A Guerra do Corredor Meu Vizinho de Porta Errada · Capítulo 2 de 4
Obra Menu

A Guerra do Corredor

Júlia acordou famosa no grupo do condomínio, categoria de fama que deveria dar direito a indenização automática. Havia memes, figurinhas, comentários sobre molho artesanal e uma enquete perguntando se Rafael e a nova vizinha combinavam. Ela votou não, por princípio, e percebeu tarde demais que a enquete mostrava nomes. Rafael mandou mensagem privada pedindo desculpa pelo vídeo, pela tampa no chão e por dona Marlene existir. Júlia respondeu que ele tinha responsabilidade apenas sobre a tampa, talvez sobre o molho e, dependendo do advogado, sobre a desordem emocional causada por massa perfeita em noite de mudança. Ele perguntou se ela queria jantar de reparação. Ela disse que queria a remoção do vídeo. Ele respondeu que tentaria ambos.

A tentativa virou desastre. Rafael foi à reunião extraordinária do condomínio defender regras contra gravação de moradores. Júlia foi para garantir que ele não usasse metáforas gastronômicas em ata. O síndico, senhor Edvaldo, abriu a sessão acusando o apartamento 1205 de produzir odores intensos, trânsito de entregadores e instabilidade passional no décimo segundo andar. Júlia pediu que instabilidade passional fosse retirada do registro, já que ela tinha sido vítima de molho e edição maldosa. Dona Marlene disse que filmara por segurança. Rafael perguntou se segurança normalmente aplicava filtro de coração em cima de vítima. A sala riu. Edvaldo ameaçou multa. Júlia percebeu que estava do lado de Rafael antes de aprovar internamente a aliança.

A guerra começou com bilhetes. Edvaldo mandou comunicado sobre silêncio depois das vinte e duas. Rafael respondeu colando no elevador uma receita de molho silencioso, com ingredientes imaginários e modo de preparo ofensivo. Júlia arrancou o papel antes que virasse prova contra eles e o devolveu dobrado em quatro. Ele apareceu na porta dela quinze minutos depois com café e expressão de menino pego. Disse que ela tinha dobra agressiva. Ela respondeu que ele tinha maturidade de frigideira. Ele riu e perguntou se aquilo era elogio. Júlia fechou a porta na cara dele, depois abriu de novo para pegar o café. O gesto, infelizmente, foi observado por dona Marlene pelo olho mágico do andar de baixo, tecnologia social de alcance assustador.

Os pacotes continuaram chegando errados. Queijos finos, panelas, facas japonesas, um avental com nome bordado, três caixas de limão siciliano e, numa sexta-feira, um buquê de flores que Rafael jurou não ter pedido. Júlia recebeu o buquê com desconfiança e o levou ao 1205. Rafael leu o cartão e ficou sério. Era de uma produtora de televisão oferecendo retorno em programa novo, desde que ele aceitasse falar da crise, da falência e da nova vizinha viral. Júlia esperou uma piada. Ela não veio. Rafael deixou o cartão na bancada e disse que precisava do dinheiro, mas não queria transformar o corredor dela em roteiro. A frase atingiu Júlia de modo inconveniente. Gente que protegia limite alheio dava trabalho ao cinismo.

Naquela noite, ela aceitou jantar sem reparação oficial. Sentaram no chão do apartamento dele, porque a mesa estava coberta por equipamentos. Rafael cozinhou algo simples, arroz cremoso, legumes, frango dourado, comida de casa feita por homem que parecia ter esquecido a própria casa em algum ponto da fama. Júlia contou do ex, da separação pública em festa de empresa, da mudança apressada. Rafael contou do restaurante, do investidor que queria cortar salários, da briga filmada, da fama virando tribunal. Em algum momento, o joelho dele encostou no dela. Nenhum dos dois se afastou. A campainha tocou antes que o silêncio virasse escolha. Do lado de fora, Edvaldo entregou multa por reunião social não comunicada. Júlia pegou o papel, rasgou ao meio e disse que agora sim haveria reunião social.

1/1
Menu

Fazer anotação