Parte 10 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 10 de 49
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Parte 10

As rotas elevadas da Terra das Fadas permaneceram apagadas. Sem as Lumberas, algumas pontes repousavam sobre suportes próximos ao chão; outras haviam se tornado inacessíveis. Fortenses, Salvitares e Confes discutiam quem manteria os caminhos abertos e como voltariam a negociar com as colônias.

Dafa e Móretar seguiram por uma trilha entre as árvores.

— Eu queria que dissessem a verdade — falou Dafa. — Não imaginei que a cidade dependesse tanto delas.

— Quase ninguém de fora imagina. Chamam tudo de magia das fadas e ignoram os acordos que a tornam possível.

Um grupo de Lumberas atravessou a mata acima deles. As luzes se separaram perto de uma bifurcação e seguiram para o oeste, longe do templo.

— Elas vão voltar? — perguntou Dafa.

— Se os Fortenses oferecerem segurança outra vez. Talvez prefiram negociar com os Confes ou procurar outras árvores. Os Krais perderam o direito de decidir isso sozinhos.

A trilha os levou a uma pequena cachoeira. O perfume das flores, o calor e o ruído da água afastavam a praça sem conseguir apagar o que acontecera. Dafa olhou para Móretar e pensou em levá-lo para algum lugar onde não houvesse rainhas, deuses nem fim do Universo.

Foi ele quem a puxou para perto da água.

Beijaram-se com a pressa de quem ainda sentia o confronto no corpo. Dafa usou o ar para erguer os dois alguns centímetros e espalhou a queda da cachoeira em gotas mornas. Móretar riu quando perderam o equilíbrio. O desejo voltou misturado ao alívio, e fizeram amor sobre a relva molhada.

Depois saltaram na água. Dafa mergulhou, puxou Móretar pelos pés e reapareceu longe dele. Brincaram até faltar fôlego.

Deitaram-se ao sol, ainda nus.

— Vamos desistir de tudo? — perguntou Dafa. — Construímos uma cabana aqui e ficamos juntos até o fim dos tempos.

— Diante do que aprendi nos últimos dias, parece o melhor plano que já ouvi.

O sorriso de Dafa desapareceu. Ela virou o rosto para encará-lo.

Ela o beijou. Então sentiu uma concentração de energia atravessar a distância entre os planetas. Era o mesmo tipo de sinal que havia ensinado Móretar a produzir.

Dafa se levantou.

— É Nerfate. Está em Finiti, um planeta de nível dois.

— Você consegue chegar até ela?

— Fica a poucas galáxias daqui. Isso é perto entre mundos habitados e inalcançável por uma viagem comum. Precisamos de Athos.

Um portal se abriu diante da cachoeira. Athos atravessou e estendeu a mão para os dois.

— Preciso que venham comigo.

Ele enfim reparou na nudez deles.

— Outra vez?

Dafa cobriu o corpo com a simbiose. Athos jogou as roupas para Móretar.

— Nerfate enviou um sinal — disse ela. — Está em Finiti.

— Contem tudo depois que atravessarmos. O tempo está parado do outro lado.

Entraram no portal.

O deserto de Vésper se estendia sob um céu desconhecido. Athos explicou que encontrara o planeta além das regiões que conhecia e ainda tentava compreender sua origem. Ali, o tempo se relacionava com o restante do Universo de maneira diferente. Quando Athos atravessava para Vésper, os acontecimentos nos outros mundos paravam para ele. Ao sair, Vésper ficava suspenso até seu retorno.

Dafa examinou o horizonte. Durante séculos, os doze de Éden haviam se considerado o grupo mais poderoso do Universo. Athos continuava encontrando lugares, limites e perguntas que eles jamais haviam procurado.

— Nerfate foi exilada por Zeon? — perguntou Athos.

— Foi. O sinal partiu de Finiti.

— Eu pretendia reunir seu grupo e precisaria de uma pista. Você conseguiu antes de mim.

Dafa sorriu com o elogio. Móretar percebeu e começou a vestir a camisa.

Athos enumerou as tarefas que ainda precisava cumprir. Cada travessia entre as regiões do Universo consumia mais energia. Ele havia retirado metade da população de um planeta prestes a ser destruído e voltaria para buscar os demais. Também precisava encontrar o homem indicado pela profecia, impedir a morte que vira no futuro de Adwig e localizar os outros exilados de Éden.

— Já encontrei Krakor — concluiu.

O portal seguinte os levou a outra região de Vésper. No lugar do deserto, havia rios, árvores jovens e extensões de vegetação que ainda cresciam sobre o solo. Krakor trabalhava perto de uma lagoa.

Dafa correu para abraçá-lo.

— Você está bem, seu cretino?

Krakor riu e retribuiu o abraço.

— Pensei em vocês durante todo o tempo em que estive aqui. Quero encontrar meus filhos e Zeon. Athos me convenceu a esperar até termos condições de agir.

— Passei a gostar mais de você depois de conhecer sua filha e seu planeta. Estamos perto demais de ser uma família.

Dafa observou a vegetação.

— Você criou tudo isso?

— Athos me ensinou a combinar processos que permitem o surgimento das primeiras formas de vida. Quando encontrei Key, já havia rios, plantas e organismos microscópicos. Vésper era deserto. Começamos pelo solo, pela água e por vidas simples. O restante cresce a partir dessas condições.

Athos mostrou regiões moldadas a partir de mundos de fogo e de vento. Pretendia receber em Vésper povos ameaçados que aceitassem viver em paz. Juntos, também poderiam formar uma defesa capaz de enfrentar qualquer exército que os encontrasse.

— Ainda temos pouco — disse Athos. — Dafa, você poderia nos ajudar a criar outros ambientes.

Móretar ouviu os três discutirem a construção de um mundo. A sensação de inutilidade voltou, acompanhada por uma dúvida que nenhum deles mencionara.

— O que acontece com quem morre aqui?

Athos interrompeu a conversa.

— Ainda não pensei nisso.

— Você quer reunir povos de níveis diferentes. Alguns corpos vivem séculos; outros podem morrer numa queda. Se alguém morrer em Vésper, para onde seguirá sua partícula essencial? Como poderá renascer enquanto o tempo estiver parado nos outros mundos?

Krakor se aproximou. Athos olhou para o jardim e depois para o portal fechado.

— Pode despertar em um planeta que desconhecemos — continuou Móretar. — Pode ficar preso entre os dois fluxos de tempo. Também existe a possibilidade de não conseguirmos localizá-lo.

— Precisamos descobrir — disse Athos.

— Mate-me e acompanhe meu sinal.

Dafa agarrou o braço de Móretar.

— Você enlouqueceu?

— Se eu despertar em outro lugar, vocês poderão seguir a energia. Se nada acontecer em Vésper, atravessem o portal e esperem do outro lado.

— Está oferecendo a própria vida para testar uma dúvida que teve agora.

— E você tem uma maneira melhor?

Dafa não respondeu.

Athos caminhou até Móretar.

— Primeiro buscarei o restante do povo de Néon. Depois impediremos o que vi acontecer com Adwig. Faremos o teste quando eu puder acompanhar cada etapa.

Móretar assentiu. Dafa soltou seu braço e se afastou até a margem da lagoa.

Athos voltou a conversar com Krakor. A espada permanecia presa às suas costas. Móretar acompanhou o cabo da arma com os olhos.

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