Capítulo Extra — Transição Hospedeira do Caos: Espelho D'Água · Capítulo 39 de 39
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Capítulo Extra — Transição

Meu peito expandia com velocidade enquanto meu corpo recuperava os ossos quebrados. O sangue que minava do meu nariz já havia estancado, mas o cheiro de ferro ainda impregnava toda minha via respiratória. Eu estava exausto, não tinha mais energia para lutar. A velocidade de cura da licantropia havia aumentado significativamente devido à necessidade do meu corpo se recuperar, mas a constância das torturas e privação do meu sono não permitia que minha mente descansasse.

“O desgraçado é um monstro.”, ouvi um dos guardas rosnar indignado, segundos antes da porta de metal se abrir, chamando minha atenção.

Gasto o pouco de energia que tinha para levantar minha cabeça e avaliar quem se aproximava. Não era novidade que eles revezavam a guarda, mas aquele homem especificamente se empenhava em me causar dor, e a figura encapuzada ao seu lado era nova para mim. Observo aquela tatuagem com ódio; Rivaille era o nome que os soldados menores o chamavam, e eu ansiava por uma brecha para que eu pudesse arrancar sua cabeça.

— Ergam o corpo, quero que ele olhe para mim. — A ordem foi expressa, e imediatamente o som das correntes começou a retinir naquela cova. Não demora até que a tração do metal me arraste, obrigando-me a me apoiar de pé, com meus braços suspensos acima da minha cabeça.

Ele estava ali, a menos de um braço de distância. Eu podia sentir seu cheiro ardendo nas minhas narinas, mas a impossibilidade de toca-lo fazia todos os pelos do meu corpo eriçarem em desespero. Eu estava louco; o ódio tomava conta das minhas entranhas, e eu tremia buscando energia para me libertar daquelas correntes e mata-lo.

— Você me fez estudar, nunca pensei que pegaria em livros por um prisioneiro. — O sorriso em seu rosto faz com que minha face se contraísse, e sou incapaz de não exibir meus dentes. — Foi uma grande surpresa descobrir que o filho do Rei Yvo carregava a maldição da licantropia. Todos estavam desorientados, pensando se você era alguma espécie de deus encarnado, quando seu corpo se curava com tanta velocidade. — O homem me informa mas não consigo respondê-lo, eu só podia encará-lo com ira, e ele tinha plena consciência que se não fosse pelas amarras me limitando ele seria um homem morto.

— Bem, não encontrei nenhum livro que ensinasse a torturar lobisomens, mas... — Rivaille me informa enquanto arrastava uma mesa de metal para perto. — Talvez eu possa ser o primeiro a escrever um.

Meu corpo inteiro se arrepia com a água gelada que os soldados me encharcam, e aquela temperatura parecia ter me despertado, enquanto eu sacudia minha cabeça tentando tirar o excesso que escorria pelo meu rosto. Uma agonia faz com que meu corpo inteiro se retraísse momentos depois de sentir uma mão gelada tocar meu tronco, e sou incapaz de conter um rugido agônico.

As correntes cantavam enquanto eu me debatia, e eu podia sentir meus olhos se revirando com o fluxo daquela energia torturando meus músculos. Estava tudo escuro; eu ouvia meus urros como se fosse um telespectador da minha própria tortura e sinto minhas pernas cederem quando aquelas mãos finalmente se afastam de mim.

Ofegava em desespero, tentando conseguir ar para me recompor, mas o local abafado e sem janelas parecia rarefeito, fazendo com que minha respiração se assemelhasse mais a um uivo. Podia sentir a fumaça sair do meu corpo depois daquela descarga elétrica, e olho para o homem encapuzado à minha frente ao lado de Rivaille, que sorria satisfeito com o resultado que havia obtido.

— Lobisomens não são imunes à magia, exceto a psíquica, é claro. Você recebe a descarga como um ser humano normal, mas o mais engraçado é que você se recupera mais rápido, o que permite que possamos nos divertir por mais tempo. — Sou informado enquanto me apoio novamente de pé, o encarando em desafio. Escarro o sangue que havia se acumulado em minha boca próximo do seu pé, demonstrando meu desprezo, e um sorriso torto desponta dos seus lábios.

Outra descarga, dessa vez me controlo evitando os berros e me mantendo firme. Eu sentia como se minha pele estivesse em erupção, e a forma como minhas fibras musculares tencionavam, fazia com que eu tivesse certeza que elas iriam se romper a qualquer momento. O sangue escorria pelo meu nariz e ouvidos, e me debruço vomitando suco gástrico quando aquela agonia finalmente se afasta do meu corpo.

