Parte 11 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 11 de 49
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Parte 11

Móretar esperou Athos se voltar para Krakor. Deu um salto, arrancou a espada das costas do alado e segurou a arma com as duas mãos.

Athos reagiu antes que ele firmasse os pés. Agarrou o cabo para retomar a espada. Móretar aproveitou o movimento e lançou o peito contra a lâmina.

Dafa gritou.

Athos puxou a arma e segurou Móretar antes que ele caísse. O sangue atravessou a camisa, correu pelos braços do alado e atingiu a terra recém-formada. Dafa caiu de joelhos ao lado deles. Pressionou as mãos contra o ferimento e tentou sustentar o que já se desfazia por dentro.

Móretar soltou o ar. Seu olhar se apagou.

O corpo permaneceu entre os dois.

Para Móretar, o jardim havia sumido. Não havia luz, chão ou vento. Também não sentia o corpo que deixara em Vésper. Restava uma consciência arrastada por uma escuridão espessa, na qual qualquer tentativa de movimento encontrava resistência.

Primeiro veio a pressão. Depois, um calor crescente, semelhante a uma queima lenta, ainda que não houvesse pele para arder. Móretar esperou que aquilo terminasse depressa. A espera continuou.

Sem luz ou sono, perdeu a medida do tempo. A sensação de compressão avançava aos poucos e o mantinha consciente. Pensou em Dafa ajoelhada diante de seu corpo. Havia usado a própria morte para provar que podia ser útil, justamente depois de ela pedir que esperasse.

Lembrou-se de Clarm. Encontrara a irmã e a deixara outra vez, envolvida por uma fé construída sobre uma mentira. Lembrou-se do pai. Krakor sabia onde procurá-lo, e Móretar nem sequer fizera a pergunta.

As viagens entre planetas haviam colocado diante dele tudo o que desejara quando se sentia preso em Key. Mesmo assim, escolhera morrer por causa de uma dúvida surgida minutos antes.

Queria voltar. Queria ouvir Dafa ofendê-lo. Queria ter tempo para descobrir o que sentia por ela sem transformar cada incerteza em uma prova.

O calor aumentou. As lembranças perderam contorno. Por fim, Móretar deixou de perceber a passagem do tempo e perdeu a consciência.

Despertou deitado sobre uma camada macia de folhas grossas. Inspirou com violência. O ar tinha um gosto mineral e úmido.

Levantou-se devagar. Árvores enormes cresciam ao redor dele, com troncos arredondados e folhas que lembravam teias espessas. Uma cachoeira alaranjada descia ao fundo. Acima das copas, uma luz pequena atravessava um teto marrom e irregular. Aquilo que parecera um céu era a cobertura de uma cavidade subterrânea.

Móretar examinou as mãos, o peito e as pernas. Era outro corpo. Nenhuma marca da espada permanecera nele.

Reuniu os elementos como Dafa lhe ensinara e lançou o sinal para o alto. A energia atravessou o teto de pedra.

Um portal se abriu quase imediatamente. Athos saiu primeiro. Dafa veio logo atrás.

Móretar correu até ela.

Dafa o atingiu no rosto.

O tapa virou um abraço antes que ele pudesse reagir. Ela o apertou com tanta força que suas unhas feriram as costas dele.

— Nunca mais faça isso comigo.

— Eu pensei que não voltaria.

— Para nós, você morreu há poucos segundos.

Móretar se afastou o bastante para olhar para ela.

— Eu passei meses naquele vazio.

Athos se aproximou.

— O que você sentiu?

Móretar descreveu a pressão, o calor e a perda gradual da consciência. Athos observou a floresta subterrânea enquanto ouvia.

— Você renasceu em Vésper — disse Móretar. — Então o teste deu certo.

— O seu caso teve um desfecho — respondeu Athos. — Ainda não sabemos onde sua partícula esteve, por que o tempo correu de forma diferente ou se outra pessoa faria o mesmo caminho. Seu corpo continua na superfície. Isto não torna a morte segura aqui.

