Capítulo 1
Isabella
A criada terminava de arrumar os longos e volumosos fios dourados da princesa com a delicadeza de quem tocava algo frágil demais para ser apressado. Anne separava as mechas com os dedos, prendendo-as com pequenas presilhas ornamentadas, enquanto o pente deslizava suavemente pelos cabelos de Isabella.
De olhos fechados, a jovem tentava organizar a própria mente — ou, ao menos, silenciá-la. Era inútil. Os pensamentos insistiam em retornar à forma hostil com que os nobres costumavam tratá-la, como se aquele fosse o único papel que lhe era permitido desempenhar dentro da corte.
Por mais que tivesse vivido assim durante os últimos dezesseis anos, a dor nunca se tornara mais fácil de suportar.
Havia lembranças que surgiam com uma clareza cruel. Como a vez em que Anne, em um raro gesto de coragem, ousara defendê-la. Isabella jamais esqueceria o tom venenoso da Condessa Marin ao responder, diante de outras damas:
“Se nem o pai dela tem afeição pela garota, por que nós deveríamos ter?”
Aquelas palavras se alojaram em sua mente como espinhos. Desde então, Isabella sentia que nunca lhe fora concedida sequer a chance de mostrar quem realmente era.
— Pronto, vossa alteza. Está linda — Anne exclamou, afastando-se alguns passos para admirar o resultado.
Isabella abriu os olhos devagar. No reflexo do espelho, viu-se com um penteado semipreso, delicado, que deixava alguns fios soltos emoldurando o rosto. A maquiagem em tons suaves de rosa destacava sua pele clara. Ainda assim, seus grandes olhos azuis, normalmente serenos, denunciavam o medo que carregava naquele momento.
A reunião daquela noite seria em celebração às boas colheitas. Um evento que, segundo os registros históricos de Arkenhall, sempre fora motivo de alegria e abundância. Para Isabella, porém, significava apenas mais um salão cheio de olhares avaliadores, sorrisos falsos e murmúrios disfarçados.
Ela se levantou com um suspiro cansado e agradeceu à criada. Ainda faltava vestir o espalhafatoso traje de baile.
Quando era mais nova, Isabella adorava tudo aquilo. As comemorações eram momentos raros e preciosos, pois apenas nelas podia ver o pai — o rei — ainda que de longe, ainda que de maneira superficial. A pequena Isabella se contentava com pouco. Um olhar breve, um aceno distante, às vezes nem isso. Mesmo assim, ela se sentia feliz apenas por estar no mesmo espaço que ele, ainda que ele a ignorasse como se fosse invisível.
Com a ajuda de Anne, vestiu o vestido escolhido para aquela noite.
A saia era ampla e volumosa, abrindo-se a partir da cintura como uma nuvem etérea. O corpete ajustado marcava o tronco com uma linha delicada e feminina, e todo o caimento do traje era leve, fluido, como se o tecido estivesse em constante movimento, mesmo quando ela permanecia imóvel.
O tom do tecido era um champagne rosado muito claro, quase um pêssego suave — quente e romântico, ideal para destacar o bordado floral que cobria praticamente toda a peça. Flores aplicadas em camadas adornavam o vestido, variando entre tons de rosa queimado, bordô profundo, pétalas em rosa claro e o verde suave das folhagens. Os bordados subiam em arabescos, como trepadeiras vivas, desde a barra até o corpete. Algumas flores pareciam feitas de organza ou tule estruturado, criando o efeito de pétalas que saltavam levemente do tecido.
As mangas eram delicadas e transparentes, com um volume sutil. Ajustavam-se nos punhos com detalhes florais e rendados. O decote em V, suave e elegante, era moldado pelas próprias flores aplicadas, emoldurando o colo sem exageros.
A saia era composta por várias camadas de tule leve, criando profundidade e movimento. Os bordados desciam em cascata, imitando ramos naturais. A barra possuía um pequeno babado franzido, romântico, conferindo ao traje um ar de realeza campestre.
Isabella observou-se no espelho e não conseguiu evitar o pensamento incômodo: parecia mais uma oferenda àquela primavera do que uma princesa.
Ainda assim, por mais desconfortável que fosse, era inegável que o vestido era belíssimo. Muitos nobres matariam por algo semelhante.
