O Apartamento Vazio
O antigo síndico deixara o apartamento 602 fechado, com processo de cobrança parado e móveis cobertos por lençóis. Sofia usou a autorização do conselho para vistoriar infiltração e levou Ester junto, apesar de saber que aquela presença renderia fofoca até o fim do mês. A sala cheirava a mofo, jornal velho e perfume masculino. Dentro do armário da cozinha, encontraram uma pasta presa com fita adesiva sob a prateleira. Havia extratos, contratos de manutenção falsos e uma lista de pagamentos feita em letra pequena. No rodapé da última página, Osvaldo escrevera uma observação sobre a chave do terraço e o encontro marcado com Álvaro.
O elevador parou entre andares quando elas tentaram sair. As luzes falharam, e o interfone respondeu apenas com chiado. Ester manteve a calma por disciplina antiga, enquanto Sofia batia na porta metálica e chamava o zelador. Pelo vão superior, uma voz masculina avisou que curiosidade envelhecia mal em mulher que morava sozinha. Sofia reconheceu Álvaro. Ester abriu a bolsa, tirou um spray de pimenta e disse, num tom quase doméstico, que já ouvira ameaças melhores de homem muito pior. Minutos depois, o elevador desceu de uma vez, travou no térreo e as portas abriram para a garagem vazia, onde o carro de Sofia estava com os quatro pneus cortados.
Elas fugiram pela escada de incêndio e levaram a pasta para a delegacia do bairro. O investigador plantonista folheou as páginas com interesse morno até encontrar o nome de uma empresa ligada ao próprio irmão. A expressão dele mudou, e Sofia entendeu que o prédio não era o único lugar contaminado. Ester puxou a pasta de volta antes que ele pudesse reter os documentos e fingiu passar mal. Do lado de fora, entrou no primeiro táxi parado e mandou seguir para a redação de um jornal pequeno, onde uma sobrinha trabalhava cobrindo buraco de rua e licitação suspeita. Sofia, sentada ao lado dela, percebeu que a viúva guardava uma rede inteira de favores discretos.