Parte 11
Móretar esperou Athos se voltar para Krakor. Deu um salto, arrancou a espada das costas do alado e segurou a arma com as duas mãos.
Athos reagiu antes que ele firmasse os pés. Agarrou o cabo para retomar a espada. Móretar aproveitou o movimento e lançou o peito contra a lâmina.
Dafa gritou.
Athos puxou a arma e segurou Móretar antes que ele caísse. O sangue atravessou a camisa, correu pelos braços do alado e atingiu a terra recém-formada. Dafa caiu de joelhos ao lado deles. Pressionou as mãos contra o ferimento e tentou sustentar o que já se desfazia por dentro.
Móretar soltou o ar. Seu olhar se apagou.
O corpo permaneceu entre os dois.
Para Móretar, o jardim havia sumido. Não havia luz, chão ou vento. Também não sentia o corpo que deixara em Vésper. Restava uma consciência arrastada por uma escuridão espessa, na qual qualquer tentativa de movimento encontrava resistência.
Primeiro veio a pressão. Depois, um calor crescente, semelhante a uma queima lenta, ainda que não houvesse pele para arder. Móretar esperou que aquilo terminasse depressa. A espera continuou.
Sem luz ou sono, perdeu a medida do tempo. A sensação de compressão avançava aos poucos e o mantinha consciente. Pensou em Dafa ajoelhada diante de seu corpo. Havia usado a própria morte para provar que podia ser útil, justamente depois de ela pedir que esperasse.
Lembrou-se de Clarm. Encontrara a irmã e a deixara outra vez, envolvida por uma fé construída sobre uma mentira. Lembrou-se do pai. Krakor sabia onde procurá-lo, e Móretar nem sequer fizera a pergunta.
As viagens entre planetas haviam colocado diante dele tudo o que desejara quando se sentia preso em Key. Mesmo assim, escolhera morrer por causa de uma dúvida surgida minutos antes.
Queria voltar. Queria ouvir Dafa ofendê-lo. Queria ter tempo para descobrir o que sentia por ela sem transformar cada incerteza em uma prova.
O calor aumentou. As lembranças perderam contorno. Por fim, Móretar deixou de perceber a passagem do tempo e perdeu a consciência.
Despertou deitado sobre uma camada macia de folhas grossas. Inspirou com violência. O ar tinha um gosto mineral e úmido.
Levantou-se devagar. Árvores enormes cresciam ao redor dele, com troncos arredondados e folhas que lembravam teias espessas. Uma cachoeira alaranjada descia ao fundo. Acima das copas, uma luz pequena atravessava um teto marrom e irregular. Aquilo que parecera um céu era a cobertura de uma cavidade subterrânea.
Móretar examinou as mãos, o peito e as pernas. Era outro corpo. Nenhuma marca da espada permanecera nele.
Reuniu os elementos como Dafa lhe ensinara e lançou o sinal para o alto. A energia atravessou o teto de pedra.
Um portal se abriu quase imediatamente. Athos saiu primeiro. Dafa veio logo atrás.
Móretar correu até ela.
Dafa o atingiu no rosto.
O tapa virou um abraço antes que ele pudesse reagir. Ela o apertou com tanta força que suas unhas feriram as costas dele.
— Nunca mais faça isso comigo.
— Eu pensei que não voltaria.
— Para nós, você morreu há poucos segundos.
Móretar se afastou o bastante para olhar para ela.
— Eu passei meses naquele vazio.
Athos se aproximou.
— O que você sentiu?
Móretar descreveu a pressão, o calor e a perda gradual da consciência. Athos observou a floresta subterrânea enquanto ouvia.
— Você renasceu em Vésper — disse Móretar. — Então o teste deu certo.
— O seu caso teve um desfecho — respondeu Athos. — Ainda não sabemos onde sua partícula esteve, por que o tempo correu de forma diferente ou se outra pessoa faria o mesmo caminho. Seu corpo continua na superfície. Isto não torna a morte segura aqui.
Dafa segurou a mão de Móretar.
— Vamos sair daqui.
Um ruído veio do outro lado da cachoeira. Móretar se aproximou da borda e viu uma depressão tomada por casulos. Havia centenas deles, alguns menores do que uma pessoa, outros altos como construções.
Dafa e Athos desceram voando. Móretar saltou atrás dos dois por impulso. O ar se concentrou sob seus pés e reduziu a queda. Ele abriu os braços, corrigiu o movimento e pousou junto deles.
Athos ergueu as sobrancelhas.
— Você aprendeu a voar.
— Parece que sim.
Os casulos cobriam o terreno até desaparecerem entre as árvores. Athos tocou a superfície de um deles e recolheu os dedos cobertos por uma película transparente.
— São animais — disse Dafa. — Estão vivos.
Um casulo pequeno estremeceu perto dela. A membrana se abriu, e uma criatura do tamanho de seus braços saiu de dentro. Tinha quatro patas, asas curtas e a cabeça alongada. As escamas escuras refletiam tons vermelhos quando ela respirava.
Athos estendeu a mão.
— Já vi esta espécie. É um Brasel.
A criatura recuou dos dedos dele. Aproximou-se de Dafa, encostou o focinho em sua perna e permaneceu ali. O calor de seu corpo atravessou o tecido da roupa.
Dafa se abaixou.
— Você escolheu a pessoa errada para pedir tranquilidade.
O Brasel fechou os olhos quando ela tocou seu pescoço.
Móretar caminhou entre os casulos. Uma estrutura muito maior do que as outras chamou sua atenção. Havia um focinho comprimido contra a membrana e dentes do tamanho de suas mãos.
— Móretar, espere — pediu Dafa.
Ele tocou o casulo.
Um som grave vibrou lá dentro. A membrana aderiu à mão de Móretar. Ele tentou recuar, mas o braço inteiro foi puxado contra a superfície. Rachaduras se espalharam pelo casulo.
A criatura rompeu a cobertura. Era um tiranossauro gigantesco. Antes que desse o primeiro passo, uma explosão lançou Athos e Dafa para trás. A energia do animal atravessou Móretar.
Quando a poeira baixou, apenas o dinossauro estava de pé.
— Móretar! — chamou Dafa.
Athos lançou uma rajada de vento contra a cabeça da criatura. O golpe não a moveu. Raios percorreram as escamas e se dispersaram. O tiranossauro atingiu Athos com o focinho e o arremessou contra os casulos.
Dafa avançou. O animal se voltou para ela e correu.
O Brasel abriu as asas. O brilho vermelho sob suas escamas se intensificou. Dafa sentiu o calor aumentar junto à perna e percebeu uma pulsação irregular na criatura maior. Um brilho semelhante apareceu por trás de um dos olhos do tiranossauro.
Ela procurou aquele ponto.
— Móretar!
O tiranossauro diminuiu o passo. O olho se fixou nela.
Dafa abriu os braços.
— Eu te amo! Volte para mim!
A mandíbula parou a poucos metros de seu corpo. O animal oscilou. As patas diminuíram, a coluna se retraiu e a cabeça perdeu volume. Móretar caiu de joelhos diante dela, coberto por escamas. Membranas apareciam entre seus dedos e desapareciam logo depois.
Dafa segurou o rosto dele.
— Você está aí?
— Estou.
— Consegue controlar isso?
Móretar olhou para as próprias mãos.
— Ainda não.
Ela o puxou para junto de si.
— No vazio, eu só queria voltar para você — disse ele. — Se o que sinto tem um nome, é amor.
— Demorou bastante para descobrir.
Móretar a beijou. O Brasel se acomodou aos pés de Dafa, ainda quente, enquanto Athos se levantava entre os casulos destruídos.