2. A Recepção Hospedeira do Caos: Espelho D'Água · Capítulo 2 de 39
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2. A Recepção

Acordo em um salto, os gritos de terror que ecoavam em meus pesadelos me acompanharam até o despertar. Assim que recobrei minha consciência, tento me orientar e descobrir onde estou. Investigo todo o quarto ao meu redor, o simples e escuro quadrado de madeira com detalhes em pedra me traz um sentimento de proteção, a porta estava escorada e as cortinas gentilmente fechadas, como se o dono da casa quisesse me deixar confortável.

Uma essência que eu nunca havia sentido antes fluía por todo o cômodo, um cheiro floral e adocicado, muito agradável, deixava meu corpo leve. Olho para o lado e vejo uma espécie de difusor de ambiente em cima de uma pequena mesa de cabeceira de madeira escura, um frasco simples de vidro com alguns palitos transparecia o conteúdo cheiroso de tom de rosa brilhante.

Tento levantar da cama, sinto muita dor e me estremeço com violentas e generalizadas pontadas. Olho para minha mão enfaixada e, seguindo por esse ponto, vejo que tenho ataduras enroladas por todo meu corpo, não me forço a movimentar, fico parada na posição mais confortável possível quando escuto o som da porta ranger.

Uma mulher de meia-idade, bonita e conservada, entra de forma delicada no quarto, seu rosto expressivo e gentil sorri para mim, revelando belíssimos dentes brancos. Não consigo me sentir intimidada, a paz que ela transmite deixa meu corpo mais relaxado e sinto que não é uma ameaça.

— Olá, querida, precisa de alguma coisa? Está confortável? — a mulher perguntou com a voz gentil enquanto se aproximava cautelosamente.

— Onde é que eu estou? — questiono desconfiada olhando para os lados.

— Bom, nesse momento você está em minha propriedade, um pequeno pedaço de terra na região de Presa — respondeu.

— E o que... aconteceu? Como vim parar aqui? A gruta... — balbucio enquanto me lembro da gruta e olho confusamente para o rosto da senhora, como quem procura respostas. — Estou perto da gruta? Tem um telefone? Os homenzinhos... eram... verdes?

Seguro minha cabeça, um turbilhão de memórias confusas surgem de uma vez, me deixando mais desorientada.

— Calma! — olho para a mulher, que já sentada ao meu lado tocando meus ombros de forma amigável, seus olhos verdes com linhas douradas encontraram os meus e não pude desviar o olhar. — Eu não sei se entendi tudo o que falou, mas vejo que passou por muita coisa. Proponho começarmos pelo começo, com calma, estou disposta a te ajudar com o que precisar. Me chamo Lillian, e você?

— Laura — respondo ainda um pouco nervosa.

— Laura... lindo nome, como posso te ajudar, Laura?

Aquela voz suave me deixa mais tranquila e começo a falar.

Conversamos um pouco até eu me acalmar, descobri que a alta senhora de cabelos cor de mel e voz suave morava em uma fazenda com o sobrinho e com um órfão que os ajudava com os afazeres da terra. Após me tranquilizar com sua calma vida, contei sobre minha viagem e ela, atenciosamente, me ouviu.

Estava concentrada em cada detalhe, mostrando um real interesse no assunto, algumas rugas de confusão e preocupação se manifestavam em sua tranquila face à medida que eu ia me aproximando do final da história. Meu corpo começou a doer, comecei a suar frio, lembrei que não comia desde o dia anterior e, antes que ela prosseguisse com o assunto, calmamente pediu que eu me deitasse na cama; em meu estado deplorável, simplesmente obedeci.

Lillian saiu por poucos minutos, quando voltou, carregava uma bandeja de madeira com pequenos sanduíches e uma espécie de chá que, segundo ela, me ajudaria na inflamação e nas dores. Comi como se não me alimentasse há dias, me sentia vazia e os sanduíches estavam muito gostosos; assim que terminei a refeição, ela pediu para que eu ficasse calma e prestasse atenção no que ela iria falar.

