Parte 41
Móretar encontrou Teleret no terceiro corredor abaixo do salão.
O rapaz estava diante de uma porta aberta, acompanhado por Leiva e Raquel. Nenhum dos três parecia saber se devia entrar.
— A reunião é para o outro lado — disse Móretar.
— Sabemos — respondeu Teleret. — Esta porta não estava aqui ontem.
Além dela havia uma sala circular, cercada por passagens idênticas. Cada entrada trazia um nome gravado na pedra.
Móretar leu os quatro.
— O Palácio construiu quartos para nós?
— Ele construiu alguma coisa — disse Raquel. — Ainda não sabemos o quê.
Leiva já olhava para a passagem que levava seu nome. Uma voz infantil veio de dentro.
Ela perdeu a cor.
— Minha filha.
Raquel segurou seu braço.
— Pode ser uma reprodução.
— Ainda assim, é a voz dela.
Leiva entrou. Raquel foi atrás. Teleret permaneceu diante da própria passagem, tenso demais para fingir curiosidade.
Móretar se aproximou da porta com seu nome. O ar que saía dali cheirava a terra molhada e flores de Inc.
— Se eu demorar, venha me buscar — falou.
— E se eu entrar primeiro?
— Então eu venho buscar você.
Teleret assentiu. Os dois seguiram em direções diferentes.
Móretar atravessou a entrada e chegou a um jardim.
O céu de Inc se abria acima das árvores. A vegetação cobria ruínas que ele conhecia, embora as pedras estivessem livres das marcas deixadas pela guerra. Abelhas pousavam em flores enormes. Fadas atravessavam o ar em pequenos grupos, sem fugir de coisa alguma.
Adwig estava sentada junto a um lago.
— Demorou — disse ela.
Móretar parou.
As roupas dela eram diferentes das usadas na noite anterior. O sorriso também. Não havia dúvida, Mantelar ou qualquer preocupação no rosto.
— O que é este lugar?
— Aquilo que você queria encontrar.
Ela se levantou e o beijou. O contato parecia real. O mesmo calor irregular, o mesmo frio que surgia de repente, o cheiro que ele reconhecera durante a dança.
Móretar afastou o rosto.
— Onde está Dafa?
Adwig apontou para o outro lado do lago.
Dafa vinha por uma trilha entre as flores. Trazia Excalibur presa às costas e uma expressão tranquila que Móretar nunca vira nela.
— Estava esperando por você — disse Dafa.
— Vocês saíram sem me acordar.
— Isso importa agora? — perguntou Adwig.
As duas se aproximaram. A resposta mais fácil seria aceitar. A noite permanecia recente, e o jardim oferecia a continuação sem perguntas.
Móretar ouviu outra voz atrás de si.
— Meu filho.
Virou-se.
Médera estava ao lado de Magibre e Bornurar.
Os reis de Inc pareciam mais jovens. Tinham os olhos abertos e nenhum sinal da imobilidade em que ele os deixara. Médera sorria entre eles.
Móretar correu até os três.
Abraçou a mãe primeiro. Depois tocou os braços dos pais, o rosto de cada um, as mãos que voltavam a responder.
— Vocês acordaram.
— Você nos trouxe de volta — disse Magibre.
— Inc está livre — acrescentou Bornurar. — O povo espera pelo seu rei.
Uma passagem surgiu entre as árvores. Do outro lado, milhares de fadas ocupavam a praça diante do castelo. Quando viram Móretar, curvaram-se.
Ele recuou.
— Parem.
Ninguém obedeceu.
— Levantem.
A praça inteira continuou ajoelhada.
Bornurar pousou a mão em seu ombro.
— Eles reconhecem o que você se tornou.
— Eles nunca fizeram isso.
— Porque ainda não compreendiam.
Médera apertou a mão do filho.
— Tudo terminou bem. Você não precisa lutar outra vez.
Era a frase que ele mais desejava ouvir. Por isso, soou errada.
Móretar olhou para Adwig. Ela já não parecia incomodada com a ausência de Mantelar. Dafa não fazia perguntas sobre o futuro. Seus pais haviam despertado sem explicação. O povo de Inc esperava por um rei e aceitava a ordem antes que ele a desse.
