Parte 2
Os urros de vitória começaram antes que a última cabeça Corace tocasse a lama. Os Salvitares percorriam o campo recolhendo armas, relíquias e tudo o que pudesse voltar com eles como prova da batalha.
Móretar permaneceu junto ao riacho. A ordem que dera ainda acontecia ao redor dele.
Hantake estava morto, mas o fim do general não alterava o que havia acontecido com sua família. Durante anos, Móretar imaginara que a vingança encerraria alguma coisa dentro dele. Agora compreendia que apenas eliminara o homem responsável. Os mortos continuavam mortos, e a lembrança deles não pesava menos.
Os primeiros cânticos começaram quando os guerreiros se organizaram para regressar ao povoado. Um dos Salvitares chamou Móretar. Outros ergueram as armas em sua direção. A tradição daquele povo não escolhia líderes antes da guerra. O comando surgia durante o combate e permanecia com aquele que provasse ser capaz de conduzir os demais de volta para casa.
Móretar olhou para o caminho de retorno. Conhecia a celebração que o esperava: comida, bebida, relatos repetidos até que a batalha se tornasse maior e mais limpa do que havia sido. Também sabia que seu nome chegaria ao povoado antes dele.
— Venha conosco — pediu um guerreiro mais velho. — O povo precisa receber seu líder.
— Hoje, não.
— Está ferido?
Móretar observou o sangue nas próprias roupas. Parte era dele. A maior parte, não.
— Não o bastante.
Guardou as espadas e tomou a direção oposta. Alguns companheiros tentaram chamá-lo novamente, mas ninguém o seguiu. A decisão pareceu ser aceita com a mesma rapidez com que o haviam reconhecido como líder.
A cantiga surgiu enquanto ele se afastava. Primeiro veio uma voz, depois outra. Os versos ainda mudavam a cada repetição, mas já falavam do pequeno salvitar que fizera a água enfrentar um gigante. Quando alcançasse o povoado, a música teria ritmo, título e detalhes que nenhum sobrevivente se lembraria de ter inventado.
Móretar entrou na floresta ouvindo sua história deixar de lhe pertencer.
Nos primeiros dias, seguiu sem destino. Caçava apenas quando precisava, pescava nos trechos de água limpa e evitava gastar energia com feitiços. Em alguns momentos pensava em seguir para o leste e voltar para casa. Talvez devesse aceitar o posto que conquistara. Os Salvitares precisariam reorganizar o povoado, preparar defesas e decidir o que fazer depois da derrota dos Coraces.
Sempre que considerava o retorno, porém, ouvia novamente os cânticos e se lembrava das cabeças caindo diante dele. Não queria chegar ao povoado carregado nos ombros de pessoas que transformariam aquela noite em uma vitória sem custo.
Durante a caminhada, não encontrou fadas, elfos, caçadores ou viajantes. Por isso parou assim que percebeu um homem sentado à margem de um rio.
O desconhecido estava de costas, curvado sobre a água. Parecia muito idoso. A idade não seria impossível em Key, mas alguém com aquela fragilidade, sozinho numa região distante dos povoados, não poderia ter chegado ali sem ajuda.
Móretar decidiu contorná-lo.
Antes que desse o primeiro passo, o homem começou a falar. Usava palavras em maraxon, porém as colocava numa ordem estranha. Algumas frases eram incompletas; outras pareciam pertencer a alguém que aprendera o idioma ouvindo conversas isoladas.
— O que está dizendo? — perguntou Móretar. — Precisa de ajuda?
O velho demorou a se virar. Tinha o rosto marcado, os cabelos quase sem cor e olhos mais atentos do que o restante de sua aparência fazia supor.
— Desculpe. Eu não ser daqui. Seu idioma ainda difícil.
Móretar manteve uma das mãos próxima à espada. A pronúncia não lembrava os povos que conhecia, nem mesmo os que usavam louvez nas regiões mais distantes.
— De onde veio?
O homem observou a floresta, o rio e o céu, como se procurasse uma resposta que pudesse ser expressa naquele idioma.
— Direto vou ser. Sua irmã está viva.
Móretar ficou imóvel.
— O que disse?
— Sua irmã não morreu.
A mão dele se fechou no cabo da espada.
— Como sabe que tenho uma irmã?
O velho se levantou com dificuldade.
— Muitas perguntas. Poucas respostas posso dar. Não foram inimigos que você conhece. Foram aqueles que acredita amigos.
Móretar avançou um passo.
— Quem levou minha irmã?
Um relâmpago cortou o céu. O clarão desceu diante do homem, mas não o atingiu. A luz permaneceu aberta no ar, formando uma passagem instável onde antes havia apenas a margem do rio.
O velho olhou para ela com surpresa.
— Algo impossível aconteceu. Queria explicar mais, mas preciso ir. Tentarei voltar.
— Espere.
— Boa sorte.
O homem avançou para dentro da passagem.
Móretar não pensou. Quando o corpo do velho começou a desaparecer na luz, ele já estava correndo.