Eu simplesmente não sabia como processar toda a informação que estava sendo jogada na minha cara. Provavelmente encarava de forma inexpressiva o rosto da mulher que tranquilamente tentava me informar que eu não estava mais no meu mundo.

Enquanto ela tentava me fazer entender que, de alguma forma, eu passei pelo espelho d’água, um portal até então inativo que me levou para o país de Andenia, onde fui assaltada e atacada por goblins, criaturas... COMUNS na região desde que o novo rei tomou posse. Um amargo gosto toma conta da minha boca e começo a salivar, fazendo com que meu estômago se contraísse violentamente. Tentei segurar, mas antes que eu executasse qualquer técnica possível, a força da natureza expulsa tudo que eu tinha acabado de colocar no estômago.

Vômito ao lado da cama próximo aos pés de Lillian, que imediatamente fica em silêncio, não sei se pelo fato de perceber que foi muito para mim ou se era devido ao fato de que, se não prendesse a respiração, ela iria vomitar também.

— Desculpa... — falei envergonhada e dolorida. — Muita informação! — falo, pisco de forma demorada e respiro fundo, tentando evitar uma segunda golfada.

Ela lentamente segura meus bagunçados cabelos ondulados para trás, evitando que se sujem.

— Eu devia ter contado antes de te dar comida — diz ela pensativa enquanto, provavelmente, prendia a respiração.

Após a constrangedora situação, Lillian disse que limparia o quarto e me deixaria descansando. O fato dela usar magia para fazer os objetos trabalharem em seu lugar não me deixou dúvidas de que ela estava falando a verdade sobre tudo. Meu maxilar ia até o chão enquanto o balde e o esfregão faziam a limpeza, eu estava visualmente impressionada com aquilo, enquanto que, para ela, era tudo tão natural que nem compreendeu o motivo do meu espanto.

— Descanse, querida, você vai precisar de tempo para digerir tudo. Amanhã é um novo dia e você conhece o restante da família.

Ela me dá uma piscadela e me deixa sozinha.

Não consegui relaxar naquela tarde, fiquei ruminando um turbilhão de pensamentos até a noite, quando finalmente não aguentei o cansaço e simplesmente desliguei.

Em meu sonho estou em negação, não poderia ser verdade, era tudo algum tipo de pegadinha, tinha que ser. Me materializo no espelho d’água, a abafada gruta atrapalha minha respiração e percorro todo o local com os olhos enquanto os cochichos perturbam minha mente.

Tento desesperadamente arrancá-los com as mãos, a grande pedra brilhava igual nos desenhos da parede e olho para a espaçosa piscina azul cintilante. Meu reflexo era nítido como um espelho e parecia me chamar, como se quisesse que eu me aproximasse, mas ele se converte na imagem de um demônio e, antes que pudesse me afastar, suas garras saltam da água agarrando meu pescoço.

— TE ENCONTREI.

Aquela voz penetrante faz minha cabeça girar. Tento gritar pedindo por ajuda, mas não consigo proferir nenhum som; eu estava desesperada e o monstro começa a sair da água me observando com o rosto satisfeito enquanto sua mão continuava agarrada a mim.

Acordo com um tranco, minha respiração está ofegante e meu corpo, encharcado de suor. Ainda deitada, olhei por entre as cortinas e vi que já era dia.

Me levanto da cama, dessa vez com menos dificuldade do que no dia anterior, a fragrância no quarto tem um cheiro verde e refrescante que me faz sentir disposta, olho para a mesa ao lado e vejo que Lillian trocou a essência enquanto eu dormia. Uma muda de roupas estava dobrada em cima de uma cadeira no canto do cômodo, um simples, porém, belo vestido de linho em conjunto com um corpete vermelho; ele estranhamente servia em mim com perfeição.