O líquido vermelho é expelido, queimando meu esôfago, e a dor que eu sentia, junto com a quantidade de coágulos que saiam, fazia com que eu tivesse certeza que dentro de mim, estava uma bagunça. Ofegava com dificuldade, e me esforçava para manter meus olhos abertos. Era difícil manter-me de pé, mas eu não cedia, não permitiria que o homem se regozijasse com meus berros, e sorrio para ele com dificuldade, provocando-o.

— Você é duro na queda, e isso me estimula, adoro um desafio. Diferente dos outros soldados, não estou atrás de informações... não ligo para sua ligação com a causa, esse não é o meu trabalho. — Rivaille me Informa enquanto desfaz um estojo em cima da mesa de metal. — O que torna tudo melhor. Posso ficar aqui o dia todo, treinando minhas técnicas mais dolorosas se eu quiser, e com meu caro arcano, aqui... — O soldado se referia ao homem encapuzado ao seu lado. — tenho minha garantia que você não vai morrer. — o desgraçado se volta para mim com uma espécie de adaga extremamente fina e cumprida, com uma pena vermelha anexada ao seu cabo. Meu peito se aperta, imediatamente reconheço a pena de Falcão Ignis que Rob usava em suas flechas, e o homem sorri com a expressão em meu rosto. — Reconhece? — Rivaille pergunta enquanto exibia aquela arma na tentativa de me desestabilizar.

— Essa pena está guardada há muito tempo. — O homem fala, rodeando-me até que se colocasse totalmente atrás de mim, fazendo um calafrio subir pela minha espinha. Não consigo acompanha-lo, As correntes estavam tracionadas e eu não era capaz de movê-las. — Foi encontrada próximo ao rio, estava atravessada no pescoço de um de um dos soldados do senhor das terras de Zarza. Um soldado com uma tatuagem no rosto, assim como a minha. Isso te lembra alguma coisa? — Rivaille se aproxima da minha lateral, o que me permite avaliar o selo de servidão estampado em sua face, mas nada vem em minha memória. A batalha próxima ao rio havia acontecido no desfiladeiro, e pela quantidade de soldados que Oliver havia enviado, eu não gravaria a fisionomia de um em específico, principalmente depois de tanto tempo.

— Lamento. Não sou muito bom em lembrar o rosto dos mortos. — Provoco, e, em seguida, uma dor excruciante se propagava abaixo da minha última costela. Sinto a Lâmina fina penetrar meus tecidos; meu abdome se contraía completamente com o metal atravessado em minha carne até o meu interior, e sinto como se estivesse queimando por dentro.

— A minha sorte é que essa é a pena de uma ave que é encontrada apenas ao norte da região de presa. — Tento conter a respiração pesada. Eu ofegava incessantemente e cada movimento da minha respiração, a dor parecia se aprofundar me deixando ainda mais angustiado com aquela arma encravada em meu corpo.

— Não foi fácil, mas por incrível que pareça, uma única pena, foi capaz de me levar até presa e encontrar o assassino do meu irmão. E sabe o que é o mais irônico? — O homem se coloca na minha frente, me encarando com uma expressão mista entre raiva e satisfação. — É que ele morreu pela mesma arma que o matou. — Avanço contra ele em ira. O desgraçado havia assassinado meu irmão com suas próprias flechas, e aquilo eu não iria perdoar. Uma agonia percorre toda minha espinha com o movimento brusco.

— Toda dor é válida, mas... — O homem explica, se afastando de mim, deixando aquela arma encravada no meu estômago, enquanto me arqueio tentando encontrar uma posição que eu pudesse suportar. — registros demonstram que não existe agonia maior do que ter seus órgãos queimados pelo próprio suco gástrico. — Rivaille me informa enquanto eu me esforço para manter meus olhos abertos. A dor me consumia e eu só conseguia desejar a morte.

— Água. — Peço quase que de forma inaudível; minha boca estava totalmente seca e eu precisava pelo menos, molhar os meus lábios.

— O que você disse? — o homem se aproxima, e eu respiro fundo, mas o esforço faz com que eu gemesse com a dor que Advinha do meu abdome. Eu estava totalmente entregue; não tinha energia para me manter de pé, e apenas as correntes mantinham meu corpo suspenso.

