Universo da obra
Universo da obra
Relâmpagos riscavam a mata antes que os trovões alcançassem os combatentes. À luz breve de cada clarão, Salvitares e Coraces surgiam espalhados entre raízes, lama e lâminas.
Móretar já não acompanhava o restante da batalha. Havia apenas a espada longa que descia sobre ele e o peso de Hantake por trás dela.
Cruzou as duas lâminas curtas. O impacto atravessou seus braços, curvou suas pernas e o fez recuar até a sola encontrar novamente a lama. Antes que o general recuperasse a espada, Móretar avançou por baixo do alcance da arma. Hantake precisou girar o corpo para não receber o corte no ventre.
Foi assim que os dois chegaram à clareira: um obrigando o outro a ceder terreno, nenhum deles admitindo que também estava sendo conduzido.
A chuva, que se tornara mais forte durante o combate, enfraqueceu quando deixaram as copas das árvores. A lua apareceu entre as nuvens e iluminou a cabeça calva do homem maior. Quem ainda tinha dúvida reconheceu o General Hantake, comandante do exército Corace.
Os confrontos próximos diminuíram. Salvitares e Coraces começaram a abrir espaço ao redor da clareira, atraídos pelo choque das armas. Hantake era largo, alto, feito para parecer ainda maior com uma espada nas mãos. Móretar, pequeno e franzino, tinha os cabelos compridos grudados no rosto e nos ombros. As duas lâminas curtas quase desapareciam quando ele mudava de direção.
Hantake havia comandado o ataque que destruíra sua família. Móretar carregara aquele nome durante anos, às vezes como motivo para continuar, às vezes como algo que não o deixava dormir. Encontrá-lo no campo não produziu a satisfação que imaginara. Deu apenas um rosto àquilo que já odiava.
O general avançou. Móretar desviou do primeiro corte, aparou o segundo e saltou para escapar do terceiro. A ponta da espada longa passou abaixo de seus pés e arrancou grama e lama. Ele caiu de lado, girou sobre um joelho e tentou atingir a perna de Hantake. O gigante recuou a tempo.
Entre dois trovões, Móretar ouviu água correndo sob a chuva.
Não procurou o riacho. Continuou lutando, mas guardou a direção do som.
Hantake mudou a empunhadura. O ataque seguinte veio com as duas mãos e todo o peso do corpo. Móretar cruzou as espadas para defender-se. As lâminas resistiram; seus braços, quase não. Ele foi arremessado para trás, bateu no chão e deslizou até uma pedra baixa.
O gosto de sangue se espalhou por sua boca. Ao erguer os olhos, viu Hantake afastar a espada e começar uma sequência de movimentos com as mãos.
Móretar conhecia aquela técnica. Os dois eram fadas de grau três, embora tivessem aprendido a usar o poder de maneiras diferentes. O feitiço Corace exigia concentração e alguns instantes sem interrupção. Se Hantake o concluísse, poderia imobilizar todos que estivessem no caminho.
Apoiando uma das mãos no chão e a outra espada na pedra, Móretar recuperou o equilíbrio e saltou. Tentou romper a sequência antes que o feitiço tomasse forma. Hantake manteve as mãos em movimento e o recebeu com um chute no peito.
Móretar caiu outra vez.
Alguns Coraces riram. Entre os Salvitares, dois guerreiros avançaram um passo, mas pararam ao perceber que uma intervenção poderia levá-los para dentro do alcance do feitiço. Hantake continuou a conjuração, satisfeito com a atenção que agora recebia.
Móretar se levantou e correu.
A risada do general atravessou a clareira. Hantake partiu atrás dele, ainda movimentando as mãos. Os Coraces acompanharam seu comandante. Os Salvitares reagiram tarde, divididos entre proteger Móretar e defender-se dos inimigos que voltavam a atacá-los durante a perseguição.
Móretar entrou novamente sob as árvores. Não precisava olhar para saber que Hantake o alcançaria se mantivesse aquele ritmo. Usou uma raiz como impulso, desviou de duas pedras e seguiu o som da água. O riacho apareceu entre a vegetação, estreito e veloz, passando sob uma plataforma de madeira e pedra quase coberta pela grama.
Ele atravessou a plataforma e parou do outro lado.
Hantake surgiu poucos instantes depois. Atrás dele vinham os Coraces que haviam conseguido acompanhar a corrida. Os Salvitares ainda estavam distantes, presos ao combate e à lama.
O general completou o último movimento. A energia acumulada entre suas mãos clareou o rosto dos soldados ao redor.
— Não havia para onde fugir — disse Hantake.
Móretar respirou com dificuldade. Sentia o peito ferido pelo chute e os braços pesados pelo golpe que recebera. Abaixo de seus pés, porém, a água continuava correndo.
— Eu sei.
Hantake lançou o feitiço.
Móretar ergueu as mãos no mesmo instante. A água rompeu as laterais da plataforma e subiu diante dele em superfícies curvas, finas, mantidas no ar por sua força. O feitiço de imobilização atingiu a primeira delas, desviou-se para a segunda e se dividiu. Cada nova superfície devolveu outra parcela da energia na direção de onde ela viera.
Hantake ainda tentou interromper o ataque, mas já não controlava o que havia lançado. O próprio feitiço o alcançou e seguiu para os Coraces atrás dele. Braços pararam no meio de golpes. Pernas ficaram presas durante a corrida. Um silêncio repentino ocupou o lugar onde havia gritos e provocações.
A água desabou de volta no riacho.
O general permaneceu de pé, imóvel, com os olhos abertos diante de Móretar. Pela primeira vez, pareceu menor do que a fama que carregava.
Os Salvitares chegaram à plataforma aos poucos. Alguns estavam feridos; outros olhavam para os inimigos paralisados sem compreender como a derrota havia mudado de lado.
Móretar recuperou uma das espadas e a levantou.
— Salvitares! Agora!
Seus companheiros avançaram. Os Coraces que ainda combatiam foram cercados, e os que haviam sido atingidos pelo feitiço não tiveram como reagir. Hantake caiu junto com o próprio exército.
Os Salvitares tinham entrado naquela batalha preparados para serem dizimados com honra. Saíam dela vivos porque o menor guerreiro entre os dois exércitos ouvira um riacho enquanto todos os outros olhavam para uma espada.
E se a morte não fosse o fim… mas apenas o próximo capítulo? Em um universo onde consciências atravessam planetas e vidas se reinventam em novos mundos, Móretar carrega o estigma de nascer diferente. Num planeta não natural, entre fadas divididas por crenças, gigantes marcados por guerras e reinos que disputam poder, ele cresce como alguém que não pertence completamente a lugar algum. Mas talvez seja justamente isso que o torne essencial. Dotado de habilidades raras e de uma sensibilidade incomum em meio a guerreiros, Móretar precisará enfrentar conspirações, batalhas e escolhas que colocam não apenas sua existência em risco, mas o destino de civilizações inteiras. Entre viagens interplanetárias, alianças improváveis e amores intensos, ele descobrirá que o verdadeiro poder não está na força bruta, mas na capacidade de permanecer inteiro quando tudo ao redor exige que você se quebre. Em um universo em constante movimento, onde cada fim pode ser apenas um novo começo, Móretar terá que decidir quem deseja ser… antes que seja tarde demais.
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