Após me lavar em uma banheira que, com certeza, foi magicamente aquecida, caminho pelo pequeno corredor que leva até a cozinha, Lillian está finalizando o almoço quando percebe minha presença.

— Bom dia, querida. Conseguiu descansar? — perguntou simpática.

— Bom dia! — digo e olho para uma espécie de relógio na parede, é semelhante aos relógios analógicos do meu mundo, porém, não consigo identificar os números que foram substituídos por símbolos e o que deveriam ser ponteiros eram esferas coloridas e brilhantes que giravam em torno de uma esfera maior; aquilo me fez lembrar de um sistema solar. Se seguirem a mesma sequência humana e levando em conta que a mulher estava fazendo comida, julgo ser próximo do meio-dia. — Dormi muito, você poderia ter me acordado, não foi educado da minha parte ficar no quarto até uma hora dessas.

A mulher deu uma afável gargalhada.

— Não se preocupe, Laura, todos vimos sua necessidade de descansar. Os rapazes não ficaram chateados de você ter perdido o café da manhã — ela disse e se abaixou para pegar lindos sousplat de palha. — Me ajuda a colocar a mesa?

Olhei desconfiada para os redondos utensílios e questionei se eles não se arrumariam magicamente igual ao esfregão na tarde anterior. Outra gaitada, parecia se divertir com minha ignorância.

— Bom... eu poderia fazer com que eles se organizassem sozinhos, mas como estou muito bem acompanhada, adoraria passar meu tempo arrumando a mesa com alguém.

Eu seguro os redondos utensílios e começo a montar os conjuntos na mesa.

— Lillian... — falei esperando-a me responder.

— Sim?

— Quando posso ir para casa? — perguntei sem jeito.

— Bem, isso quem tem que decidir é você. Acha que tem condições de voltar para seu mundo? — questionou aparentemente preocupada com meu destino. Não tinha, não conseguiria subir as paredes da gruta, tampouco caminhar até chegar na rodovia. — Você é bem-vinda em minha casa, pode ficar o tempo que precisar — continuou após uma pequena pausa, provavelmente sabendo que eu não estava preparada.

Aquelas palavras hospitaleiras me tranquilizaram, porém, já havia dois dias que eu estava desaparecida, como estariam Murilo e Neusa? Sinto um aperto no coração, certamente é culpa. Qual seria a reação dos meus pais quando a equipe de buscas não me encontrasse e me desse como morta?

Meus pensamentos são interrompidos quando ouço a porta da frente se abrir e me viro para conhecer meus anfitriões.

Um adolescente esguio de cabelos castanho-claros e bagunçados e olhos felinos entra com um salto na casa, provavelmente pulou os dois degraus da entrada direto para a varanda. Aparentando ter por volta de seus dezessete anos, era magro, porém, tinha uma boa estrutura, provavelmente devido às suas atividades na propriedade.

Ele se acomodou na cadeira de frente para mim, seu rosto malandro com sardas e olhar curioso me examinavam insistentemente e aquilo começa a me deixar envergonhada. Sem graça com o excesso de atenção, dou um sorriso fechado tentando ser simpática.

— Você lavou as mãos, Rob? — questionou Lillian assim que ele apontou pela porta.

— Lavei na bomba d’água, não se preocupe — respondeu o rapaz mostrando as compridas mãos molhadas para a dona da casa.

— Onde está Cassio? — interrogou a mulher, como se estivesse impaciente pelo atraso.

— Ficou para trás para terminar de montar o cata-vento, soltou uma peça e disse que iria consertar antes de vir, não deve demorar — o menino terminou de falar, voltando novamente sua atenção para mim. — Então você é a Laura?! É um prazer, soube que é uma viajante, como é o seu mundo? Lá as pessoas...

O rapaz me bombardeava de perguntas quando é interrompido por Lillian:

— Rob, seja educado com as visitas, Laura acabou de chegar, não é o momento para interrogatórios.

A mulher sinalizou firmemente para o rapaz, que imediatamente acatou.

