Parte 9
Móretar despertou amarrado a uma árvore. Reconheceu o cheiro das flores e a umidade da mata antes de abrir os olhos. Estava perto da Cidade das Fadas, região onde nascera e à qual não retornava havia muito tempo.
À primeira vista, estava sozinho. Pontos luminosos se moviam entre as raízes e subiam pelo tronco atrás dele. Móretar tentou reunir energia nas mãos. As luzes se agitaram, e as cordas apertaram seus pulsos.
Quatro fadas mascaradas saíram da vegetação.
— Móretar. Finalmente encontrei você.
Ele reconheceu a voz. A mulher retirou a máscara.
— Clarm?
— Procurei por você durante todo esse tempo.
Móretar tentou se levantar, impedido pelas amarras.
— Então me solte.
— Primeiro preciso entender o que aconteceu. Você se tornou líder dos Salvitares, derrotou os Coraces e impediu novos ataques contra nosso povo. Depois apareceu ao lado da falsa rainha.
— Eu estava ajudando os gigantes.
— Estava servindo à filha do falso criador.
Clarm havia se tornado Fortense.
O povo das fadas havia se dividido ao longo dos séculos. Os Salvitares ocupavam principalmente o oeste e confiavam em alianças de defesa. Os Confes se concentravam ao sul e a leste, ligados por redes de troca e auxílio. No centro, os Fortenses preservavam os templos, os arquivos e o culto às Fadas Essenciais.
Salvitares e Confes haviam abandonado a religião de Krakor. Para os Fortenses, a história do Deus Criador também era uma fraude, inventada por um rei para governar Key. A origem verdadeira estaria nas Fadas Essenciais, divindades de outro plano que receberiam os mortos e jamais poderiam falar diretamente com os vivos.
— Desde quando você fala como uma Fortense? — perguntou Móretar.
As outras fadas reagiram. Uma delas avançou, mas Clarm ergueu a mão.
— As Fadas Essenciais salvaram minha vida. Encontrei o caminho da luz quando já não esperava encontrar você.
— Quem salvou sua vida? Diga o nome.
Clarm apertou a máscara entre os dedos.
— Você pretende me soltar? — insistiu Móretar.
— Ainda não sabemos o que Adwig fez com você. Preciso mantê-lo aqui até termos certeza.
— Eu atravessaria Key para libertar você. Agora vejo que está mais presa do que eu.
Uma das fadas o golpeou no rosto.
— Nossa fé e nossa lealdade estão acima de qualquer família.
Clarm fechou os punhos.
— Coloque a máscara, irmã — ordenou o agressor. — Nossos inimigos não precisam conhecer seus sentimentos.
Ela obedeceu.
Móretar tornou a forçar as amarras. Dessa vez observou os pequenos seres luminosos que corriam pelas fibras. Eram Lumberas. Cada uma cabia entre suas mãos, com asas transparentes e luz pulsando sob a pele. A colônia conduzia a energia do feitiço de uma árvore para outra.
Se rompesse a contenção de uma vez, a descarga atravessaria os corpos delas. Móretar deixou a energia se dissipar.
Os Fortenses passaram horas interrogando-o sobre Adwig, os elfos e os gigantes. Ele parou de responder. Ao anoitecer, reforçaram o círculo ao redor da árvore e deixaram dois guardas.
Móretar já conseguira afrouxar uma das cordas quando ouviu movimento na mata. Os guardas assumiram posição. Dois golpes os derrubaram antes que chamassem ajuda.
Dafa surgiu entre as árvores.
— Sua princesa encantada chegou, meu príncipe indefeso.
— Quer dizer que me tornei seu príncipe?
— Quer dizer que continua precisando ser salvo.
Ela tocou a barreira, pronta para destruí-la.
— Espere. Há Lumberas conduzindo o feitiço.
Dafa acompanhou as linhas de luz pelo tronco.
— Se eu romper isso, elas recebem a descarga.
Móretar assentiu. Dafa criou uma corrente de ar suave entre as raízes. As Lumberas soltaram as fibras uma após a outra e voaram para os galhos mais altos. Sem a colônia, a contenção perdeu estabilidade. Dafa abriu uma passagem e cortou as cordas.
Móretar a beijou antes mesmo de recuperar o equilíbrio.
— Podemos manter essa história de casal enquanto eu achar você interessante — disse Dafa. — Não prometo por quanto tempo.
— Você mesma me ensinou que o tempo é relativo.
Ela sorriu e segurou sua mão.
— Vamos sair daqui.
Móretar não se moveu.
— Minha irmã está aqui.
— Então vamos buscá-la.
— Ela se tornou Fortense. Acredita que as Fadas Essenciais salvaram sua vida.
Dafa olhou para os guardas desacordados.
— Grupos assim aparecem em todos os lugares. Mostre quem é Clarm quando a encontrarmos.
Os rastros seguiam na direção do Templo Flutuante. Móretar explicou que os Krais viviam na parte superior da construção e governavam os Fortenses por meio das leis atribuídas às Fadas Essenciais. Milhares de pessoas podiam ocupar as plataformas ligadas às árvores.
