Parte 3
Móretar alcançou o velho no instante em que a luz começava a engoli-lo. Saltou, agarrou uma de suas pernas e atravessou a passagem sem saber para onde ela levava.
O corpo foi comprimido em todas as direções. A sensação lembrava um apedrejamento, embora não houvesse pedra alguma, apenas impactos sucessivos por dentro e por fora. Ele tentou soltar a perna do homem, mas já não sabia onde estavam suas mãos. Tentou gritar e não encontrou ar.
Luzes cortaram a escuridão. Estrelas coloridas passaram depressa demais para serem reconhecidas. Por alguns instantes, Móretar teve a impressão de estar espalhado por uma distância imensa, sem conseguir distinguir o corpo do espaço ao redor.
Depois não sentiu mais nada.
As vozes chegaram antes da visão.
— Podemos apagar a memória dele e devolvê-lo ao planeta — disse alguém.
— Não sabemos se ele sobreviveria ao retorno — respondeu outra voz. — Não sabemos sequer como sobreviveu à vinda.
Móretar tentou abrir os olhos. Não tinha certeza de que estavam fechados. As falas chegavam ora rápidas, ora arrastadas, mas as palavras eram compreensíveis.
— Eu avisei que essa interferência acabaria mal — disse um terceiro. — Não aparecemos para seres em primeira vida. Não levamos ninguém vivo por um portal. Essas regras existem por algum motivo.
— Qual motivo, Hagar? — A voz do velho à margem do rio era inconfundível. — Vivemos centenas de milênios procurando respostas. Quantos deuses você caçou? Quantos prometidos e quantas profecias encontrou pelo caminho? Alguma coisa veio até aqui para explicar nossas regras?
Uma claridade forte começou a ferir os olhos de Móretar. Ele piscou. Os braços formigaram, depois as pernas. O peito se lembrou de respirar.
— Está recuperando os sentidos — observou a primeira voz.
— E ninguém usará magia de cura até entendermos o que aconteceu com ele — respondeu Hagar. — É a primeira vez que um ser vivo atravessa um de nossos portais agarrado a alguém. Curá-lo sem conhecer o efeito da travessia seria apenas acrescentar outra variável ao erro.
— Fui eu que errei — disse o velho.
— Ainda não chegamos à distribuição de culpas, Krakor.
Móretar guardou o nome. Krakor.
Quando a visão clareou, percebeu que estava sobre uma cama que flutuava pouco acima do chão. Vários idosos o cercavam, todos com armaduras de materiais que ele não conhecia. Alguns pareciam irritados, outros curiosos. Um jovem permanecia mais afastado, observando a discussão como se também tivesse acabado de chegar.
— Por que estava falando com ele? — perguntou uma mulher.
Krakor olhou para Móretar antes de responder.
— Fiz uma promessa ao pai dele. Nós nos encontramos em outro mundo e lutamos juntos. Ele me pediu que procurasse o filho e contasse que a irmã ainda estava viva.
Móretar sentou-se de uma vez. O movimento fez a sala girar.
— Onde ela está?
As vozes cessaram.
— Ele acordou — disse um dos homens.
— Eu quero saber onde está minha irmã — repetiu Móretar. — O restante pode esperar.
Krakor se aproximou da cama.
— Não conheço o lugar exato. Seu pai sabia que ela tinha sido levada e que você precisaria procurá-la. Eu devia ter explicado isso em Key, mas o portal abriu antes da hora.
— Então me levem de volta.
— Antes precisamos saber se você pode atravessar outra vez — respondeu Hagar.
Uma mulher alta, de pele verde-clara, deu um passo à frente. Tinha os cabelos curtos e olhos lilases. Falava com a disposição de quem acreditava ser possível organizar aquela confusão.
— Comecemos pelo mínimo. Antes de hoje, doze de nós viviam neste planeta. O rapaz ali chegou depois de morrer pela primeira vez. Você entrou logo em seguida, ainda vivo. Agora somos catorze humanoides em Éden, dois dos quais jamais deveriam estar aqui desse modo.
Móretar olhou para o jovem. Ele desviou o rosto.
— Vocês morreram e vieram para cá?
— Muitas vezes — respondeu ela. — Entre nós, há quem tenha vivido oito vidas e quem já tenha passado de cem. A morte não encerra uma consciência. Quando um corpo morre, a partícula essencial que se formou nele deixa de depender daquela matéria. Ela conserva o que a consciência se tornou e participa da formação de outro corpo, em outro mundo.
— Em alguns mundos, chamam de partícula cerebral — acrescentou a mulher. — É outro nome para a mesma estrutura.
Móretar voltou a olhar para Krakor.
— Isso também acontece em Key?
— Acontece depois da primeira morte — explicou a mulher. — Key começou de outro modo. Seus primeiros habitantes foram levados para lá ainda vivos. Os que nasceram depois, como você, começaram uma vida própria naquele planeta. Você continua no corpo em que nasceu.
