Parte 10
As rotas elevadas da Terra das Fadas permaneceram apagadas. Sem as Lumberas, algumas pontes repousavam sobre suportes próximos ao chão; outras haviam se tornado inacessíveis. Fortenses, Salvitares e Confes discutiam quem manteria os caminhos abertos e como voltariam a negociar com as colônias.
Dafa e Móretar seguiram por uma trilha entre as árvores.
— Eu queria que dissessem a verdade — falou Dafa. — Não imaginei que a cidade dependesse tanto delas.
— Quase ninguém de fora imagina. Chamam tudo de magia das fadas e ignoram os acordos que a tornam possível.
Um grupo de Lumberas atravessou a mata acima deles. As luzes se separaram perto de uma bifurcação e seguiram para o oeste, longe do templo.
— Elas vão voltar? — perguntou Dafa.
— Se os Fortenses oferecerem segurança outra vez. Talvez prefiram negociar com os Confes ou procurar outras árvores. Os Krais perderam o direito de decidir isso sozinhos.
A trilha os levou a uma pequena cachoeira. O perfume das flores, o calor e o ruído da água afastavam a praça sem conseguir apagar o que acontecera. Dafa olhou para Móretar e pensou em levá-lo para algum lugar onde não houvesse rainhas, deuses nem fim do Universo.
Foi ele quem a puxou para perto da água.
Beijaram-se com a pressa de quem ainda sentia o confronto no corpo. Dafa usou o ar para erguer os dois alguns centímetros e espalhou a queda da cachoeira em gotas mornas. Móretar riu quando perderam o equilíbrio. O desejo voltou misturado ao alívio, e fizeram amor sobre a relva molhada.
Depois saltaram na água. Dafa mergulhou, puxou Móretar pelos pés e reapareceu longe dele. Brincaram até faltar fôlego.
Deitaram-se ao sol, ainda nus.
— Vamos desistir de tudo? — perguntou Dafa. — Construímos uma cabana aqui e ficamos juntos até o fim dos tempos.
— Diante do que aprendi nos últimos dias, parece o melhor plano que já ouvi.
O sorriso de Dafa desapareceu. Ela virou o rosto para encará-lo.
Ela o beijou. Então sentiu uma concentração de energia atravessar a distância entre os planetas. Era o mesmo tipo de sinal que havia ensinado Móretar a produzir.
Dafa se levantou.
— É Nerfate. Está em Finiti, um planeta de nível dois.
— Você consegue chegar até ela?
— Fica a poucas galáxias daqui. Isso é perto entre mundos habitados e inalcançável por uma viagem comum. Precisamos de Athos.
Um portal se abriu diante da cachoeira. Athos atravessou e estendeu a mão para os dois.
— Preciso que venham comigo.
Ele enfim reparou na nudez deles.
— Outra vez?
Dafa cobriu o corpo com a simbiose. Athos jogou as roupas para Móretar.
— Nerfate enviou um sinal — disse ela. — Está em Finiti.
— Contem tudo depois que atravessarmos. O tempo está parado do outro lado.
Entraram no portal.
O deserto de Vésper se estendia sob um céu desconhecido. Athos explicou que encontrara o planeta além das regiões que conhecia e ainda tentava compreender sua origem. Ali, o tempo se relacionava com o restante do Universo de maneira diferente. Quando Athos atravessava para Vésper, os acontecimentos nos outros mundos paravam para ele. Ao sair, Vésper ficava suspenso até seu retorno.
Dafa examinou o horizonte. Durante séculos, os doze de Éden haviam se considerado o grupo mais poderoso do Universo. Athos continuava encontrando lugares, limites e perguntas que eles jamais haviam procurado.
— Nerfate foi exilada por Zeon? — perguntou Athos.
— Foi. O sinal partiu de Finiti.
— Eu pretendia reunir seu grupo e precisaria de uma pista. Você conseguiu antes de mim.
Dafa sorriu com o elogio. Móretar percebeu e começou a vestir a camisa.
Athos enumerou as tarefas que ainda precisava cumprir. Cada travessia entre as regiões do Universo consumia mais energia. Ele havia retirado metade da população de um planeta prestes a ser destruído e voltaria para buscar os demais. Também precisava encontrar o homem indicado pela profecia, impedir a morte que vira no futuro de Adwig e localizar os outros exilados de Éden.
— Já encontrei Krakor — concluiu.
O portal seguinte os levou a outra região de Vésper. No lugar do deserto, havia rios, árvores jovens e extensões de vegetação que ainda cresciam sobre o solo. Krakor trabalhava perto de uma lagoa.
Dafa correu para abraçá-lo.
— Você está bem, seu cretino?
Krakor riu e retribuiu o abraço.
— Pensei em vocês durante todo o tempo em que estive aqui. Quero encontrar meus filhos e Zeon. Athos me convenceu a esperar até termos condições de agir.
— Passei a gostar mais de você depois de conhecer sua filha e seu planeta. Estamos perto demais de ser uma família.
Dafa observou a vegetação.
— Você criou tudo isso?
— Athos me ensinou a combinar processos que permitem o surgimento das primeiras formas de vida. Quando encontrei Key, já havia rios, plantas e organismos microscópicos. Vésper era deserto. Começamos pelo solo, pela água e por vidas simples. O restante cresce a partir dessas condições.
Athos mostrou regiões moldadas a partir de mundos de fogo e de vento. Pretendia receber em Vésper povos ameaçados que aceitassem viver em paz. Juntos, também poderiam formar uma defesa capaz de enfrentar qualquer exército que os encontrasse.
— Ainda temos pouco — disse Athos. — Dafa, você poderia nos ajudar a criar outros ambientes.
Móretar ouviu os três discutirem a construção de um mundo. A sensação de inutilidade voltou, acompanhada por uma dúvida que nenhum deles mencionara.
— O que acontece com quem morre aqui?
Athos interrompeu a conversa.
— Ainda não pensei nisso.
— Você quer reunir povos de níveis diferentes. Alguns corpos vivem séculos; outros podem morrer numa queda. Se alguém morrer em Vésper, para onde seguirá sua partícula essencial? Como poderá renascer enquanto o tempo estiver parado nos outros mundos?
Krakor se aproximou. Athos olhou para o jardim e depois para o portal fechado.
— Pode despertar em um planeta que desconhecemos — continuou Móretar. — Pode ficar preso entre os dois fluxos de tempo. Também existe a possibilidade de não conseguirmos localizá-lo.
— Precisamos descobrir — disse Athos.
— Mate-me e acompanhe meu sinal.
Dafa agarrou o braço de Móretar.
— Você enlouqueceu?
— Se eu despertar em outro lugar, vocês poderão seguir a energia. Se nada acontecer em Vésper, atravessem o portal e esperem do outro lado.
— Está oferecendo a própria vida para testar uma dúvida que teve agora.
— E você tem uma maneira melhor?
Dafa não respondeu.
Athos caminhou até Móretar.
— Primeiro buscarei o restante do povo de Néon. Depois impediremos o que vi acontecer com Adwig. Faremos o teste quando eu puder acompanhar cada etapa.
Móretar assentiu. Dafa soltou seu braço e se afastou até a margem da lagoa.
Athos voltou a conversar com Krakor. A espada permanecia presa às suas costas. Móretar acompanhou o cabo da arma com os olhos.