Parte 24 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 24 de 49
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Parte 24

Móretar encontrou o antigo portador da Excalibur ainda ajoelhado.

O homem havia lutado quando a praça se desfez em sangue. Agora mantinha a cabeça baixa, enquanto os três companheiros dele cuidavam do rapaz que Cronos tentara atacar.

— Esta espada é sua, Arthur?

O nome veio de Memento. Junto dele, Móretar recebeu imagens de batalhas, juramentos e uma lâmina atravessando mãos demais. Arthur ergueu os olhos.

— Não, meu senhor. Essa espada agora é sua.

— A humildade em um rei é uma das qualidades mais admiráveis. Mas você entendeu a frase pelo lado errado. Eu afirmei: esta espada é sua.

Arthur franziu a testa.

— Não entendi.

— Levante-se.

Quando Arthur obedeceu, Móretar se arrependeu da forma da ordem. A praça acabara de lhe mostrar que qualquer frase sua encontraria corpos dispostos a cumpri-la. Ainda assim, segurou a Excalibur entre os dois.

— Ela pertence a quem tem dignidade para empunhá-la e força para chamá-la de volta quando for necessário. Um guardião justo de espada sempre será seu dono. É minha neste instante e também será sua enquanto você continuar capaz de merecê-la. Um rei verdadeiro deixa de estar no trono muito antes de deixar de ser rei.

Arthur demorou a aceitar o abraço que veio em seguida. Depois apoiou a mão no ombro de Móretar.

Os demais se apresentaram como Hertho, Agah, Coneli e André. O espanto deles ao ouvirem o nome de Móretar deixou claro que aquele encontro começara antes de sua chegada. Também o conheciam de algum lugar ao qual ele ainda não tinha acesso.

Coneli permanecia sentado no chão, com os dois braços quebrados. Hertho tentava imobilizá-los. Agah observava Memento com atenção. André escondia o cansaço sob uma curiosidade que parecia incapaz de esperar.

Móretar quis interrogá-los. A cidade ao redor impediu.

Havia feridos sem atendimento, famílias separadas e vampiros ajoelhados perto de pessoas cujo sangue ainda cobria suas bocas. Memento mostrou alojamentos lotados e casas vazias. Mostrou depósitos de alimento, oficinas sem trabalhadores e ruas onde recém-chegados passariam a noite se ninguém alterasse o funcionamento de Fóster.

Sália e Irkaré se aproximaram. Os dois haviam passado a batalha conduzindo pessoas para fora da praça.

— Preciso de vocês comigo — disse Móretar. — Se eu começar a falar como Cronos, interrompam.

Sália olhou para a espada.

— Ele permitiria?

— Eu espero que não.

Móretar chamou Hermes.

O antigo rei desceu na Rér, sem encarar os vampiros. A placa dourada parou diante do grupo.

— Hermes, autorize moradias pessoais para todos. Cidadãos antigos, renascidos recém-chegados e os vampiros que conseguirem permanecer sob controle. Ninguém vai dormir em praça pública porque a nossa organização se acostumou a negar espaço.

— Mas, Móretar...

A reação da multidão cercou Hermes antes de qualquer ameaça pronunciada. Móretar sentiu a Excalibur aquecer em sua mão. Memento lhe ofereceu rotas, números e meios de remover o antigo rei dali.

Ele baixou a espada.

— Rei Móretar — corrigiu Hermes. — Isso comprometerá quase toda a organização do planeta. A maioria dos cidadãos ainda não tem casa pessoal. Abrir exceção exigiria abrir para todos. E nada garante que conviver com essas criaturas seja seguro.

— Não é uma exceção se alcançar todos — disse Irkaré.

Hermes o encarou. Poucas horas antes, aquele homem trabalhava sob uma escala definida pelo palácio. Agora falava ao lado do novo rei.

Memento abriu a distribuição de Fóster na mente de Móretar. Menos de um centésimo do planeta estava ocupado. Mais de vinte por cento das casas idealizadas pertenciam a poucas pessoas e permaneciam vazias. Mesmo depois de assegurar uma moradia a cada habitante, mais de trinta por cento da área continuaria livre.

Os dados chegaram completos demais. Móretar desconfiou da facilidade com que se transformavam em certeza.

— Você vai iniciar a distribuição — disse a Hermes. — Irkaré conhece as pessoas que fazem a cidade funcionar. Sália conhece quem aprendeu a desaparecer dentro dela. Os dois participarão das decisões. Amanhã, formaremos conselhos por setor para revisar os critérios e os registros.

— Amanhã? — perguntou Hermes.

Móretar olhou as famílias reunidas no chão da praça.

— Hoje você encontra teto para quem não tem. Amanhã começamos a descobrir quantas injustiças cabem nos números que acabei de receber.

Hermes ainda tentou apontar o risco dos vampiros.

