dois Tudo Que Você Deixou Aqui · Capítulo 2 de 7
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doismurilo

Seu Arnaldo disse o nome dela antes de ela descer do ônibus.

— Raquel Fontes. Vi o nome na lista da imobiliária, meu filho. Minha sobrinha trabalha lá.

Murilo não respondeu. Ficou olhando o jornal que não estava lendo enquanto Seu Arnaldo falava sobre a casa de Dona Neusa, sobre o preço do metro quadrado em Caraíbas, sobre como a cidade estava mudando. Ele não estava ouvindo nada disso.

Estava esperando o ônibus das 14h30.

Quando ele vira e ela está lá — mochila no ombro, cabelo preso de qualquer jeito, a expressão de quem calculou uma rota alternativa e chegou tarde demais — alguma coisa no peito desaperta.

Não é alívio. Não é bem isso.

É aquela sensação de quando você fica muito tempo segurando o ar.

Ela vem em direção a ele com aquela caminhada que ele reconhece de olhos fechados — levemente inclinada pra frente, como se estivesse sempre indo contra o vento.

— Oi — ela diz quando chega perto.

— Oi.

— Você mora ainda aqui na praça ou foi só coincidência?

— Fui buscar jornal.

Ela olha pra banca. Ele não comprou jornal nenhum.

— Ah — ela diz.

— Você veio pra casa da sua mãe.

— Sim. Três dias.

— Eu sei.

Ela franze o cenho — aquela linha pequena entre as sobrancelhas que aparecia quando ela estava tentando entender alguma coisa. Ele conhece essa linha há vinte anos.

— Cidade pequena — ele explica.

— É.

O silêncio entre eles é a coisa mais barulhenta que Murilo já ouviu. Tem camadas. Dez anos de camadas.

— Eu posso ajudar com a casa — ele fala antes de decidir falar. — Tem umas coisas que precisam de conserto. A calha dos fundos, acho. Dona Neusa me pediu pra olhar faz uns meses, mas ela foi embora antes.

É verdade. Também é uma desculpa. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Raquel demora três segundos. Ele conta.

— Tá bom — ela diz. — Amanhã cedo?

— Amanhã cedo.

Ela acena com a cabeça, ajusta a mochila, vai embora na direção da casa. Murilo fica parado na praça com o sol de dezembro nas costas e aquela sensação de que o ar ainda não voltou completamente.

Seu Arnaldo tosse ao lado dele.

— Bonita que só, hein.

Murilo não responde.

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