Parte 49
Móretar permaneceu em Paradise até o último grupo voltar das colinas.
Os nomes recolhidos durante a batalha foram comparados aos registros dos recém-renascidos. Juperas cruzavam a planície levando placas, descrições de corpos e informações sobre os planetas de origem. Móretar percorreu as filas com Dafa, ainda carregando o suporte queimado do equipamento de Carl.
Encontrou Bornurar perto de um canal. Seu pai vestia uma manta presa à cintura e ajudava um grupo a transportar água.
Móretar correu até ele.
Bornurar recebeu o abraço com surpresa. Depois o apertou até Móretar perder o ar.
— Sua mãe está na fila dos curadores. Tim e Van reapareceram ligados a ela. Continuam assustados e se recusam a sair.
— E Clarm?
— Ainda não encontramos.
Magibre estava sentada sob uma cobertura improvisada. Os dois pequenos animais ocupavam seus ombros numa meia-simbiose apertada. Quando viu o filho, levantou depressa demais e precisou se apoiar nele.
— Você veio — disse.
— Prometi que encontraria vocês depois da batalha.
— Morremos antes de saber que ela tinha começado.
Magibre contou que o sono se tornara mais profundo em Key. O vírus abandonara os corpos de uma vez. Ela despertara nua em Paradise, com Bornurar a vários quilômetros e sem saber se Móretar ainda vivia.
— Adwig colocou uma marca nas partículas antes da ruptura — explicou Dafa. — Foi isso que trouxe vocês para o mesmo planeta.
Bornurar olhou para os recém-renascidos espalhados pela planície.
— Ela salvou nossa continuidade depois de decidir por uma morte que nenhum de nós conhecia.
— Sim — respondeu Móretar.
O pai esperou uma justificativa. Móretar não tinha uma que diminuísse a violência daquela escolha.
— Quero ouvir dela — disse Bornurar. — Quando houver menos pessoas procurando os próprios filhos.
Continuaram procurando Clarm.
Encontraram a irmã de Móretar perto das formações élficas. Ela organizava os Fortenses em grupos pequenos e anotava quem ainda faltava. A máscara religiosa havia desaparecido com o corpo anterior. Mesmo assim, Clarm desenhara o símbolo das Fadas Essenciais no braço usando barro claro.
Móretar parou diante dela.
— Demorou — disse Clarm.
— Paradise está cheio.
— Também precisei achar pessoas que dependiam de mim.
Ele olhou para a marca em seu braço.
— Descobriu o que ainda é verdadeiro?
— Descobri que os Krais mentiram sobre muitas coisas. As pessoas que me alimentaram quando eu estava sozinha continuam tendo feito isso. Uma mentira sobre a origem não apaga o que elas fizeram.
Móretar assentiu.
— Nossos pais estão aqui.
Clarm perdeu a firmeza no rosto.
— Os dois?
— Os dois.
Ela entregou as placas a outra Fortense e acompanhou o irmão. Magibre reconheceu a filha antes que Móretar dissesse o nome. Bornurar chamou Clarm de pequena, recebeu uma reclamação imediata e voltou a abraçá-la.
Móretar se afastou alguns passos.
Dafa encostou no ombro dele.
— Você passou metade do Universo procurando essa cena.
— Agora não sei onde colocar as mãos.
— Pode começar usando uma para segurar a minha.
Ele segurou.
Trovar reuniu os sobreviventes que ainda exigiam respostas. Explicou que Athos e Elaryan haviam chegado a uma região próxima do colapso do Universo. A matéria retornava ao ponto do qual se espalhara. Quando a concentração terminasse, uma nova expansão começaria.
As condições físicas repetiam grande parte dos mesmos resultados. Mundos e espécies tornavam a se formar. Pessoas semelhantes voltavam a existir e percorriam caminhos parecidos. Pequenas diferenças conseguiam alterar acontecimentos posteriores.
— Elaryan conserva lembranças organizadas dessas repetições — contou Trovar. — Ela reforçou profecias e crenças que conduziam pessoas aos pontos de que precisava. Athos recebe fragmentos. Elaryan acredita que ele ainda os entende como visões.