— Não se preocupe, vou contar tudo o que você quiser saber. Sua tia disse que você iria me apresentar à propriedade, acho que teremos tempo para conversar.

Tento me socializar com o energético menino à minha frente, que responde com um travesso sorriso.

Lillian distribui a comida pela espaçosa mesa de seis lugares, fiquei sem graça em pensar que ela tinha preparado todo um banquete apenas para me receber. A mulher permite que nos sirvamos e prontamente o rapaz à minha frente encheu o prato com toda a variedade de carnes, frutas, legumes e grãos.

O cheiro é delicioso e meu estômago súplica por alimento, pego a colher para me servir quando a porta da frente se abre, provavelmente por um chute.

Instantaneamente meu olhar se cruza com os do homem parado na frente da porta, seus olhos pequenos e castanhos, cabelo raspado bem curtinho e uma belíssima barba negra ornamentavam o rosto masculino. Minha atenção inconscientemente se volta para seu tronco quando observo que sua fina camiseta de manga comprida está totalmente encharcada, moldando o corpo musculoso e definido, “que bonito”.

Quando percebo que avaliei por mais tempo do que deveria, desvio o olhar e aquilo não saiu da forma sutil como eu esperava. Um sorriso torto e discreto surge no rosto daquele homem após minha indiscrição e sinto minhas bochechas queimarem de vergonha.

— O QUE ACONTECEU COM VOCÊ? — perguntou Lillian atônita com o estado do homem, enquanto Rob gargalhava pelo mesmo motivo.

— Bom... alguém estava com tanta pressa que se esqueceu de fechar o registro do reservatório de água — ele informa jogando uma caixa de ferramentas no chão e tirando as luvas grossas em seguida. — Quando fui ajustar as engrenagens do cata-vento, tomei um banho — ele diz e olha com reprovação para o adolescente sentado à mesa, que imediatamente substitui as gaitadas por uma expressão envergonhada. — Prazer em finalmente te conhecer, Laura... — ele me cumprimenta e tento não olhar para a roupa molhada novamente enquanto eu o saudava com um sorriso sem graça e um aceno de cabeça.

Educadamente o homem pediu licença para trocar de roupa e não demorou muito até se juntar a nós, percebi que fui inocente em pensar que Lillian havia feito um banquete para mim, os dois rapazes sentados à mesa um ao lado do outro devoraram toda a comida e eu me questionava se não estavam disputando quem comia mais. Seguramente poderia afirmar que, nesse ritmo, o mais novo logo alcançaria a dilatação gástrica do mais velho, os dois pareciam não ter fundo.

Foi uma refeição muito agradável, não fui pressionada em nenhum momento, Lillian fazia com que eu me sentisse em casa. Rob parecia um poço de ansiedade para me mostrar todo o terreno enquanto Cassio era mais retraído e cuidadoso com as poucas palavras.

Após o almoço, todos voltam para suas tarefas, exceto Rob, que conseguiu uma dispensa para fazer seu papel de guia turístico; o agitado rapaz me mostra toda a propriedade. No começo ele disparou na frente, mas quando lembrou que eu não conseguiria acompanhá-lo, rapidamente, se ajustou a minha velocidade compossível a uma idosa carcomida.

Nosso tour pela razoável fazenda não demorou muito tempo, o plano pedaço de terra propositalmente rodeado pela densa floresta abrigava uma espaçosa cabana próxima da entrada. Em frente à varanda há um jardim com flores e ervas variadas, que exalam agradáveis perfumes, provavelmente era onde Lillian cultivava a matéria-prima de seus chás, essências e... poções.

Seguindo pelos seus caminhos chegamos ao seu generoso quintal e raios de sol se cintilavam um verde predominante. Em sua parte mais baixa, um campo com as mais variadas plantações se estendia até o denso labirinto de árvores altas e retorcidas. Na parte mais alta, celeiros e cercados bem-feitos davam abrigo para as criações.

