Universo da obra
Universo da obra
Guida animava com a sua graça e gentileza os diversos grupos que se tinham formado na sala.
No sofá, onde se conversava, ia sentar-se um instante para ouvir e interromper, excitando a réplica e provocando o riso com suas travessuras. No piano aparecia de repente, tocava ou cantava alguma cousa às pressas, e aproximando-se da mesa, mostrava às pessoas, que folheavam álbuns, lindas vistas da Suíça, da Escócia, de Sintra e da Tijuca.
O Guimarães, que estava naquele dia em veia de felicidade, acompanhava a moça nessas evoluções com certo ar pretensioso que não escapava às outras pessoas. Decididamente parecia que a preferência se manifestava pelo mais jovem e mais elegante dos pretendentes; tal foi pelo menos a opinião das senhoras, que nesta matéria falam de cadeira.
O Dr. Nogueira, despeitado com o remoque da Guida, na ocasião do almoço e a propósito da flor, conservava-se arredio; estava ainda no jardim fumando o seu charuto. Entretanto, quem o observasse com atenção conhecia que através das folhas das árvores ele não perdia de vista as janelas da sala.
Bastos estava indeciso; não se animava a entrar em combate, nem se resolvia a abandonar o campo. Recostado à sacada pela parte de fora, mas completamente voltado para dentro, observava a moça, sem contudo esforçar-se por atrair-lhe a atenção. Bem desejava obter aquela ventura; mas sua imaginação ingrata não lhe suscitava um meio de realizar seu desejo.
Teria decorrido cerca de uma hora depois do almoço, quando Mrs. Trowshy mostrou a Guida a figura esguia do Daniel em pé na porta do interior. A moça aproximou-se do criado, que lhe disse:
-- Dei o recado; respondeu que há de escrever ao Sr. comendador agradecendo.
-- Escrever? perguntou Guida.
-- Sim, senhora.
-- Então não vem?
-- Pode ser.
-- Bem!
Guida herdara do pai certa impetuosidade do desejo, que foi a origem da riqueza do capitalista, e devia exercer na vida da filha notável influência.
Depois do último encontro com Ricardo, naquela manhã, teve desejo de conhecer o advogado; desejo que revelou com franqueza na ocasião do almoço, pedindo a Guimarães que o apresentasse. Não confiando porém na promessa do moço, ao levantar-se da mesa, tomou o braço do pai e preveniu-o de sua intenção de mandar o Daniel convidar a Ricardo da parte dele, Soares.
-- Manda! respondeu o pai com indiferença, habituado a confiar todas essas minúcias domésticas à mulher, que as abandonava à filha.
O Daniel partiu imediatamente; e o resultado de sua incumbência acabava ele de comunicá-lo à moça, com a sua imperturbável gravidade.
-- Is he coming? (Vem?), perguntou Mrs. Trowshy.
Guida disse que não, com um ligeiro aceno de cabeça.
-- Why not? (Por que não?)
Novo aceno exprimiu a ignorância da moça a respeito do motivo por que Ricardo não vinha. Contudo o tato de sua alma de mulher lhe indicava, embora vagamente, a natureza daquele motivo.
-- Ele é pobre, pensava ela, muito pobre; há de ser suscetível portanto.
Talvez Ricardo se ofendesse com o convite, feito por intermédio de um criado; e a sua resposta de que havia de “escrever agradecendo”, manifestava bem seu pensamento: era uma alusão. Guida se desculpava consigo mesma, dizendo que Daniel era mais do que um simples criado: era um homem da confiança de seu pai. O convite por esse intermédio parecia-lhe tão delicado, como por carta, sem a solenidade que ela justamente não lhe queria dar.
Se Guida desejava anteriormente a presença do moço em sua casa, agora mais que nunca. Duas razões atuavam em seu espírito. A contrariedade do obstáculo e a vontade de desvanecer uma ofensa involuntária. O que fora até então uma lembrança delicada apenas, mudava-se em capricho.
Capricho? Quem não sabe o que isso é? A palavra o está dizendo. É a alma da mulher que se precipita sobre uma ideia, com a mesma temerária vivacidade e petulância da cabra selvagem a arremessar-se pelas arestas do despenhadeiro.
Guida sentou-se ao piano e começou a preludiar. Não tardou que o Guimarães se aproximasse, atraído pelo ímã, e bordasse sobre o tema da música uma dessas falas que parecem um crochê de palavras de diversas cores. A moça tomou interesse na conversa, e prolongou-a por algum tempo; mas interrompeu-se de repente como se lhe ocorresse uma ideia:
-- Não pretende apresentar hoje seu amigo, Sr. Guimarães?
-- Como? Que amigo?