Móretar lembrou as profecias sobre o jovem levado, depois da primeira morte, para viver entre imortais. Durante muito tempo, tentara descobrir se era o escolhido descrito por elas.
— Então alguém preparou o caminho antes de eu nascer.
— Preparou as expectativas — respondeu Trovar. — Suas decisões continuaram produzindo consequências que ela não controlava por completo.
Móretar olhou para o metal queimado na própria mão.
— Carl também fazia parte de uma profecia?
— Não encontrei nenhuma sobre ele.
— Ainda assim, foi levado pela arma.
— Elaryan reduz diferenças para conservar o resultado que conhece. Isso não significa que conheça cada pessoa que o torna possível.
Trovar não explicou mais. Partiu depois de avisar que voltaria quando Érebo pudesse testar quem sobreviveria à nova expansão.
Móretar retornou a Key com os pais, Clarm e Dafa.
A casa onde Bornurar e Magibre haviam vivido continuava ocupada pelos corpos mortos. Tim e Van reagiram antes que alguém se aproximasse. A meia-simbiose se desfez, e os dois correram até suas formas anteriores, farejando roupas que ainda guardavam o cheiro da família.
Magibre cobriu o próprio rosto. Bornurar a conduziu para fora.
Clarm permaneceu na porta.
— Se nossa primeira vida terminou, esta casa ainda pertence a nós?
— Pertence a quem decidir viver nela — respondeu Bornurar. — Eu não consigo hoje.
Passaram as primeiras noites num alojamento perto da praça central. Depois escolheram outra casa, menor e afastada do antigo trajeto de trabalho. Magibre levou algumas roupas. Bornurar recuperou seus registros. Clarm guardou dois objetos religiosos e deixou o restante para o arquivo dos Fortenses.
Móretar não escolheu um quarto definitivo. Dormia ali quando estava em Key e partia para Inc sempre que as ligações com Ux exigiam ajuda.
Os deslocamentos entre os dois lugares começaram como resgates. Famílias que recusavam permanecer em Ux atravessavam para Inc. Moradores de Inc visitavam a cidade suspensa para aprender a trabalhar com as ligações de energia. Depois vieram trocas, pesquisas e disputas sobre o espaço ocupado pelas novas construções.
Oberon tentou representar todas as fadas numa negociação. Meili interrompeu a reunião e perguntou quem lhe dera essa função. A discussão durou dois dias. No terceiro, cada bairro enviou representantes escolhidos para aquela tarefa, com prazo para voltar e apresentar o que fora decidido.
Móretar participou sem coroa.
Algumas pessoas ainda o chamavam de rei. Ele respondia pelo nome. Quando insistiam em pedir uma ordem final, devolvia o problema aos grupos afetados e apresentava sua opinião depois que todos falavam.
Nem sempre funcionava. Certas reuniões terminavam sem acordo, e a ausência de uma ordem deixava famílias esperando. Em outras ocasiões, pessoas com mais energia dominavam a conversa até que alguém interrompesse a ligação coletiva. Móretar aprendeu que distribuir poder também distribuía demora, responsabilidade e erro.
No segundo ano, levou Meili e Iduna a Key.
Clarm recebeu as duas no Templo Flutuante. Os Fortenses esperavam encontrar representantes das Fadas Essenciais. Descobriram pessoas de outro mundo, com histórias próprias, conflitos recentes e nenhuma intenção de confirmar os textos sagrados.
Uma sacerdotisa perguntou se a luz das asas vinha da mesma origem descrita nos arquivos.
— Vem do nosso corpo — respondeu Meili. — O que vocês decidiram chamar de origem pertence à história de vocês.
Clarm pediu que mostrassem como Ux distribuía a energia. Iduna desenhou as ligações no chão do templo. As Lumberas correram sobre os traços e alteraram parte do fluxo para acompanhar as árvores de Key.
