo que os Silas eram ótimos marinheiros, mas péssimos em manter a sanidade.

Hoje, ela provaria que todos estavam errados. Ou morreria tentando.

Antes que o silêncio ficasse desconfortável, o rádio de comunicação estalou, rompendo a estática com uma clareza surpreendente.

— Tritão-X, aqui é o Controle de Missão. Câmbio.

Era Elena Vostok. A voz da estrategista russa vinha do Instituto Titan, quilômetros acima, onde o sol brilhava e o ar era respirável. Mesmo através da distorção digital, Elena soava impecável, fria e lógica.

— Na escuta, Controle — Marina respondeu, ajustando o headset.

— Marina, a telemetria que estamos recebendo está... errada. — A pausa de Elena foi milimétrica. — Vocês acabaram de sair da zona de comunicação segura. O atraso no sinal está aumentando. E a leitura sísmica que motivou essa descida... ela mudou de padrão.

Marina apertou o manche do piloto. O couro sintético rangeu sob suas luvas. — Mudou como, Elena? Seja específica. É atividade vulcânica? Deslocamento de placas?

— Negativo. — A voz de Elena perdeu um pouco daquela frieza profissional, deixando vazar uma ponta de incredulidade. — Não é geológico. O padrão de vibração se tornou rítmico. Constante. Marina... parece um batimento cardíaco.

Kira parou de digitar. O único som na cabine era o zumbido grave dos propulsores elétricos e a respiração acelerada das duas mulheres. — Um batimento cardíaco? — Kira sussurrou. — Nessa profundidade? O que teria um coração grande o suficiente para ser lido por sismógrafos na superfície? Godzilla?

— Elena, — Marina manteve a voz firme, ignorando o calafrio que subiu por sua espinha. — Qual a origem do sinal?

— Duzentos metros abaixo da sua posição atual. Escondido sob a camada de sedimentos da Fossa. — Elena hesitou. — Marina, como Oficial de Segurança e Logística, minha recomendação é abortar. Agora. Os dados não fazem sentido. É perigoso demais.

Marina olhou para o sonar de varredura profunda no painel. No centro da tela verde, um ponto vermelho pulsava. Tum-tum. Tum-tum. Era maciço. Grande demais para ser uma baleia. Estático demais para ser um cardume. E estava chamando por ela. O anel em seu pescoço parecia pesar uma tonelada.

— Negativo, Controle. — disse Marina. — Estamos vendo uma anomalia estrutural no sonar. Não descemos quatro mil metros para dar meia volta na porta de entrada. Vamos investigar.

— Marina, pelo amor de Deus, não seja cabeça-dura!

Uma nova voz invadiu a linha, atropelando o protocolo. Era Tainá "Tai" Rocha. A engenheira chefe devia ter tomado o microfone da mão de Elena. Sua voz soava grave, maternal e irritada. — Os níveis de energia da bateria principal estão oscilando. Se vocês descerem mais, a temperatura vai congelar os capacitores de lastro. Vocês vão ficar sem força para subir. Eu não reforcei esse submarino para ele virar um caixão de luxo!

— Só uma olhada, Tai. Prometo. — Marina suavizou o tom. Ela sabia que Tai gritava porque se importava. — Cinco minutos. Coletamos dados, tiramos fotos e subimos para o jantar. Eu pago a pizza.

— Se você morrer, eu vou te matar, Marina Silas! — Tai ameaçou, mas o sinal começou a falhar, transformando sua voz em ruído branco.

Marina desligou o rádio antes que a culpa a fizesse mudar de ideia. O silêncio voltou à cabine, denso e opressivo. Kira soltou o cinto de segurança apenas o suficiente para se inclinar para frente, colando o rosto no vidro ao lado de Marina.

— Você sabe que se morrermos aqui, eu vou voltar como um fantasma pra puxar o seu pé toda noite, né? — murmurou Kira, a voz trêmula, mas sem a ironia habitual. Ela estava com medo real.