— Então, se eu morrer…
— Seu corpo permanecerá em Key. A partícula seguirá e formará outro corpo em algum planeta capaz de recebê-la. É o que ocorre em toda primeira morte.
Móretar pensou nos corpos deixados no campo de batalha. A continuidade não diminuía o que havia visto. As pessoas que conhecera continuavam ausentes de Key, e seus corpos continuariam debaixo da terra.
— Para onde elas vão?
— Não sabemos escolher nem prever — respondeu a mulher. — Percebemos padrões de desenvolvimento entre os mundos e organizamos esses padrões em níveis. Éden está muito acima de Key em domínio de matéria, energia e espaço. Ainda assim, não controlamos o destino de uma partícula essencial.
— Vocês conseguem criar portais entre planetas, mas não sabem para onde alguém vai depois de morrer?
— Essa é uma boa forma de resumir nossa ignorância — disse Hagar.
Krakor sentou-se na extremidade da cama.
— Há muitos milênios, quando ainda não tínhamos regras para viagens, ajudei a levar uma comunidade perseguida para um planeta desabitado. Queríamos um lugar onde aquelas famílias pudessem viver sem caça, expulsão ou guerra. Esse lugar se tornou Key.
— E a guerra chegou mesmo assim — disse Móretar.
— Chegou. As famílias se espalharam, novos povos se formaram e o refúgio produziu disputas próprias. Continuei voltando, mesmo quando os outros decidiram que não deveríamos interferir. Foi assim que encontrei seu pai em outra vida.
Móretar tinha perguntas sobre o pai, sobre Key e sobre tudo o que Krakor escondia atrás de respostas curtas. Nenhuma delas era mais urgente que a irmã.
— Quanto tempo estou aqui?
— Em Éden, tempo suficiente para acordar — respondeu Hagar. — Em Key, sua ausência ainda não completou um minuto. A passagem do tempo entre os mundos não é uniforme.
Móretar se levantou. As pernas vacilaram, mas o sustentaram.
— Então podemos aprender o que aconteceu comigo sem perder tempo. Depois vocês me devolvem.
Krakor sorriu pela primeira vez.
— Podemos ensinar a ele uma técnica de localização. Se algo acontecer durante o retorno, talvez consiga produzir um sinal que alcancemos daqui.
— Essa técnica depende de outras — ponderou Hagar. — Ele está em primeira vida e não sabemos como seu corpo reagirá às formas de energia que usamos.
— Vou aprender — disse Móretar.
— Você ainda não sabe o que pretendemos ensinar.
— Também não sabia como atravessar o portal.
— E quase morreu — observou a mulher de pele verde-clara.
— Quase não resolve o problema da minha irmã.
Hagar voltou-se para o jovem ao fundo. Parecia avaliar duas situações diferentes que haviam chegado juntas.
— Há outro assunto. Em diversos mundos encontramos profecias sobre um jovem levado, depois da primeira morte, até seres incapazes de morrer. Os nomes mudam. Os deuses invocados também. Algumas versões falam em salvação; outras, em destruição. Passei tempo demais considerando coincidência o fato de todas colocarem o mesmo tipo de figura diante de anciãos imortais.
O jovem não respondeu. Sua expressão sugeria que o peso daquela interpretação havia sido colocado sobre ele antes que pudesse recusá-lo.
— Você acredita que ele é o prometido? — perguntou Móretar.
— Acredito que sua chegada exige investigação — corrigiu Hagar. — Profecias já levaram mundos inteiros a obedecer pessoas erradas.
Krakor soltou uma risada breve.
— Essa cautela apareceu depois de quantas caçadas a falsos deuses?
— Depois das suficientes.
Hagar distribuiu as tarefas. Zeon, Juper, Dafa e Arquemis criariam ambientes de fogo, água e vento semelhantes aos encontrados em mundos menos desenvolvidos. Krakor, Nerfate, Altrom e Bel preparariam técnicas compatíveis com os feitiços conhecidos por Móretar. Agah ajudaria a repor a energia consumida. Coneli permaneceria atento ao espaço e ao tempo. Vaes explicaria a Móretar o necessário sobre o Universo enquanto Hagar cuidaria do jovem recém-chegado.
Os imortais começaram a sair. A sala se modificava à medida que ficava vazia: paredes se aproximavam, móveis mudavam de lugar, pontos de luz apagavam onde já não havia ninguém.
Móretar observou tudo sem se afastar de Krakor.
— Se estiver mentindo sobre minha irmã, nenhum desses poderes vai protegê-lo de mim.
— Eu não esperaria menos do filho de seu pai.
Antes que Móretar exigisse outra explicação, Vaes chamou por ele junto à saída. Havia orgulho na resposta de Krakor, mas também alguma coisa que Móretar ainda não conseguia reconhecer. A relação entre aquele velho, seu pai e a origem de Key era maior do que a promessa contada até ali.
Por enquanto, bastava saber que sua irmã podia estar viva. Aprenderia o que fosse necessário para voltar e encontrá-la.