A Noite da Montagem O Contrato da Vitrine · Capítulo 3 de 4
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A Noite da Montagem

A equipe trabalhou até madrugada na véspera da inauguração. Manequins receberam vestidos restaurados, placas antigas ganharam luz nova e a vitrine central foi coberta por lona branca para surpresa da imprensa local. Marina estava no andaime ajustando a altura de uma peça quando ouviu discussão na sala da diretoria. O tio de André, Raul, exigia que o vestido fosse retirado e ameaçava bloquear fornecedores. Chamou Sônia de oportunista, palavra que atravessou o salão feito pedra. Marina desceu antes que André respondesse e entrou na sala com as mãos sujas de cola, dizendo que oportunista era quem roubava trabalho de moça pobre e ainda guardava recibo.

Raul tentou rir dela. André colocou sobre a mesa a carta de Sônia, a ata e o inventário do broche vendido anos depois pela esposa do próprio gerente. A família Figueira, reunida para posar em fotografia, descobriu que tradição também podia morder. Raul perdeu o controle, avançou para arrancar os documentos e derrubou uma luminária. O incêndio começou pequeno, numa cortina velha perto da janela, porém encontrou papel seco e verniz. Marina correu para o salão, puxando funcionários para fora. André voltou para buscar a pasta de provas e ficou preso atrás da fumaça quando uma porta empenou.

Marina entrou de novo apesar dos gritos. Encontrou André ajoelhado perto da vitrine central, tossindo, ainda segurando a pasta contra o peito. Chamou-o de idiota caro e puxou-o pela camisa até a saída lateral. Do lado de fora, sob chuva fina e sirenes, ele riu sem fôlego. Marina quis bater nele e beijá-lo com a mesma urgência, escolheu a segunda coisa porque a primeira podia esperar. O beijo saiu bruto, assustado, cheio de fumaça e alívio. Não resolveu o incêndio, a história da mãe ou o futuro da loja. Resolveu apenas aquela distância específica entre os dois, que já vinha atrapalhando o trabalho havia dias.

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