— Justo. — Marina sorriu, um sorriso tenso que não alcançava os olhos. — Ativando holofotes de longo alcance. Prepare as câmeras, Kira. Vamos ver o que o vovô Jonas estava procurando.

Ela acionou a chave mestre no painel superior. Houve um clique audível de relés disparando.

Os faróis de halogênio de alta potência do Tritão-X cortaram a escuridão do abismo como lâminas de luz branca. O feixe iluminou a água turva, revelando partículas de poeira suspensas como galáxias em miniatura. E então, a luz atingiu o fundo.

O mundo parou. O ar na garganta de Marina travou.

Diante delas, emergindo do leito marinho vulcânico, não havia rochas ou lama. Havia uma muralha. Ela se erguia imponente, uma estrutura ciclópica que desafiava qualquer arquitetura humana. Torres espiraladas subiam em direção à superfície, cobertas não por tijolos ou cimento, mas por corais negros fossilizados e um metal iridescente que parecia ter crescido ali organicamente, como ossos curados. Nas frestas daquela arquitetura alienígena, algas bioluminescentes pulsavam em um roxo neon hipnótico, desenhando veias de luz na escuridão.

Não era apenas uma ruína. Era uma necrópole. Uma metrópole silenciosa, dormindo sob a pressão que deveria ter esmagado qualquer coisa feita pelo homem há milênios.

— Pelos deuses... — Kira sussurrou. Seus óculos escorregaram pelo nariz suado. — Mari... aquilo é um portão?

No centro da muralha, destacando-se contra a pedra negra, havia uma abertura circular colossal. Era fechada por um mecanismo de engrenagens complexas que pareciam feitas de pérolas gigantes e madrepérola polida. Assim que a luz do submarino tocou o portão, ele reagiu. As linhas de luz roxa na estrutura brilharam mais forte, como se a cidade estivesse acordando de um sono de eras.

— Não. — Marina respondeu, sentindo lágrimas quentes nos olhos. O legado do avô era real. Ele não era louco. A Cidade que Canta existia. — É um convite.

De repente, a realidade dentro do Tritão-X se desfez. O painel de controle explodiu em um carnaval de luzes vermelhas e alarmes estridentes. — ALERTA DE PROXIMIDADE. FALHA NO CAMPO MAGNÉTICO. — A voz automatizada do computador gritou.

A luz roxa da cidade lá fora pulsou violentamente, emitindo um som grave, um THUUM que não foi ouvido, mas sentido. A vibração passou através do casco, chacoalhando os dentes de Marina e fazendo os monitores piscarem.

O submersível foi puxado para frente. Não foi uma correnteza suave. Foi um puxão violento, como se uma mão gigante tivesse agarrado a cauda do Tritão-X e o arrastasse para o inferno.

— Estamos perdendo o controle! — gritou Kira, as mãos voando sobre o teclado inútil, tentando reiniciar os sistemas. — Os sistemas elétricos morreram! Tudo apagou! Estamos sendo sugados por um campo magnético!

— Segure-se! — Marina puxou o manche com toda a força, os músculos dos braços queimando com o esforço, as veias do pescoço saltando. Mas era inútil. Era como tentar parar um trem desgovernado com as mãos nuas.

O Tritão-X girou. A força G colou as duas mulheres em seus assentos, roubando o ar de seus pulmões. O submersível, agora apenas um pedaço de metal inerte, mergulhou de bico direto para o centro brilhante daquele portão perolado na cidade proibida.

A última coisa que Marina viu, iluminada pelos flashes de curto-circuito do painel, foi o símbolo gravado no centro do portão que se abria lentamente: um Tridente entrelaçado com as silhuetas de cinco bestas marinhas.

E então, o som terrível de metal rasgando silenciou seus gritos, e o mundo foi engolido pela água e pela escuridão.

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