Parte 12
Athos pediu que Móretar tentasse acessar as lembranças do tiranossauro. Ele fechou os olhos e procurou alguma imagem, cheiro ou sensação que não lhe pertencesse. Encontrou apenas uma força inquieta, pronta para assumir seus músculos.
Escamas surgiram em seu antebraço.
— Consigo sentir o animal, mas não vejo o que ele viveu.
— E ainda não controla quando a transformação começa — disse Athos.
Móretar fez as escamas recuarem. O esforço exigiu mais concentração do que desejava admitir.
Athos percorreu os casulos com os olhos.
— Não sabemos quem trouxe essas criaturas, há quanto tempo estão aqui ou por que você se uniu a uma delas. Voltaremos quando eu puder examinar o lugar sem colocar os outros casulos em risco.
O Brasel continuava perto de Dafa. Athos abriu o portal para a superfície de Vésper, e a pequena criatura os acompanhou.
O corpo de Móretar ainda estava no jardim.
O sangue havia escurecido a terra perto da lagoa. Krakor permanecera ali, vigiando-o. Móretar parou a alguns passos e encarou o próprio rosto sem vida.
Dafa se colocou ao lado dele.
— Você vai olhar para o que deixou.
Móretar não respondeu.
Athos poderia retirar o corpo com um movimento, mas permitiu que Móretar o carregasse. Abriram uma sepultura junto a uma árvore jovem. Dafa ajudou a cobri-la. O Brasel ficou perto dela, com as asas recolhidas.
Quando terminaram, Móretar lavou as mãos na lagoa. A água levou os últimos vestígios de terra.
— Você sabia onde meu pai estava.
Krakor desviou os olhos para a sepultura.
— Hagar abriu o caminho quando o encontrei. Eu o deixei ferido, aos cuidados de alguém que podia salvá-lo. Sem Hagar, não sei retornar àquele mundo.
— Então encontre outra forma.
— Encontrarei.
Dafa se afastou com Krakor para conhecer as áreas em formação. Queria aprender a criar solo fértil, vegetação e estruturas capazes de receber os povos resgatados. O Brasel seguiu atrás dela por escolha própria.
Móretar chamou Athos antes que ele abrisse outro portal.
— Envie-me em uma missão.
Athos olhou para a sepultura recente.
— Você acabou de voltar de uma decisão que quase não compreendemos.
— Justamente por isso. Não quero ficar em Vésper esperando enquanto todos fazem alguma coisa.
— As tarefas que tenho pela frente são perigosas até para mim.
— Tenho uma sugestão — disse Krakor.
Dafa lançou um olhar de reprovação. Krakor havia acompanhado o pensamento de Móretar antes que ele falasse.
— Ele pode entrar em Atlas e descobrir o que Poseidon está preparando.
— É o território de Poseidon — respondeu Athos. — Zeon também pode estar lá. Móretar seria reconhecido antes de chegar perto de qualquer informação.
— E se eu mudar de aparência?
Móretar concentrou a força da simbiose. Escamas cobriram seu rosto, engrossaram o pescoço e alteraram o contorno dos olhos. Dafa se aproximou para examiná-lo.
— Nem Clarm reconheceria você assim.
— A transformação pode falhar quando ele perder o controle — advertiu Athos.
— É uma missão de observação — disse Krakor. — Ele precisa entrar, localizar Poseidon e descobrir se Zeon está com ele. Você saberá onde resgatá-lo.
Dafa se aproximou de Móretar.
— Acho uma ideia péssima. Você acabou de morrer e ainda quase me devorou.
— Eu preciso fazer isso.
— Se for, volte.
Uma mulher surgiu entre as árvores.
— Posso ir com ele.
Krakor se virou de imediato.
— Médera, acabei de encontrar você.
— E eu acabei de encontrar uma maneira de ajudar.
Dafa cruzou os braços.
— A paixão dele pode ser enviada ao planeta mais perigoso disponível, e a sua precisa ficar protegida?
Então reconheceu a mulher. O rosto de Médera estava entre as lembranças compartilhadas pelo grupo de Éden e nas histórias sobre a mãe de Adwig.
— Desculpe — disse Dafa. — Falei antes de perceber quem você era.
— Você continua certa — respondeu Médera.
Ela passou a mão diante do rosto. Os cabelos embranqueceram, rugas apareceram e seu corpo perdeu altura. Segundos depois, retomou a aparência anterior.
— Conheço Atlas e consigo esconder quem sou. Posso proteger Móretar se algo der errado.
— Poseidon já destruiu você uma vez — lembrou Krakor.
— Eu ainda não possuía a força que tenho hoje. Também conheço os caminhos que ele espera que eu evite.
Athos observou os dois candidatos. Móretar podia alterar a aparência e sentir energias que passariam despercebidas a Médera. Ela conhecia o planeta, sabia se camuflar e tinha força suficiente para retirar os dois de um confronto comum.
— Vocês terão quarenta e oito horas do tempo de Atlas — decidiu. — Localizem Poseidon, confirmem se Zeon está lá e descubram o que puderem sobre as defesas. Voltem ao ponto de chegada no prazo. Se não estiverem lá, eu os buscarei.
— Sem atacar Poseidon? — perguntou Médera.
— Sem atacar ninguém.
Dafa abraçou Móretar e o beijou.
— Quarenta e oito horas.
— Eu volto.
Krakor tocou o rosto de Médera. Ela beijou a testa dele e encostou os lábios nos seus. Os dois mantiveram as mãos unidas até Athos abrir o portal.
Móretar e Médera atravessaram com ele.
Uma massa de água os atingiu assim que chegaram a Atlas. Médera criou uma bolha de ar ao redor dos três. A corrente os empurrou por dezenas de metros, perdeu força e recuou com a mesma rapidez.
Athos esperou que pisassem em terra firme.
— Estarei aqui quando o prazo terminar.
Ele partiu.
Móretar examinou o planeta. O céu variava entre verde e roxo. A terra era azul, o mar tinha um vermelho profundo e as árvores lembravam fios rosados emaranhados junto à praia.
Médera respirou fundo. Seu rosto se tornou rígido.
— Foi meu lar antes de se tornar meu inferno.
Ela manteve os olhos no horizonte. Móretar seguiu seu olhar e viu a linha do mar subir.
Esfregou os olhos. A água continuava se elevando.
— Isso acontece a cada poucos minutos — explicou Médera. — É uma das rotas para a cidade. Respire fundo.
— Essa é a rota?
— A mais discreta.
O mar se ergueu sob os pés deles. Médera envolveu os dois em outra camada de ar, e a corrente os puxou em direção ao interior do planeta.
Móretar mal conseguia enxergar dentro da água vermelha. Enquanto ganhavam velocidade, pensou na sepultura em Vésper, nas quarenta e oito horas e em quantas vezes ainda escolheria o caminho mais perigoso antes de aprender alguma coisa.