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Capítulo 16 · Sonhos d'Ouro

Sonhos d'Ouro: Capítulo XV

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Em uma aberta do mato que borda o caminho, avistaram os passeantes ao longe a barra da Tijuca, ao longo da qual estendia-se o cordão de espuma das vagas, como uma franja de arminho, guarnecendo o manto de cetim do oceano, a embeber o azul do céu.

Os passeantes saudaram com uma exclamação de prazer o quadro encantador daquela marinha, tocada pelos raios do sol nascente, que aveludava as cores mimosas da palheta americana.

Com pouco, dobraram o Canto da Saudade, e os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho, se desdobraram ávidos pelos horizontes abertos, recreando-se com a paisagem de várias chácaras, derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas.

Entre estas notam-se principalmente duas, a do Moke, por ser das residências mais antigas que se estabeleceram nesse aprazível sítio; e a do Dr. Cócrane, arranjada à feição de um modesto parque inglês, o que lhe atraía outrora grande número de visitantes.

Aqueles dos passeantes, que mais conheciam o prédio por tê-lo percorrido frequentes vezes, apontavam de longe os vários pontos de recreio:

-- Olhe, lá está o lago!

-- E a ilha!

-- Ali, por aquele caminho vai sair-se na Cascatinha.

-- Lá naquele morro é a Vista do Mar.

-- Como se chama a ilha?

-- Malacoff.

E outras exclamações.

Talvez nessa ocasião percorria o escritor destas páginas as bordas do lago sereno, em seu passeio matinal, bem longe de imaginar que teria de referir a comédia, cujas figuras principais passavam ao longe, sem que ele as percebesse.

Entre todos os alegres companheiros, só Ricardo mostrava-se reservado, como já era naturalmente fora da intimidade, e ainda mais quando tinha preso o espírito de uma constante preocupação.

Seu olhar inquieto se repartia entre Guida, que ia perto, mas pouco adiante, e Fábio, que o seguia a pequena distância, do lado oposto.

Percebendo o desejo de Guida, o moço insistira em satisfazer-lhe inocente capricho, com o oferecimento do Galgo para aquele passeio.

Causava-lhe tão íntimo prazer a circunstância de poder ele, um pobretão, prestar um obséquio no meio daquela sociedade cosida a ouro, que os primeiros receios sobre o animal se desvaneceram com a segurança da gentil amazona.

A caminho, porém, conheceu Ricardo que embora Guida se mostrasse tão destra, como era elegante cavaleira, todavia o seu pulso delicado, que cerrava o canhão da luva de camurça amarela como a corola de um jacinto a desabrochar, teria o vigor necessário para domar as impetuosidades do generoso corcel?

E o Galgo nessa manhã estava nem de propósito em um de seus momentos de fogo. A presença dos outros animais excitava-lhe os brios generosos; e o ar puro da manhã, que ele hauria às golfadas para lançar das narinas em fumo ardente, parecia repassá-lo da ligeireza e mobilidade do vento.

Ricardo, sabedor das travessuras e floretas com que nessas ocasiões costumava o Galgo divertir-se, e lembrando-se de quanta firmeza de rédea e agilidade carecia para evitar que estes folguedos se transformassem em revoltas sérias e cóleras indomáveis, Ricardo estava em constante sobressalto e arrependido de haver consentido na troca.

Acompanhando a garbosa inflexão da mão esquerda de Guida, a cada instante passava-lhe prudentes avisos sobre o manejo do animal, advertindo-a dos sestros e modo de os corrigir ou abrandar. Guida ouvia-o com indiferença, quase distraída, e apesar de sua afabilidade com o advogado, bem se conhecia que essa solicitude beliscava lhe o amor-próprio; pois a moça tinha presunção de ser perfeita cavaleira.

Não escapava a Ricardo essa contrariedade; mas, ainda com risco de desagradar, não poupava as observações, toda a vez que as julgava necessárias, embora por último já procurasse um disfarce para as dissimular.

