Parte 5 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 5 de 49
Obra Menu

Parte 5

Dafa pediu que Móretar fechasse os olhos e percebesse a direção do vento. Antes que ele conseguisse separar um fluxo de outro, Juper incendiou as árvores ao redor da clareira.

O fogo não se espalhou como uma chama comum. Surgiu em pontos diferentes, avançando pelas copas, pelas laterais e junto às raízes. Móretar ergueu a água do riacho, mas uma corrente criada por Dafa desviou parte dela antes que alcançasse as chamas.

— Não combata cada elemento — gritou Vaes. — Descubra o que todos estão fazendo no mesmo lugar.

O calor transformava água em vapor. O vento empurrava o vapor de volta contra Móretar. Uma descarga lançada por Dafa atravessou a nuvem.

Ele tentou conter o fogo, baixar a temperatura da água, afastar o vapor e bloquear a eletricidade. Quanto mais dividia a atenção, menos cada força lhe obedecia. A descarga aproximou-se. O corpo reagiu antes que sua mente encontrasse outro feitiço.

Móretar deixou de procurar os elementos separadamente e concentrou-se no ponto em que todos se encontravam.

O fogo diminuiu. A água perdeu o peso. O ar pareceu parar por um instante, e a eletricidade se dispersou antes de alcançá-lo.

Móretar ainda teve tempo de perceber que conseguira. Depois caiu.

Acordou sobressaltado, tentando levantar de uma vez. Zeon precisou segurá-lo pelos ombros para que não despencasse da superfície onde estava deitado.

Os catorze estavam reunidos na construção criada dentro da floresta: os doze imortais, o jovem que chegara antes dele e o próprio Móretar. Juper e Dafa permaneciam nos cantos, recebendo energia de duas companheiras. Um brilho saía das mãos delas e atravessava os corpos dos dois.

— Foi um início bastante bom — disse Hagar. — Considerando o estrago que fizeram em você, talvez tenha sido bom demais.

Juper ergueu o rosto. Tinha voz grossa e uma firmeza que fazia qualquer explicação parecer ordem.

— Gastei mais energia criando e retendo o incêndio do que atacando. Ainda assim, alguém do seu nível normalmente precisaria ser retirado antes do fim.

Móretar tentou reconstruir os últimos instantes. Lembrava-se de calor, vapor e luz. A sensação de interromper tudo permanecia no corpo, embora não soubesse repeti-la.

Hagar explicou ao outro jovem que Juper conseguia iniciar fogo em condições nas quais quase todos os manipuladores fracassariam. Não dependia apenas de uma chama já existente; podia modificar o ambiente até que algo se tornasse combustível.

Durante a conversa, Móretar finalmente ouviu o nome do rapaz.

André.

Ele continuava afastado, recebendo explicações sobre profecias que pareciam interessar mais aos imortais do que a ele.

— Depois de algum descanso, você poderá tentar a segunda etapa e voltar para Key — disse Zeon.

— Depois de quanto tempo?

— Aqui ou em seu planeta?

— Não importa. Quero começar agora.

Móretar levantou, ainda tonto, e seguiu na direção de uma parede. A construção não tinha uma saída visível.

— Vai atravessar isso? — perguntou Krakor.

— Se vocês demorarem o suficiente, talvez.

Krakor soltou uma risada.

— Mas que rapaz desaforado.

— Você parece satisfeito — observou Hagar.

— Estou preocupado com a educação dele.

Hagar fez um movimento com a mão. A sala desapareceu, e todos estavam novamente na clareira. As árvores queimadas haviam sido recompostas. O riacho seguia limpo, sem qualquer sinal do vapor e das descargas.

— Permanecemos aqui o tempo todo — explicou Hagar. — A construção era um abrigo temporário.

Três das quatro estrelas de Éden podiam ser percebidas daquele ponto, filtradas pelas nuvens artificiais. O calor continuava forte mesmo sob as folhas.

— O que você fez durante o ataque foi unir várias interferências num único ponto — disse Vaes. — Aconteceu por instinto. Agora precisa repetir uma versão muito menor de forma consciente.

Móretar olhou para Krakor e percebeu uma luminosidade irregular ao redor do velho. Aparecia quando ele se aproximava e desaparecia quando Móretar desviava o olhar.

— Por que ele está brilhando?

Hagar observou Krakor e depois Móretar.

— Algumas consciências reconhecem proximidades de origem. Pessoas do mesmo primeiro mundo ou de populações formadas a partir dele podem perceber esse brilho umas nas outras.

— Isso significa que somos parentes?

— Significa que existe uma origem próxima. O brilho não sabe construir genealogias.

— Key foi formado por uma população que Krakor ajudou a transportar — acrescentou Vaes. — Seria estranho não haver reconhecimento algum.

Krakor não comentou. O silêncio dele fez Móretar guardar a pergunta para outro momento.

Nerfate colocou alguns objetos sobre uma pedra larga. Havia madeira de diferentes mundos, pequenos metais, um recipiente rico em carbono e uma joia de montra. Móretar conhecia a última. O material era abundante nas regiões élficas de Key e podia conservar brilho mesmo sob pouca luz.

— Não precisa transformar a joia — explicou Vaes. — Precisa alterar um ponto dela usando mais de um elemento. Se a matéria produzir luz por um instante, teremos uma marca que poderá ser procurada.

— Em qualquer parte do Universo?

— Em regiões que conhecemos e enquanto o sinal ainda existir. Não confunda uma técnica útil com onisciência.

Nerfate indicou os materiais.

— Use o que for mais familiar. Há água no riacho, madeira para produzir calor, metais capazes de conduzir carga e ar suficiente ao redor. A alteração pode acontecer na montra ou em qualquer outro objeto.

Móretar começou pela água. Ergueu parte do riacho e a manteve suspensa. Depois movimentou o ar sob a joia até tirá-la da pedra. Os imortais acompanharam o movimento com diferentes graus de interesse.

A água se aproximou da montra. Móretar fechou os olhos e tentou recuperar a sensação do confronto. Fez o ar girar, buscou as cargas elétricas do próprio corpo e aqueceu uma das peças de madeira.

Uma fumaça fina surgiu.

O esforço aumentou rápido demais. Móretar levantou os braços como se pudesse sustentar cada elemento com uma parte do corpo. A água perdeu a forma. A joia caiu. O riacho suspenso espalhou-se sobre os espectadores, e Móretar terminou de joelhos diante da madeira fumegante.

— Ele está tentando reproduzir o tamanho do ataque — avaliou Dafa.

— Porque foi assim que conseguiu da primeira vez — respondeu Vaes.

— Precisamos dar tempo e espaço para ele — disse Hagar, afastando-se.

Zeon pareceu conter uma brincadeira sobre o guardião do espaço-tempo e decidiu não arriscar.

— Podemos aproveitar para tratar do que faremos com André — sugeriu Juper.

Hagar criou outra estrutura ao redor da maior parte do grupo. Os imortais entraram para discutir a chegada do jovem e as profecias que haviam reunido. Do lado de fora ficaram Móretar, Vaes e Dafa.

— Continuaremos monitorando — disse Vaes. — Tente novamente quando recuperar o fôlego.

— Sem pressa? — perguntou Móretar.

— Com a quantidade necessária de pressa — respondeu Dafa. — Nem toda urgência precisa virar incêndio.

Móretar recolheu a joia de montra e voltou a colocá-la sobre a pedra. A fumaça produzida na madeira provava que não falhara por completo. Também mostrava o quanto ainda estava distante do sinal.

Sentou-se perto do riacho e começou outra vez.

1/1
Menu

Fazer anotação