Parte 44 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 44 de 49
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Parte 44

Móretar manteve Excalibur entre ele e Odin.

— Por quê?

Titania terminou de descer a escada.

— Quando nosso mundo começou a morrer, Oberon ainda acreditava que venceria a guerra. Cada lado controlava uma parte do vínculo. Nenhum conseguia reunir força suficiente para retirar o povo de lá.

— Você entregou sua parte a Odin.

— Entreguei. Ele alcançou Ux quando a cidade já se desprendia do planeta. Prometeu preservar quem renascesse aqui e impedir que Oberon retomasse o conflito.

Meili surgiu na entrada do salão.

— Você chama aquilo de conflito porque não quer dizer resistência.

Iduna segurou o braço dele antes que preparasse outra flecha.

Titania olhou para os dois.

— Eu também resisti. Fui capturada pelo exército que meu marido dizia controlar. Saí de lá depois de perder pessoas, poder e qualquer confiança no rei que deveria lutar ao meu lado.

Sua voz não pediu compaixão.

— Quando Odin me ofereceu uma saída, aceitei. Eu sabia que Oberon seria preso. Sabia que parte da nossa força sustentaria Ux. Não sabia que toda escolha futura passaria por Odin.

— O acordo salvou esta cidade — disse Odin.

— E continuou depois que a emergência terminou — respondeu Móretar.

Odin caminhou em direção a ele.

— A emergência termina quando Ux consegue existir sem o meu poder. Olhe pela janela.

Uma parte da cidade era visível além das paredes transparentes. A massa rochosa oscilava dentro da ruptura. Inc ocupava um lado do horizonte; o espaço aberto, o outro.

— Retire minha força e todos caem — continuou Odin. — Liberte o rei e a guerra recomeça. Titania compreendeu o preço. Você chegou há poucos minutos e já exige pureza de decisões tomadas entre duas destruições.

Móretar baixou a ponta da espada.

— Não vim exigir pureza. Vim interromper uma cobrança que nunca acaba.

— Com o poder de quem?

— Com o meu, por enquanto.

Odin sorriu.

— Então tente.

A primeira descarga atingiu Móretar antes que ele levantasse Excalibur. Seu corpo atravessou o salão e quebrou parte da parede.

Dafa sentiu o impacto pelo contato mental.

— Agora — transmitiu Móretar.

Odin atacou outra vez. Móretar desviou para o lado e acompanhou a energia com os olhos. A luz deixava Titania, atravessava o chão e alimentava o golpe antes de alcançar a mão de Odin.

Móretar fincou Excalibur entre duas linhas.

O golpe seguinte perdeu força. Em algum ponto da cidade, centenas de luzes se apagaram ao mesmo tempo.

Odin puxou a espada para fora do chão com uma onda de energia. Móretar a recuperou no ar.

— Você não sabe o que está tocando — disse Titania.

— Syn me mostrou.

Odin virou o rosto para a rainha.

— Seus estudiosos continuam trabalhando contra mim.

— Continuam procurando uma forma de sobreviver — respondeu ela.

— Sobrevivem porque eu permito.

As portas se abriram atrás de Meili e Iduna. Dafa entrou primeiro. Arthur e Bel avançaram pelos lados, enquanto Coneli, Hertho e Carl carregavam equipamentos retirados do Palácio.

Freya e Loki permaneceram do lado de fora, mantendo a passagem aberta para Inc.

— Trouxe um exército — falou Odin.

— Trouxe pessoas capazes de fazer o que eu não sei — respondeu Móretar.

Dafa chegou ao lado dele.

— Guarde essa frase. Foi difícil conseguir.

Odin lançou energia contra os dois. Bel ergueu uma proteção. A barreira resistiu apenas o tempo necessário para Arthur retirar Iduna e Meili da linha de ataque.

Hertho observava a peça presa à roupa de Móretar.

— Há quatro pontos de distribuição sob o salão — anunciou. — O fluxo de sustentação de Ux passa por dois. A submissão das fadas passa pelos outros.

— Consegue separar? — perguntou Móretar.

— Se Carl e Coneli alcançarem os pontos certos.

Odin ouviu.

O chão se abriu diante dos dois. Carl saltou para uma coluna; Coneli usou o próprio impulso para alcançar outra. Dafa bloqueou o ataque lançado contra eles e caiu de joelhos.

Móretar puxou o vento através da abertura na parede. A corrente entrou com força suficiente para desviar a descarga seguinte.

— Titania! — gritou ele. — Qual linha mantém a autorização?

A rainha não respondeu.

