Parte 16 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 16 de 49
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Parte 16

Móretar demorou a compreender por que Médera obedecera. Um ataque frontal poderia destruir o disfarce, a missão e os dois. Permanecer imóvel também parecia uma forma de entregá-la.

Poseidon estendeu a mão para tocar o rosto dela.

Passos atravessaram a névoa.

Ferne surgiu primeiro. Mantelar vinha logo atrás e, à frente dos dois, caminhava uma mulher que Móretar conhecia apenas das lembranças compartilhadas em Éden e dos relatos de Médera.

Adwig.

Ela observou Médera ajoelhada, Poseidon diante dela e Móretar com os punhos fechados. Não perguntou ao rei o que estava acontecendo.

— Quer permanecer aqui? — perguntou a Médera.

Médera olhou para Poseidon.

— Perguntei a você.

— Não.

Poseidon segurou o ombro dela antes que se levantasse.

Uma descarga percorreu o braço do rei. Os músculos se contraíram e os dedos se abriram. Médera se afastou depressa e parou ao lado de Móretar.

Poseidon examinou Adwig. — A princesa de Key finalmente chegou.

— Rainha — corrigiu Mantelar.

Poseidon riu. — Então a filha de Krakor conquistou um título enquanto eu não prestava atenção.

— Não foi meu pai quem me deu o trono — respondeu Adwig.

Móretar a encarou. Havia alguma coisa familiar na maneira como ela sustentava a raiva sem desperdiçá-la. Adwig também o observou, embora as escamas escondessem o rosto e os olhos tivessem a forma de Torn.

Poseidon voltou-se para Médera.

— Marjone, aproveite Atlantis. Considere encerrado nosso encontro.

Médera não respondeu.

Ferne se aproximou do rei.

— Lorde Poseidon, o processo de nível quatro foi concluído.

— Percebi. Ela já interfere no sistema nervoso de alguém mais poderoso sem precisar tocá-lo.

— Continuo protegido? — perguntou Ferne.

— Protegido, não. Necessário. Recomendo que não descubra a diferença tarde demais.

Poseidon fez o tridente surgir e abriu uma passagem na névoa. A luz deformou a parede até produzir um caminho.

— A etapa seguinte está preparada.

Adwig olhou para Mantelar.

— Quero descobrir até onde isso vai.

— Eu também — respondeu ele.

Eros atravessou depois de Poseidon. Antes de partir, olhou para Móretar e sorriu. Ferne entrou por último. A parede se fechou atrás deles.

Médera permaneceu de pé até a luz desaparecer. Depois caiu sentada e cobriu o rosto.

O choro veio sem controle. Móretar se ajoelhou diante dela. Tentou abraçá-la, hesitou e acabou deixando os braços caírem.

— Eu ia atacar.

— Eu sei.

— Quando você se ajoelhou, achei que havia algum plano. Depois ele chegou perto e eu...

— Móretar.

Ela segurou o rosto dele e o beijou.

Ele respondeu antes de pensar em Dafa, em Krakor ou no prazo de Athos. O medo ainda atravessava os dois. Médera puxou Móretar para perto e o corpo dele recuperou a aparência humana onde as mãos dela tocavam.

O calor deixado por Eros circulava pelo ambiente. Misturava-se ao alívio, ao desejo e à urgência de sentir alguma coisa que lhes pertencesse.

Médera o beijou outra vez, com mais força. Móretar passou as mãos pelas costas dela. A pele reagiu ao contato, e os dois se deitaram sobre a superfície macia entre as cortinas de névoa.

Não havia tempo para delicadezas planejadas. Houve pressa, dentes, unhas e risos curtos quando os corpos se atrapalharam. Médera alternava a forma física a cada perda de concentração. Escamas apareciam sob os dedos de Móretar e sumiam quando ela o puxava de volta.

Ele percorreu o corpo dela com a boca. Médera arqueou as costas e agarrou seus cabelos. Depois o virou, explorou o que o fez estremecer e se divertiu com a surpresa dele.

Quando se uniram, encontraram um ritmo desajeitado no início e logo deixaram de se preocupar com isso. O prazer cresceu junto à exaustão. Por alguns minutos, o rei, a missão e o fim do Universo ficaram do lado de fora da névoa.

Médera repousou a cabeça sobre o peito de Móretar. Ele ainda sentia o corpo dela quando a imagem de Dafa apareceu. Logo depois, pensou em Adwig diante de Poseidon, segura de um modo que não combinava com as lembranças mais antigas compartilhadas pelo grupo.

Médera ergueu o rosto.

— Conheço esse olhar.

Móretar não respondeu.

— Você pensou em Dafa. Depois pensou em minha filha.

Ele fechou os olhos.

— Ela parecia familiar.

— Você nunca a encontrou.

— Eu sei.

Médera se afastou e começou a prender os cabelos. — Ao menos agora sabemos onde ela está e com quem decidiu seguir.

— Decidiu?

— Você viu a mesma coisa que eu. Adwig não parecia prisioneira. Isso não significa que esteja ao lado de Poseidon.

Móretar se levantou. O pensamento de Dafa voltou com mais peso quando procurou as roupas.

— Fale com Dafa quando voltarmos — disse Médera.

— Eu preciso falar com ela.

— Precisa.

Vestiram-se e seguiram pelo caminho de volta. A voz do último nível devolveu as peças sem registrar a saída. No andar de gravidade invertida, Médera encontrou a faixa correta e se lançou primeiro. Móretar a acompanhou.

Desceram os demais níveis com dificuldade. O efeito das bebidas diminuía, e cada passagem parecia mais longa. Ao deixar o Quixar, Móretar evitou olhar para Antemor. A conta de Marjone continuaria ativa por pouco tempo depois que Poseidon decidisse conferir a história.

Chegaram ao ponto combinado quando o prazo estava terminando.

Médera contou os segundos.

— Três. Dois. Um.

O portal se abriu.

Athos apareceu do outro lado e estendeu os braços para puxá-los. Móretar agarrou a mão dele.

— Adwig está em Atlas.

Athos interrompeu o movimento.

— O que aconteceu?

— Ela chegou com Mantelar e Ferne. Poseidon a levou para outra etapa de algum processo.

— Ele a mantém prisioneira?

— Não sabemos — respondeu Médera. — Ela entrou no portal por vontade própria, mas está seguindo um homem que usa as pessoas antes de descartá-las.

Athos olhou para trás. O portal oscilou. — Temos de reagrupar. Depois voltaremos por ela.

— Você vai me ajudar a encontrar minha filha — disse Médera.

— Vou.

Athos puxou os dois. A passagem se fechou antes que a água de Atlas atravessasse para o outro lado.

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