A Administração
Clara segurou Marina pelo pulso antes que a mão da irmã virasse transparência completa. Não havia pele fria ali por inteiro, nem ausência total. Havia uma coisa instável, fraca, semelhante a tocar vidro molhado com alguém respirando do outro lado. A porta da Administração permanecia aberta no fim do corredor, mostrando uma sala clara demais para aquele andar podre. Valdir ficou de costas para o apartamento da mãe, repetindo que não assinara nada, que não queria trocar ninguém, que podia descer pelo serviço e chamar ajuda. Dante o segurou pelo ombro e apontou para o elevador de serviço. O botão sem número tinha afundado no painel e sumido. A cabine continuava ali, de portas abertas, porém o fundo dela agora mostrava um corredor de garagem que nenhum deles conhecia. Nestor tomara o caminho de volta. Álvaro assumira a chamada. Clara guardou a ordem de serviço no bolso interno, prendeu a presilha amarela na manga de Marina e falou perto do rosto apagado da irmã. “Você fica comigo até eu encontrar a cobrança real.”
A Administração tinha cheiro de ar-condicionado velho, papel úmido e café recém-passado. Era uma sala comprida, com balcão de atendimento, cadeiras de plástico, armários de aço e um quadro na parede exibindo os doze andares oficiais do Edifício Dália. Em cada andar, pequenas lâmpadas verdes marcavam apartamentos ocupados. Abaixo do quadro, escondida pela sombra do balcão, havia uma fileira de lâmpadas vermelhas sem número. Clara contou treze. Dante entrou logo atrás, trazendo a pasta do pai e a barra de ferro. Valdir ficou na porta, sem coragem de pisar no carpete cinza. Marina atravessou a soleira com esforço, e a presilha na manga dela brilhou uma vez, amarela contra a pele quase ausente. Sobre o balcão havia uma campainha de hotel, um livro de visitas e uma placa de acrílico com o nome Álvaro Siqueira. Síndico e administrador. A placa estava limpa, sem poeira, cuidada por mão viva. Clara tocou a campainha com a ponta da chave triangular. Em vez de som, todas as gavetas dos armários se abriram ao mesmo tempo.
As gavetas não guardavam contratos comuns. Cada uma trazia pastas com nomes de moradores, funcionários, parentes, prestadores de serviço e visitantes que tinham pisado no Dália depois da obra do poço secundário. Clara puxou a pasta de Marina. Havia cópia do RG, foto retirada da câmera do hall, formulário de ocorrência, mapa da cabine, horários de entrada e um campo chamado uso provável. Vínculo com técnica externa. Dante encontrou a pasta de Raul e ficou pálido ao ver uma fotografia do pai na garagem, tirada minutos antes da morte. Valdir procurou pela própria mãe, encontrou a ficha de Célia Almeida e fechou a gaveta com força, sem ler. No fundo da sala, uma máquina copiadora ligou sozinha. A folha que saiu trazia uma fotografia atual do térreo. Álvaro Siqueira estava na guarita, de terno claro, conversando com dois policiais diante da porta social interditada. O homem vivo sorria para a câmera. No rodapé da cópia, uma frase foi impressa devagar. Administração presente no local. Ocorrência sob controle.
Dante avançou para a copiadora com a barra erguida, e Clara puxou seu braço antes que ele quebrasse a única máquina que mostrava o lado de fora. O aparelho cuspiu outra folha. Dessa vez, a imagem mostrava o próprio grupo dentro da Administração, vista de cima. Clara olhou para o canto do teto e encontrou uma câmera embutida no gesso. A lente não era antiga. Usava modelo novo, com transmissão sem cabo aparente, instalada por alguém que vinha ali depois dos desaparecimentos. “Álvaro entra e sai”, disse ela. “Nestor fica preso ao sistema. Álvaro usa.” Marina encostou no balcão, cada vez menos visível, e olhou para uma gaveta aberta atrás da cadeira do administrador. Lá dentro havia crachás de prestadores, chaves mestras, cartões de acesso e uma pilha de ordens de serviço pré-assinadas. Clara pegou uma delas. O campo técnico responsável estava em branco. O campo ocorrência dizia apenas entrega por contestação. Era a ordem preparada para ela. O prédio não precisava que ela aceitasse culpa. Bastava fazê-la entrar na sala certa com a ferramenta certa.
A parede de vidro atrás do balcão acendeu, revelando monitores ligados a câmeras do edifício. No térreo, Álvaro falava com os policiais e mostrava documentos falsos sobre uma manutenção de emergência. Na garagem, dois funcionários do condomínio retiravam fitas de isolamento e recolhiam ferramentas de Clara. No décimo segundo, moradores espiavam por frestas de porta, impedidos de descer por algum aviso que ainda não aparecera no quadro. Em uma tela menor, Nestor caminhava pelo corredor verde com o livro de ocorrências contra o peito, indo em direção à Administração. Clara sentiu o tempo apertar. Se o morto chegasse ao balcão com o livro e Álvaro mantivesse a versão no térreo, a história seria fechada dos dois lados. Dante abriu a pasta do pai sobre o balcão e começou a separar documentos que ligavam a obra do poço a Álvaro. Havia recibos antigos, atas com voto de Raul, fotografias da construção, autorizações de compra de material e uma anotação final escrita à mão. Álvaro assumiu a administração depois da primeira morte. Desde então, todo sumiço virou redução de risco para alguém do conselho.