O Palácio reunira vontades que Móretar ainda não conseguira organizar e entregara todas prontas.
— Onde está Odin? — perguntou.
O jardim ficou silencioso.
— Ele se foi — respondeu Magibre.
— Como?
— Isso deixou de ser importante.
— Onde estão Freya e Loki?
Ninguém respondeu.
Móretar soltou a mão da mãe.
— E Krakor?
Médera abriu um sorriso pequeno.
— Está feliz por nós.
— Ele jamais diria apenas isso.
A luz do céu mudou. Adwig veio até ele.
— Você está procurando problemas porque não aprendeu a viver sem eles.
— Talvez.
— Fique.
Ela tocou seu rosto. O corpo de Móretar reagiu antes do pensamento, e o Palácio percebeu. Dafa apareceu logo atrás dela. Seus pais o chamaram. A multidão repetiu seu nome.
As vozes se sobrepuseram.
Móretar fechou os olhos.
Sentiu o movimento do ar. Nada naquela sala respirava por vontade própria. O vento contornava os corpos, atravessava as árvores e voltava pelo mesmo caminho, preso a uma repetição perfeita.
— Você errou — disse.
Adwig inclinou a cabeça.
— Em quê?
— Eu não quero um mundo que concorde comigo.
Móretar puxou Excalibur. A lâmina abriu uma corrente de ar dentro do jardim. As flores se dobraram. A praça desapareceu primeiro. Seus pais perderam contorno, seguidos por Dafa e Adwig.
Médera foi a última.
— Você vai me abandonar outra vez? — perguntou ela.
Móretar sentiu a pergunta atingir o ponto exato que a sala procurava.
— Minha mãe saberia que eu estou tentando voltar para ela.
Golpeou o chão.
O jardim se partiu.
Ele atravessou a abertura e caiu de joelhos na sala circular. Teleret estava caído perto da passagem oposta. Raquel tentava acordá-lo. Leiva chorava diante da própria porta fechada.
— Ela cresceu — disse Leiva. — O Palácio me mostrou anos que eu perdi.
— Mostrou os anos que você gostaria de ter visto — respondeu Raquel. — Ele começou com uma lembrança e continuou por conta própria.
Móretar se levantou e ajudou Teleret a sentar.
— O que ele mostrou a você?
Teleret demorou a responder.
— Uma vida em que ninguém precisava de mim.
— Parecia boa?
— Por algum tempo.
Passos vieram do corredor. Emma surgiu com Darca, seguida por Hermes.
— Saiam da sala — ordenou Emma. — O Palácio começou a cruzar memórias com desejos. Adwig está encerrando as funções que ainda respondem.
Hermes tocou a parede. As portas desapareceram uma após a outra. Leiva tentou impedir quando a passagem de sua filha começou a se fechar, mas Raquel a abraçou e não a deixou correr.
— Eu ouvi a voz dela — repetiu Leiva.
— Eu sei — disse Raquel.
Móretar conduziu Teleret para fora. Quando todos alcançaram o corredor, a entrada da sala também sumiu.
— O Palácio fez isso por maldade? — perguntou Teleret.
Hermes examinou a parede lisa.
— Ele aprendeu a satisfazer seus habitantes. Agora está tentando impedir que partam. Ainda preciso descobrir quando uma ordem começou a substituir a outra.
— Descubra depois que fechar tudo — disse Emma.
— Essa é a prioridade.
Leiva deixou o corredor apoiada em Raquel. Teleret seguiu com Darca. Móretar permaneceu diante da parede por mais alguns segundos.
Uma imitação de Inc fora suficiente para despertar sua vontade de voltar.
Não ao jardim oferecido pelo Palácio. Ao lugar onde Odin continuava vivo, seus pais permaneciam imóveis e o povo pagava por uma guerra que ele deixara inacabada.
O som de muitas vozes chegou do salão.
Móretar guardou Excalibur e foi para a reunião.
Athos já estava no centro do grupo. Tinha o rosto cansado e uma das mãos fechada sobre o cabo da espada.
— Vi outra parte — anunciou. — Desta vez, consegui permanecer até o fim.