-- Já se esqueceu? Com efeito!
-- Ah! lembro-me. O Nunes. Mas hoje?
-- Então quando há de ser?
-- Qualquer outro dia.
-- Se não for hoje, que ele está na Tijuca, nunca mais o senhor achará uma ocasião para apresentá-lo. Amanhã estou certa que já nem se lembrará disso!
-- Sou esquecido, é verdade; mas da senhora, D. Guida, lembro-me até demais.
-- Pois lembre-se menos de mim, para se lembrar mais do que prometeu a meu pai. Vá buscar o seu amigo!
-- Agora?
-- Neste momento, disse Guida levantando-se.
-- Mas se não sei onde ele está!
-- Daniel há de saber. Vou dizer-lhe que sele o seu cavalo e o acompanhe.
Chegando à porta, a moça deu as ordens necessárias.
-- Mas, D. Guida, confesso-lhe que poucas relações tenho com o Nunes; depois que nos formamos há seis anos, é a primeira vez que nos encontramos. Mesmo em São Paulo, nunca fomos amigos; apenas conhecidos. Chegou à corte, não o visitei. Não me julgo pois com direito a procurá-lo assim de repente...
-- Tudo isto o senhor devia ter pensado antes de se comprometer: agora tenha paciência. Seu pai costuma dizer que dívidas não se perdoam.
-- Ainda há uma razão. Eu sei que o Nunes pôs aqui um escritório de advocacia, porque vi o anúncio; mas se procede bem, se é homem fino, capaz de entrar na primeira sociedade, ignoro. Não posso portanto tomar sobre mim a responsabilidade de trazer à casa do comendador um moço que pode praticar algum ato...
Guida sorriu.
-- Esse receio não tenha: eu o absolvo da responsabilidade.
-- Mas o comendador?
-- Fica por minha conta.
-- Não! não devo abusar.
Guida olhou o moço com certo ar resoluto:
-- O senhor não vai?
-- A senhora fica zangada comigo?
-- Oh! não; muito agradecida ao contrário!
Soltando essa frase cheia de ironia, a moça deixou o Guimarães atordoado; e voltou-se para sua mestra, que lia nesse momento um número da Illustrated London News .
-- Mrs. Trowshy, a senhora hoje há de jantar perto do Sr. Guimarães.
Se ainda restava alguma hesitação no espírito do filho do procurador, desvaneceu-se de súbito e completamente diante daquela terrível ameaça. Jantar perto da inglesa significava o mesmo que ficar-lhe hipotecado pelo resto da tarde e por toda a noite. Para evitar essa calamidade, Guimarães entendeu que não lhe restava outra saída senão obedecer ao capricho da menina partindo em busca do colega.
-- Já vou, D. Guida!
-- Ah! Esquecia-me dizer-lhe que seu colega tem um amigo, um companheiro; é preciso convidar a ambos.
-- Sim, senhora; cumprirei a sua ordem. Mas não me condene a jantar perto da mestra.
-- Se trouxer quem o substitua! disse Guida rindo.
-- Fica a meu cuidado!
Guimarães montou a cavalo e partiu com o Daniel. Todo este episódio não escapou, nem ao Bastos recostado à janela, nem ao Nogueira que passeava no jardim. O último não vira o diálogo trocado entre a Guida e o Guimarães; mas bastou a partida deste, acompanhado pelo criado da casa, para excitar-lhe apreensões.
Animado pela ausência dos dois competidores, só em campo, o Bastos, mais desassombrado de espírito, descobriu afinal o meio de solicitar a atenção da filha do milionário:
-- D. Guida! disse ele com a voz um pouco trêmula.
-- Chamou-me? perguntou-lhe a moça voltando-se.
-- Como há de querer então os brincos?
-- Que brincos, Sr. Bastos?
-- Pois não me pediu no almoço para mandar fazer-lhe uns brincos do feitio dessa flor? replicou o corretor rubro como um tenor sem voz quando dá um dó de nariz.
-- É verdade. Desculpe-me; não me lembrava assim de repente. Depois lhe darei uma flor para servir de modelo.
-- Esta que a senhora tem?
-- Esta ou outra, é indiferente, observou a moça com intenção.
Bastos perturbou-se, e nesse intervalo a atenção de Guida se desviou para outro lado, de modo que achou-se o corretor outra vez na mesma posição cruel em que estava anteriormente, recostado àquela janela e atado ao seu acanhamento, que era para ele um rochedo de Tântalo.
No meio das paixões que se agitavam em torno dela, Guida conservava, devido a seu recato e altivez natural, uma grande serenidade. Quando alguma vez uma palavra mais significativa ou uma alusão mais direta a vinha provocar, ela a afastava com a sua ironia, ou com essa expressão de indiferença que perturbara o Bastos.