Valdir encontrou a porta dos fundos da sala. Atrás dela havia um arquivo morto com lâmpadas penduradas, caixas empilhadas até o teto e cheiro de mofo. As caixas tinham etiquetas por ano. Clara entrou com Dante, enquanto Marina esperava no balcão, presa à presilha e ao pouco corpo que ainda sobrava. A caixa do ano em que Nestor morreu estava lacrada com fita preta. Dentro, junto de recibos e plantas, havia o laudo de acidente original. Nestor Paiva não caíra no poço durante vistoria, como constava na cópia oficial. Ele fora encontrado dentro da cabine social, entre o décimo segundo e a cobertura técnica, com a cabeça esmagada pela porta manual. A morte aconteceu depois de uma assembleia secreta presidida por Álvaro, ainda jovem, na qual moradores decidiram usar o poço secundário para esconder dinheiro de caixa dois e documentos de chantagem. Raul Farias votou contra na primeira reunião e assinou a ata retificada na segunda. Dante leu a assinatura do pai com a boca fechada em linha dura. A culpa dele tinha nome, data e testemunhas. O andar usava isso porque era verdadeiro.
Um aviso sonoro saiu do balcão. Marina chamou Clara com voz fraca. Quando voltaram, o quadro dos andares mostrava uma luz vermelha piscando sob o número doze. Depois outra sob o onze. Depois outra sob o dez. As lâmpadas vermelhas sem número começaram a acender em sequência. A Administração estava puxando o prédio inteiro para dentro do treze, apartamento por apartamento, usando o bloqueio que Álvaro apresentava à polícia como procedimento de segurança. Clara abriu o painel inferior do quadro com a chave triangular e encontrou ligações novas conectadas a um módulo de rede moderno. Ali estava a parte viva da armadilha. Câmeras, interfone, elevadores, portas corta-fogo, tudo passava por um controlador instalado depois do sumiço de Marina. Nestor era o morto que cobrava. Álvaro era o homem que escolhia quando o prédio cobraria. Clara cortou a energia do módulo com a lâmina curta. Metade das telas apagou. No térreo, a imagem de Álvaro travou durante um sorriso. O corredor verde gemeu atrás da porta, e a voz de Nestor soou perto demais. “Administração sem autorização invalida técnico.”
A porta da frente estourou para dentro. Nestor entrou segurando o livro de ocorrências aberto, e atrás dele vinham duas figuras retiradas dos apartamentos, uma mulher de camisola com as mãos vermelhas e Raul Farias, ainda encharcado, olhos fixos em Dante. Marina começou a desaparecer de verdade. Clara agarrou a irmã pela manga, mas os dedos atravessaram parte do braço. Valdir, tremendo, pegou a campainha do balcão e arremessou contra Nestor. O objeto bateu no peito do morto e caiu sem efeito, porém deu a Clara um segundo. Ela arrancou a ordem de serviço preparada para si e colocou sobre o livro aberto antes que Nestor alcançasse a linha de assinatura. O papel novo grudou nas páginas antigas. Os nomes começaram a brigar na tinta. Técnico responsável. Administrador responsável. Ocorrência sob controle. Ocorrência contestada. Dante entendeu e despejou a pasta de Raul sobre o balcão, espalhando provas, atas e fotografias. O livro engasgou em papel vivo e papel morto. Nestor tentou fechar a capa, sem conseguir.
Clara subiu no balcão para alcançar o microfone interno da Administração. O aparelho estava ligado ao prédio inteiro. Ou ao que o prédio fingia ser. Ela apertou o botão de chamada geral e falou para todos os andares oficiais, para o treze, para o térreo onde Álvaro ainda sorria para a polícia congelada na tela. Disse seu nome, sua empresa, a hora da ocorrência, o número falso da ordem de serviço e o fato simples que nenhuma versão de condomínio conseguiria dobrar sem marca. O Edifício Dália tinha um poço secundário ilegal, um andar oculto, sete desaparecimentos e um síndico vivo usando equipamentos modernos para alimentar um sistema criado a partir de uma morte encoberta. As luzes verdes do quadro piscaram. Em algum andar abaixo, alguém começou a bater em panelas. Depois outro morador gritou. Depois muitos. O prédio oficial acordava. Álvaro apareceu em uma das telas, olhando direto para a câmera da guarita, sem sorrir. A voz dele chegou pelo alto-falante com calma baixa. “Senhorita Montês, se terminar essa chamada, eu mando demolir a única parte do prédio onde sua irmã ainda existe.” Atrás de Clara, Marina sumiu até os cotovelos.