Flores no Depósito
A matéria saiu num domingo de manhã, com documentos anexados, nomes completos e a foto de Álvaro no terraço durante uma festa antiga. Ao meio-dia, a polícia voltou ao Prédio Doze com mandado, câmeras e uma pressa que só aparece quando a imprensa chega antes. No apartamento de Álvaro, encontraram o paletó sem botão, dinheiro em envelopes e uma gravação feita por Osvaldo escondida dentro de uma tomada falsa. A gravação mostrava o advogado admitindo que empurrou o porteiro durante uma discussão, depois negociando com o antigo síndico a versão do acidente. Também citava remédios trocados na casa do marido de Ester, crime menor para a lei, imenso para quem servia café ao homem todas as manhãs.
Ester assistiu à prisão do advogado da janela do décimo andar. Não chorou. Sofia ficou ao lado dela sem pedir reação adequada. Havia vitórias que chegavam tarde demais para trazer alívio limpo. Depois, as duas desceram até o depósito onde Ester deixava flores. A viúva contou que Osvaldo guardara ali os documentos por uma noite e prometera voltar para buscá-los. Nunca voltou. Ela levava flores porque ninguém no prédio permitira velório verdadeiro. Sofia abriu a porta, retirou caixas velhas e deixou o espaço claro pela primeira vez em anos. O lugar pequeno parecia menos depósito que garganta destravada.
Meses depois, o Prédio Doze continuava cheio de vazamentos, fofocas e elevadores temperamentais, porém a ata das reuniões passou a registrar nomes completos e decisões claras. Sofia foi reeleita síndica sem desconto novo no aluguel, o que achou um tipo estranho de reconhecimento. Ester voltou a usar o elevador depois das nove, sempre com alguma ironia pronta para quem fingia inocência. As flores diante do depósito cessaram. No terraço, Sofia mandou instalar luzes e bancos simples. Às vezes, no fim da tarde, as duas subiam com café e ficavam olhando a avenida. O prédio ainda guardava segredos, certamente. Agora, ao menos, sabia que mulheres quietas também abriam portas.