Parte 30
Carl não precisou recuperar o fôlego para começar.
— As casas expulsaram os moradores. Trancaram portas, quebraram móveis e começaram a atirar objetos pelas janelas. Parte do povo está no campo. O restante procurou as construções mais afastadas.
Móretar olhou para a cidade. Nenhuma pessoa circulava entre os edifícios.
— Onde está Hermes?
— Desapareceu depois do ataque dos vampiros.
Móretar sobrevoou os telhados e chamou por ele. Uma janela se abriu. Panelas, facas e pedaços de lenha foram lançados de várias casas ao mesmo tempo. Móretar desviou os objetos com o vento e os depositou no chão.
— Hermes, pare. Há crianças dormindo no campo por causa disso.
Uma das casas soltou uma coluna de fumaça. Hermes saiu pela porta e subiu até alcançá-lo.
— Achei que as casas poderiam obrigar você a ficar.
— Você atacou o povo para me chantagear.
Hermes olhou para as ruas vazias.
— Muita coisa mudou desde que Elaryan entrou em nossas vidas. Cronos e eu já fomos tratados como deuses. Depois de uma morte, ele perdeu grande parte dos poderes. Acredita que Elaryan escolheu esse limite. Passamos a preservar o que já existia porque qualquer mudança podia trazer outra perda.
— E quem decidiu que o medo de vocês seria pago por todas essas pessoas?
Hermes não respondeu.
Móretar desceu com ele. Carl aguardava na rua, acompanhado de Sália e dois representantes dos Irkaré. Moradores observavam de longe.
— As casas precisam ser devolvidas aos moradores agora — disse Móretar.
Hermes tocou a parede mais próxima. Portas e janelas se abriram por toda a cidade. Objetos pararam de se mover.
— Você conhece essas construções melhor que qualquer pessoa — continuou Móretar. — Por isso vai ajudar a reparar cada uma. A partir de hoje, nenhuma ordem capaz de atingir todas as casas ficará nas mãos de uma pessoa só.
Sália cruzou os braços.
— O conselho poderá bloquear qualquer comando geral. Os Irkaré acompanharão as alterações na rede, e Carl registrará quem autorizou cada uso.
Hermes levantou os olhos.
— Você ainda quer que eu permaneça no palácio?
— Quero que permaneça responsável pelo que fez. Depois disso, o povo decidirá se ainda confia em você.
Carl se aproximou de Hermes. Não havia satisfação em seu rosto, apenas a gravidade de quem recebera uma tarefa grande demais e decidira aceitá-la.
— Começaremos pelas casas onde há feridos — disse ele.
Hermes assentiu.
Carl começou a anotar os danos e os nomes das famílias que aguardavam para retornar. Sália chamou outros integrantes do conselho. Os Irkaré se dividiram entre as ruas.
Quando retornou ao grupo, um portal se abriu.
Athos atravessou primeiro. Krakor, Hagar e André vieram logo atrás. Bel, Agah e Nerfate correram ao encontro deles. Por alguns minutos, a praça se encheu de abraços, perguntas interrompidas e nomes chamados ao mesmo tempo.
Móretar encontrou André entre eles.
Parou diante do amigo, sem saber qual das muitas perguntas deveria fazer. André resolveu a distância com um abraço.
— Você está vivo.
— Outra vez.
Móretar apertou os olhos. Lembrou-se da luz de Memento desfazendo os vampiros e da própria decisão de usar a arma.
— Eu causei aquilo.
— E eu renasci em Kimmer com pessoas que ainda queriam arrancar sua cabeça — disse André. — Podemos discutir sua péssima ideia quando houver menos ameaças ao Universo.
André soltou o abraço. Móretar ainda não conseguiu sorrir.
Athos reuniu todos antes que as conversas se espalhassem.
— Sei onde estão Dafa e Adwig. Estão no Terceiro Universo, algumas galáxias além do planeta em que encontramos Médera e Lúcifer.
Móretar avançou um passo.
— Elas estão vivas?
— Consigo sentir as duas. Elaryan está perto.
Krakor explicou que a ruptura entre os Universos destruíra Vésper. Poucos habitantes de Atlantis haviam escapado. Silency fora dominada por uma simbiose imposta pelo ser que surgira na quebra dos campos de matéria escura.
Móretar procurou algum sinal de Dafa na informação sobre Vésper. Encontrou o Brasel junto ao portal e se obrigou a voltar a Athos.
— Médera está com Lúcifer? — perguntou.
