Parte 31
Afrodite voltou depois de conversar com Trovar.
— Mudança de planos. Trovar irá com vocês. Eu vou acompanhar André na busca pela irmã dele.
Krakor levou a mão ao peito.
— Vai me abandonar desse jeito? Trocar-me sem qualquer remorso?
— Você se considera insubstituível. Seu ego jamais permitiria outra conclusão. Por isso posso deixá-lo sem culpa. Móretar e Trovar estarão protegidos por alguém incrível, poderoso e, segundo o próprio interessado, irresistível.
Krakor abriu a boca e demorou a encontrar resposta. Afrodite riu.
— Tenho de reconhecer. Foi boa.
Trovar se aproximou. O Ravik veio atrás dele, farejando as marcas deixadas na estrada.
— Afrodite identificou o planeta em que Teleret está. Há outra pessoa ligada ao sangue de vocês no mesmo lugar.
— Meu pai — disse Móretar.
— Bornurar — disse Krakor ao mesmo tempo.
Os dois se entreolharam.
— Precisamos parar de fazer isso — falou Krakor. — Seria muita sorte encontrarmos os dois juntos.
— A experiência ensina que a sorte costuma receber crédito por causas que ainda ignoramos — respondeu Trovar.
— Falou o filósofo. Abra logo o portal.
Krakor se despediu dos outros com um aceno amplo.
— Não façam nada que eu faria. Pensando bem, cuidem-se.
Trovar abriu a passagem. O Ravik aproximou o focinho da borda luminosa, recuou e percorreu o contorno duas vezes.
— Ele não gostou da rota — observou Móretar.
— O destino está distante e alguma coisa interfere na passagem — disse Trovar. — Consigo nos levar até o planeta. O ponto de chegada será menos preciso.
Krakor entrou primeiro.
— Se esperarmos a aprovação de toda criatura desconfiada, nunca sairemos de Fóster.
Móretar atravessou. Trovar veio logo depois. O Ravik hesitou até o último momento e saltou pela abertura.
O chão surgiu sob os pés de Móretar com uma violência inesperada. Ele caiu entre duas barras de metal. Trovar apareceu alguns passos atrás. Krakor rolou sobre pedras escuras.
Um som agudo cortou o ar.
Uma locomotiva avançava pelo trilho.
Krakor agarrou Trovar e Móretar pelos braços e se lançou para o lado. Os três desceram pelo barranco. O Ravik saltou depois deles. O trem passou tão perto que o deslocamento de ar arrancou o chapéu que Trovar acabara de criar para si.
Permaneceram abaixados até o último vagão desaparecer.
— Eu poderia ter destruído aquilo — disse Krakor. — Havia gente dentro. Escolhi salvar vocês.
Trovar examinou o corte no próprio braço.
— Escolheu bem.
— Guarde essa frase. Raramente você admite.
Móretar subiu o barranco. Ao longe, a locomotiva diminuía a velocidade diante de uma estação cercada por construções baixas. O Ravik seguiu pelo leito, parou diante de uma bifurcação e voltou.
Um animal observava o grupo entre arbustos de folhas cinzentas. Tinha o tamanho de um pônei alto, corpo leve, pernas finas e uma cabeça que lembrava ao mesmo tempo um cervo e um cavalo. A crina curta se movia com o vento. As orelhas apontaram para a estação quando o trem apitou outra vez.
— Um Brumel — reconheceu Trovar.
— É perigoso? — perguntou Móretar.
— Para quem pretende ficar parado, talvez.
O Brumel desceu por uma trilha estreita, avançou alguns metros e olhou para trás. O Ravik abandonou o leito da ferrovia e o acompanhou. Quando Móretar tentou seguir diretamente para a estação, as duas criaturas voltaram e bloquearam seu caminho.
Outro trem apareceu na curva.
— Desta vez podemos aceitar a opinião delas — disse Krakor.
