O Livro de Nestor
Dante permaneceu dentro do elevador de serviço com a mão presa ao botão sem número. Raul Farias estava no corredor verde, encharcado da cabeça aos sapatos, a pasta preta apertada contra o peito, o rosto igual ao da última fotografia que Dante guardava na gaveta do escritório. Havia algo errado nos olhos do pai. Não era ausência de vida, porque aquele lugar parecia fabricar presença de um jeito cruel. Era repetição. Raul olhava para o filho com uma tristeza treinada, antiga, que já tinha sido usada por alguém antes. “Você demorou”, disse, e a água caiu da manga do paletó em pingos grossos sobre o carpete. Dante sentiu a vontade de descer, tocar o rosto dele, pedir a frase que nunca veio depois do enterro. Em vez disso, lembrou do aviso de Clara pelo interfone e manteve os pés na cabine. O corredor respondeu ao desejo dele abrindo portas pequenas nas paredes, cada uma mostrando uma versão da garagem onde Raul morrera. Em todas, o pai caía de novo.
Na casa de máquinas, Clara encarava Nestor Paiva por cima do livro de ocorrências. A lâmina curta parecia ridícula diante daquele morto de uniforme, porém o gesto ajudava as mãos a obedecerem. Nestor empurrou o livro para ela com dois dedos cinzentos. A linha em branco esperava sua assinatura. Passageira retida por vínculo familiar. Entrega pendente. Técnico responsável, Clara Montês. Ela leu três vezes, procurando rasura, truque de tinta, alguma falha física que desse ao terror a humildade de uma fraude comum. O papel tinha cheiro de porão, cola velha e metal quente. “Assinar conclui o serviço”, disse Nestor. A voz dele saía de perto e também dos alto-falantes do corredor, criando uma obediência falsa ao redor dela. Marina continuava parada na porta, incapaz de pisar na sala, com a presilha amarela ausente do cabelo. Clara guardou a presilha no bolso da jaqueta e apoiou a mão livre sobre a mesa. “Minha empresa não atende chamado sem número de contrato.”
Nestor inclinou a cabeça, e a parte afundada do crânio soltou uma poeira fina sobre a gola. O morto não gostou da resposta técnica. Clara percebeu isso como perceberia uma vibração irregular no motor. O prédio tinha regras, e regra podia falhar quando alguém insistia no detalhe certo. Ela puxou o livro para mais perto, ignorando o frio que subiu pela mesa, e folheou as páginas anteriores. Sete desaparecimentos apareciam em ordem limpa demais. Irene Azevedo, síndica substituta, retida por confissão recusada. Raul Farias, jurídico, devolvido incompleto por quebra de acordo. Joana Melo, diarista, retida por escuta indevida. Outros nomes vinham com destinos piores, sempre acompanhados de uma assinatura de técnico, porteiro ou conselheiro. Clara encontrou um padrão nos campos que Nestor tentava cobrir com a mão. Cada entrega precisava de alguém vivo validando o registro. A vítima entrava pelo elevador, o prédio criava o andar, e uma pessoa do lado de fora assinava a ausência com cara de procedimento.
No corredor, Raul abriu a pasta preta e mostrou ao filho uma página molhada. Dante reconheceu a própria letra de adolescente em uma autorização escolar, depois viu por baixo outro documento, assinado pelo pai, liberando a obra do poço secundário no miolo do Dália. “Eu achei que podia controlar”, disse Raul. A frase veio cansada, repetida durante anos para paredes sem piedade. Dante apertou o batente do elevador até os dedos doerem. O pai contou que o condomínio construíra o poço para transportar dinheiro, documentos e moradores importantes sem passar pelo hall. Nestor descobriu pagamentos desviados, ameaçou denunciar, caiu dentro da obra aberta e morreu antes da primeira vistoria. A assembleia decidiu fechar o caso, registrar acidente externo e manter a estrutura escondida. Depois o poço começou a chamar pessoas ligadas à mentira. Dante quis perguntar se Raul tinha matado Nestor. A pergunta ficou inútil no meio do corredor, porque a resposta já estava no rosto do pai. Raul não empurrou o zelador. Só assinou o papel que deixou a queda sem culpado.