— O templo flutua por feitiço? — perguntou Dafa.
— Em parte. As Lumberas distribuem a energia pelas pontes e sustentam os pontos mais leves. Os Fortenses protegem as árvores onde elas se reproduzem e fornecem uma resina de que se alimentam. O acordo existe há gerações.
— Elas obedecem aos Krais?
— Permanecem enquanto a troca serve à colônia. Uma rainha pode ordenar o que quiser. Sem as Lumberas, muitas rotas da cidade descem para o chão.
O movimento aumentou à medida que se aproximavam. Fadas vindas das três regiões seguiam pelas pontes. Acima delas, grupos de Lumberas formavam arcos de luz que indicavam os acessos ao templo.
Os quatro Krais apareceram na sacada principal: Anenia, Beninia, Cregor e Drakew.
Anenia deu início ao culto. Agradeceu às Fadas Essenciais pela proteção e celebrou o número crescente de seguidores dos regulamentos Fortenses. A cada invocação, luzes percorriam o templo e faziam a estrutura subir alguns centímetros.
Móretar procurava Clarm na multidão quando Dafa voou até a altura da sacada.
— Ajudar o próximo é uma boa regra — disse ela. — Transformar quem a criou em divindade dá a essa pessoa poder demais.
Beninia avançou.
— Quem é você para desafiar os Krais e as Fadas Essenciais?
— Meu nome é Dafa. Se alguma delas quiser responder, estou aqui.
A simbiose cobriu seu corpo. Anenia ordenou o ataque.
Feitiços e dardos subiram de diferentes pontos. Dafa criou um campo ao redor de si, desviando tudo. Cregor lançou uma lâmina de vento. A força ricocheteou na barreira e seguiu em direção às árvores.
Móretar ergueu uma proteção diante de um dos troncos. O impacto o lançou contra a ponte, mas preservou o grupo de Lumberas abrigado na casca.
— Afaste os ataques das árvores! — gritou ele.
Dafa viu as colônias espalhadas pelo templo e mudou a posição do escudo. As descargas seguintes foram lançadas para o espaço aberto acima da construção.
As Lumberas começaram a abandonar as linhas do ritual. Um arco se apagou, depois outro. As pontes perderam altura e desceram até os suportes inferiores. A sacada dos Krais parou pouco acima da multidão.
Anenia exigiu que a colônia retornasse. Nenhuma Lumbera respondeu ao chamado.
— Vocês usam uma aliança entre espécies como prova de que suas deusas existem — disse Móretar. — Acabaram de atacar as criaturas que mantêm seu templo suspenso.
Alguns Fortenses protestaram. Outros olharam para as pontes apagadas.
Os Krais combinaram os poderes e atravessaram a defesa de Dafa. Ela desviou por pouco. Nuvens cobriram o céu, concentradas sobre a clareira distante das árvores. Raios atingiram as pedras ao redor da sacada. Dentro das nuvens, uma massa de fogo cresceu e iluminou a cidade.
Uma barreira de ar reteve os quatro Krais.
— Digam ao povo quem criou a história das Fadas Essenciais — ordenou Dafa.
— Nós morreremos antes de trair nossa fé — respondeu Beninia.
— Eu falo — disse Drakew.
Anenia tentou impedi-lo. Drakew se soltou dela e caminhou até a extremidade da sacada rebaixada.
— As Fadas Essenciais foram criadas há séculos para unir nosso povo. Os primeiros Krais precisavam substituir o culto ao criador que havia abandonado Key. Deram nomes e vontades às forças que julgavam boas. Nós preservamos essa história.
Gritos surgiram na multidão. Alguns exigiam a prisão dos Krais. Outros defendiam que as deusas existiam apesar da mentira. Beninia chamou Drakew de traidor.
— Os nomes podem ter sido inventados — continuou ele. — O dever com a natureza e com os outros povos continua sendo nosso. Peço perdão pelo que escondemos. Não sei o que restará depois de hoje.
Dafa desfez as nuvens e pousou ao lado de Móretar.
— Krakor existe — disse ela. — É poderoso, falho e nunca foi um deus. A filha dele salvou os gigantes do vírus e pretende assumir o governo de Key. Julguem Adwig pelo que ela fizer.
— E nenhuma linhagem herda nossa obediência — acrescentou Móretar.
Ele encontrou Clarm perto de uma das pontes. A irmã retirou a máscara.
— Venha conosco — pediu.
Clarm olhou para os Krais, para os fiéis e para as Lumberas reunidas nas copas.
— Preciso descobrir o que ainda é verdadeiro aqui.
Móretar abriu a boca para insistir. Olhou para as marcas deixadas pelas cordas em seus pulsos e baixou a mão que estendera à irmã.
Os dois deixaram a praça pelo caminho inferior. Atrás deles, os Krais discutiam com representantes Salvitares e Confes. As Lumberas não voltaram às pontes.