— Os dois ficaram naquele planeta — respondeu Krakor. — Foi a última posição segura que tivemos.
Nerfate apontou as varinhas espalhadas pelo grupo.
— Nós também encontramos problemas. Merlin iniciou uma guerra, Perenelle transformou Hertho e Drácula em metal, e uma floresta tentou nos engolir. Athena retirou de Perenelle os poderes que ela havia roubado de outras pessoas.
Athena ergueu a peça dourada.
— Ainda não sei tudo o que veio com eles.
— Descubra devagar — aconselhou Athos.
Carl interrompeu as anotações e levou a mão ao peito.
— O Cálice reagiu quando Athena ergueu a varinha.
Móretar olhou para ele.
— Você está com o Cálice?
— Dentro do corpo. Foi a forma que encontraram de impedir outra pessoa de usá-lo sem passar por mim.
Athos se aproximou. Uma luz avermelhada desaparecia sob a roupa de Carl.
— Mantenha distância das outras armas enquanto não soubermos o que provocou a reação.
— Ele ficou quieto até hoje — respondeu Carl.
— Hoje encontramos artefatos demais — disse Athena.
Trovar contou sobre as casas. Sália acrescentou que Hermes já começara as reparações sob controle do conselho.
Athos ouviu até o fim e chamou Afrodite. Os dois se afastaram alguns passos. Ela fechou os olhos, segurou a mão dele e indicou uma direção que não correspondia a nenhum ponto do céu visível.
— Eu tinha certeza — disse Athos. — Vou me encontrar com Elaryan e descobrir o que aconteceu com Adwig e Dafa.
Krakor se preparou para acompanhá-lo. Móretar fez o mesmo.
— Irei sozinho — decidiu Athos.
— Você acabou de dizer que Elaryan está com elas — protestou Krakor.
— É por isso. Se chegarmos em grupo, ela poderá usar qualquer um de nós para mudar a decisão das duas. Preciso saber o que querem antes de tentar retirá-las de lá.
— Então leve alguém que conheça Elaryan — disse André. — Ela ainda tem interesse em mim.
Athos negou.
— Quero que Krakor encontre Teleret. Afrodite pode localizar seu filho, e Trovar conhece rotas que não dependem de mim. Também precisamos verificar como o outro filho de Krakor está vivendo em Key.
Móretar segurou o braço de Athos.
— Se não voltar, como chegaremos até elas?
Athos olhou para a mão dele e depois para seu rosto.
— Afrodite conhece a direção. O Ravik pode ajudá-los quando as passagens começarem a falhar. Encontrarão outro caminho.
A pequena criatura, que examinava a praça, ergueu a cabeça ao ouvir o próprio nome.
Athos abriu o portal.
Afrodite tocou sua mão.
— Tenha cuidado.
Ele respondeu com um movimento breve da cabeça e atravessou. Antes que a abertura se fechasse, alguma coisa pequena passou pelo chão e desapareceu atrás dele. Ninguém conseguiu identificar o que havia entrado.
— Alguém viu? — perguntou Athena.
Dranny circulou o ponto vazio. O Ravik seguiu a borda deixada pelo portal, perdeu o rastro e recuou.
— Saberemos quando Athos voltar — disse Trovar.
Móretar se voltou para Krakor.
— Vou com você procurar Teleret. Depois quero ir a Key.
— Pensei que ficaria com seu reino.
Móretar observou Sália, Carl e os representantes dos Irkaré conduzindo os moradores de volta às casas. Hermes seguia com eles.
— Se tudo desmoronar quando eu sair, nunca foi um reino. Era só um grupo esperando minhas ordens.
Krakor sorriu.
— Ainda acho que você nasceu para governar. É meu bisneto.
— Sua filha viveu tempo suficiente para tornar essa linha de sucessão pouco prática. E descobrimos que quase todo mundo tem algum parentesco com você.
— Você tem um ponto. Ainda existe outra razão para eu querer sua companhia. Pretendo encontrar seu avô e um velho amigo meu.
— Quem?
— Seu pai.
Móretar perdeu a resposta. Fazia muito tempo que ele não dizia a palavra pai. Agora precisava imaginar o encontro.
Afrodite passou entre os dois.
— E eu, evidentemente, serei usada para localizar toda a família.
— Seu espírito de colaboração continua admirável — respondeu Krakor.
— Meu espírito cobra caro.
O Brasel abriu as asas quando o grupo começou a se organizar. O Ravik escolheu a estrada que levava para fora da cidade e aguardou, atento ao primeiro passo de cada um.