A trilha contornava o trecho mais exposto e atravessava um terreno irregular. O Brumel testava cada descida antes de avançar. O Ravik explorava desvios, retornava e tocava o chão com a pata sempre que encontrava uma rota fechada. Trovar observava os dois.
— Meu portal encurtou uma distância entre planetas. Eles estão resolvendo os últimos metros.
— Quer trocar seus poderes pelos deles? — provocou Krakor.
— Hoje, talvez.
Chegaram perto da plataforma quando o primeiro trem parou para o desembarque. Pessoas desciam carregando malas e caixas. As roupas tinham cortes pouco familiares. Os homens usavam calças largas presas abaixo dos joelhos, gibões curtos e chapéus de muitos formatos. As mulheres vestiam saias longas e volumosas, quase sempre abertas por fendas, acompanhadas de tecidos brilhantes no colo e nos braços. Tons escuros predominavam, quebrados por pulseiras, colares e pedras aplicadas às roupas.
Trovar alterou as vestimentas dos três para aproximá-las das roupas locais. Fez Krakor parecer mais sóbrio do que ele jamais parecera por escolha própria.
— Estou elegante.
— Está discreto — corrigiu Trovar.
— É um desperdício.
O Brumel não entrou na estação. Permaneceu junto a uma cerca, inquieto. O Ravik tentou acompanhá-los, mas os viajantes se afastavam quando ele se aproximava. Móretar indicou os arbustos ao lado da plataforma.
— Espere ali. Voltaremos.
O Ravik viu os três atravessarem uma porta lateral. Depois correu até o Brumel e se acomodou perto dele.
Dentro da estação, o fluxo de passageiros conduzia todos às catracas. Guardas examinavam documentos antes de liberar a saída.
— Trovar, crie um para nós — sussurrou Móretar.
— Preciso conhecer o original.
— Observe o de alguém — sugeriu Krakor.
Trovar tentou enxergar por cima do ombro de um passageiro. Dois guardas já vinham na direção deles.
— Senhores, acompanhem-nos.
Um deles segurou o braço de Móretar. O outro cercou Krakor.
— Qual é o problema? — perguntou Trovar.
— Vimos quando entraram pelo lado do trilho. Agora estão examinando os documentos dos viajantes.
— Vou resolver — avisou Krakor, em voz baixa.
— Você vai ficar quieto — respondeu Trovar. — Ainda não sabemos quem procuramos nem onde Teleret está.
O guarda empurrou Krakor.
— Calados.
Krakor virou o rosto para ele. Móretar percebeu a energia se acumulando em sua mão e fechou os dedos sobre o pulso do bisavô.
— Depois — pediu.
Foram levados a uma sala no interior da estação. Havia uma mesa, quatro cadeiras e um homem de costas para a porta. A fumaça de um pequeno cilindro subia diante do rosto dele.
— Sentem-se.
Ninguém obedeceu.
O homem deixou o cilindro num recipiente de metal.
— Vou pedir uma vez. Identifiquem-se.
Ele se virou.
Móretar sentiu o corpo perder a força antes de recuperar o movimento.
— Pai.
— Bornurar — disse Krakor.
Bornurar permaneceu atrás da mesa. Seus olhos passaram por Móretar, voltaram para Krakor e procuraram uma explicação que nenhum dos dois podia oferecer depressa.
— Não pode ser.
Ele contornou a mesa e abraçou o filho. Apertou Móretar contra o peito, afastou-o para examinar seu rosto e tornou a abraçá-lo. Depois segurou Krakor pelos ombros.
— Como chegaram aqui?
— Por pouco, debaixo de um trem — respondeu Krakor.
Bornurar trancou a porta.
— Eu sabia que encontraríamos você — disse Móretar. — Só não esperava que fosse a pessoa responsável por nos prender.
— Sou fiscal de documentos. Os guardas ainda voltarão para saber o que decidi. Preciso de uma história antes disso.
Trovar ergueu a mão.