— Memento consegue contê-los por algumas horas. Teremos de encontrar uma solução antes que a sede retorne. Use o risco para organizar abrigo e vigilância. Se usá-lo para preservar privilégio, eu saberei.

Não houve resistência. Hermes partiu, seguido por servidores que já reorganizavam listas e veículos.

A ordem resolveria aquela noite. Móretar não sabia o que faria com a manhã seguinte.

Ele pediu que os feridos fossem levados para atendimento e conduziu Arthur e os outros até uma taverna. Precisava ouvir o que haviam vivido e queria uma caneca antes disso.

O lugar estava cheio. Quando o reconheceram, homens e mulheres começaram a oferecer os próprios bancos.

— Ninguém vai perder a festa para me ceder lugar. E o barman também merece beber.

Móretar estendeu a mão. Memento respondeu antes que ele decidisse como começar. O ar entrou entre vigas, ergueu o teto e trouxe madeira das construções próximas. Paredes se afastaram. Um segundo piso surgiu, depois um terceiro. A máquina de cerveja lançou mangueiras pelas mesas, servindo as canecas sem exigir alguém atrás do balcão.

O trabalho terminou depressa. Depressa demais.

Tranco, o responsável pela taverna, olhou as novas paredes e abandonou o balcão sob aplausos. Móretar recebeu uma caneca.

— Isso veio de você? — perguntou André.

— Parte. Memento enxerga as ligações entre as coisas. Máquinas, plantações, casas, pessoas. Quando penso em uma necessidade, ele encontra um caminho.

Móretar bebeu. A cerveja gelada desceu com facilidade e voltou à cabeça com a mesma eficiência.

— O problema é que ele encontra rápido demais.

Pousou a caneca e sentiu os vampiros espalhados pela cidade. A contenção perdia força aos poucos. Havia fome atrás de cada corpo imóvel.

— Temos cerca de seis horas antes que a luz deixe de controlá-los. Outra emissão na mesma intensidade atravessaria as partículas que sustentam esses corpos. Mataria todos.

Hertho terminou de prender o braço de Coneli a uma tala improvisada.

— Ficamos presos aqui até André morrer e chegar. Zeus o rastreou. Os dois lutaram. Um amigo dele fortaleceu a simbiose que André carrega agora.

— Qual simbiose? — perguntou Móretar.

André hesitou.

— Dragão.

O efeito começou perto da mesa.

Um vampiro ergueu o rosto. Outro apertou o banco até partir a madeira. A sede que Memento mantinha afundada encontrou o sangue de André e cresceu contra a contenção.

Arthur percebeu o movimento.

— Acho que eles querem o sangue dele.

— Corre, André — disse Hertho.

André saiu. Os vampiros o seguiram.

Móretar tentou ordenar que parassem. Nenhum deles ouviu. A obediência da praça terminara onde a fome começava.

Quando alcançou a rua, André já havia assumido a forma de um dragão. Voava sobre os telhados, cuspindo fogo. Atrás dele, os vampiros se transformavam em diferentes espécies de morcego. Alguns mantinham quase o tamanho humano. Outros cobriam fachadas com as asas.

Móretar subiu com uma corrente de vento. Arthur veio abaixo dele, correndo pelas ruas. Hertho e Agah tentavam afastar os habitantes da perseguição.

O dragão perdeu altura.

Vampiros cobriram suas asas, o dorso e o pescoço. André caiu. O impacto devolveu seu corpo humano, e dezenas de bocas encontraram o sangue que a simbiose renovava. Quanto mais bebiam, mais o dragão produzia. André não conseguia morrer. Também não conseguia escapar.

Móretar pousou a poucos passos.

Memento mostrou a faixa estreita entre conter aqueles corpos e atravessar as partículas que os mantinham vivos. A claridade poderia separar os vampiros e interromper o fluxo, desde que Móretar a detivesse antes do limite. O conhecimento entrou nele com a firmeza de uma lembrança.

Arthur gritou alguma coisa atrás dele.

Móretar ergueu a Excalibur.

A luz alcançou André e todos os corpos sobre ele.

O sangue parou.

Durante um segundo, Móretar acreditou que conseguira.

Depois, André e os vampiros desapareceram.

A rua ficou vazia. Restaram marcas de fogo, madeira quebrada e uma poça de sangue que já não pertencia a ninguém vivo naquele planeta.

Móretar procurou os corpos por meio de Memento. Encontrou casas, máquinas, plantações, cada habitante de Fóster e cada conexão que permitia à cidade continuar funcionando. Não encontrou André. Não encontrou vampiro algum.

Arthur chegou perto dele.

— O que você fez?

Móretar olhou a claridade recolhida na lâmina.

Memento lhe mostrara o limite. Ele acreditara que conseguiria parar antes.

— Eu os matei.

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