Clara percebeu que Nestor evitava encostar em ferramentas marcadas com etiqueta de empresa. O multímetro dela repousava sobre a mesa, perto do livro, intocado. A chave triangular também permanecia fora do alcance dele, embora pudesse trancar a sala. O morto comandava portas, alto-falantes, luzes e o elevador social. Não tocava equipamento de manutenção trazido de fora. Clara deslizou a mão pela bancada até alcançar o multímetro e ligou o aparelho. A agulha digital tremeluziu, acusando corrente onde só havia madeira. O livro inteiro conduzia energia baixa, pulsada, conectada aos cabos que desciam do teto invisível. “Vocês transformaram ata de condomínio em circuito”, ela disse. Nestor recuou um passo. Marina olhou para a irmã com urgência, quase esperança. Clara prendeu uma ponta de prova no grampo enferrujado do livro e a outra na placa metálica do chão. O alto-falante guinchou. As lâmpadas piscaram. Pela primeira vez, a casa de máquinas pareceu perder o ritmo.
O corredor verde reagiu abrindo a porta treze zero dois ao lado de Dante. Ele olhou sem querer. Do outro lado havia a sala do apartamento onde crescera, com a mãe dormindo no sofá e ele mesmo, aos doze anos, esperando Raul chegar. O pai no corredor pediu que Dante entrasse só um minuto, só para ouvir a verdade inteira, só para entender que um homem assustado também podia amar o filho. A porta sabia usar voz baixa. Dante segurou o botão do elevador e manteve o corpo dentro da cabine. “Você não está me pedindo para entender. Está me pedindo para ficar”, respondeu. Raul fechou os olhos, e a água que escorria do rosto dele pareceu aumentar. “Seu pai morreu tentando sair daqui depois de entregar a prova para o síndico”, disse, trocando a primeira pessoa por distância. “O que fala com você agora é a parte que o prédio aprendeu a usar.” Dante engoliu a dor sem fazer dela resposta. Quando a porta do apartamento puxou seu ombro com uma corrente de ar quente, ele apertou o botão de fechar portas com força até a unha quebrar.
Na casa de máquinas, Nestor perdeu a educação. Avançou sobre Clara com as mãos abertas, e todo o lugar rangeu ao mesmo tempo. Cabos se moveram atrás dela. A mesa de zeladoria deslizou, tentando prender seu quadril contra a parede. Clara arrancou o grampo principal do livro com a lâmina curta, usando a ponta de prova como alavanca. As páginas se soltaram em bloco, e o nome de Marina desapareceu por um segundo, voltando logo depois com letras trêmulas. Nestor gritou, e o som saiu da boca dele, do interfone, da caixa de alarme e do poço inteiro. Marina atravessou a soleira nesse instante, não como quem ganha permissão, e sim como quem aproveita uma trava quebrada. Agarrou o pulso da irmã e puxou. O toque era frio, porém firme. Clara pegou a página de Marina, enfiou dentro da jaqueta e correu para o corredor antes que a mesa fechasse passagem. Atrás delas, Nestor bateu as mãos no livro aberto e chamou a manutenção de emergência com uma voz que já não parecia humana.
O elevador de serviço abriu no corredor pouco adiante, e Dante saiu puxando uma barra de ferro retirada da cabine. Clara quase o golpeou por reflexo. Marina parou entre os dois, ouvindo alguma coisa que vinha pelo carpete. O andar inteiro estava mudando. As portas sem maçaneta ganhavam ranhuras triangulares, uma após a outra, convidando a chave de Clara. Nos olhos mágicos, rostos apareciam, pedindo abertura, água, perdão, nomes. Dante contou em frases curtas que Raul era uma sobra usada pelo prédio. Clara mostrou a página arrancada do livro. Onde antes estava escrito entrega pendente, agora havia outra linha, recém-nascida. Troca autorizada mediante técnico substituto. Abaixo, o nome de Valdir surgia devagar, letra por letra. O porteiro tinha subido pelo serviço para procurar o síndico e acabara marcado para assinar o lugar de Marina. O interfone do corredor ligou sozinho. Valdir chorava em algum ponto distante do andar, repetindo que tinha encontrado uma porta com o nome da mãe. Marina segurou a mão de Clara. “Se ele assinar, eu saio”, disse. “E ele fica.”