Parte 14
Móretar esperou que voltassem ao corredor inundado antes de perguntar sobre as sete cabeças que vira na casa.
— Górgona ainda pode transformar alguém em pedra?
— Pode. Hoje fazemos isso juntas. Quando finalmente consegui separar o medo dela do meu, descobri que Afrodite havia ferido nós duas.
— Poseidon sabe que você a controla?
— Ele acredita que estou morta. Vamos conservar essa vantagem.
O plano era chegar ao Palácio das Sereias sob a identidade de Marjone. Móretar seria Torn, seu subordinado e fornecedor de sangue. Médera ensaiou com ele as respostas mais prováveis: onde a vampira estivera, por que não procurara o rei e como seu servo conseguira despertá-la.
Móretar errava sempre que tentava explicar demais.
— Torn fala pouco — orientou Médera. — Marjone não permitiria que um servo conduzisse a conversa.
— Isso torna meu personagem fácil.
— Seu rosto continua anunciando cada coisa estranha que encontra.
No caminho para o palácio, Médera mudou de direção.
— Precisamos reativar meu quite. Também quero saber o que se comenta sobre Poseidon antes de entrarmos na casa dele.
Ela apontou para uma construção de vários andares, cercada por luzes móveis.
— Aquilo é um Quixar. Serve bebidas, jogos e informações para quem sabe ouvir.
Cada noite obedecia a regras próprias. Os clientes cumpriam desafios para subir aos andares seguintes, onde as substâncias eram mais raras e as conversas menos públicas. Aquela era a noite das mulheres. O primeiro acesso exigia uma Tranta e o convite de alguém reconhecido como mulher naquele dia.
Móretar viu pessoas alterarem traços do corpo diante de espelhos na entrada.
— Todos podem fazer isso?
— Quem nasceu em Atlas pode modificar os órgãos sexuais com hormônios. A mudança demora alguns dias. A identificação usada nesta noite depende do que cada pessoa declara na entrada.
Médera mostrou a palma da mão. Sob a pele havia um aparelho que já não emitia luz.
— O quite registra identidade e movimenta o dinheiro autorizado pelo reino. Poseidon controla o sistema. Marjone ficou tempo demais fora dele.
Ao lado do Quixar funcionava um caixa geral. Médera colocou uma moeda fina sobre o balcão. O funcionário, identificado como Antemor, consultou o quite e devolveu a mão dela.
— Bloqueado por inatividade. A senhora precisará ir ao Cedule amanhã.
Médera girou a moeda entre os dedos.
— Você já viu um Quantemo inteiro, Antemor?
O homem tentou esconder a reação.
O metal era difícil de reproduzir ou alterar. Antes do quite, sustentara a economia de Atlas. Agora circulava fora do controle eletrônico e valia mais do que o número gravado na superfície.
— Passei dois séculos dormindo — continuou Médera. — Tenho outra moeda igual a esta para quem encontrar hoje a senha que o Cedule usaria amanhã.
Antemor olhou para as câmeras. Guardou a moeda e pediu que ela encostasse a mão outra vez. O quite recuperou a luz.
— O saldo antigo continua disponível — murmurou. — Eu não fiz nada.
— Foi exatamente pelo nada que paguei.
Na entrada do Quixar, o controlador exigiu o quite de Móretar.
— Ele não possui — respondeu Médera. — É meu escravo e minha segurança.
O homem examinou as escamas de Móretar e aceitou uma moeda menor sem fazer outra pergunta.
Móretar entrou atrás dela.
— Era necessário me chamar de escravo?
— Para este lugar, era a explicação mais simples.
— Isso não torna a palavra melhor.
— Guarde a raiva. Ela combina com Torn.
O primeiro andar parecia organizado para impedir qualquer conforto. Os quiosques ficavam nas laterais, as mesas no centro e a multidão ocupava todo o espaço entre eles. Quem buscava outra bebida precisava abandonar a cadeira, atravessar os dançarinos e voltar sem garantia de recuperar o lugar.
Médera comprou duas Trantas. O líquido amarelado tinha cheiro doce e um gosto que queimava a língua. Móretar tomou depressa. O chão pareceu se afastar alguns centímetros.
— Vamos, Móre.
Ela o puxou pela mão. O apelido e o calor dos dedos produziram uma reação que ele preferiu atribuir à bebida.
Uma mulher abriu o acesso para o segundo andar. Na parede da escada havia uma sequência de sinais que Móretar não conseguia compreender.
— Não sei ler isso.
— São códigos — explicou Médera. — A tradução mental encontra padrões de idioma. Esses sinais foram construídos para ficar fora deles.
No andar seguinte, as bebidas eram servidas no centro. A música atravessava a água e fazia as paredes vibrarem. Algumas pessoas dançavam com movimentos repetidos. Outras permaneciam sentadas, imóveis, apesar do tumulto.
Médera entregou a Móretar um copo de Valquer. O líquido verde soltava uma fumaça que se mantinha presa ao recipiente.
— Beba em goles pequenos. Quem toma tudo perde o controle do corpo por cerca de uma hora.
Móretar provou. As cores se separaram em faixas brilhantes. O rosto de Médera permaneceu nítido enquanto o restante da sala perdia foco.
— O que você sente? — perguntou ele.
— Vejo três versões suas. A do meio parece a menos inconveniente.
O desafio seguinte exigia que cada dupla formasse novas combinações e chegasse à escada em um grupo de seis. O beijo entre pessoas que não haviam subido juntas liberava o acesso.
Móretar observou as pessoas negociando aproximações com a mesma naturalidade usada para pedir bebidas. Compreendeu a lógica do Quixar: cada andar ampliava o grupo, o consumo e a dificuldade de ir embora.
Médera conversou com dois casais. Tocava braços e mãos enquanto falava, alternando simpatia e firmeza até conseguir o acordo. Beijaria um dos homens; a acompanhante dele escolheria alguém do outro casal.
Uma das mulheres olhou para Móretar.
— E o seu segurança?
Médera virou o rosto para ele. A mulher se aproximou. Móretar a beijou.
Só quando se afastaram lembrou-se de Dafa.
O incômodo não impediu que acompanhasse o grupo até a escada. Médera segurou sua mão novamente, e os seis receberam autorização para subir.
No instante em que atravessou a passagem, Móretar caiu em direção ao teto.
As pessoas caminhavam acima, abaixo e pelas paredes. Uma força saída do centro da sala empurrava cada corpo para a superfície mais próxima. Médera caiu ao lado dele, rindo enquanto tentava firmar os pés.
Móretar olhou para o piso sobre sua cabeça. Naquele andar, o teto era o único lugar onde conseguia ficar de pé.