A propriedade era de uma beleza e organização magníficas, algumas aves criadas soltas nos seguiam atrás de alimento enquanto Rob me apresentava os dois cavalos gordos e musculosos que os acompanhavam em suas viagens. Um, era baio e alto, chamado Fergus; o outro, negro e extremamente forte, com nome de General. Não tive dificuldade em supor a qual cavaleiro cada um pertencia.

Ao fim da excursão, após conhecer todas as criações e precisar fugir do velho bode de Lillian, surrupiamos algumas frutas do pomar e nos deitamos embaixo de uma monstruosa e velha mangueira. Estar ali, respirando o ar puro, com um leve aroma cítrico e refrescante da floresta que circulava por toda a região, me trouxe uma profunda sensação de paz.

Rob orgulhosamente conta que ele e Cassio construíram aquilo praticamente sozinhos, e um sorriso de satisfação apareceu em seus lábios quando elogiei o local.

Ao longe, próximo do celeiro, não consigo conter minha curiosidade ao ver a cena do atlético homem dependurado em um gigantesco catavento, não consegui disfarçar minha atenção mais cedo e fazia o mesmo agora, sua concentração era inabalável enquanto provavelmente ajustava alguns parafusos.

— Ele fica o dia todo pendurado mexendo no cata-vento — disse o rapaz, respondendo minha indiscrição e me viro para ele. — Enquanto não terminar, ele não descansa. O celeiro ele construiu em uma semana.

— Para o que serve? — indaguei, tentando fingir que minha atenção estava na estrutura e não no homem.

— Você não sabe para o que serve um cata-vento? Como vocês fazem para levar a água para casa?

Me senti burra em não ter percebido que o cata-vento funcionava como uma bomba para levar a água do rio para a propriedade, o que justificava a necessidade daquele homem ficar pendurado diariamente tentando finalizar o mais rápido possível. Contei para Rob como funcionavam alguns mecanismos do meu mundo, ele ficou impressionado com as informações, o que o levou a fazer mais perguntas que eu simplesmente não sabia responder.

— Rob, no dia em que vocês me acharam, como foi? Quer dizer... vocês me trouxeram para cá, como chegaram até mim? — pergunto como uma tentativa de me desvencilhar do interrogatório.

— Cassio e eu voltávamos de um trabalho que fazíamos na cidade, estávamos há três dias fora e na volta passamos pelo caminho, que é próximo do rio, para que os cavalos pudessem beber água — falou o rapaz cuidadosamente. — Achamos você estirada no chão e, quando vimos que estava viva, trouxemos para Lillian te ajudar. Havia rastros de goblins e, pelo seu estado, sabíamos que você tinha sido atacada. Sabe... não é algo incomum, há muito tempo essas criaturas incomodam os Andenianos.

Senti uma pontada de irritação, havia sido assaltada nesse dia e levaram quase tudo que estava no meu corpo. Além de terem me espancado até ficar inconsciente, me deixaram estirada no chão apenas com o grosseiro macacão de exploração, o que provavelmente não me deixou morrer de frio até ser encontrada. Fiquei triste por roubarem minhas coisas, principalmente por levarem minha pedra, a única lembrança que eu tinha da minha mãe.

— Por que isso acontece? Esses ataques parecem frequentes, mas nada acontece com eles — falo me referindo às bestas verdes, todos reclamavam da presença dos goblins, mas nada parecia ser feito.

— Bom... talvez Lillian saiba te explicar melhor do que eu, mas... há mais de vinte anos houve uma guerra que resultou em um golpe de estado contra o Rei Yvo, que era o rei da época. Dizem que Andenia era muito segura e as bestas viviam exiladas — começou o rapaz. — Mas as criaturas ajudaram com a tomada do poder, então como recompensa, as barreiras foram abertas e elas tiveram livre acesso a todo o país. O rei não pune quem as mata, sabe..., mas elas vivem em hordas, a população teme matar uma e ter retaliação, elas costumam ser bem cruéis.

