Parte 25
Morgana corria sob uma sequência de raios concentrados. Cada disparo atravessava folhas, abria sulcos nos troncos e deixava no ar o cheiro seco de madeira queimada.
Ela mantinha a varinha voltada para trás. Campos magnéticos alteravam a direção dos raios, desviando-os por pouco de sua cabeça e de suas costas. Responder aos ataques consumiria a energia de que precisava para fugir. Se Merlin aparecesse, aquela reserva seria sua única chance.
Passara anos escondida, ampliando os poderes da própria simbiose e preparando um confronto que ainda não podia vencer. Alguém descobrira sua camuflagem antes que ela estivesse pronta.
Um raio atingiu o galho à frente.
— Esse passou perto.
Morgana mudou de direção e desceu perto de um povoado. Homens surgiram entre as árvores antes que ela alcançasse as primeiras casas. Formaram um círculo e ergueram as varinhas.
Ricciardo ocupava o centro.
Ainda era chamado de rei, embora houvesse entregado o governo a Merlin. Restara-lhe o comando de uma tropa e a satisfação de executar ordens contra quem não podia enfrentá-lo.
— Renda-se, Morgana. O Mestre Merlin deseja encontrá-la viva. Temos autorização para matá-la se você resistir. Venha por bem, por favor.
— Conheço o que acontece depois do seu “por favor”.
Ela apontou a varinha para Ricciardo e deixou a outra mão atrás do corpo, curvada para cima. A posição lhe permitia inverter um feitiço disparado pelas costas, desde que percebesse o ataque a tempo.
O círculo se fechou.
Flechas elétricas caíram sobre os homens de Ricciardo. Algumas atravessaram as proteções e descarregaram energia no chão; outras prenderam roupas e braços aos troncos. Morgana saltou para a copa de uma árvore e respondeu ao ataque enquanto procurava o arqueiro.
— Com mil demônios! — gritou Ricciardo. — Mr. Locksley, seu acordo de perdão está prestes a perder a validade. Ainda podemos chegar a uma solução favorável para todos.
— Não pedi perdão e não negocio com opressores.
A voz vinha de diferentes pontos da mata. A cada frase, outra flecha partia.
Ricciardo protegeu o rosto atrás do braço.
— Seria uma pena se os povoados de Lady Anne e Da Vinci fossem destruídos por causa desta batalha.
Os disparos cessaram.
A ameaça atingira o alvo, embora Ricciardo já tivesse perdido homens demais para continuar. Ele ordenou a retirada e deixou alguns soldados procurando rastros.
Quando perceberam que Morgana desaparecera, ela e Robin Locksley já atravessavam as copas sem tocar o chão.
— Por que veio me ajudar? — perguntou Morgana.
— Prefere que eu volte e a entregue?
— Quero saber se alguém mandou você. Nós nunca havíamos nos encontrado.
Robin diminuiu o ritmo para ouvi-la.
— Eu monitorava os homens de Ricciardo. Pela quantidade, imaginei que escoltariam um carregamento de Kirken ou algum objeto poderoso. Costumo tomar essas coisas antes que cheguem a Merlin. Quando vi a emboscada, entendi por que eram tantos. Já tinha ouvido falar de você e do medo que ele sente por causa de uma vida anterior. Ajudá-la pareceu melhor do que deixá-lo conseguir o que queria.
— Obrigada.
Morgana esperou que ele explicasse o destino.
— Vamos para Canaã. Preciso saber se Ricciardo terá coragem de cumprir a ameaça contra Lady Anne. De lá, envio alguém para avisar Da Vinci, em Noviteh.
— Quantos povoados dependem da sua proteção?
— Mais do que deveriam.
Canaã era um conjunto de casas cercado por árvores carregadas de frutos. Não havia muralhas. Os moradores haviam transformado a mata em defesa, ligando raízes, passagens e plataformas que só apareciam para quem conhecia o caminho.
Lady Anne correu ao encontro de Robin e o beijou. Depois percebeu Morgana.
— Você demorou. O que aconteceu?
— Encontrei uma bruxa perseguida por Ricciardo. Ele levou mais homens do que costuma usar para proteger um carregamento de Kirken.
Lady Anne examinou Morgana.
— O que você tem para Merlin desejar tanto?
Robin lhe lançou um olhar de advertência.
— Ela perguntou o que todos estão pensando — disse Morgana. — Merlin acredita que posso chamar a Excalibur.
Os dois reconheceram o nome.
Morgana contou que recebera a espada na Terra, durante a primeira vida, das mãos de alguém que julgara ser uma divindade. A arma atravessava mundos e mortes ligada a seus portadores. Seu irmão a carregara depois dela e matara Merlin. Agora a conexão havia mudado.
— Não sei quem a possui — continuou. — Sinto apenas que ela escolheu outro dono. Todos que a empunharam ou morreram por ela parecem continuar presos ao mesmo caminho.
Um homem surgiu entre as casas, sem fôlego.
— Robin! A Ordem dos Bruxos está vindo.
Robin chamou Widlorg e o enviou a Noviteh. Os arqueiros de Canaã ocuparam as plataformas, distribuindo flechas encantadas e fios de metal. Alguns moradores conduziram crianças e pessoas feridas para túneis sob as raízes.
— Eles sabem por que vão lutar? — perguntou Morgana.
— Sabem o que Ricciardo faz quando encontra um povoado indefeso.
— Lealdade não impede que sejam esmagados. Você tem algo além de arqueiros?
— A nossa chegada responde? — perguntou uma voz atrás dela.
Paracelso saía da mata acompanhado por integrantes do Coven Wangarium. Morgana conhecia as histórias sobre o grupo, embora nunca tivesse visto seu líder.
— Você sabe quem eu sou?
— Poucos conhecem a história da bruxa que recebeu a Excalibur na Terra das mãos de Lilith.
O nome percorreu o grupo.
Morgana sentiu a própria lembrança se alterar. A figura que lhe entregara a espada perdera o contorno divino e ganhara uma identidade.
— Lilith?
Paracelso ergueu a varinha.
— Contei algo que nem você sabia. Se sobrevivermos, explicarei o que conheço.
Uma barreira de fogo surgiu acima das casas. Dezenas de raios atingiram as chamas e se espalharam pelo céu.
A Ordem dos Bruxos havia chegado.