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A Elegia Silenciosa

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A Elegia Silenciosa

Capítulo 1 · A Elegia Silenciosa

Prólogo

Dia 18 de março de 1914.

Bridget Murphy.

O balançar ligeiro das ondas batendo no casco do navio denuncia a tempestade que assombrou nossa última noite nesse lugar. É um movimento violento, que anteriormente já me causou ânsias de vômitos, depois foi meu companheiro nas noites de insônia. 

Atualmente, causa-me arrepios. 

Apenas arrepios.

Ah… Ainda estava tão estupefata com tudo que presenciei nas últimas horas, que mal conseguia ficar em pé. Agarro-me no parapeito do barco para não desfalecer ali mesmo.

Neste momento, sinto uma mão quente apoiar-se como uma pluma em meu ombro. Viro para trás, e meu olhar encontra-se com aquele verde-acastanhado calmo do dela.

Alzira.

Grafin von Lichtenwald.

Grafin é como se fosse uma condessa na nobreza austríaca. Alzira é a primeira brasileira, mulata, a entrar para corte austríaca — naquele mar de “fantasmas” caucasianos loiros de olhos azuis. Ela casou-se com um tal Leonhard von Lichtenwald, um senhor de uns 58 anos, já viúvo com três filhas — crescidas e casadas. Este provavelmente não aguentou a emoção do casamento novo, pois infartou logo após os primeiros dias de casamento…

Viúva, rica e recém chegada num lugar que não lhe pertencia de nascença, Alzira decidiu que era hora de voltar às raízes. Depois de dez anos perambulando pela Europa, ela decidiu retornar à pátria amada.

E estava aqui, comigo.

— Não te preocupes, querida, vai ficar tudo bem — tranquilizou-me Alz (como gostava que eu a chamasse). — Não vou lhe deixar faltar nada, vai ficar na minha casa no Rio de Janeiro.

— Obrigada, Alz — disse, sorrindo, segurando as lágrimas que insistiam em cair. Duras e frias — como o vento Norte que soprava naquela hora da manhã. 

Alzira secou-as delicadamente com o dorso da mão, acariciando minha bochecha pálida, quase fantasmagórica, contrastando com o seu tom de pele amarronzado.

— My ladies — chamou Charles Beaumount, o primeiro oficial, de dentro da cabine do capitão. Ele era alto e pomposo, porém, àquela altura, tinha vestes rasgadas e tinha perdido toda finez. Era barrigudo, e tinha um bigode espesso, que  agora contrastava com a careca brilhante exposta sem o seu típico chapéu — provavelmente perdido no meio da confusão.  

Elas entraram no recinto, surpreendendo-se ao deparar-se com Matteo Bianchi, de 12 anos, sentado no painel, comendo brioches como se nunca tivesse visto comida na vida.

Talvez nunca tivesse visto brioches na vida… 

Matteo era um menino esperto. Filho de imigrantes italianos que pretendiam tentar a sorte no Brasil. Seus pais e seus irmãos, infelizmente, nunca chegariam a pôr os pés na Terra Prometida. Era um menino magro, contudo forte. Tinha o típico bronzeado italiano, embora ainda fosse caucasiano. Os cabelos negros encaracolados contrastavam com os olhos muito azuis, que estudavam cuidadosamente a mulher ao meu lado, Alzira.

Muito desconfiado.

— Em algumas horas, atracaremos no porto de Recife, eles vão querer saber o que aconteceu aqui. Precisamos de uma versão única para os fatos. 

— Mas, afinal, o que aconteceu aqui? — questionei, e nós quatro trocamos olhares silenciosos e pesados.

A verdade, mais afiada que uma navalhada, é que nenhum de nós sabia ao certo o que tinha acontecido naquele navio. Ou como. Nem por quê.

Só sabíamos que, de toda tripulação e passageiros, restaram apenas nós quatro para contar essa história.

A Elegia Silenciosa

Sinopse

Em 1914, a bordo de um navio que cruza o Atlântico rumo ao Brasil, Bridge Murphy segue como dama de companhia de Madame Kingsley, uma viúva riquíssima e respeitada. Discreta e observadora, Bridge acredita que a travessia será apenas mais um intervalo silencioso em sua vida — até a primeira noite em alto-mar. O desaparecimento de duas crianças da terceira classe rompe a falsa tranquilidade da viagem. Não há pistas, apenas uma testemunha hesitante: Matteo Bianchi, um jovem cuja palavra parece frágil diante da hierarquia do navio. O caso é rapidamente abafado, tratado como um infortúnio entre os invisíveis. Mas quando uma morte atinge a primeira classe, o silêncio se torna impossível. A investigação passa a ser conduzida por Alzira, Grafin von Lichtenwald — uma mulher moderna, audaciosa e avessa às convenções que regem aquele microcosmo flutuante. À medida que Bridge, Matteo e Alzira se aproximam da verdade, novos desaparecimentos se sucedem, e o navio mergulha numa atmosfera de medo, suspeita e clausura. Envoltos por uma névoa persistente e por temporais que parecem não ter fim, os passageiros se veem isolados do mundo, cegos não apenas pelo clima, mas por segredos, culpas e conveniências. Em meio à instabilidade do mar e das relações humanas, a travessia revela que há horrores capazes de sobreviver mesmo longe da terra firme.

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