Parte 6
Móretar repetiu o exercício até perder a conta das tentativas. Às vezes conseguia mover água e ar ao mesmo tempo. Em outras, produzia calor ou uma descarga breve. Quando tentava reunir tudo, um dos elementos escapava ou a força se espalhava sem deixar qualquer alteração na montra.
— Você continua pensando em quatro tarefas — disse Vaes. — Controlar o ar, depois o fogo, depois a água e a carga. Não faça isso. Produza uma única reação.
Dafa se aproximou e encostou um dedo na joia. Uma faísca atravessou a superfície, aqueceu um ponto quase invisível e desapareceu.
— Água, calor, carga e ar passaram pelo mesmo lugar — explicou ela. — Não precisei pensar em quatro movimentos.
— Você também não está na primeira vida.
— Por isso fiz maior do que você precisa. Agora faça menor.
Móretar olhou para a marca deixada na montra. Quase não podia vê-la.
— Meu esforço precisa ser menor?
— Precisa ser mais preciso — respondeu Vaes. — Controlar uma grande quantidade de cada elemento no seu nível já é extraordinário. Tentar controlar todos nessa escala é justamente o que impede o sinal.
Móretar reduziu a água a uma gota. Em vez de erguer a joia, deixou-a sobre a pedra e movimentou apenas o ar próximo à superfície. Buscou uma carga pequena nas pontas dos dedos e aproximou a madeira aquecida.
Nas primeiras tentativas, nada aconteceu.
Depois veio um estalo.
Uma explosão pequena lançou luz sobre a pedra. Dafa recuou por reflexo. Vaes caiu sentado e se levantou no mesmo instante, empolgado demais para se importar com a areia presa às roupas.
— Perfeito. Consigo reconhecer esse sinal.
— Conseguiria me encontrar em Key?
— Se você o repetisse e eu estivesse procurando no momento certo, sim. Agora existe uma alteração com assinatura suficiente para ser distinguida de uma reação natural.
Móretar pegou a joia. O ponto atingido continuava luminoso, embora o brilho diminuísse rapidamente.
Zeon e Arquemis apareceram na clareira. Zeon carregava o cajado de Hagar e falava antes mesmo de chegar perto.
— Temos uma situação em andamento. Hagar sentiu o sinal e determinou que Móretar fosse devolvido a Key. Arquemis irá com ele e retornará pelo mesmo portal assim que confirmar a chegada.
Havia algo apressado na forma como Zeon segurava o cajado. Móretar percebeu que Dafa e Vaes também o observavam.
— Não — disse Dafa. — Eu vou com ele.
Arquemis olhou para Zeon, esperando objeção.
— A substituição não deve causar problema — respondeu ele depressa.
Zeon ergueu o cajado. Um raio atravessou o céu, e a passagem surgiu à frente deles.
Vaes tocou o ombro de Móretar.
— Se morrer durante o retorno, tente produzir o sinal assim que conseguir agir no novo corpo.
— Essa é sua maneira de desejar uma boa viagem?
— É a forma mais útil.
Móretar agradeceu pelo treinamento. Dafa segurou sua mão, e os dois saltaram.
O retorno foi menos longo que a primeira travessia, mas não menos violento. Móretar caiu em Key como uma pedra e bateu o rosto no chão. Dafa pousou sobre os próprios pés e correu até ele.
Estava desacordado, porém respirava. O portal ainda permanecia aberto atrás dos dois.
Dafa olhou para Móretar e depois para a passagem. Queria esperar que ele acordasse, mas manter um portal entre Key e Éden por mais tempo que o combinado poderia produzir outro acidente. Decidiu voltar e pedir que o acompanhassem de lá.
A luz se fechou antes que ela a alcançasse.
Dafa gritou. O ar se aqueceu e as árvores estremeceram. O som despertou Móretar, que se sentou com terra no rosto.
— Foi aprisionada aqui?
— Não sei.
Ela continuava olhando para o espaço vazio.
— Zeon estava agitado — disse Móretar. — Pareceu aliviado quando você decidiu vir.
— Também percebi. Mesmo assim entrei no portal.
— Você acreditou que conseguiria voltar.
— Tenho esse defeito. Às vezes acredito que posso tudo.
Móretar se levantou e a abraçou.
Os braços de Dafa permaneceram imóveis por um instante. Depois subiram devagar e encontraram as costas dele. Ela já não se lembrava de quando alguém a abraçara sem querer obter alguma coisa em seguida.
— Achei que não fosse retribuir — disse Móretar.
— Eu tinha esquecido como começava.
A temperatura ao redor dos dois aumentou de verdade. O ar ficou mais quente e algumas folhas próximas se curvaram.
Dafa se afastou, incomodada por não controlar a reação. Virou-se de costas enquanto o calor diminuía.
— Se pretende voltar para Éden, talvez eu saiba onde podemos encontrar ajuda — disse Móretar.
— Onde?
— No Palácio dos Elfos.
Dafa voltou-se para ele.
— Por causa das profecias de Key?
— Os textos dos elfos dizem que o fundador retornaria ao paraíso quando o prometido aparecesse e que sua filha voltaria ao trono. Krakor está em Éden. André chegou lá. Pode ser uma crença fabricada, mas alguém organizou esses fatos dentro dela.
— E quem fabricou a história talvez quisesse conduzir pessoas ao Palácio.
— Neste momento, é a única direção que temos. O rei ou a rainha dos elfos também pode conhecer outros meios de atravessar o planeta.
Dafa havia encontrado charlatães, falsos deuses e profecias usadas para submeter populações. Não confiava naquela narrativa. Ainda assim, recusá-la apenas porque podia ter sido construída seria desperdiçar a única pista disponível.
— Vamos ao Palácio — decidiu.
Ela começou a mover o ar ao redor dos dois. Móretar pediu que parasse.
— Poupe energia. Não sabemos quanto tempo ficará em Key nem o que encontraremos.
— Tem outra forma de chegar?
Móretar lançou uma pequena rajada de vento para o céu. Esperou alguns instantes, atento ao espaço entre as árvores.
O bater de asas veio de longe. Um pégaso de pelos marrons desceu entre as copas e pousou diante deles. Móretar acariciou seu pescoço, e o animal respondeu empurrando a cabeça contra o peito dele.
— Este é Kingzar.
Dafa se aproximou devagar. Nunca estivera tão perto de um pégaso.
— Ele foi de meu pai — continuou Móretar. — Voo com ele desde pequeno. Talvez pareça pouco tempo para você. Para mim, foi o bastante para confiar minha vida a ele.
Kingzar encarou Dafa antes de permitir que ela se aproximasse mais. Somente depois de Móretar tocar novamente seu pescoço o animal baixou uma das asas.
Móretar ajudou Dafa a montar e subiu à frente. Kingzar correu alguns metros pela clareira e ganhou altura.
Dafa podia manter-se equilibrada sem qualquer apoio. Ainda assim, quando o pégaso inclinou o corpo para atravessar as árvores, ela envolveu a cintura de Móretar.
Não retirou as mãos quando o voo se estabilizou.