Ela passou a mão sob a saia, sentindo a textura macia do tecido, e sorriu ao tocar os bordados. Isabella odiava os bailes. Odiava a obrigação de estar próxima de pessoas falsas e maliciosas, mas amava os vestidos, as jóias e os pequenos detalhes que a faziam sentir-se, ainda que por instantes, parte de algo belo.
Restavam alguns minutos antes do início do evento. Ela foi até o pequeno sofá rosa-claro próximo à janela e se sentou.
Do lado de fora, o castelo fervilhava. Criadas e criados corriam de um lado para o outro carregando vasos, bandejas, tecidos, louças e caixas ornamentadas. O entardecer lançava um brilho dourado-alaranjado sobre tudo, tornando a cena quase mágica.
Isabella sustentou um leve sorriso ao se lembrar da infância. Nos dias de festa, Anne frequentemente precisava procurá-la, pois a pequena princesa se escondia para ajudar os funcionários do castelo. Aquilo lhe rendera a fama de princesa gentil entre os criados.
Entre os nobres, porém, a narrativa era outra.
Para eles, Isabella era apenas a filha de uma simples estrangeira, alguém que, em sua visão distorcida, parecia reconhecer o próprio lugar entre a plebe.
O sorriso desapareceu.
Ela suspirou e voltou o olhar para o grande relógio de pêndulo no canto do aposento. Já passava das sete horas da noite. Estava escuro.
Levantou-se, ajeitou a saia e caminhou até o espelho para uma última verificação. Tudo estava perfeito.
Perfeição. Era isso que ela buscava desesperadamente.
Um de seus maiores questionamentos sempre ecoava em sua mente:
“Se eu fosse extraordinária, será que o papai gostaria de mim?”
Em uma tentativa quase desesperada de conquistar esse afeto inexistente, Isabella tornou-se versada em praticamente todas as áreas possíveis. Aos cinco anos, depois de ouvir uma nobre comentar que o rei jamais desejaria uma filha burra e inútil, algo dentro dela se partiu, e se moldou ao mesmo tempo.
Ela acreditou naquela crueldade.
Desde então, passou a se esforçar além do limite, sempre acreditando que ainda não era suficiente.
Ao se examinar novamente, decidiu que faltava cor aos lábios. Caminhou até a penteadeira e sentou-se. Abriu a primeira gaveta à esquerda e analisou os batons cuidadosamente organizados.
A beleza era uma moeda importante na corte. Por isso, Isabella investira em maquiagens, vestidos, sapatos e joias. Diferente das outras nobres, que preferiam tons vibrantes e excessos chamativos, ela fora orientada por sua professora de etiqueta a adotar um estilo mais delicado.
Isabella ficara aliviada. Nunca gostara de cores muito escuras nem de acessórios pesados.
Após ponderar, escolheu um batom rosa queimado. Enquanto o aplicava, murmurou o mantra que repetia antes de todo evento social, como se fosse um ritual de proteção:
— Não há o que temer. Você sairá bem… e o papai vai ficar orgulhoso.
Com a última checagem, levantou-se. Suas mãos estavam úmidas, tremendo levemente. Antes que cedesse ao impulso de desistir e se esconder sob os cobertores, saiu do quarto.
O corredor era iluminado por lâmpadas mágicas, que lançavam uma luz constante e suave. As paredes em tom de areia contrastavam com o piso de mármore branco, tão impecável que refletia o teto. O único som audível era o dos saltos de Isabella ecoando pelo espaço silencioso.
Havia diversas pinturas de bosques luminosos ao longo do corredor. Cenas tranquilas que, ironicamente, nunca conseguiam acalmá-la.
O caminho até o salão social costumava parecer curto, mas, em noites como aquela, tudo parecia perigosamente próximo. Descer as longas escadarias e atravessar dois andares era rápido demais. O castelo parecia encolher, como se a empurrasse para o centro.
À medida que se aproximava, os sons aumentavam. Vozes, risadas, o tilintar de louças e talheres.
Antes de prosseguir, Isabella encostou-se em uma coluna, em um ponto afastado do fluxo de pessoas. Tentou se lembrar da técnica de respiração que um médico lhe ensinara meses antes, quando ela colapsara durante um evento semelhante.
