O Vestido do Terceiro Piso
A mãe de Marina, Sônia, ficou parada diante da etiqueta por tempo demais. Depois sentou na mesa da cozinha, tirou os óculos e contou que trabalhara na Galeria Figueira aos dezenove anos, desenhando vitrines de noiva para o pai de André. Era boa, rápida, mal paga e apaixonada por um gerente que prometeu sociedade enquanto usava o talento dela para subir. Quando engravidou, foi dispensada sem registro, acusada de roubar um broche de pérolas que nunca tocara. Marina conhecia partes da história, sem nomes, sem loja, sem a humilhação escrita em ata interna. Sônia pediu que ela abandonasse o contrato. Marina respondeu que abandonar deixaria a mentira confortável demais.
No dia seguinte, Marina montou a primeira vitrine com ferramentas, vestidos antigos e uma raiva limpa. André acompanhou em silêncio, segurando caixas, subindo escada e aprendendo que mandar menos rendia melhor. Aos poucos, a loja começou a parecer viva. Não bonita de anúncio, viva de verdade, com marcas, remendos e escolhas visíveis. Marina decidiu usar o vestido do terceiro piso no centro da campanha, cercado por recibos antigos, fotografias de costureiras e objetos recuperados dos depósitos. André hesitou ao ver o nome de Sônia na ficha. Disse que o pai dele cuidava dos arquivos. Marina respondeu que herdeiro adulto podia escolher entre repetir arquivo ou abrir gaveta.
A gaveta apareceu na antiga sala da diretoria, trancada sob um quadro de fundador. Dentro havia atas, demissões e uma carta de Sônia contestando a acusação do broche. André leu tudo em pé, o rosto endurecendo a cada página. O gerente citado era tio dele, ainda vivo, sócio minoritário e principal defensor da reabertura com discurso familiar. Marina viu a vergonha tomar forma prática. André pediu desculpa por um crime que não cometera, frase que ela teria rejeitado se viesse polida demais. Veio cansada, seca, quase útil. Quando ele tocou o braço dela, Marina deixou por alguns segundos. Depois voltou ao trabalho, porque perdão não montava vitrine.