Dafa segurou a mão de Móretar.

— Vamos sair daqui.

Um ruído veio do outro lado da cachoeira. Móretar se aproximou da borda e viu uma depressão tomada por casulos. Havia centenas deles, alguns menores do que uma pessoa, outros altos como construções.

Dafa e Athos desceram voando. Móretar saltou atrás dos dois por impulso. O ar se concentrou sob seus pés e reduziu a queda. Ele abriu os braços, corrigiu o movimento e pousou junto deles.

Athos ergueu as sobrancelhas.

— Você aprendeu a voar.

— Parece que sim.

Os casulos cobriam o terreno até desaparecerem entre as árvores. Athos tocou a superfície de um deles e recolheu os dedos cobertos por uma película transparente.

— São animais — disse Dafa. — Estão vivos.

Um casulo pequeno estremeceu perto dela. A membrana se abriu, e uma criatura do tamanho de seus braços saiu de dentro. Tinha quatro patas, asas curtas e a cabeça alongada. As escamas escuras refletiam tons vermelhos quando ela respirava.

Athos estendeu a mão.

— Já vi esta espécie. É um Brasel.

A criatura recuou dos dedos dele. Aproximou-se de Dafa, encostou o focinho em sua perna e permaneceu ali. O calor de seu corpo atravessou o tecido da roupa.

Dafa se abaixou.

— Você escolheu a pessoa errada para pedir tranquilidade.

O Brasel fechou os olhos quando ela tocou seu pescoço.

Móretar caminhou entre os casulos. Uma estrutura muito maior do que as outras chamou sua atenção. Havia um focinho comprimido contra a membrana e dentes do tamanho de suas mãos.

— Móretar, espere — pediu Dafa.

Ele tocou o casulo.

Um som grave vibrou lá dentro. A membrana aderiu à mão de Móretar. Ele tentou recuar, mas o braço inteiro foi puxado contra a superfície. Rachaduras se espalharam pelo casulo.

A criatura rompeu a cobertura. Era um tiranossauro gigantesco. Antes que desse o primeiro passo, uma explosão lançou Athos e Dafa para trás. A energia do animal atravessou Móretar.

Quando a poeira baixou, apenas o dinossauro estava de pé.

— Móretar! — chamou Dafa.

Athos lançou uma rajada de vento contra a cabeça da criatura. O golpe não a moveu. Raios percorreram as escamas e se dispersaram. O tiranossauro atingiu Athos com o focinho e o arremessou contra os casulos.

Dafa avançou. O animal se voltou para ela e correu.

O Brasel abriu as asas. O brilho vermelho sob suas escamas se intensificou. Dafa sentiu o calor aumentar junto à perna e percebeu uma pulsação irregular na criatura maior. Um brilho semelhante apareceu por trás de um dos olhos do tiranossauro.

Ela procurou aquele ponto.

— Móretar!

O tiranossauro diminuiu o passo. O olho se fixou nela.

Dafa abriu os braços.

— Eu te amo! Volte para mim!

A mandíbula parou a poucos metros de seu corpo. O animal oscilou. As patas diminuíram, a coluna se retraiu e a cabeça perdeu volume. Móretar caiu de joelhos diante dela, coberto por escamas. Membranas apareciam entre seus dedos e desapareciam logo depois.

Dafa segurou o rosto dele.

— Você está aí?

— Estou.

— Consegue controlar isso?

Móretar olhou para as próprias mãos.

— Ainda não.

Ela o puxou para junto de si.

— No vazio, eu só queria voltar para você — disse ele. — Se o que sinto tem um nome, é amor.

— Demorou bastante para descobrir.

Móretar a beijou. O Brasel se acomodou aos pés de Dafa, ainda quente, enquanto Athos se levantava entre os casulos destruídos.

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