Parte 21
Irkaré demorou a falar.
Cronos continuava de pé, com energia concentrada ao redor das mãos. Hermes examinava as peças presas à própria roupa. Nenhum dos dois mandou o servo sair.
— Pode responder — disse Móretar.
Irkaré olhou para os reis.
— Ele não pediu permissão a nós — advertiu Cronos.
— Foi exatamente o que ele fez durante a vida toda — respondeu Móretar. — Quero saber o que acontece se falar sem pedir.
Hermes tocou uma corrente dourada.
— Nada acontecerá enquanto estiver nesta sala.
Irkaré respirou fundo.
— E quando eu sair?
Hermes deixou a corrente cair.
Móretar se aproximou do servo.
— O que precisa mudar primeiro?
— Não sei governar, senhor.
— Eu também não. Sabe o que acontece com você quando se atrasa, onde dorme e o que recebe pelo trabalho. Comece por isso.
Irkaré contou que cada pessoa era examinada ao despertar em Fóster. A administração registrava força, resistência, conhecimentos e capacidade de obedecer a horários. O primeiro setor podia ser alterado durante alguns anos; depois disso, qualquer mudança dependia da autorização de responsáveis que perdiam trabalhadores quando aceitavam o pedido.
Filhos permaneciam no setor da família. A regra era apresentada como preservação de experiência.
— Minha mãe servia nos aposentos do leste — disse Irkaré. — Quando adoeceu, reduziu a produção do grupo. As horas que ela não cumpria eram divididas entre nós.
— Crianças? — perguntou Móretar.
— Família.
Cronos perdeu a paciência.
— Nenhum habitante de Fóster passa fome. Cada setor recebe alimento, alojamento e proteção. Compare isso aos mundos que se destroem por não possuir ordem.
— O homem que me trouxe caiu de produção porque veio me buscar. Um trabalhador foi esmagado pela carga enquanto passávamos, e ninguém podia ajudá-lo porque pertencia a outro setor.
— Exceções — disse Hermes.
Irkaré ergueu os olhos.
— Registros.
O silêncio alcançou os dois reis.
— Tudo é registrado — continuou ele. — Se outro setor ajudar, a produção é atribuída ao setor errado. O responsável precisa justificar a diferença. Às vezes, a justificativa custa mais do que deixar alguém terminar sozinho.
Móretar apontou para a porta.
— Chame a pessoa que limpava a entrada.
Irkaré hesitou.
— Ela não pode deixar o posto durante o período de recepção.
— Então iremos até ela.
Cronos desceu o último degrau.
— Você não transformará nossa casa numa reunião de servos.
— A profecia dizia que minha chegada mudaria o governo. Talvez a mudança seja uma reunião.
Hermes segurou o braço do companheiro antes que ele avançasse.
— Precisamos saber por que a mensagem o trouxe agora.
Cronos afastou a mão dele, mas a energia ao redor dos dedos diminuiu.
Saíram da sala do trono. A mulher continuava perto da entrada, recolhendo folhas antes que tocassem o piso. Chamava-se Sália. Trabalhava na propriedade desde que despertara em Fóster, havia cento e seis anos.
— Você gostaria de continuar fazendo isso? — perguntou Móretar.
Ela segurou três folhas contra o peito.
— Gosto do jardim.
— Perguntei sobre o trabalho.
— Se eu disser que gosto, continuo alojada. Se disser que não gosto, continuo trabalhando e recebo uma avaliação de conduta.
— E se pudesse escolher?
Sália observou as plantas do lado de fora.
— Cuidaria das árvores. As folhas não precisam ser retiradas antes de cair. O solo precisa delas.
Hermes pareceu surpreso.
— O piso fica sujo.
— Por isso as árvores do jardim adoecem — respondeu Sália. — Retiramos tudo o que poderia voltar para a terra e depois trazemos nutrientes produzidos nas fábricas.
Móretar pensou nas Lumberas e nas pontes dos Fortenses. Outra aparência de perfeição dependia de apagar o trabalho dos seres que a mantinham.
— Quem decide os procedimentos? — perguntou.
— O administrador de cada propriedade.
— Quero falar com um deles e com pessoas de outros setores.
Hermes utilizou uma das peças douradas para chamar quatro responsáveis. Todos chegaram pela mesma espécie de veículo que trouxera Móretar. Vieram acompanhados por trabalhadores escolhidos por eles.
