Parte 12 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 12 de 49
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Parte 12

Athos pediu que Móretar tentasse acessar as lembranças do tiranossauro. Ele fechou os olhos e procurou alguma imagem, cheiro ou sensação que não lhe pertencesse. Encontrou apenas uma força inquieta, pronta para assumir seus músculos.

Escamas surgiram em seu antebraço.

— Consigo sentir o animal, mas não vejo o que ele viveu.

— E ainda não controla quando a transformação começa — disse Athos.

Móretar fez as escamas recuarem. O esforço exigiu mais concentração do que desejava admitir.

Athos percorreu os casulos com os olhos.

— Não sabemos quem trouxe essas criaturas, há quanto tempo estão aqui ou por que você se uniu a uma delas. Voltaremos quando eu puder examinar o lugar sem colocar os outros casulos em risco.

O Brasel continuava perto de Dafa. Athos abriu o portal para a superfície de Vésper, e a pequena criatura os acompanhou.

O corpo de Móretar ainda estava no jardim.

O sangue havia escurecido a terra perto da lagoa. Krakor permanecera ali, vigiando-o. Móretar parou a alguns passos e encarou o próprio rosto sem vida.

Dafa se colocou ao lado dele.

— Você vai olhar para o que deixou.

Móretar não respondeu.

Athos poderia retirar o corpo com um movimento, mas permitiu que Móretar o carregasse. Abriram uma sepultura junto a uma árvore jovem. Dafa ajudou a cobri-la. O Brasel ficou perto dela, com as asas recolhidas.

Quando terminaram, Móretar lavou as mãos na lagoa. A água levou os últimos vestígios de terra.

— Você sabia onde meu pai estava.

Krakor desviou os olhos para a sepultura.

— Hagar abriu o caminho quando o encontrei. Eu o deixei ferido, aos cuidados de alguém que podia salvá-lo. Sem Hagar, não sei retornar àquele mundo.

— Então encontre outra forma.

— Encontrarei.

Dafa se afastou com Krakor para conhecer as áreas em formação. Queria aprender a criar solo fértil, vegetação e estruturas capazes de receber os povos resgatados. O Brasel seguiu atrás dela por escolha própria.

Móretar chamou Athos antes que ele abrisse outro portal.

— Envie-me em uma missão.

Athos olhou para a sepultura recente.

— Você acabou de voltar de uma decisão que quase não compreendemos.

— Justamente por isso. Não quero ficar em Vésper esperando enquanto todos fazem alguma coisa.

— As tarefas que tenho pela frente são perigosas até para mim.

— Tenho uma sugestão — disse Krakor.

Dafa lançou um olhar de reprovação. Krakor havia acompanhado o pensamento de Móretar antes que ele falasse.

— Ele pode entrar em Atlas e descobrir o que Poseidon está preparando.

— É o território de Poseidon — respondeu Athos. — Zeon também pode estar lá. Móretar seria reconhecido antes de chegar perto de qualquer informação.

— E se eu mudar de aparência?

Móretar concentrou a força da simbiose. Escamas cobriram seu rosto, engrossaram o pescoço e alteraram o contorno dos olhos. Dafa se aproximou para examiná-lo.

— Nem Clarm reconheceria você assim.

— A transformação pode falhar quando ele perder o controle — advertiu Athos.

— É uma missão de observação — disse Krakor. — Ele precisa entrar, localizar Poseidon e descobrir se Zeon está com ele. Você saberá onde resgatá-lo.

Dafa se aproximou de Móretar.

— Acho uma ideia péssima. Você acabou de morrer e ainda quase me devorou.

— Eu preciso fazer isso.

— Se for, volte.

Uma mulher surgiu entre as árvores.

— Posso ir com ele.

Krakor se virou de imediato.

— Médera, acabei de encontrar você.

— E eu acabei de encontrar uma maneira de ajudar.

Dafa cruzou os braços.

— A paixão dele pode ser enviada ao planeta mais perigoso disponível, e a sua precisa ficar protegida?

Então reconheceu a mulher. O rosto de Médera estava entre as lembranças compartilhadas pelo grupo de Éden e nas histórias sobre a mãe de Adwig.

— Desculpe — disse Dafa. — Falei antes de perceber quem você era.

— Você continua certa — respondeu Médera.

Ela passou a mão diante do rosto. Os cabelos embranqueceram, rugas apareceram e seu corpo perdeu altura. Segundos depois, retomou a aparência anterior.

— Conheço Atlas e consigo esconder quem sou. Posso proteger Móretar se algo der errado.

— Poseidon já destruiu você uma vez — lembrou Krakor.

— Eu ainda não possuía a força que tenho hoje. Também conheço os caminhos que ele espera que eu evite.

Athos observou os dois candidatos. Móretar podia alterar a aparência e sentir energias que passariam despercebidas a Médera. Ela conhecia o planeta, sabia se camuflar e tinha força suficiente para retirar os dois de um confronto comum.

— Vocês terão quarenta e oito horas do tempo de Atlas — decidiu. — Localizem Poseidon, confirmem se Zeon está lá e descubram o que puderem sobre as defesas. Voltem ao ponto de chegada no prazo. Se não estiverem lá, eu os buscarei.

— Sem atacar Poseidon? — perguntou Médera.

— Sem atacar ninguém.

Dafa abraçou Móretar e o beijou.

— Quarenta e oito horas.

— Eu volto.

Krakor tocou o rosto de Médera. Ela beijou a testa dele e encostou os lábios nos seus. Os dois mantiveram as mãos unidas até Athos abrir o portal.

Móretar e Médera atravessaram com ele.

Uma massa de água os atingiu assim que chegaram a Atlas. Médera criou uma bolha de ar ao redor dos três. A corrente os empurrou por dezenas de metros, perdeu força e recuou com a mesma rapidez.

Athos esperou que pisassem em terra firme.

— Estarei aqui quando o prazo terminar.

Ele partiu.

Móretar examinou o planeta. O céu variava entre verde e roxo. A terra era azul, o mar tinha um vermelho profundo e as árvores lembravam fios rosados emaranhados junto à praia.

Médera respirou fundo. Seu rosto se tornou rígido.

— Foi meu lar antes de se tornar meu inferno.

Ela manteve os olhos no horizonte. Móretar seguiu seu olhar e viu a linha do mar subir.

Esfregou os olhos. A água continuava se elevando.

— Isso acontece a cada poucos minutos — explicou Médera. — É uma das rotas para a cidade. Respire fundo.

— Essa é a rota?

— A mais discreta.

O mar se ergueu sob os pés deles. Médera envolveu os dois em outra camada de ar, e a corrente os puxou em direção ao interior do planeta.

Móretar mal conseguia enxergar dentro da água vermelha. Enquanto ganhavam velocidade, pensou na sepultura em Vésper, nas quarenta e oito horas e em quantas vezes ainda escolheria o caminho mais perigoso antes de aprender alguma coisa.

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