— Podemos sair por um portal.
— Não posso desaparecer. Tenho esposa, uma casa e dois filhos que dependem de mim.
Móretar recuou um passo.
— Filhos?
— Animais — explicou Bornurar. — Aqui nós os criamos como parte da família. Não sairia sem eles. Nem sem minha esposa.
Krakor estendeu a mão.
— Seu documento.
Bornurar ainda tentava compreender o pedido quando Trovar recebeu o papel.
— Há lugar de renascimento, residência e autorização de trajeto — disse Trovar, examinando os campos.
— De onde vieram os últimos trens? — perguntou Krakor.
— Farville e Noieville.
— Coloque dois de nós em uma cidade e o terceiro na outra. Use locais de renascimento comuns.
Bornurar citou a Floresta dos Passos, as Águas Vermelhas e a Montanha da Tormenta. Trovar reproduziu os selos, as marcas do papel e os sinais de validação. Três documentos surgiram em suas mãos.
Krakor os recolheu.
— Eu seria um criminoso excepcional.
— Você seria preso no primeiro dia sem a minha habilidade — disse Trovar.
— Todo grande líder precisa de especialistas.
Alguém tentou abrir a porta e bateu duas vezes.
Bornurar guardou os documentos e destrancou a sala. Os guardas entraram acompanhados por um homem mais velho.
— Podemos levá-los? — perguntou um deles.
— Os documentos são autênticos — respondeu Bornurar. — Eles chegaram em trens diferentes. Houve um engano.
O superior tomou os papéis de sua mão.
— Os três têm autorização emitida em Monteast. A mesma cidade que autorizou seus trajetos, fiscal.
Bornurar evitou olhar para Krakor.
— Monteast concentra grande parte das emissões. Se houver irregularidade, deve ser investigada lá. Estes documentos continuam válidos.
O homem inseriu o primeiro numa máquina. Uma luz roxa atravessou o papel.
— Passou.
Devolveu os três.
— Estar legalmente na cidade não permite que rondem passageiros. Se eu os encontrar roubando, perderão uma das mãos. Aqui não toleramos bandidos.
— Sou mais baixo que quase todos ao meu redor — disse Móretar. — Estava procurando espaço para caminhar e pedi ajuda aos meus companheiros.
O guarda o examinou.
— Tomem cuidado. Saiam antes do próximo desembarque.
Foram conduzidos até as catracas. Bornurar não conseguiu dizer quando deixaria o trabalho. Trovar tentou alcançá-lo pela mente, mas a quantidade de transmissões que atravessava a estação fragmentava qualquer contato à distância.
Do lado de fora, o Ravik correu ao encontro deles. Farejou o documento que Bornurar segurara e percorreu a calçada até uma passagem lateral. Voltou, repetiu o caminho e parou perto do portão reservado aos funcionários.
— Ele encontrou a rota de Bornurar — disse Trovar.
— Então basta esperar — respondeu Móretar.
O Brumel continuava perto da cerca. Quando a locomotiva apitou, afastou-se do trilho e seguiu para o centro da cidade. Krakor acompanhou com os olhos.
— Quanto tempo seu rastreador pretende nos deixar aqui?
Dois guardas conversavam perto do portão.
— Combinei de encontrar as garotas às trinta e cinco horas — disse um deles.
Krakor olhou para o relógio enorme de uma torre. Os ponteiros marcavam vinte e nove.
— Temos seis horas — anunciou. — O Brumel já escolheu a direção e, pela primeira vez desde que chegamos, conheço exatamente o lugar que devemos procurar.
— Bornurar pediu que esperássemos — lembrou Móretar.
— Esperaremos num bar.
Krakor seguiu para o centro. O Brumel avançava pela rua alguns metros à frente. O Ravik permaneceu dividido entre a trilha de Bornurar e o grupo até Trovar chamá-lo.
— Vamos voltar antes que o rastro esfrie.
O Ravik correu atrás deles.