As conversas não encerraram a religião. Alguns Fortenses abandonaram os Krais. Outros conservaram os rituais e retiraram deles a exigência de obediência. Um grupo recusou qualquer mudança e acusou Clarm de entregar os templos a estrangeiros.
Ela continuou participando.
— Você ainda acredita nas Fadas Essenciais? — perguntou Móretar depois de uma reunião.
— Acredito em coisas diferentes a cada ano.
— Parece cansativo.
— É melhor do que receber uma resposta pronta.
Bornurar voltou ao trabalho de fiscalização, agora acompanhando os registros públicos de Key. Magibre colaborou com os curadores que estudavam as diferenças entre os corpos da primeira vida e os recém-formados depois da morte. Tim e Van aprenderam a deixar a meia-simbiose durante algumas horas, embora retornassem aos ombros dela sempre que um portal se abria.
Móretar conheceu a família sem a urgência de perdê-la no mesmo dia. Descobriu que o pai organizava ferramentas por tamanho, que a mãe cantava quando acreditava estar sozinha e que Clarm desaparecia no meio de discussões para comer antes de voltar a brigar.
Também descobriu que estar reunido não eliminava o tempo de separação. Houve acusações, silêncios e dias em que ninguém conseguiu conversar. A família não recuperou os anos perdidos. Construiu outros.
Móretar procurou Médera depois de deixar Paradise.
Encontrou-a em Key, planejando canais para os sobreviventes de Atlantis. Dafa permaneceu com Adwig durante a conversa.
— O que tivemos não foi um erro — disse Médera. — Quero descobrir o que ainda existe entre mim e Krakor. Não consigo fazer isso enquanto mantenho outra relação ao mesmo tempo.
— Eu não precisava que continuasse para saber que foi real.
Médera segurou a mão dele.
— Você ficou mais sensato.
— Perdi a espada.
— Talvez fosse ela que tomava as decisões ruins.
— Algumas eram minhas.
Os dois riram. A intimidade terminou ali; a amizade sobreviveu a discussões sobre o tridente, os canais e quase todas as opiniões de Krakor.
Dafa manteve quartos em Key, Inc e no Palácio. Móretar demorou a entender que ela podia amá-lo sem escolher um único lugar para morar. Ele também passava meses fora e voltava esperando encontrar tudo no mesmo ponto. Em algumas viagens, Dafa estava com Adwig. Em outras, chegava sozinha poucos dias depois.
Mantelar recebeu Móretar com desconfiança na primeira conversa. Tinha razões para isso. Móretar e Dafa haviam participado de uma parte da vida de Adwig que ele conhecia apenas pelos relatos dos outros.
Nenhum acordo resolveu todos os incômodos. Definiram que ninguém entraria escondido no Palácio e que uma relação não criaria obrigação para as demais. Algumas aproximações aconteceram. Outras foram recusadas. Móretar voltou para Inc mais de uma vez depois de uma conversa difícil e aprendeu a retornar sem exigir que tudo estivesse resolvido.
No sexto ano, encontrou o suporte de Carl entre as ferramentas.
Passara muito tempo pesquisando as armas reunidas. Nenhum registro explicava se uma partícula absorvida pelo Cálice continuava separada dentro da composição. Trovar repetia que só teria resposta quando alcançassem Elaryan.
Móretar levou o metal até Hertho e Coneli. Os dois reconstruíram o aparelho, preservando a parte queimada. Instalaram-no numa oficina de Ux para medir os limites das ligações coletivas.
— Carl usaria melhor — disse Coneli.
— Por isso deve ficar onde outras pessoas possam usar — respondeu Móretar.
Uma pequena placa passou a trazer o nome dele. Nenhuma inscrição o chamou de herói.
Os anos avançaram.
Ux deixou de depender da força permanente de uma única pessoa. Alguns bairros se separaram da massa principal e desceram para Inc. Outros decidiram conservar a cidade suspensa. Titania e Oberon responderam pelo acordo com Odin diante de assembleias diferentes. Foram afastados de funções de comando e continuaram contribuindo nos turnos de sustentação.