O rapaz havia nascido no novo regime, não sabia muito da história do antigo monarca nem viveu no mundo que existia na época, ele só conhecia a realidade, mas parecia sonhar com uma mudança.

Os dias se passaram e já fazia uma semana que eu havia sido abrigada, com poções e compressas. Em meu corpo, haviam sobrado apenas lembranças das terríveis dores. Eu ajudava em tarefas mais simples na propriedade para não tornar minha presença um fardo, Lillian protestava dizendo que eu era convidada, mas eu insistia em ser útil enquanto estivesse presente. Naquela semana ganhei uma segunda família, o cuidado e o carinho que tinham por mim me davam a sensação de que os conhecia há muito mais tempo, principalmente se tratando de Lillian, que me mimava constantemente durante todo o meu tempo na casa.

Troquei algumas palavras com Cassio durante minha estadia, mas não o via com frequência, quando não estava trabalhando na fazenda, ele viajava até a cidade para realizar alguns serviços, era reservado e sua natureza parecia impor uma certa distância, o que parecia me deixar ainda mais curiosa ao seu respeito. Rob havia me contado de suas aventuras, que eles tinham um grupo que se juntava para realizar serviços para quem os contratasse.

Naquele dia, Lillian havia separado uma mochila para minha viagem, tinha cuidadosamente colocado algumas cordas, pinos, cobertores e comida, o que daria para me sustentar por dias. A despedida era longa e sofríamos com a separação. Se morássemos no mesmo mundo, Lillian seria o tipo de amizade que eu adotaria como família, pensava que ou ela daria muito certo com Neusa, ou elas iriam se digladiar de ciúmes.

Rob e Cassio já haviam selado os cavalos, a ideia seria sair o mais cedo possível. Da cabana até o espelho d’água seriam algumas horas a cavalo, quanto mais cedo estivesse na passagem, mais cedo conseguiria voltar para casa.

— Então é isso, querida... — disse Lillian, me dando um apertado e demorado abraço. — Vou sentir sua falta. É bom ter uma companhia feminina nessa casa cheia de homens.

Comecei a chorar baixinho, Cassio e Rob se entreolharam, não pude decifrar se acharam exagero ou se ficaram com pena da separação.

Montamos nos cavalos, Cassio havia me acomodado de forma confortável na cernelha do negro animal. Seus braços me envolveram para tomar o controle das rédeas à minha frente e a aproximação parecia ter deixado nós dois um pouco desconfortáveis.

Senti sua respiração falhar algumas vezes enquanto ele gentilmente tentava manter o corpo afastado de mim, cogitei pedir para ir na garupa, porém, antes que pudesse falar alguma coisa, o animal já estava andando e eu não quis incomodar. Quando fizéssemos alguma parada daria a sugestão.

Como esperado, Rob quebrava o intenso silêncio, o rapaz tagarelava sobre a tarefa que ele e Cassio executaram no dia anterior. O energético rapaz contava entusiasmado como eles caçaram uma corça prateada para um comerciante da cidade.

— Eu fiquei quase uma hora, parado na mesma posição até ela aparecer na área de tiro da Josi. Quando Josi atirou e acertou seu dorso, o bicho avançou contra ela. Esses animais são extremamente agressivos, sabia? Cassio a agarrou pelas orelhas e derrubou no chão para eu conseguir sangrá-la, foi muito empolgante.

Ele estava realmente empolgado, matar a corça foi uma grande aventura para o rapaz, que recentemente teria sido anexado ao grupo de aventureiros.

Ele já havia me confidenciado que tinha anos que queria que Cassio o levasse para as aventuras, mas tinha apenas seis meses que ele concordou em levar o rapaz. Eu não havia conhecido Josi na minha breve estadia e tinha bastante curiosidade sobre ela.

— Eu não tive o prazer de conhecer a Josi, ela é sua... companheira? — perguntei para Cassio, que estava em silêncio desde que saímos da fazenda.