— TRAGAM ÁGUA PARA O HOMEM! — Rivaille brada em um tom alto, comandando os soldados. — Que falta de humanidade, não se nega água nem para um vira-lata. — A voz parecia irônica quando ouço o som de algo se arrastando até aquela solitária que eu estava sendo mantido.

Levanto minha cabeça, e a adrenalina com a consciência do que estava por vir, faz com que meu corpo reaja ao observar a bacia transbordando. Tento me afastar em um arranco, mas as correntes distendidas impedem meu movimento, e os soldados se agarram aos meus braços, me arrastando até aquela mesa.

Minha cabeça era submersa, e quanto mais eu me debatia tentando sair do afogamento, mais aquela adaga me causava torturas, perfurando as minhas entranhas. Uma mão aperta aquela arma contra minha carne, fazendo com que eu ficasse totalmente imobilizado pela dor. Não consigo lutar; apenas me sucumbo a ela.

Fecho meus olhos e sinto a inconsciência me tomar; meu corpo já não me respondia, e naquele momento, não me importava se a morte me buscaria.

— Não, você não vai descansar agora que começamos a nos divertir. — Uma descarga de adrenalina me arranca do transe, no momento que sinto meu corpo prostrar no chão, e volto ofegando pesadamente tentando conseguir oxigênio. O arcano havia me despertado, e retorno totalmente desorientado, observando ao meu redor. — Deve estar arrependido em não ter entregue aquela mulher, não é mesmo?! Valeu a pena perder tudo por ela? — o algoz se agacha, me questionando, mas não o respondo. Eu bufo de ódio, tentando administrar aquela dor e continuo o observando com ira quando ele arranca aquela adaga do meu estômago, fazendo com que eu urre, me contorcendo com o ácido me corroendo por dentro. — Se implorar para que eu pare, eu te deixo em paz. — Ele não pararia; nitidamente estava se divertindo e queria ter o prazer em ver a esperança se dissipar dos meus olhos após eu inutilmente pedir para que ele me poupasse.

Gargalho com o pedido, e ele me observava com o semblante sério. Eu o desafio, mostrando os dentes, e o olhar fez com que ele sentisse ainda mais necessidade em me ver dominado.

— Coma merda! — respondo entre os dentes, segurando para não me engasgar com o sangue que sobe pela minha garganta. O homem se levanta em um arranco.

— Ajoelhe-se desgraçado. Quero que implore. — Um chute no meu rosto com certeza quebra meu nariz, e eu me arqueio com o calor que se espalha daquele ponto.

— A única pessoa que já me fez ajoelhar foi minha mulher, e ela está longe demais para que eu o faça. — O provoco, com os dentes vermelhos à mostra, deixando explícito que eles falharam ao captura-la, e o ódio parecia consumir a face do homem.

— Farei com que seus dias sejam insuportáveis. — Rivaille se vira, enrolando o que seria um chicote em seu braço, e meu peito se apertava com a consciência do que me aguardava. – Me arrependo em ter matado o menino. Esfola-lo na sua frente teria sido mais prazeroso. — Me levanto num arranco, tentando aproveitar as correntes frouxas, mas imediatamente os soldados as travam, me impedindo de atacá-lo. Os homens giram a manivela, esticando ainda mais o metal, e dessa vez, mantêm meu tronco totalmente suspenso pelos braços, fazendo com que o peso do meu corpo causasse dores terríveis nas articulações do meu ombro. — Não se preocupe, farei com que se lembre todos os dias do que aconteceu naquela gruta. — O homem se aproxima a centímetros de mim, e sou incapaz de fazer qualquer coisa. Ele exibe o chicote com as pontas prateadas e sinto meu estômago se contorcer.

Os fios de prata trançados, provavelmente tinham sido confeccionados de forma exclusiva, e eu não tinha dúvidas em como seria danoso me recuperar, quando ele finalmente terminasse.

— Vamos fazer um acordo. Se você conseguir ficar em silêncio enquanto eu o machuco; e não vou mentir, vou te machucar muito... Eu ordeno que todos esses homens te deixem em paz por um dia. Você terá um sol e uma lua de descanso. — Ouço aquela proposta da qual eu não tinha escolha, me esforçando para tocar o chão e distribuir um pouco o peso dos meus ombros. Camuflo o desespero, enquanto observo o homem caminhar à passos leves, até se posicionar atrás de mim.

Os açoites faziam com que meu corpo inteiro se contraísse em agonia, e eu arfava pesadamente, segurando meus urros. A dor dos fios rasgando minha pele me faziam suar, e eu era reanimado pelo arcano sempre que estava prestes a perder a consciência.