Se tirava os olhos do Galgo e da elegante amazona, era para relanceá-los ao lado oposto, onde Fábio brincava com D. Guilhermina. Já no domingo anterior notara a assiduidade do amigo junto à mulher do conselheiro; mas supôs que não passava de um galanteio sem consequência.

O noivo de sua irmã, bem o sabia o advogado, era dos tais de coração andejo e buliçoso, que não podem ficar quietos, como crianças que são; mas estão sempre a bisbilhotar quanta boneca lhes cai no goto. E o pior é impedi-los de traquinar, pois são capazes então de estripulias diabólicas.

Na manhã do passeio, contudo, entendia Ricardo que o galanteio já ia entrando demais pelo recato de uma senhora casada.

Fábio não só tinha servido de escudeiro a D. Guilhermina para suspendê-la do banco, meter-lhe no estribo o pé elegante, e arranjar-lhe as dobras da saia de montaria, como continuara pelo caminho a exercer o mesmo agradável mister.

Era ele quem levava o chapeuzinho de sol, o lenço, as flores, o leque e até o chicotinho de madrepérola da senhora, que lhe confiara de boa vontade todos esses objetos, não só pela comodidade de os trazer à mão em um cabide ambulante, como para dar ao moço o prazer de os guardar.

Se precisava do lenço para enxugar os lábios úmidos do sorriso, como um lilás ressumando orvalhos; se tinha fome, como o colibri dos perfumes de seu ramo de violetas; se os dedos cativos na luva de pelica bronzeada sentiam ímpetos de se agitarem, como os passarinhos de voar, e queriam divertir-se a cortar os talos das folhas com a vergasta do chicotinho, Fábio prontamente lhe passava o objeto desejado, e nessa troca, repetida de instante a instante, as mãos se tocavam uma e muitas vezes no meio dos risos causados pelos desencontros.

Quando o sol montando as assomadas fronteiras começou a castigar o caminho, Fábio apressou-se em abrir o chapelinho de sol para resguardar o rosto da formosa senhora, que de bom grado prestou-se a essa fineza oriental como uma sultana a receberia de seu escravo.

Assim, tendo necessidade de conchegar o animal para melhor interceptar o sol, sentia Fábio roçar-lhe pelo braço a linda espádua, cujo tépido conchego o trespassava. Nestas ocasiões um ligeiro rubor repontava na face aveludada da moça; mas desfolhava-se logo em um riso desdenhoso, como uma rosa a que a chuva arranca as pétalas.

Esse jogo mútuo de ademanes e brincos, Ricardo o considerava não mais simples amabilidade, porém namoro formal e já escandaloso para uma senhora casada.

Nisso mostrava Ricardo o seu atraso nas regras da boa sociedade. Ainda estava pelo antigo rojão, quando se reparava em tais bagatelas, e fazia-se mau juízo da senhora que desse a qualquer moço, ainda mesmo um íntimo, tanta liberdade.

Atualmente é a moda: a moça solteira ou casada, que não tiver essas maneiras distintas, certamente não passa por elegante.

Outra circunstância muito incomodava a Ricardo: era a facilidade com que Fábio insinuava-se nessa sociedade, onde ambos se deviam considerar apenas como hóspedes de arribação, prontos a deixá-la ao cabo de algumas horas. Ao contrário, o amigo já começava a desfrutar os favores com tal desembaraço, que pouco faltava para entrar no rol dos íntimos, espécie de parasitas da pior casta, porque não só devoram os jantares e ceias, estragam os cavalos, carruagens e móveis, mas babujam a reputação, quando não a honra.

Eis os motivos que traziam tão preocupado o jovem advogado durante o passeio.

Outra pessoa porém perseguia a Fábio com olhares furibundos; era o Benício, que por vezes tentara aproximar-se, mas tivera de ceder à baia, rebelde ao freio, e mais teimosa que ele.

Estaria o Benício também apaixonado por D. Guilhermina?

E por que não? Apesar das compridas pernas, do longo talhe em abóbada, e da cabeça a três quinas, pode um homem ter o coração sensível.

Sonhos d'Ouro

Sinopse

Leia Sonhos d'Ouro, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance urbano clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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