Móretar recusou a seleção.
— Quero pessoas que decidam vir.
— Elas estão em horário de função — explicou um administrador chamado Téver. — Abandonar o posto compromete o abastecimento.
— Quanto tempo Cronos e Hermes levariam para compensar o que deixasse de ser produzido durante uma conversa?
Téver olhou para os reis.
— Alguns minutos.
— Então anunciem uma pausa.
Os responsáveis protestaram ao mesmo tempo. Sem os horários, não saberiam calcular cotas, distribuir alojamentos nem classificar eficiência. Cronos deixou que falassem até os argumentos começarem a se repetir.
Hermes anunciou a interrupção de um período de trabalho.
A notícia percorreu os dispositivos da cidade. Pouco depois, pessoas começaram a se reunir diante da propriedade. Algumas estavam curiosas. Outras temiam que a pausa precisasse ser compensada durante o descanso.
Móretar pediu que formassem grupos por setor. Trabalhadores das plantações disseram que desejavam reduzir o tempo de serviço, mas temiam perder o acesso aos alimentos que ajudavam a produzir. Pessoas responsáveis por reparos lembraram que água, transporte e energia exigiam atenção contínua. Quem cuidava de crianças e doentes explicou que esse trabalho sequer entrava nas contas quando era realizado dentro das famílias.
Téver ouviu tudo com os braços cruzados.
— Se cada pessoa fizer apenas o que deseja, tarefas essenciais serão abandonadas.
— Então precisamos descobrir por que são tão ruins e por que quem as executa recebe menos liberdade — respondeu Móretar.
— Alguém terá de decidir a distribuição.
— Alguém ou as pessoas afetadas por ela?
Uma agricultora levantou a mão.
— Nunca participamos das decisões. Se os reis puderem preparar o solo e fazer a colheita, ainda precisaremos cultivar, escolher sementes e cuidar do que cresce. Eles não conhecem cada plantação.
Cronos encarou a mulher.
— Posso aprender em um dia o que você aprendeu durante toda a vida.
— Pode receber o conhecimento — disse ela. — Quero ver perceber uma doença antes de aparecer nas folhas.
Algumas pessoas riram. Cronos não.
Móretar entendeu que substituir o trabalho de todos pelo poder dos reis manteria Fóster dependente das mesmas duas pessoas. Ainda assim, a capacidade deles podia impedir que a transição ameaçasse a sobrevivência de quem deixasse os postos.
— O trabalho obrigatório termina — disse. — Durante a mudança, Cronos e Hermes garantem alimento, água e energia. Cada setor escolhe pessoas para organizar o que continuar necessário. Essas pessoas podem ser substituídas por quem as escolheu.
Téver balançou a cabeça.
— Isso levará anos.
— Então começará hoje e continuará amanhã.
— E quem protege as propriedades? — perguntou outro administrador. — Quem impediria uma família de ocupar a casa construída por outra?
Sália apertou as folhas secas entre os dedos.
— A maioria de nós não tem casa para proteger.
A discussão cresceu. Alguns queriam acesso imediato às residências vazias. Outros temiam perder objetos acumulados durante séculos. Houve quem defendesse alojamentos coletivos por escolha, desde que deixassem de pertencer aos setores. Ninguém produziu uma solução capaz de encerrar as demais.
Móretar não tentou inventar uma.
— Precisamos falar diante da cidade — disse. — As primeiras garantias podem valer agora. O restante será decidido com representantes escolhidos fora da administração atual.
Hermes sugeriu o Grande Arco.
— É onde os reis fazem pronunciamentos.
— Quando foi a última vez? — perguntou Irkaré.
— Durante a grande seca — respondeu Cronos.
— Há mais de vinte anos — disse Sália.
Móretar descobriu que a população não podia subir ao Arco. O acesso era exclusivo dos reis e de convidados autorizados.
— Hoje isso também muda.
Irkaré se ofereceu para convocar os setores. Sália pediu para acompanhá-lo. Pela primeira vez desde o início da conversa, os dois saíram da propriedade sem receber uma ordem dos reis.
Quando a cidade começou a se reunir, Móretar subiu ao Grande Arco com Hermes e Cronos. Levava consigo as propostas escritas pelos grupos e a certeza incômoda de que quase todas ainda podiam falhar.