O véu: parte 2
Quando acordou, percebeu que tinha um acesso intravenoso em seu braço. Ainda meio grogue, graças ao efeito do medicamento aplicado no soro, olhou à sua volta e viu que estava em um quarto, sozinha.
Aneela levantou-se, arrancando a agulha do braço; no mesmo instante, o sangue esguichou, manchando o lençol branco que a cobria. Fazendo uma careta de dor, fez pressão no pequeno furo e logo o sangue já não vazava por ali.
Ela foi até a porta, tentando girar a maçaneta; porém, encontrava-se trancada.
Por que a trancaram naquele lugar? Esse não era o procedimento do hospital; o correto seria Aneela estar na enfermaria junto aos demais pacientes.
— Oi? — Bateu na porta com força. — Oi! Alguém pode me tirar daqui?
Mexeu freneticamente na maçaneta até que uma enfermeira abriu a porta com o semblante sério.
— Não deveria ter saído da cama — repreendeu.
— Por que estou presa aqui e não na enfermaria?
O peito de Aneela subia e descia, do mesmo modo que as narinas se dilatavam em sinal claro de pavor.
— A enfermaria está lotada, e sua mãe quis que você tivesse algum conforto; por isso, pagou por este quarto — explicou a mulher com calma. — Quanto à porta trancada, alguém deve ter se confundido. Peço desculpas; não vai acontecer novamente.
Ainda desconfiada, Aneela voltou a se deitar. Logo, a enfermeira inseriu outra agulha em seu braço, colocando uma nova bolsa de soro. Dentro do recipiente plástico, ela aplicou algo amarelado com uma seringa; depois saiu, fechando a porta de novo.
Imediatamente, a garota fechou o acesso e tornou a retirar a agulha de seu braço, preferindo continuar deitada.
Presa naquele quarto, vez ou outra ela ouvia choro de criança ou alguém gritando de dor. A curiosidade de ver o que acontecia logo era substituída por medo, e ela permanecia no mesmo local.
As horas se arrastavam, e Aneela lamentou não ter trazido um livro para ler; assim, o tédio iria desaparecer. Por volta de 23h59, tudo ficou estranhamente silencioso; não se ouvia nada, nem os pacientes, nem os médicos no frenesi de antes. Pela fresta embaixo da porta, Aneela podia enxergar vultos que pareciam se arrastar pelo largo corredor.
Ela começou a sentir um cansaço estranho, como se algo estivesse sugando sua energia cada vez que uma dessas sombras ficava mais tempo próxima à sua porta.
Determinada a descobrir o que acontecia ali, desceu da cama com cuidado, e os pés se retraíram ao pisar no chão gelado. Ignorando os calafrios e tremores que tomaram conta de seu corpo, Aneela andou até a porta de forma lenta, mas não a abriu; encostou o ouvido nela para tentar escutar o que acontecia.
Do lado de fora, os enfermeiros contabilizavam as pessoas ali, todos com seus olhos negros, dentes afiados e peles opacas, ansiando por sugar a energia vital dos humanos moribundos para conseguir voltar para seu mundo.
O hospital sempre foi uma ótima forma de juntar energia para o véu; contudo, como as pessoas ali estavam muito doentes ou à beira da morte, algumas vezes não era suficiente.
Aneela abriu a porta e deparou-se com as criaturas: espectros de névoa cinzenta com olhos de fogo, monstros com chifres e sulcos na pele por onde dava para ver o sangue podre circulando, criaturas com feridas enormes em suas peles pretas e dedos ossudos.
Quando os olhos opacos de um daqueles seres recaíram sobre ela, apontou os dedos em sua direção e, mesmo sem mexer os lábios, a voz — que mais parecia um chiado cheio de estática — soou estrondosa, fazendo com que Aneela tapasse os ouvidos:
— A garota é dela que precisamos.
Seu coração disparou e, sem pensar, correu. Em seu íntimo, ela sabia que não poderia deixar que aquelas coisas a pegassem.
No corredor, as luzes acendiam e apagavam, deixando tudo ainda mais assustador.
Parecia que, quanto mais corria, mais suas pernas pesavam, deixando-a exausta, ao passo que os espectros se aproximavam cada vez mais.
Aneela forçou seu corpo ao limite e, quando perdeu as criaturas de vista, abriu uma porta e entrou nela, escondendo-se atrás de uma mesa; a respiração alta fazia eco no espaço vazio.
Tudo o que Aneela conseguia pensar naquele momento, além de sair daquele hospital, era que a lenda que ouvira ao longo dos anos tornava-se real bem diante de seus olhos. Aquele local era realmente um hospital dos monstros.