— Josi? Ela é minha parceira de caça, nos conhecemos desde crianças. — respondeu.

— Huum, então vocês têm um... relacionamento?

Insisti, a fofoqueira que habitava em mim precisava retirar informação do silencioso homem. Ele e Rob se encaram e os dois começam a gargalhar de forma sincronizada, parando quando perceberam meu constrangimento.

— Não! — respondeu firmemente. — Nós não temos um relacionamento, ela é uma grande amiga.

— HUUM, por que a curiosidade, Lalau? Está interessada? — perguntou Rob, me fazendo pular no cavalo. Senti o corpo de Cassio enrijecer, provavelmente ele não gostou do comentário.

— NÃO! Eu só estava curiosa porque não a conheci, tentei puxar assunto, me desculpe se pareceu outra coisa — falei com muito constrangimento, senti minha pele corar, o homem atrás de mim era, sem dúvida, muito atraente, mas minha pergunta era apenas uma curiosidade de quem iria embora para sempre.

— Não pareceu outra coisa! — disse Cassio sério, não consegui olhar para trás, mas senti que Rob ficará mais silencioso, provavelmente recebeu um olhar assassino do outro cavaleiro.

Andamos por quatro longas horas até chegar à gruta, os assuntos haviam se resumido em conversas fiadas a respeito do tempo e da cor do céu. Rob e Cassio podiam jurar que iria chover, eu já não estava tão certa disso, não tinha uma única nuvem e o sol ardia em minha pele. Descemos as escadas até o grande salão de pedras e, observando com mais atenção dessa vez, largas aberturas no teto deixavam a luz solar entrar, tornando o lugar extremamente iluminado naturalmente, diferente da versão no meu mundo, que era totalmente fechado.

O portal era idêntico, o mesmo design destoando do resto da gruta, como se tivessem montado um altar com materiais diferentes do ambiente original. A piscina continuava linda e azul, as pedras em volta das bordas caminhavam até uma área mais alta onde a grande pedra cinza se localizava bem ao meio, encarei por alguns segundos contemplando aquela beleza.

Me vesti com meu macacão de exploração e me despedi dos dois rapazes que estavam me acompanhando. Rob, com seu jeito hiperativo, me deu um energético abraço enquanto me movimentava para os lados e dizia que sentiria minha falta.

Cassio era mais contido e com muito custo, me deu um abraço sem jeito. Seu cheiro amadeirado me causou deliciosas palpitações e meu abraço durou mais tempo do que eu esperava, “como ele podia ter um cheiro tão bom?”.

Propositalmente eu estava tirando uma casquinha e não me envergonho por isso, eu iria embora em poucos segundos, nunca mais veria tal monumento lindo e cheiroso novamente, então queria aproveitar um pouquinho mais aquelas costas musculosas.

Caminhei até a gigante pedra posicionada na parte mais alta do espelho d’água, a cada passo que eu me aproximava, meu coração se acelerava. Finalmente estava indo para casa, estava pensando em como chegaria na estrada, como conversaria com Neusa e Murilo sobre aquilo, o que eu diria para a polícia? Se contasse a verdade, eu seria internada em um hospício.

Muitas preocupações, mas nenhuma delas me impediria de voltar para meu mundo, eu teria todo o tempo até chegar na pequena vila próxima da estrada para inventar uma história convincente, faltavam poucos segundos agora e eu não queria protelar.

Olhando para baixo, vejo que Rob e Cassio me observavam ao pé da piscina, estavam ali, fielmente esperando que eu fizesse a passagem de forma segura para irem embora. Dou um último aceno de despedida antes de me virar para a fria e gigante pedra e fecho meus olhos.

Consigo ouvir as batidas do meu coração e meu estômago se contorcia nesse exato momento. Inspiro lentamente todo o oxigênio que está à minha volta e solto fortemente todo o gás carbônico, encostando meu corpo na pedra como havia feito na primeira vez. Finalmente estava indo para casa.

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