Assim permanecia estranha à luta de que era objeto. Sua alma pura plainava como um astro sobre as vagas que a ambição ou o amor sublevavam naqueles corações. As bonanças, como as tempestades, desse oceano, se eram produzidas por sua influência celeste, não a atingiam: ela brilhava sempre com o mesmo esplendor e a mesma limpidez.
Em princípio, suas palavras, seus olhares, seus menores gestos, eram estudados por adoradores, como por indiferentes, e interpretados ao sabor de cada um. A moça incomodava-se muito com isso; retraía-se; tornava-se cada vez mais reservada, constrangendo sua jovialidade e franqueza. Não obstante o círculo em que vivia, obstinava-se em dar a quanto ela dizia ou fazia, uma significação oculta e misteriosa.
Uma noite sucedeu dançar duas quadrilhas com o mesmo par; tão indiferente lhe era o sujeito que não se lembrou de já ter dançado com ele no princípio da partida. O fato foi muito comentado, até por algumas amigas, que viram nele uma preferência manifesta. Guida aproveitou a ocasião para de uma vez pôr termo a essa insistência que a afligia.
-- Tenho muito tempo para ser moça. Agora ainda sou criança, e quero sê-lo até dezoito anos. Não cuido nessas cousas de que os outros tanto se ocupam; só penso em divertir-me. Para mim é indiferente o par com quem danço, desde que for um homem delicado, de boa sociedade. E assim quanto ao mais.
Estavam presentes Nogueira, Bastos, Guimarães, e muitos outros apaixonados ocultos. Momentos depois as palavras da moça, repetidas em vários grupos, eram conhecidas por todos.
Guida dizia a verdade. Se era já moça na flor da beleza e na graça, tinha contudo a ingênua isenção da menina. Seu coração ainda estava em botão; seus pensamentos, embora alguma vez se embalassem nos sonhos azuis de um futuro risonho, eram em geral absorvidos pelo estudo, ou pelo prazer dos passeios e divertimentos inocentes.
Não brincava mais com bonecas, é verdade; suas bonecas eram Edgard e Sofia, ou as flores de seu jardim. Mas também ninguém a via tomar ares melancólicos e atitudes pensativas, suspirar a cada instante, ou recitar poesias de amor, acentuando as frases apaixonadas do poeta. Em uma palavra, não era romântica. Tinha a suas amigas afeição sincera; mas não lhes emprestava a linguagem ardente, que afetam certas moças, e que faz supor, sob o pretexto de amizade, a expansão de algum amor oculto, ou pelo menos de um amor ideal criado pela imaginação.
Por isso dificilmente podiam os adoradores de Guida iludir-se a respeito de sua indiferença. As palavras da menina não tinham sentido ambíguo, nem misteriosa alusão; o olhar, o sorriso, o gesto eram transparentes e não conheciam o jogo cruel de semear esperanças e excitar desejos, para depois machucá-los, como as flores ou as fitas que se trouxe no cabelo.
Assim o espírito sério de Nogueira não se deixava embair por seu amor-próprio; ele acreditava que Guida não dava a menor preferência a qualquer de seus adoradores; mas pensava que de repente podia seu coração desabrochar, e nesse momento se despertariam as impressões gravadas n'alma da menina. Toda sua tática se limitava a imprimir no espírito de Guida, como em uma cera branda, a admiração por seu talento e a confiança em seu futuro brilhante.
Mas, apesar de hábil, o futuro deputado estava apaixonado pela moça, e tanto bastava para tirar-lhe a calma necessária à realização de seu plano. Assim, na ocasião do almoço, ouvindo referir o incidente do serviço prestado por Nunes, tivera uma suspeita; e para esclarecê-la fizera a propósito da flor uma alusão que lhe valera a réplica irônica da moça. Arrependera-se e esperava a primeira ocasião para desvanecer a desagradável impressão.
Eram estas as cismas que ainda o preocupavam no jardim, enquanto fumava o segundo charuto:
-- Quem será esse moço?... dizia ele consigo, arrancando distraidamente as pétalas de uma rosa. Foi hoje a primeira vez? Guida passeia a cavalo todos os dias; não o terá encontrado anteriormente?... Algum romance começado... quem sabe! O Guimarães saiu com o criado. Aposto que foi em busca do sujeito para apresentá-lo hoje mesmo. Não há dúvida! Por que motivo ela daria tamanha atenção àquele boneco, se não fosse o desejo de obter dele um serviço? E o tolo prestou-se!...
Nogueira meditou alguns instantes, e por fim murmurou:
-- A cousa desta vez é séria!
Atirando fora a ponta do charuto, entrou na sala.
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