Parte 46
Syn passou as horas seguintes conferindo as novas ligações.
Cada morador podia interromper a própria contribuição. Quando alguém chegava ao limite, a linha se desfazia e procurava outro voluntário. A sustentação de Ux oscilou algumas vezes, até as fadas organizarem turnos entre os bairros.
Móretar acompanhou Hertho, Carl e Coneli durante os primeiros testes. Excalibur perdera o peso adquirido na batalha. Ainda havia marcas escuras perto do cabo.
Dafa recusou permanecer deitada.
— Você desapareceu e voltou há pouco tempo — disse Móretar.
— Passei parte desse tempo dentro da sua espada. Descansar num quarto parece pouco ambicioso.
— O que sentiu lá?
— Titania. A energia de Odin. Você, algumas vezes. Não havia espaço ou corpo. Eu sabia que continuava existindo porque alguma coisa tentava me separar de tudo isso.
Móretar tocou a mão dela.
— Pensei que tivesse perdido você.
— Eu também.
Dafa encostou a testa na dele. Ficaram assim até Meili chamar Móretar.
Oberon e Titania esperavam na antiga praça central. Pessoas dos três bairros ocupavam o espaço. Os símbolos rivais continuavam visíveis, embora nenhum deles determinasse onde alguém deveria ficar.
Syn apresentou as regras provisórias. Cada bairro escolheria responsáveis pelos turnos de sustentação. As informações sobre energia, risco e estabilidade seriam públicas. Titania e Oberon conservariam suas capacidades, sem acesso automático à força do povo.
— E quando discordarmos? — perguntou uma mulher ligada aos antigos seguidores da rainha.
— Discordaremos diante de todos — respondeu Syn. — Nenhuma decisão voltará a correr escondida pelo vínculo.
Oberon tomou a palavra.
— Eu conduzi nosso povo numa guerra que poderia ter encerrado antes. Quando Titania foi capturada, tratei a dor dela como parte de um conflito maior. Continuei defendendo a vitória quando já devia procurar sobreviventes.
Titania permaneceu diante dele.
— Eu entreguei a Odin uma autoridade que não me pertencia sozinha. Acreditei que conseguiria limitar o acordo depois de salvar Ux. Quando percebi que ele usava cada novo renascimento para ampliar o próprio domínio, tive medo de desfazer o vínculo e destruir a cidade.
Meili se aproximou dos dois.
— Nenhum pedido de desculpas devolve quem desapareceu na guerra.
— Eu sei — disse Oberon.
— E nenhum conselho impede vocês de tentar recuperar o poder.
Iduna respondeu antes dos antigos governantes.
— Por isso as ligações foram retiradas dos dois.
As discussões começaram. Alguns queriam julgar Titania e Oberon. Outros defendiam que a sustentação de Ux era prioridade. Um terceiro grupo propôs abandonar a cidade aos poucos e construir uma comunidade em Inc.
Móretar esperou que alguém lhe perguntasse qual proposta apoiava. Ninguém perguntou.
Sentiu alívio.
O título de rei lhe parecera necessário durante muito tempo. Na praça de Ux, compreendeu que o povo podia ouvi-lo sem transformar sua opinião numa ordem.
— Você está sorrindo — observou Dafa.
— Ninguém se ajoelhou.
— Sua ambição diminuiu bastante.
— Finalmente.
Athos retornou da ruptura. O esforço deixara suas asas feridas e o rosto pálido.
— A nova sustentação está funcionando — disse ele. — Ux continuará ligado a Inc até encontrarem outra saída.
Freya olhou para a cidade vertical.
— Há espaço em Inc para quem quiser atravessar. Isso também terá de ser decidido com o povo que já vive aqui.
— Sem outro rei escolhendo por eles — acrescentou Móretar.
Freya aceitou a observação.
Uma pequena voz saiu de trás da orelha de Athos.
— Vocês terminaram?
Juperas falava pelo comunicador.
Athos tocou o aparelho.
— Odin caiu. Ux está estável.
— Paradise não está. Gabriel atravessou a defesa exterior, e o vírus voltou a se espalhar entre os elfos.
Móretar se aproximou.
— A mesma consciência que mantém Key adormecido?
— Morpheu ligou as extensões. Athena acredita que a origem da rede está em Paradise ou passa por lá. Se conseguirmos separá-la do comando dele, os corpos deixam de ser drenados.
Móretar pensou em Bornurar e Magibre deitados no quarto de Krakor. Tim e Van continuavam unidos às mãos dos dois quando ele partira.
— Então precisamos ir.
Dafa recolheu as lâminas.
— Eu sabia que você não voltaria para o Palácio.
— Meus pais estão em Key.
— E eu estou indo com você.
Oberon ouviu a conversa.
— Gabriel está em Paradise?
— Com um exército — respondeu Athos.
— As fadas não participarão de outra guerra sob minha ordem.
Meili chegou ao lado dele.
— Algumas participarão por escolha.
Iduna concordou. Parte dos arqueiros se reuniu atrás dos dois. Outros permaneceram nos pontos de sustentação, protegendo as famílias e acompanhando as linhas de energia.
Titania procurou Syn.
— Posso contribuir para manter Ux enquanto eles estiverem fora.
— Dentro do mesmo limite imposto a todos — respondeu Syn.
— É o que estou oferecendo.
Oberon abriu as asas.
— Eu irei a Paradise.
Titania segurou seu braço.
— Volte para responder pelo que fez.
— Você também.
Não houve reconciliação. Houve um compromisso.
Athos tentou abrir o portal e perdeu a força antes que a passagem se formasse. Móretar puxou Excalibur.
— Você já segurou uma ruptura entre dois mundos. Deixe esta comigo.
Juperas transmitiu as coordenadas. Móretar encontrou o ar de Paradise através da ligação. Era quente, carregado de fumaça e cortado por ondas de energia.
O portal se abriu.
Do outro lado, o céu estava ocupado por anjos. Rajadas de luz desciam contra as defesas reunidas no solo. Elfos, vampiros, humanos e seres de muitos planetas protegiam a mesma linha.
Móretar reconheceu Adwig perto de Juper. Krakor sustentava o tridente alguns metros adiante. Médera e Teleret lutavam ao lado dele.
Dafa segurou a mão de Móretar.
— Vamos encontrar seus pais depois disso.
— Juntos.
Eles atravessaram.
As fadas vieram em seguida.