Odin ergueu as duas mãos. O brilho que deixava a pele dela aumentou.

— Ele vai retirar tudo de vocês — disse Odin. — Depois irá embora para o mundo dele. Você ficará com uma cidade em queda e um rei livre para cobrar sua vingança.

Titania olhou para Iduna, para Meili e para as pessoas reunidas do lado de fora. Símbolos rivais dividiam o mesmo corredor.

— Qual linha? — repetiu Móretar.

— A que passa por mim.

Titania segurou o próprio pulso. A luz mudou de direção e se acumulou em sua mão.

— Pare — ordenou Odin.

Ela abriu os dedos.

O vínculo se partiu.

A massa de Ux cedeu alguns metros. Pessoas gritaram nas ruas. O rio suspenso abandonou uma das curvas e atingiu as ruínas do submundo de Inc.

Hertho conferiu a leitura.

— A cidade ainda está presa. Carl, sua coluna!

Carl ativou o equipamento. Coneli fez o mesmo do outro lado. Duas linhas permaneceram ligadas a Odin. As outras recuaram para os bairros das fadas.

Luzes começaram a voltar aos corpos.

Odin avançou sobre Titania.

Móretar entrou no caminho. Excalibur encontrou a arma do Supremo e a quebrou perto do cabo. Odin continuou o movimento com o punho e atingiu o rosto de Móretar.

Dafa abriu o contato mental entre os membros do grupo. Móretar percebeu a posição de cada um antes de olhar. Arthur protegia os acessos. Bel sustentava a barreira. Hertho orientava Carl e Coneli. Iduna conduzia moradores para fora. Meili reunia arqueiros nos telhados.

Pela primeira vez, Odin precisou se defender de ataques vindos de várias direções.

— Oberon ainda está preso! — gritou Meili.

— Onde? — perguntou Dafa.

Titania apontou para baixo do salão.

— A ligação dele atravessa a fundação.

Móretar sentiu o ar que circulava sob o piso. Havia um espaço profundo e uma única respiração.

— Arthur, abra caminho até o rei. Bel vai com você.

Os dois romperam o chão perto da escadaria. Odin tentou impedi-los. Dafa invadiu seus sentidos e fez o salão mudar de posição diante dele. A ilusão durou pouco. Móretar aproveitou o intervalo para atingir o ombro do Supremo.

O corte não sangrou. Luz saiu da ferida e voltou para as linhas que ainda o alimentavam.

— Ele se recompõe pelo vínculo — disse Móretar.

— Então cortamos o restante — respondeu Dafa.

Titania se aproximou de uma das colunas.

— Esta sustenta Ux.

— A leitura confirma — falou Hertho.

— A outra mantém Odin ligado a Oberon.

Coneli mudou a posição do equipamento. A linha presa ao rei começou a se desfazer.

Odin gritou.

A energia acumulada em seu corpo deixou de seguir qualquer direção. Espalhou-se pelas paredes, derrubou as barreiras e atingiu os arqueiros nos telhados. Móretar tentou alcançar Dafa, mas uma descarga abriu o espaço entre eles.

— Vocês acreditam que a morte me impede? — perguntou Odin. — Todos aqui retornariam para alimentar a mesma ligação.

— Então você nunca salvou ninguém — disse Titania. — Apenas garantiu que voltassem para você.

Odin concentrou a energia entre as mãos.

O salão perdeu as cores. A luz das fadas correu para um único ponto.

Titania empalideceu.

— Essa técnica destrói a estrutura que permite o renascimento.

— Você disse que ele não a usaria — falou Dafa.

— Ele prometeu.

— Promessas também terminam — respondeu Odin.

Móretar lançou o vento contra ele. Odin não recuou. A esfera de luz se dividiu em vários disparos.

Móretar abriu Excalibur diante do grupo. A espada absorveu parte da energia e o ar ao redor da lâmina desapareceu. Ainda havia rajadas demais.

Bel protegeu Arthur. Hertho empurrou Carl e Coneli para trás das colunas. Dafa correu até Titania.

O disparo alcançou as duas.

Elas desapareceram.

O contato mental foi interrompido.

Móretar continuou em pé. Não ouviu Dafa, não encontrou seu corpo e não sentiu qualquer passagem aberta para outro mundo.

Odin reuniu o poder restante.

— Agora entende o preço de desafiar quem mantém todos vivos.

Móretar ergueu Excalibur. A lâmina estava mais pesada. Havia algo dentro dela, fragmentado e impossível de alcançar.

— Entendo por onde seu poder passa.

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