Parte 1
Relâmpagos riscavam a mata antes que os trovões alcançassem os combatentes. À luz breve de cada clarão, Salvitares e Coraces surgiam espalhados entre raízes, lama e lâminas.
Móretar já não acompanhava o restante da batalha. Havia apenas a espada longa que descia sobre ele e o peso de Hantake por trás dela.
Cruzou as duas lâminas curtas. O impacto atravessou seus braços, curvou suas pernas e o fez recuar até a sola encontrar novamente a lama. Antes que o general recuperasse a espada, Móretar avançou por baixo do alcance da arma. Hantake precisou girar o corpo para não receber o corte no ventre.
Foi assim que os dois chegaram à clareira: um obrigando o outro a ceder terreno, nenhum deles admitindo que também estava sendo conduzido.
A chuva, que se tornara mais forte durante o combate, enfraqueceu quando deixaram as copas das árvores. A lua apareceu entre as nuvens e iluminou a cabeça calva do homem maior. Quem ainda tinha dúvida reconheceu o General Hantake, comandante do exército Corace.
Os confrontos próximos diminuíram. Salvitares e Coraces começaram a abrir espaço ao redor da clareira, atraídos pelo choque das armas. Hantake era largo, alto, feito para parecer ainda maior com uma espada nas mãos. Móretar, pequeno e franzino, tinha os cabelos compridos grudados no rosto e nos ombros. As duas lâminas curtas quase desapareciam quando ele mudava de direção.
Hantake havia comandado o ataque que destruíra sua família. Móretar carregara aquele nome durante anos, às vezes como motivo para continuar, às vezes como algo que não o deixava dormir. Encontrá-lo no campo não produziu a satisfação que imaginara. Deu apenas um rosto àquilo que já odiava.
O general avançou. Móretar desviou do primeiro corte, aparou o segundo e saltou para escapar do terceiro. A ponta da espada longa passou abaixo de seus pés e arrancou grama e lama. Ele caiu de lado, girou sobre um joelho e tentou atingir a perna de Hantake. O gigante recuou a tempo.
Entre dois trovões, Móretar ouviu água correndo sob a chuva.
Não procurou o riacho. Continuou lutando, mas guardou a direção do som.
Hantake mudou a empunhadura. O ataque seguinte veio com as duas mãos e todo o peso do corpo. Móretar cruzou as espadas para defender-se. As lâminas resistiram; seus braços, quase não. Ele foi arremessado para trás, bateu no chão e deslizou até uma pedra baixa.
O gosto de sangue se espalhou por sua boca. Ao erguer os olhos, viu Hantake afastar a espada e começar uma sequência de movimentos com as mãos.
Móretar conhecia aquela técnica. Os dois eram fadas de grau três, embora tivessem aprendido a usar o poder de maneiras diferentes. O feitiço Corace exigia concentração e alguns instantes sem interrupção. Se Hantake o concluísse, poderia imobilizar todos que estivessem no caminho.
Apoiando uma das mãos no chão e a outra espada na pedra, Móretar recuperou o equilíbrio e saltou. Tentou romper a sequência antes que o feitiço tomasse forma. Hantake manteve as mãos em movimento e o recebeu com um chute no peito.
Móretar caiu outra vez.
Alguns Coraces riram. Entre os Salvitares, dois guerreiros avançaram um passo, mas pararam ao perceber que uma intervenção poderia levá-los para dentro do alcance do feitiço. Hantake continuou a conjuração, satisfeito com a atenção que agora recebia.
Móretar se levantou e correu.
A risada do general atravessou a clareira. Hantake partiu atrás dele, ainda movimentando as mãos. Os Coraces acompanharam seu comandante. Os Salvitares reagiram tarde, divididos entre proteger Móretar e defender-se dos inimigos que voltavam a atacá-los durante a perseguição.
Móretar entrou novamente sob as árvores. Não precisava olhar para saber que Hantake o alcançaria se mantivesse aquele ritmo. Usou uma raiz como impulso, desviou de duas pedras e seguiu o som da água. O riacho apareceu entre a vegetação, estreito e veloz, passando sob uma plataforma de madeira e pedra quase coberta pela grama.
Ele atravessou a plataforma e parou do outro lado.
Hantake surgiu poucos instantes depois. Atrás dele vinham os Coraces que haviam conseguido acompanhar a corrida. Os Salvitares ainda estavam distantes, presos ao combate e à lama.
O general completou o último movimento. A energia acumulada entre suas mãos clareou o rosto dos soldados ao redor.
— Não havia para onde fugir — disse Hantake.
Móretar respirou com dificuldade. Sentia o peito ferido pelo chute e os braços pesados pelo golpe que recebera. Abaixo de seus pés, porém, a água continuava correndo.
— Eu sei.
Hantake lançou o feitiço.
Móretar ergueu as mãos no mesmo instante. A água rompeu as laterais da plataforma e subiu diante dele em superfícies curvas, finas, mantidas no ar por sua força. O feitiço de imobilização atingiu a primeira delas, desviou-se para a segunda e se dividiu. Cada nova superfície devolveu outra parcela da energia na direção de onde ela viera.
Hantake ainda tentou interromper o ataque, mas já não controlava o que havia lançado. O próprio feitiço o alcançou e seguiu para os Coraces atrás dele. Braços pararam no meio de golpes. Pernas ficaram presas durante a corrida. Um silêncio repentino ocupou o lugar onde havia gritos e provocações.
A água desabou de volta no riacho.
O general permaneceu de pé, imóvel, com os olhos abertos diante de Móretar. Pela primeira vez, pareceu menor do que a fama que carregava.
Os Salvitares chegaram à plataforma aos poucos. Alguns estavam feridos; outros olhavam para os inimigos paralisados sem compreender como a derrota havia mudado de lado.
Móretar recuperou uma das espadas e a levantou.
— Salvitares! Agora!
Seus companheiros avançaram. Os Coraces que ainda combatiam foram cercados, e os que haviam sido atingidos pelo feitiço não tiveram como reagir. Hantake caiu junto com o próprio exército.
Os Salvitares tinham entrado naquela batalha preparados para serem dizimados com honra. Saíam dela vivos porque o menor guerreiro entre os dois exércitos ouvira um riacho enquanto todos os outros olhavam para uma espada.