Inspirar. Segurar. Expirar.
Para fugir dos próprios pensamentos, ergueu o olhar para o céu noturno visível através de um arco. Estava estrelado. Bonito demais. Hipnótico demais.
E então, sem perceber como, Isabella estava no jardim.
Só se deu conta disso ao sentir a brisa gélida tocar sua pele. De canto de olho, percebeu movimento e, por instinto, escondeu-se atrás de uma árvore.
Eram Adeline e Noah, seus únicos amigos dentro do círculo social.
Isabella sorriu, aliviada. Mas o alívio durou pouco.
Anthony e Evelyn também estavam ali.
Filhos do conde de Eldraven, membros de uma das casas mais influentes do reino. E, como se não bastasse, pessoas que nutriam um desprezo declarado por Isabella.
Os burburinhos sobre o passado de seu pai sempre retornavam à sua mente. Diziam que o então príncipe Kael Thalen fora noivo de Julienne Eldraven, irmã do atual conde. O noivado fora rompido sem explicações, e Julienne jamais fora vista novamente na corte.
— Sua princesa de estimação não vem, Noah? — Anthony perguntou, o tom carregado de zombaria.
Ele vestia um terno de tecido nobre em cinza-escuro, o corte impecável contrastando com a pele excessivamente pálida e os fios de um loiro quase branco, cuidadosamente alinhados. Os olhos verdes, frios, carregavam um nojo mal disfarçado sempre que se referiam a Isabella — como se a simples menção do nome fosse um incômodo físico.
— Não faço ideia. — Noah respondeu, revirando os olhos com impaciência.
Seu terno preto era elegante, embora claramente não possuísse o requinte dos irmãos Eldraven. Ainda assim, tratava-se de um bom material, escolhido mais por obrigação do que por vaidade. Os cabelos castanhos estavam penteados para trás com rigidez, e seus olhos verdes, outrora tranquilos quando falava com Isabella, agora refletiam apenas irritação.
— Espero que não venha. Não aguento mais ela.
— Pobrezinho. — Evelyn comentou, esticando-se com languidez antes de beijar a bochecha do rapaz.
Os longos cabelos loiros, cacheados, deslizaram por seu ombro com o movimento. Seu vestido tinha um ar deliberadamente dramático: em tom de vinho profundo, com saia rodada e estruturada, e um corpete justo demais, moldando o corpo de forma provocativa. Evelyn era bonita, perigosamente bonita, e em seus olhos sempre havia aquele brilho específico de quem se diverte com o desconforto alheio.
— Depois que você se casar com ela, tudo estará resolvido.
— Não diga essas coisas! — Adeline repreendeu, a voz baixa, mas firme.
Por um instante, uma fagulha de esperança acendeu no peito de Isabella. Talvez, enfim, alguém fosse defendê-la.
Mas a ilusão se desfez rapidamente.
— Estamos em público. — continuou Adeline, lançando um olhar rápido ao redor. — Seu pai vai te matar se descobrir que o plano chegou aos ouvidos de alguém.
Seus cabelos negros estavam presos em um coque elegante, perfeitamente estruturado, e o vestido verde-esmeralda que usava era apenas um pouco menos chamativo que o de Evelyn, embora, por pouco. Havia nela uma contenção calculada, não por bondade, mas por prudência.
O peito de Isabella doeu. As lágrimas vieram antes que pudesse contê-las.
Na semana anterior, Noah havia se declarado. Dissera que gostava dela mais do que como amiga. Adeline comemorara, dizendo que eram perfeitos um para o outro.
Agora, Isabella entendia.
Silenciosamente, afastou-se, caminhando sem rumo pelo castelo. O corpo tremia, o rosto estava molhado. Sentia-se sufocada. Sozinha. Como se o mundo inteiro tivesse decidido virar-lhe as costas.
Quando percebeu, estava parada diante de uma porta antiga que não se lembrava de ter visto antes.
O corredor era deserto e mal iluminado. O cheiro de umidade denunciava que aquele não era um lugar comum.
Ela deveria ir embora.
Mas algo a chamava.
E, contra toda razão, Isabella estendeu a mão para a maçaneta.