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umraquel
O ônibus para às 14h37 na praça de Caraíbas e Raquel percebe que esqueceu do cheiro.
Não do cheiro da cidade — esse ela lembrava, terra e manga e aquele fio de esgoto que corre pelo bairro do Cruzeiro quando chove. O que ela esqueceu foi como esse cheiro ainda é dela. Como entra pelo nariz e vai direto pra algum lugar no peito que ela pensava ter fechado com chave.
Ela desce do ônibus com uma mochila e uma mala pequena. Três dias. Assinou o contrato com a imobiliária na terça, os documentos chegam sexta. Só precisava vir buscar o que a mãe deixou, assinar mais dois papéis, ir embora.
Simples.
A praça tem o mesmo coreto. O mesmo piso de cimento desgastado que fica escorregadio depois da chuva. A mesma seringueira que não cresce e não morre.
E tem Murilo.
Ele está de costas, conversando com o velho Seu Arnaldo na banca de jornal. Camisa azul, o cabelo um pouco mais curto do que ela lembrava. As mãos no bolso do short. Ele não viu ela ainda.
Raquel para.
É um segundo — menos que isso — onde ela calcula o ângulo. Se dobrar à esquerda passa pela rua de trás, chega na casa da mãe sem precisar cruzar a praça. Simples. Três dias e ela vai embora de novo.
Ela já está dobrando à esquerda quando ele vira.
Não tem como saber se foi instinto ou se Seu Arnaldo disse alguma coisa. O fato é que ele vira, e os olhos dele encontram os dela através de trinta metros de praça e calor de dezembro, e Raquel fica parada no meio do movimento como alguém que foi pega fazendo alguma coisa errada.
Ele não sorri.
Ela também não.
É o tipo de reconhecimento que não precisa de gesto. O tipo que você carrega no corpo mesmo quando faz dez anos.
Raquel respira pelo nariz. Endireita o ombro da mochila. E caminha em direção a ele porque qualquer outra coisa seria ridículo, e ela tem trinta e dois anos, e isso ficou no passado.
Ficou.