Perdi as contas de quantas chibatadas ele havia afligido e finalmente parecia ter acabado. Relaxo meu corpo num suspiro pesado quando os homens finalmente afrouxam aquelas correntes de uma forma que eu consiga apoiar meus pés no chão úmido. Tento encontrar uma posição mais confortável, quando um dedo é pesadamente inserido dentro das feridas abertas nas minhas costas, e aquela pressão inesperada faz com que eu não contivesse um brado de dor. Aperto os meus dentes em desespero, consigo senti-los trincar pela pressão que minha mandíbula exercia contra eles.

— Parece que meus colegas vão trabalhar amanhã. — A voz nas minhas costas parece satisfeita com meu fracasso. Aquela provocação faz meu rosto queimar.

— Eu vou matar... Você. — urro entre os dentes, e a saliva escorria pela minha boca. O homem sorri, lavando as mãos sujas com meu sangue na bacia que ainda permanecia à minha frente.

— Continuem até que o prisioneiro aprenda a ter modos, mas não se empolguem com a prata. Não queremos matá-lo. — Rivaille auxilia os outros soldados enquanto prepara para se retirar. — Tenho um compromisso agora, mas... mais tarde eu volto para ver como nosso hóspede está. Ele tem sangue real, então, presem por um tratamento especial. — A expressão de escárnio naquela face tatuada me causa enjoo. O observo com ódio, enquanto meu rosto pingava de sangue e suor. — Vamos passar muito, muito tempo juntos.

Invisto contra ele com fúria antes que outro soldado me açoite. A dor da prata rasgando minha carne faz com que eu acorde aos berros com o som do chicote estalando. Aquele pesadelo me atormentava, e eu sentia como se a dor realmente estivesse no meu corpo.

— CAASS... NÃO NÃO NÃO! CASS... CAAASS... — Meus gritos faziam minha garganta reclamar e logo o som da porta do meu quarto se abre em um arranco.

— Laura, pelo amor de Deus, o que está acontecendo? — Neusa corre ao meu encontro e me envolve em um abraço apertado. Não conseguia parar de chorar, eu encharcava sua camisola enquanto gemia de desespero. Meu corpo inteiro suava em mal-estar. — tem que acabar com isso Laura, você não pode viver desse jeito.

— Dói, dói muito... — O desabafo sai como um miado, e Neusa me Aperta acariciando meus cabelos.

— Foi só um pesadelo... Só um pesadelo, não precisa ter medo, nada vai machucar você. — ela me informa, mas aquela angústia não saia do meu peito. O desespero era tanto que eu me engasgava com meu próprio soluço.

— Eu preciso voltar, preciso ir embora, preciso ir pra minha casa. Preciso ajudá-lo. — Me afasto, desorientada, e procuro pelo amuleto no meu pescoço, esquecendo que o haviam recolhido no hospital e entregado a Neusa, que era minha responsável.

— Você está em casa, meu amor. — Neusa segura meu braço com cuidado, e olho para ela com aflição. — Laura, vou levar você para meu apartamento amanhã. Não posso continuar vindo aqui dormir com você, isso precisa acabar.

— Mas eu preciso pegar um avião... — Tento argumentar, mas sou interrompida.

— Sem "mas"... Amanhã a gente separa suas coisas e faz a mudança. Vai ser melhor se você vier morar comigo e Murilo novamente até resolvermos essa situação. — Abaixo a cabeça em seu seio e me aconchego no colo de mãe, me sentindo totalmente protegida. Eu estava cansada, o desespero me consumia e as noites mal dormidas estavam me deixando louca.

O telefone toca, e Neusa se afasta para atendê-lo. Pelo horário da ligação, provavelmente era da portaria, questionando se algo havia acontecido, essa situação já estava frequente.

Minha mãe retorna com um copo com água e um remédio para me ajudar a dormir, os pesadelos eram constantes e eu tentava evitar o sono para fugir do terror que me assombrava.

— Durma, meu amor. Amanhã tudo vai ficar bem, eu vou resolver tudo, tá bom?! — Fecho meus olhos enquanto Neusa se deita ao meu lado, acariciando meus cabelos. — Eu vou resolver tudo.

Sinto minha mente sucumbindo ao sono, e logo tudo começa a escurecer. Eu precisava desesperadamente voltar, eu precisava ficar com meu parceiro, e sabia que Neusa iria me ajudar.

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