O véu: parte 3
De repente, atrás de si, algo caiu, fazendo um barulho alto. Com um sobressalto, ela virou-se, temendo ser mais um daqueles demônios; contudo, deparou-se com uma garotinha vestida de branco, encolhida em um canto. Seu choro baixo fez com que o coração de Aneela se apertasse.
— Ei — chamou em um sussurro, e a menina levantou os olhos vermelhos em sua direção. — Você está bem? Está sozinha?
— Eles… pegaram minha mãe — choramingou ainda mais.
— Nós vamos sair daqui, tudo bem? E depois voltamos para buscar sua mãe.
Com olhar assustado, a menina concordou, levantou-se e foi para perto de Aneela.
Ela segurou a pequena mão gelada entre as suas e fez sinal para que fizesse silêncio ao ouvir barulhos de portas batendo, aproximando-se de onde elas estavam.
Lá fora, os espíritos ficavam cada vez mais agitados, enfurecidos, correndo contra o tempo para encontrar Aneela; essa seria a única chance de voltarem para o mundo dos mortos, pois ela tinha a energia necessária para que o véu se abrisse — uma energia que eles não conseguiram acumular ao longo dos anos.
Havia muito tempo que estavam presos neste mundo e já não aguentavam mais alimentar-se de pessoas doentes.
A porta do local onde elas estavam se abriu com um estrondo, e o ambiente se impregnou com o cheiro forte de enxofre. Assustada e agarrada à mão da pequena menina, Aneela mirou a saída e correu, pegando os espíritos desprevenidos.
Não demorou para que chegassem à porta de saída, e Aneela quase chorou de alívio; mas a sensação de que algo estava terrivelmente errado se tornou mais forte. A mão entre as suas agora parecia pegar fogo.
Quando finalmente chegou à saída, a garotinha parou de repente. Aneela foi puxada bruscamente e, sem entender como a criança possuía aquela força, virou a cabeça até encontrar o olhar sem vida no rosto dela e um sorriso macabro que revelava a fileira de dentes pretos afiados.
— Obrigada, An — murmurou com uma voz distorcida. — Agora o véu pode ser rasgado.
Aneela tentou recuar, mas sentiu garras invisíveis puxando-a para a escuridão.
Dizem que, desde então, o hospital nunca mais foi o mesmo.
E que, toda vez que o vento muda e o ar gela em Niveland, o véu se prepara para abrir de novo.