O Molho da Discórdia Meu Vizinho de Porta Errada · Capítulo 3 de 4
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O Molho da Discórdia

A multa rasgada virou lenda em quarenta minutos. O grupo do condomínio, antes dividido entre Team Síndico e Team Chef, ganhou uma terceira facção chamada Team Júlia, criada por uma adolescente do 904 que usava foto de gato e escrevia tudo em maiúsculas. Edvaldo convocou assembleia para discutir comportamento antissocial no décimo segundo andar. Rafael sugeriu comparecer com salgadinhos. Júlia proibiu. Ele sugeriu comparecer sem camisa para distrair adversários. Ela proibiu com menos firmeza do que gostaria. No fim, foram com documentos, prints, regimento interno e uma travessa de empadinhas que Rafael chamou de prova de boa-fé. Dona Marlene comeu quatro antes de lembrar que estava contra eles.

A assembleia saiu do controle quando a produtora de televisão apareceu. Uma repórter pediu autorização para gravar matéria sobre convivência moderna em condomínios verticais, expressão que Júlia identificou como mentira com maquiagem. Edvaldo autorizou sem consultar moradores, feliz por imaginar fama institucional. Rafael ficou branco de raiva. A repórter tentou entrevistar Júlia sobre o romance do molho. Júlia pegou o microfone, olhou para a câmera e explicou, com calma impecável, que invasão de privacidade não ficava charmosa quando acompanhada de iluminação profissional. Disse também que o chef Rafael Brant era vizinho, não atração comum do condomínio, e que qualquer programa interessado em exposição deveria começar filmando o síndico autorizando gravação sem quórum.

O vídeo dessa fala viralizou antes da sobremesa. Dessa vez, a internet ficou do lado dela. Rafael assistiu ao trecho no corredor, rindo com um orgulho que Júlia fingiu não notar. Ele disse que ela era assustadora com microfone. Ela respondeu que ele era perigoso com carboidrato. Dona Marlene, vencida pela audiência, pediu desculpa pelo primeiro vídeo e ofereceu apagar a publicação. Júlia aceitou, desde que ela também gravasse retratação. A senhora gravou com a naturalidade dramática de quem sempre esperou nova chance diante da câmera. Edvaldo tentou encerrar a assembleia, mas os moradores já discutiam prestação de contas, taxas estranhas e contratos de manutenção. A guerra do corredor virara revolução administrativa.

No meio da confusão, Rafael recebeu ligação da produtora. Ofereceram quadro novo, sem fofoca, focado em receitas de prédio, comida feita em espaços pequenos, histórias de vizinhos e reconstrução profissional. Ele saiu para a escada de emergência, e Júlia foi atrás sem admitir preocupação. Encontrou-o sentado no degrau, celular na mão, olhando para o vazio. Ele disse que tinha medo de voltar a ser personagem antes de voltar a ser pessoa. Júlia sentou ao lado. Disse que talvez pessoa também precisasse pagar boleto. Ele riu, baixo. Ela acrescentou que aceitaria revisar o contrato, como vizinha temporariamente interessada na sanidade dele. Rafael olhou para a boca dela e depois para os olhos, decisão correta e péssima.

O beijo aconteceu na escada, longe das câmeras, perto demais do cheiro de tinta velha e extintor. Começou cauteloso, quase pergunta. Júlia respondeu puxando a camiseta dele com uma firmeza que eliminou ambiguidade. Rafael tinha gosto de café, sal e nervosismo. Quando se afastaram, ficaram ouvindo o barulho distante da assembleia e a própria respiração. Júlia disse que aquilo complicava a logística de pacotes. Ele respondeu que podia mudar o endereço das entregas para o apartamento dela e assumir o risco. Ela riu contra o ombro dele, gesto íntimo demais para quem pretendia manter controle. O celular de Rafael vibrou. Era mensagem de Edvaldo informando nova multa por uso afetivo da escada de emergência. Júlia levantou devagar e disse que agora a guerra seria pessoal.

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