Inc cresceu ao redor das novas comunidades. Freya, Loki e os moradores locais contestaram projetos que consumiam espaço ou energia sem consulta. Móretar perdeu votações, refez propostas e abandonou uma ponte depois que os responsáveis pela água demonstraram que ela alteraria o rio.
O poder que desejara quando jovem continuava nele. Podia mover o vento, atravessar mundos com ajuda e sobreviver a forças que destruiriam outros corpos. Já não precisava que cada capacidade terminasse numa ordem.
Quando Trovar voltou, faltavam poucos dias para os vinte e cinco anos.
Os testes de Érebo aconteceram no Palácio. Móretar viajou com Dafa, Bornurar, Magibre e Clarm. Seus pais recusaram participar. Clarm aceitou o teste, perdeu a ligação em poucos segundos e disse que preferia permanecer perto deles durante o fim.
Dafa sustentou a projeção por mais tempo. Móretar acreditou que ela conseguiria atravessar. Então a imagem perdeu definição e retornou ao corpo.
Trovar encerrou a ligação.
Móretar entrou na área marcada.
Érebo tocou sua partícula. Uma forma dele surgiu ao lado do corpo e permaneceu ligada quando Trovar ampliou a força.
— Você pode atravessar — confirmou.
Móretar procurou Dafa.
Ela esperou que ele saísse da marca.
— Você não vai transformar isso numa missão para me encontrar — disse.
— Eu gostaria de encontrar você.
— Pode desejar. A próxima Dafa não deve coisa alguma ao homem que se lembra desta.
Móretar pensou na primeira vez em que atravessara um portal agarrado à perna de Krakor porque precisava encontrar Clarm. Pensou em todas as vezes em que confundira urgência com direito sobre o caminho dos outros.
— Então levarei o desejo e a possibilidade de receber outra resposta.
Dafa beijou a testa dele.
— Agora parece você falando.
Nos últimos dias, Móretar voltou a Key. Acompanhou os pais até a casa escolhida depois do renascimento. Clarm preparou comida demais e reclamou que o fim do Universo não justificava desperdício. Tim e Van circularam a mesa à procura do que caía.
Bornurar entregou ao filho uma cópia dos registros da família.
— Talvez não atravessem como objeto — disse Móretar.
— Leia antes. Depois carregue do jeito que conseguir.
Magibre abraçou o filho e permaneceu junto dele até Clarm exigir espaço. Os quatro falaram ao mesmo tempo, interromperam despedidas e voltaram a assuntos pequenos. Ninguém tentou encontrar uma frase capaz de resumir a família.
Móretar deixou com eles o suporte de Carl. A peça retornaria à oficina de Ux caso algum mundo permanecesse acessível até o último dia.
Quando Trovar chamou os compatíveis, Dafa acompanhou Móretar até o limite da ligação.
— Eu amo você — disse ela.
— Eu amo você.
— Isso vale para esta vida.
— Foi a vida que tivemos.
Móretar a beijou. Não prometeu encontrá-la.
Érebo puxou sua projeção.
Do lado de dentro, ele percebia Adwig, Silency, Sussurro, André, Henri, Magno, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar. Trovar mantinha todos ligados enquanto procurava Athos.
Móretar buscou Dafa por reflexo. Encontrou o espaço deixado por ela e os outros viajantes ao redor.
Os sete planetas ainda eram visíveis através da arma reunida. Pontos de luz abandonavam cidades, casas, oceanos e florestas, atraídos para a lâmina nas mãos de Elaryan. Móretar procurou entre as cores aquela produzida pelo Cálice. Continuava ali.
Carl podia estar com ela.
Athos enfrentou Elaryan perto do colapso. Trovar concentrou Érebo. Houve um movimento que Móretar não acompanhou e uma explosão branca. Quando as formas voltaram, Elaryan havia desaparecido. Athos segurava a arma.
Trovar ampliou a ligação para alcançá-lo.
Móretar quis perguntar por Carl. O Universo perdeu forma antes que pudesse.
Durante toda a vida, aprendera a mover o vento.
No fim, procurou por ele e não encontrou.
Seguiu mesmo assim.